Giselle, a espiã nua que abalou Paris

Literatura das boas…
(publicado originalmente em março de 2007)
Os colegas mais velhos provavelmente se iniciaram no saudável mundo da sacanagem lendo as aventuras de uma francesa que combatia os invasores alemães durante a segunda guerra mundial com uma arma muito quente: seu corpo. Para quem não conhece, essa Blodega orgulhosamente apresenta Giselle Montfort, a espiã.
Tudo pela libertação da França
Durante a Segunda Guerra Mundial, após a ocupação nazista na França, é organizada a Resistência Francesa. Paulo Zingg, um dos guerrilheiros, convoca sua namorada para ajudar o movimento, mas não empunhando armas, e sim oferecendo seu corpo para o inimigo, e assim, obter informações preciosas para os maquis. E assim, a jovem fez esse alto sacrifício e se entregou a oficiais da Gestapo e do exército alemão. Por sinal, praticamente todos o oficiais nazistas eram tarados ou tinham alguma perversão sexual Até Himmler e Goering deram às caras nas histórias de Giselle. Como toda boa história de espionagem, havia lances de suspense e traição, e por várias vezes Giselle escapou de ser descoberta e fuzilada por intervenção de algum alemão encantado pelos dotes da espiã francesa. E claro, um bom punhado de sacanagem.
De fato, houve inúmeros casos verdadeiros de mulheres francesas que se seviciaram com o odioso inimigo para ajudar a libertação da França. Algumas foram, injustamente, acusadas de se aliarem ao inimigo e sofreram a injusta execração pública. E as aventuras de Giselle seriam supostamente verdadeiras, e baseadas em um diário que a espiã teria escrito. Uma idéia bem romântica, e que vende bastante.
Um diário fajuto
Em fins dos anos 40, o jornal carioca Diário da Noite estava indo pras cucuias, com as vendas baixas. Como parte dos Diários Associados, o jornal recebeu um reforço oriundo da redação da revista O Cruzeiro: a dupla David Nasser e Jean Manzon. O primeiro se tornara jornalista quase que por acaso, pois pegara o bloco de anotações de um jornalista que cobria uma confusão e que acabou no hospital, levando esse bloco para a redação do jornal, onde lhe propuseram fazer a matéria no lugar do repórter. Já Jean Manzon era fotógrafo francês que acabou caindo na graças de Chateaubriand. A dupla ficou famosa após fotografar e relatar, de dentro de um avião em vôo rasante, o encontro com uma tribo selvagem na floresta amazônica.
David Nasser começou a escrever as histórias de Giselle para o Diário da Noite em 1948, e a série caiu no gosto popular, fazendo as vendas do jornal decolar. Na época, a história era apresentada como oriunda do diário de Giselle, que teria sido escrito enquanto presa em Lys, e cujo conteúdo chegara nas mãos do jornalista pelo colega de profissão italiano Carlo Tancini. O próprio Diário da Noite intitulava o folhetim de “documentário”. Mas era tudo fruto da imaginação fértil de Nasser , e os detalhes do cenário francês e as fotos de dançarinas eram fornecidas pelo fotógrafo Manzon, para enriquecer a narrativa e dar mais credibilidade à “versão oficial”. Aliás, os detratores de Nasser afirmam que a maioria das reportagens da dupla também era obra de ficção. Mas não vem ao caso.
Apesar da tiragem do jornal ir de vento em popa, Chatô não era exatamente bom em lembrar de pagar seus melhores funcionários. E como Nasser ainda não vira a cor do dinheiro por seu trabalho escrevendo as aventuras de Giselle, ele resolve obter a grana de uma forma original: acabando com a série. Ao deixar a espiã gostosa diante do pelotão em um dos capítulos da saga, ele chega ao seu patrão e comunica que na próxima edição, Giselle morreria fuzilada e a série acabaria. O homem se desesperou e pagou os atrasados, mas com a condição de que Giselle seria salva e a série continuaria, e que Nasser desse um jeito de livrar a gostosa do fuzilamento, nem que o próprio chefe da Gestapo aparecesse e a liberasse. A série durou 59 episódios, onde a coitada da Giselle deve ter dado pra um terço do efetivo alemão na França…
A Filha da Espiã
Após o final da série no Diário da Noite, as histórias de Giselle foram republicadas em livro pela primeira vez em 1952. Anos depois, a editora Monterrey adquire os direitos da personagem e relança a série em 1964. E o destaque eram as capas desenhadas pelo mestre brazuca das pin-ups, José Luiz Benicio da Fonseca, o Benício, que se tornaria famoso ao desenhar cartazes para filmes nacionais.
