As Muitas Faces de Bond, James Bond (1)

A longevidade do agente secreto de sua majestada

O agente com nome de especialista em passarinho, criado pelo ex-espião e escritor Ian Fleming e levado ao cinema nos anos 60, provavelmente teria uns oitenta anos se houvesse uma cronologia estabelecida desde o primeiro filme. Ninguém se preocupou muito em dar o dom da imortalidade nem tampouco o especialista em bugigangas “Q” desenvolveu um ativador celular entre suas invenções. Mas quem raios imaginaria que aquela produção barata de 1962, cujo custo foi de menos de um milhão de doletas, teria um retorno tão substancial e geraria a série de cinema de maior longevidade em língua inglesa? Para justificar os eternos quarenta anos de James Bond, os roteiristas teriam que mudar seu nome para James Bond McLeod e trocar a pistola Walther por uma katana. Ou simplesmente ignorar essa história de cronologia e reinventar o personagem ao longo do tempo. Afinal, isso de que só pode haver um só funcionou em filmes de escoceses imortais. Bem, funcionou é modo de falar…

Sei que todo crítico fala isso, mas não há como fugir à constatação óbvia de que o trunfo da franquia do agente mais eficiente do MI-6 é se reinventar ao logo das décadas, se adequando camaleonicamente ao zeighest de cada período pelo qual a série tem passado, algo que funciona com diversos personagens em vários tipos de mídia. Ao menos os roteiros ajudaram por omissão, já que detalhes biográficos e datas não são mencionados, o que permite colocar qualquer história praticamente em qualquer época.  E para entendermos essa longevidade, rememoremos a trajetória do agente com permissão para matar e carcar.

O início – Sean Connery (1962 a 1971)

Sean Connery, o primeiro Bond

Os produtores Albert Brocolli e Harry Saltzman fundaram a produtora inglesa Eon e viram nos livros de Ian Fleming sobre as aventuras do agente britânico bebedor de Vodca-Martini, elegante até debaixo de balas, sarcástico e pegador geral um filão a ser explorado no cinema, repetindo o sucesso do mercado literário. Apesar do primeiro livro da série, “Cassino Royale”, já ter seus direitos adquiridos por outros produtores, Brocolli e Saltzman adquiriram os direitos de adaptação de outro livro da série. O primeiro filme, “O Satânico Dr.No” (1962), custou uma merreca, mesmo para uma época que não pagava fortunas a astros ou exigia investimentos astronômicos em blockbusters. E para tanto escolheram o (ainda) pouco conhecido Sean Connery. Para a direção do filme, foi chamado o diretor Terence Young, que já trabalhara com Brocolli em outra de suas produtoras.

No filme, James Bond é convocado para resolver uma trama na Jamaica, onde se depara com o primeiro vilão da série, o Dr.No, que representa o grupo criminoso SPECTRE e planeja sabotar o programa espacial americano.

Muitos dos elementos que apareceram nesse filme sobreviveriam nas várias encarnações da série. A começar pela abertura mostrando Bond sob a ótica

...e Ursula Andress, a primeira a cair no papo
…e Ursula Andress, a primeira a cair no papo

de um cano de arma e o sangue escorrendo pela tela seguida pela canção–tema. Logo nas primeiras cenas o chefe do MI-6, “M”, obriga o agente a trocar sua pistola Beretta 6,35mm por uma arma mais decente, uma alemã Walther PPK, um primor de acabamento e elegância em armas de fogo, que a acompanharia por mais de 30 anos. Dizem que a fábrica italiana de armas não gostou nada dessa publicidade negativa. Outros detalhes que virariam marca da série; uma trama passada em um ou vários países exóticos ou distantes, vilão megalomaníaco, sua frase de apresentação “Meu nome é Bond, James Bond”, atentados contra o agente, uma conspiração que se desvenda aos poucos, o embate final no covil do vilão após este contar todo o plano em detalhes, os gadgets tecnológicos, a secretária de “M”, senhorita Moneypenny (provavelmente a única mulher da série que Bond não passou o rodo, ao menos que se saiba), o agente da CIA Felix Leiter (que apareceria em alguns dos filmes da série) e, obviamente, as Bond Girl, os casos amorosos do espião, ora mocinhas, ora vilãs, algumas com nomes estranhos que mais pareciam nome de guerra de Chacrete (May Day, Octopussy, Pussy Galore). Até porque ninguém é de ferro, e até quem tem licença para matar também é filho de Deus. E no primeiro filme a escolhida foi Ursula Andress, e a cena na qual surge na praia de biquíni é antológica. E (quase) todo filme acaba com Bond e a Bond-Girl da vez se beijando, seja em uma suíte luxuosa ou em meio aos escombros do covil do vilão. Bem, graças a Deus o chapéu que Bond usava foi abandonado nos filmes seguintes.

