A Encruzilhada

Em se estando no inferno, chame o capeta pra tomar uma, mas sem gelo

Morri. Ao que parece, minhas dúvidas existenciais serão dissipadas agora. E, se tudo que meu cunhado falava sobre crime e castigo celestial proceder, minha alma fritará na colônia de férias do tinhoso por muito tempo. Vejo tudo escuro a minha volta. Inicialmente eu penso:”será que aquele puto tinha razão?”. Em seguida apenas penso: “fudeu!”.

Mas saio tateando e minha visão se acostuma com o ambiente pouco iluminado. De repente, algo pega a minha mão. Uma mulher vestida de vermelho da cabeça aos pés! Seria o diabo? Bem que desconfiava que este seria o gênero do “adversário”…

- Por favor, me siga – pelo menos era gentil, mas não ousei perguntar nada.

Ela me leva por um corredor comprido, e aos poucos eu vou escutando murmúrios. Seriam as almas torturadas? Mas ao pouco distingo apenas um burburinho de conversa animada. E ouço uma música que, aos poucos, se torna mais audível. Em poucos segundos, consigo identificar.

- Isso é John Coltrane?!

- Sim. Esta noite ele está se apresentando.

Passamos por uma cortina e entro em um ambiente pouco iluminado, mas o identifico como um night club. E, para minha surpresa, vejo no palco John Coltrane solando “Lonnie´s Lament”. Na bateria, Gene Kupra. E Tom Jobim ao piano?! Stevie Ray Vaughan na guitarra?! Joe Hendelson tocando sax tenor e Miles Davis tocando seu trumpete. Que senhora Jam session! Vejo na platéia um bocado de gente conhecida: Chet Baker, Charlie Parker, Dizzie Gillespie. Ao lado do piano, com Tom Jobim, vejo Duke Ellington. Vinícius de Moraes toma uísque e conversa com Badden Powel, que dedilha o violão como se estivessem compondo uma música.

- Caralho! Que galera da porra!

Caminho espantado entre tanto monstro sagrado da música. Vejo Nara Leão trocando umas idéias com Elis Regina. Billie Holiday cantarola baixinho, acompanhando a música. Gente demais. O local parece pequeno, e ao mesmo tempo cabe muita gente. Vejo um cartaz com o nome “Hell´s kitchen Night Club”, ao lado do balcão do bar, e uma longa lista de futuras apresentações de muitos grandes artistas ainda vivos. Os irmãos Marsallis, Wayne Shorter, Pat Metheny…

Minutos depois, os músicos dão lugar a dois guitarristas. Um deles eu conheço. É o Robert Jonhson! O outro não conheço, mas quando começam a tocar, vejo que ele toca pra cacete! Ambos parecem estar duelando com aquelas guitarras Gibson. Ao final, todos aplaudem, inclusive eu. O guitarrista branco deixa sua guitarra encostada ao palco e se aproxima do bar, em minha direção. E dirige a palavra a mim.

- E aí, ta gostando?

- Se estou gostando? Duca! Você toca muito bem! E claro, o Robert Jonhson também!

- Ensinei alguns truquezinhos a ele a alguns anos atrás…

- E quem é você?

- O dono da bodega, por assim dizer. Seu Luiz. Luiz Cifér.

- Hã?

- É que também sou fã do Allan Parker, e gostei da brincadeira com o nome. Mas sou este mesmo que você está pensando.

- Mas aqui é o inferno?

- E não é? E o que tu queria? Dez níveis dantescos de torturas infinitas? Ora, vem tanta gente interessante para cá que resolvi dar umas mudadas no ambiente. Ficou bem agradável. Garanto-lhe que esta música é bem melhor do que escutar um bando de filho da puta gritando em agonia.

- Nisso eu concordo.

- Já viu nossas futuras contratações? tentei pegar o Kenny G, mas aí o Todo-Poderoso tem planos para ele tocar com os anjos. Mas em compensação, deve vir o Kenny Garret.

- Ótimo! Estou livre de Kenny G! Graças a…Ele…

- E tem música pra todo gosto. Todo tipo de Jazz, Blues, choro, música erudita, popular, sertaneja, baiana, pagode, funk carioca…

- Sertaneja!?Baiana?!

- Ah! Lembrei-me que você não era muito tolerante com outros gêneros. Pois toda semana terá shows de música sertaneja , e em breve Caetano nos dará o ar de sua graça regravando sucessos da música brega com roupagem sofisticada.

- Porra…

- Isso aqui é o inferno, lembre-se. Nem tudo é perfeito. Mas não se preocupe. Os demais dias você pode curtir esta turma toda aí. Não se queixe!

- Tá..Tudo bem. Tava bom demais…

- Relaxe. Quer um Bourbon?

- Tem bebida aqui?!

- Claro! Queria escutar estas músicas boas à seco? Vou pegar um pra você. Quer puro ou com gelo?

- Com gelo, por favor!

- Então espere que vou pegar o gelo ali do outro lado.

Enquanto aguardo o Bourbon com gelo, vejo que no palco está um grupo de Chorinho, que começa a tocar “Pedacinho do Céu”. De repente a música muda para algo completamente diferente…

“VAMOS EMBORA PRO BAR, BEBER, CAIR E LEVANTAR!”

- Que porra é essa?

Vejo-me de repente em minha cama, acordado. O puto do meu vizinho cismou de lavar o carro com o som ligado nas alturas. E,como de praxe, meteu a pior música que estivesse ao alcance da sua mão.

MORAL DA HISTÓRIA

Quando a coisa estiver boa demais, na dúvida peça o seu uísque sem gelo…

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  • Moziel T.Monk: Vejo que esse “travamento” já alcançou proporção de ser classificado como síndrome....
  • Emilia Vaz: (Eu peço fiado,mas pago viu?) Não me acho uma escritora,mas eu juro que tento…rsrs É bom saber...
  • André: Adorei,sempre escutava essa filosofia do meu pai !!!!!!Branchu.
  • suzilene: caraca o coelhinho é´loco e tarado e lindinho*-* fiado e´bom de mais. 100% play boy
  • Vampira Dea: Ótimo blog e post, parabéns. Os caras eram burros mesmo rsrrs

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