A Monterrey se firmaria como editora dos famosos bolsilivros, produzidos às centenas de milhares e devorados por muitos. Era a verão tupiniquim dos livros pulp. E Giselle foi uma campeã de vendas, também em forma de livro. Tanto que depois sairia uma nova série que derivada da série Giselle (o que poderíamos hoje chamar de spin-off). A filha de Giselle, Brigitte, acabaria puxando a mãe e se torna espiã a serviço da CIA nas páginas da série ZZ7 – As Aventuras de Brigitte Montford. Como as aventuras da mãe, a espiã sofisticada Brigitte oferecia histórias bem picantes. Só que a carreira da espiã a serviço do mundo livre foi mais extensa que a da mãe, já que foram publicados aproximadamente 1500 volumes de suas aventuras, que atravessaram os ano 60, 70, 80 e parte dos 90. Muito senhor respeitável de hoje deve ter oferecido muito sacrifício no templo de Onã ao ler as aventura de Giselle e de Brigitte…
Se aqui fosse um país sério, as aventuras da colega mais sensual de DeGaulle já teriam sido relançadas em edição de luxo comentada, viraria minissérie da Globo ou filme, como já aconteceu com os folhetins de Suzana Flag, pseudônimo de Nelson Rodrigues, e com outro folhetim da época, Presença de Anita. Infelizmente a editora Monterrey parece ter saído de vez do mercado editorial, pois seu site está indisponível. Mas se quiser ler a aventuras de Giselle, pode tentar encontrar seus livros nos sebos.
facebook comments:






[...] aqueles que leram a matéria sobre Giselle, a espiã nua, aproveitamos aqui para falar alguns dos fatos envolvendo espionagem e sacanagem durante a II [...]
Meu pai me deu esse nome inspirado nesse livro, gostaria muito de lê-lo, mas não o encontro nem no sebo =/ quem souber onde tem por favor me avisa.
O que eu posso te sugerir é ficar atenta com o mercado livre. De vez em quando aparece alguém vendendo livros e revistas antigos, e já vi oferecerem os livros da Gisele há algum tempo. Abraços!
Peço informar como adquirir o livro GISELE A ESPIÃ NUA QUE ABALOU PARIS.
Grato pela atenção.
Ricardo, digo o mesmo que falei para a xará Giselle, do comentário acima. Como ele não é editado mais, è tentar em sebos e de vez em quando ver no Mercado Livre, onde já vi alguns exemplares à venda, mas no momento não tem nada disponível. Abraços!
eu tenho esse livro e adorei a história é muito interessante quem quiser entra em contato sobre o livro é só me axar no ivina_1989@yahoo.com.br
Acho que o meu nome é por causa desses livros ehehehehe Meu pai adorava lê-los e eu nasci em 1960.
Beijocas
Acho que a veterana Gisele inspirou muitos pais. Acredite, você é a quarta que escuto falar isso (só aqui nos comentários é a segunda). Abraços!
[...] como os bolsilivros da editora Monterrey, cujo carro-chefe era a sensual espiã Brigitte, filha de Giselle, a espiã nua que abalou Paris. Também são citados, mesmo que superficialmente, o nome de duas autoras icônicas deste período: [...]
Meu nome também foi inspirado neste livro uahauah. Gostaria de saber se alguém sabe onde adquirir a obra além do site do mercado livre. Obrigada.
Mais uma Giselle para o panteão. Seja bem-vinda! Olha só, realmente no Mercado Livre nunca mais vi nenhum anuncio desses livros. O mais recente anúncio que vi foi na Estante Virual, um site que reúne o acervo de sebos em todo o Brasil. Como é um livro raro e esgotado, os preços estão bem salgados. . Vi tanto a edição da Editora do Povo, que contém o texto original que saiu em jornal, quanto o da Monterrey, cujo texto sofreu revisão. Deem uma olhada: http://tinyurl.com/2dmqeyb. Abraços!
Giselle era minha heroina, que comecei a ler aos 15 anos. Imaginem o “estopim” que era esses livrinhos com essas capas tao bem desenhadas, que davam asas `a imaginacao.
Sempre soube que era produto brasileiro, inclusive a continuacao com a Brigite Montfort. Hoje, na internet, existe a informacao que o autor era Lou Carrigan, pseudonimo para um escritor catalan. Tenho a impressao que aqui estamos vendo um caso de “roubo intelectual” pois me parece que esse Lou Carrigan foi o tradutor para o castellano da famosa serie da Brigite. Nao fazem mencao alguma quanto a serie da mae Brigite. Alguns dizem que o autor foi Dias Gomes, outros dizem que foi Paulo Silvino. Creio que so mesmo alguem da editora Mponterrey que poderia esclarecer, nao?