Aston-Martin baratinho, único dono, acessórios incluídos

Aston-Martin baratinho, único dono, acessórios incluídos

A empreitada de menos de seis dígitos deu um senhor retorno na bilheteria, dando fama ao ator Sean Connery  e iniciando uma bem sucedida série de filmes. Como se vivia o auge da Guerra Fria, histórias de espionagem estavam em voga. E no ano seguinte já surgia a seqüência “Moscou Contra 007”, também dirigida por Young, que repetiu a fórmula e ainda acrescentaria outros elementos clássicos: a preferência do agente por carros velozes e luxuosos e o especialista em armas e equipamentos “Q”, cujo intérprete (o ator Desmond Llewelyn) repetiria o papel nas diversas seqüências nas aguardadas cenas nas quais os brinquedinhos tecnológicos são apresentados à Bond.. Também voltaria a organização criminosa SPECTRE e apareceria pela primeira vez seu líder careca e criador de gatos, Blofeld, cujo rosto não é mostrado, apenas suas mãos a acariciar seu gato.
Se um jovem que conheceu Bond nas versões mais recentes resolver assistir a estes primeiros exemplares, pode até se decepcionar, já que havia ação, mas nada comparada ao ritmo alucinante dos filmes pós – anos 80. Mas pode acreditar, essa série foi (e é) referência para filmes de aventura em geral. Realmente nas primeiras produções era dada mais ênfase à trama, que era bastante movimentada se comparada aos filmes daquela década, além da simplicidade das primeiras produções (no segundo filme Sean Connery fez aparece no cartaz empunhando uma ameaçadora… pistola de ar comprimido). Mas as tramas evoluiriam ao longo dos filmes seguintes com a marca sarcástica que Sean Connery imprimiu ao personagem, e a cada filme as cenas de ação melhoraram. Os três filmes seguintes da série figuraram entre as dez maiores bilheterias da década de 60. No primeiro desses, “007

Se derreter dá um anel...

Se derreter dá um anel...

Contra Goldfinger“ (1964), o diretor Terecnce Young é substituído por Guy Hamilton. Bond encara o criminoso Auric Goldfinger, que planeja atacar a reserva de ouro americana em Fort Knox. Trouxe mais ação a série, e foi marcante pelo capanga Odjobb, cuja arma era um chapéu-coco de abas afiadas. Também introduz outra de suas “marcas registradas”, a preferências de Bond por carros da marca Aston –Martin. Nos créditos finais é prometida a seqüência “A Serviço Secreto de Sua Majestade”.
Mas o filme seguinte teve que ser outro por conta de um entrave jurídico em relação aos direitos autorais do livro de Ian Flemming intitulado “Thunderball” e lançado em 1961. Os roteiristas Kevin McClory e Jack Whittinghan alegaram que o argumento original do livro surgira da colaboração deles para um roteiro junto com o escritor Ian Fleming em uma empreitada cinematográfica que não vingou. Consta que Flemming malandramente romantizara o roteiro, lançando o livro e omitindo o nome dos dois roteiristas. Por motivos óbvios, McClory ficou puto nas calças e iniciou um processo judicial pelos direitos sobre a história, o qual acabou recebendo em um acordo de cavalheiros, ou o mais próximo disso fora dos tribunais. McClory tentou produzir um filme baseado neste livro, mas ele acabou apelando para a produtora Eon, detentora dos direitos dos demais livros da série, que produziu “007 Contra a Chantagem Atômica” (1965) com o nome de McClory nos créditos como produtor. Terence Young volta a direção, com  Sean Connery e todo o time bem sucedido, e mais uma vez a SPECTRE apronta das suas, derrubando um bombardeio Vulcan e seqüestrando ogivas nucleares, com as quais tentam extorquir uma fortuna para não as usarem contra a Inglaterra. O filme se torna o sexto mais lucrativo dos anos 60 e a quarta maior bilheteria. E mais uma vez foi prometida a seqüência “A Serviço Secreto de Sua Majestade”.
Mas parecia ser de rosca esse filme, que mais uma vez oi adiado, dessa vez por dificuldades em encontrar as locações adequadas. Em seu lugar foi produzido “Com 007 só se Vive Duas Vezes” (1967), e Bond encara a SPECTRE na terra do sol nascente, com elenco de apoio predominantemente japonês. Foi dos filmes mais movimentados dessa fase, com destaque para a cena de combate aéreo entre três helicópteros e um bem equipado girocóptero pilotado por Bond. Também é o primeiro onde o vilão Blofeld mostra seu rosto. Novamente o sucesso se repete, e esse foi a sétima bilheteria da década.

