Filho do carbono e do amoníaco

 

Uma homenagem a Augusto dos anjos

(publicado originalmente em Abril de 2007)


Hoje, dia 20 de abril, é aniversário de Augusto dos Anjos, que nasceu no engenho Pau d’Arco em 1884, na época município de Cruz do Espírito Santo (atualmente a área é do município de Sapé). Aproveitamos a efeméride para homenagear o poeta.


Monstro de escuridão e rutilância

Ao trabalhar em uma empresa, cujo gerente estava se instalando na Paraíba, ele soube da campanha promovida por um jornal local para eleger “O Paraibano do Século”, e ele quis utilizar alguma citação ou poema do escolhido em material publicitário, e ele perguntou a mim se conhecia sua obra e se poderia citar um poema, verso ou frase que se adequasse. Era óbvio que meu gerente não conhecia os poemas do eleito, e é claro que não encontrei nada que pudesse ser usado de forma positiva em uma campanha publicitária de uma empresa. Se estivéssemos falando de Vinícius de Morais ou de Carlos Drummond de Andrade, acharíamos algo de positivo ou enaltecedor. Mas, em se tratando da obra de Augusto dos Anjos, isso é praticamente impossível.

Born under a bad sign

Classificar Augusto dos Anjos é algo meio espinhoso, já que ele viveu, cronologicamente, naquele hiato entre as últimas escolas literárias do século XIX e o início do Modernismo no Brasil, e por isso normalmente é classificado como pré-modernista. Só que seu estilo engloba tendências diversas, como o parnasianismo e o simbolismo, não sendo possível classifica-lo inteiramente em uma única escola literária. Em seus versos, temos ao lado de palavras rebuscadas e termos científicos, palavras como escarro, vermes, putrefação, podridão e outras pouco nobres fazem um antagonismo de efeito interessante. Essa mistura é a provável a causa de sua popularidade, que perdura até hoje. E o uso amplo de termos médicos e científicos em seus poemas garantiu que um exemplar do seu livro faça parte do acervo da biblioteca da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

Ao exemplo dos poetas românticos da fase “mal do século”, Augusto tinha uma obsessão patológica com a morte. Só que os românticos tinham uma visão bem idealizada da morte, como Álvares de Azevedo, no poema “Lembrança de Morrer”, quando pede que “Descansem o meu leito solitário/ Na floresta dos homens esquecida/À sombra de uma cruz/e escrevam nela- foi poeta – sonhou – e amou na vida”. Augusto era bem mais pessimista, já que o que ele esperava da morte não era nada mais do que a deteriorização física, ou nas palavras dele, “em vez de achar a luz que os céus inflama/somente achei moléculas de lama/E a mosca alegre da putrefação”. Seu poema reflete todo o seu pessimismo e misantropia quanto à raça humana, sem maiores ilusões poéticas.

Poesia em tempos de cólera

A época na qual ele viveu favoreceu a este estado de espírito. Eram tempos meio bicudos aqueles primeiros anos do século XX, onde uma euforia pelo novo deu lugar às perspectivas sombrias de uma possível guerra mundial entre os impérios decadentes da Europa. O clima geral era de pessimismo, e Augusto refletiu isso em sua poesia. Além disso, sua vida pessoal dava muitos subsídios para seu poema de necrológio, pois parecia que estava sob “a influência má dos signos do zodíaco”. Só para citar um exemplo, sua esposa teve um filho natimorto, e para o qual Augusto dedicou um soneto. Desde a juventude era tido como uma pessoa doente e dada a rompantes nervosos. Nas mesas de botequim já cheguei a escutar o boato de que ele teria cometido incesto com uma irmã, algo que obviamente não posso confirmar.

No seu único livro editado, “Eu”, há poemas que se tornaram conhecidos e recitados Brasil afora. Seus mais famosos, são “Psicologia de um Vencido”, “Idealização da Humanidade Futura”, “Idealismo” e o mais citado de seus poemas, “Versos Íntimos”. Mas alguns de seus poemas são belos, apesar de serem inerentemente tristes, como “Uma Noite no Cairo”,A Ilha de Cipango” e “Debaixo do Tamarindo”.

Durante sua vida, estudou direito e residiu em Pernambuco, Rio de Janeiro e Minas Gerais, normalmente exercendo cargos de professor. Morreu com trinta anos, vitimado pela pneumonia, em 12 de novembro de 1914, na cidade de Leolpodina (MG), pouco depois de assumir o cargo de diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira. Seu amigo Órris Soares resolveu reeditar o seu livro, acrescentando outros poemas até então inéditos, e o livro saiu com o título “Eu e outros poemas”, título com o qual é reeditado até hoje. Seus poemas continuam tendo apelo popular, passando incólumes aos modismos e tendências destas últimas décadas e gerando inúmeros livros, artigos e teses sobre sua obra. No início da década, foi eleito “O Paraibano do Século” pelos seus conterrâneos em uma campanha promovida por uma TV do Estado, tendo inclusive o voto de um paraibano ilustre que concorria com ele ao mesmo título: Ariano Suassuna, o autor de “O Auto da compadecida”.

E, se sua carne foi entregue aos vermes, o poeta se perpetuou em suas palavras. Alguns chegaram a musicar alguns de seus poemas, como Arnaldo Antunes, que adaptou “Budismo Moderno” no disco “Ninguém”. A casa que pertenceu a sua ama-de-leite, a quem também dedicou um poema, hoje abriga o Memorial Augusto dos Anjos, nas imediações da cidade de Sapé, (PB). E, seja em um ambiente acadêmico ou em uma mesa de bar rodeada por boêmios com pretensões poéticas, a palavra de Augusto dos Anjos permanece viva e imutável. E, quem sabe, também o tamarindo de sua juventude, cuja sombra lhe deu abrigo e inspiração.

Mais de Augusto dos Anjos na Wikipédia

Poemas de Augusto no Jornal de Poesia

e no Wikia Poetry

O livro para download em PDF

 

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Um Pediu Fiado para “Filho do carbono e do amoníaco”

  • [...] Interpretar uma musica, um poema ou algo similar é chafurdar em um pântano perigoso e mortal, pois já me convenci que é impossível recuperar o verdadeiro sentido do que o autor realmente quis dizer, na maioria dos casos, já que a emoção sentida no “momento zero”, como diria meu amigo Expedito Ferraz, nem sempre consegue ser fielmente decalcada no meio no qual a emoção tenta se expressar, e no caso de letras e palavras, acaba “tropeçando no molambo da língua paralítica”, citando Augusto dos Anjos. [...]

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