Paco, foi pertinente esse seu comentário, já que acabei, meio que por acaso, descobrindo outros detalhes acerca da Giselle e Brigitte, e aproveito para inclui-los aqui. Em relação a Monterrey, tem algumas informações que, a época que publiquei esse texto pela primeira vez, desconhecia, e só vim saber após ler o excelente livro “A Guerra dos Gibis 2″, o qual já resenhei aqui, e que apesar de se dedicar aos quadrinhos eróticos durante o regime militar, tece alguns breves comentários sobre a editora Monterrey lá pela página 113. Mas em linhas gerais, lá vai um resumo: essa editora foi fundada no Brasil por dois espanhóis em 1956, com o intuito de reproduzir um fenômeno editorial de seu país aqui no Brasil, os livros de bolso com temática faroeste e policial. Inicialmente eles publicaram as histórias escritas por um espanhol chamado José J.Mallorqui, que na verdade tinha um escritório que produzia as histórias, as quais eram escritas por escritores anônimos. Em 1963 o jornalista brasileiro José Alberto Gueiros entrou na sociedade da editora no lugar de um dos sócios, e uma de suas primeiras ideias foi comprar os direitos de publicação da série Giselle, e a partir do texto original de David Nasser deu uma “revisada” para eliminar algumas incongruências e erros de continuidade. Ao lançar o título em 4 volumes, o sócio espanhol viu uma verdadeira mina de ouro, ou nas palavras dele, “essa puta é uma vaca leiteira, está dando muito leite, não podemos parar”. Daí que Gueiros mudou o texto no último capítulo para poder introduzir a filha de Giselle, a Brigitte. E a editora encomendou a série de aventuras a um outro escritório espanhol, o de Antonio Vera Ramirez. Provavelmente muitos escritores anônimos deram vida as aventuras de Brigitte sob o nome de Lou Carrigan.
E fique à vontade para aparecer na Blodega
Obrigado pela precisa informacao, Moziel.
Valeu. Agora faz sentido. Vou repassar ao meu grupo de veteranos (Grafonsos.com.br e Ave_Pqdt_Eterno_Heroi@yahoogrupos.com.br), que muitos tambem eram assiduos leitores destas series.
PACO
à vontade, Paco. Posso também sugerir a leitura, além de “A Guerra dos Gibis 2″, outro livro que explora relativamente bem a criação de Giselle: a biografia de Assis Chateaubriant, “Chatô”, de Fernando Morais. Há dois livros que ainda não tive oportunidade de ler, mas que certamente abordam esse tema: as biografias de Benício, o ilustrador, escrita pelo mesmo Gonçalo Jr de “A Guerra dos Gibis”, e a biografia do criador de Giselle, o David Nasser, intitulada “Cobras Criadas”. E a propósito, aqui na blodega cai muito “paraquedista” do google em alguma busca bizarra, mas acho que é a primeira vez que aqui cai um paraquedista de verdade
Abraços!
Meu pai tb me deu esse nome por causa da espiã. Acho que a maioria das meninas nessa época foram chamadas de Gisele..não é possível…kkkk
Isso dá tese de mestrado. Quem sabe até matéria no Fantástico. Jornalistas, aproveitem a pauta!
Caro Moziel,
Parabens pelo blog e por este post sobre a Giselle eu não sabia desta parte que foi publicada nos jornais. So sabia da filha dela a Brigitte Montfort, acredito que este livros tenham sido escritos pelo espanhol Antonio Vera Ramírez que assinava sob o pseudonimo de Lou Carrigan (talvez por isto que muitos não achem os livros… eles são relativamente comuns na estante virtual e no mercado livre).
Eu estou também tentando resgatar esta historia destas publicações da Monterrey e certamente seu post é um dos mais informativos.
Estou montando uma coleção de capas das serie com a Briggite …quem quiser dar uma olhada veja no blog
http://blibiomania.blogspot.com/
sds
Stanislaws
Valeu, Stanislaw (eita nome inspirado da porra!). Vi seu blog e achei ótima a iniciativa. Em relação as capas dos livros da Brigitte, esta semana o Benício lançou um livro reunindo alguns de seus trabalhos, incluindo tais capas. Iria este fim de semana em SP para comprar um exemplar, mas imprevistos me impediram. Acho que seria interessante para seu trabalho uma olhada nele. Dá uma sacada: http://www.ideafixa.com/sex-crime-the-book-cover-art-of-benicio
Abraços!
Achei a página do autor: http://www.loucarrigan.com/?page_id=9
Pessoal,
estou buscando os livros da Giselle mas não consigo os encontrar. Da Brigitte é mais fácil. Alguém poderia me ajudar?
Abraços