Lazenby, um barato que saiu caro

Lazenby, um barato que saiu caro

Todavia, o contrato com o ator expirou, e Sean decidiu não renova-lo, em parte porque os produtores deram uma de Tio Patinhas e não quiseram aumentar o cachê do astro, deixando o personagem órfão de intérprete. De tão pães-duros, resolveram contratar um modelo e ex-vendedor de carros sem experiência como ator (e certamente com cachê bem baixo). No fim da década de 60, os produtores substituíram o protagonista, escalando George Lazemby para “007 a serviço de Sua Majestade” (1969), e o ator Telly Savalas como Blomfeld. Justamente esse filme, o mais longo da série (até o mais recente “Quantum of Solace”), fugiu um pouco a fórmula dos filmes anteriores e acrescentou um elemento trágico à biografia do agente. Mesmo sendo considerado por muitos fãs como o melhor 007 dessa fase, aparentemente o público não gostou da mudança e isso se refletiu nas bilheterias, cujo resultado foi um pouco inferior ao filme anterior. E como Lazemby, aconselhado pelo seu agente, decidiu não assinar um contrato para sete filmes na pele de Bond, Sean Connery foi chamado para o filme seguinte, “007 Os Diamantes São Eternos” (1971), e aproveitou pra inflacionar seu cachê.
Após supostamente encontrar e assassinar Blofeld pouco antes desse passar por uma cirurgia plástica, James Bond começa a investigar contrabando de diamantes na África que o leva a uma trama maior envolvendo a SPECTRE e uma poderosa arma de raios orbital. Os antagonistas de Bond nesse filme são dois assassinos ingleses homossexuais, a serviço de Blofeld. O filme é o fim dessa fase, e Sean penduraria a licença para matar após acabar com a SPECTRE, pra supostamente não voltar ao papel nunca mais outra vez.
Muitos imaginavam que o personagem seria um anacronismo na década de 70, e não apostavam na continuação da série (como o agente de George Lazemby). Os que apostavam na continuidade teorizavam que o jeito sofisticado e britânico deveria ser substituído. E outra marca da série iniciaria a nova fase: dar uma segunda chance a um candidato que postulara antes o papel sem êxito.
Ah, e como um filme de James Bond, esse artigo acaba com a expectativa de uma continuação.

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5 Deixaram Fiado em “As Muitas Faces de Bond, James Bond (1)”

  • Puxa cara! Como você sabe tudo isso! Isso é que é Bondmaníaco hein! O James Bond que eu mais gosto é o Roger Moore, até por que é bem do meu tempo! Esse gringão que está representando o agente atualmente é muito antipático, bah! perdeu todo o charme!

    Abraço!

  • O Blodegueiro:

    Ah, já fui mais bondmaniaco, Leo. Era pra ser um único artigo, mas fui agregando tanta informação que precisei fatiar o texto. E olha que ficou muita coisa interessante de fora. Nos próximos dias devo publicar o restante do texto nos próximos dias. Abraços e volte sempre!

  • Bruno:

    Olá Mr.Bond! Como já vi que vc está por dentro dos arquivos secretos, talvez possa me ajudar numa busca. Na década de 60, eu garoto, tive nas mãos com uma pistola de ar comprimido idêntica à do poster do 007. Vinha numa linda caixa de madeira, forrada internamente com veludo vinho. Custava muito caro e, na época, minha mãe não quiz comprá-la para mim. A arma seguia o mesmo sistema das espingardas de pressão, dobra-se a parte do cano para armar e colocar o chumbinho ou seta. Não dá coice nenhum, nada.
    Era uma Walther PPK-R, de competição, com regulagens de saída do ar, distancia a atingir, reg. de alça de mira e massa de mira, calibre 4,5 ou 5,5mm (não me lembro, mas que era daquelas setas de alumínio com penacho atrás, era.). Ocorre que já revirei a internet e não achei nenhuma menção àquela arma. Vc sabe de algum site que tenha informações sobre ela?
    Se souber, poste aqui ou mande um email prá mim.
    Um grande abraço de um ex-bondfan.

  • Rapá, isso é pergunta para o “Q”, não para o Bond…mas falando sério, o modelo exato que você tá procurando eu desconheço, mas posso tentar dar umas pistas. Aqui no Brasil, até meados dos anos 80, armas de pressão (e até de fogo) podiam ser facilmente encontradas em grandes lojas de departamentos, como a finada Mesbla. E por esta época os fabricantes nacionais de armas de pressão eram a Urko, El Gamo e Fionda, esta última mais voltada a armas pneumáticas de CO2, mais utilizadas em parques. Além dessas, as fabricantes de armas Taurus, Rossi e CBC também enveredaram nesse segmento, a maioria fabricando armas no sistema de pistão e mola, na qual o cano basculante serviam de alavanca pra armar o pistão, e que provavelmente era o sistema dessa arma que procuras. Se for importada e realmente da marca Walther, aí complica mais um pouco. Quem pode te dar uma luz nesse assunto é uma autoridade no ramo de colecionismo de armas e cutelaria, o Laércio Gazinhato, da http://www.knifeco.ppg.br. Abraços!

  • Complementando a resposta, acabei achando esta imagem de uma Walther lp53, que bate com sua descrição, e é o modelo usado por Sean Connery no cartaz do filme “From Russia With Love”: http://www.yourprops.com/norm-48a52744073ee-James+Bond:+From+Russia+With+Love+(1963).jpeg

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