As Muitas faces de Bond, James Bond (2)

Continuando a história do espião mais popular do Ocidente, agora é a vez do ator Roger Moore mostrar serviço. Secreto, obviamente

Roger Moore e as Bondgirls Maud Adams e Britt Ekland

Roger Moore e as Bondgirls Maud Adams e Britt Ekland

Segunda Fase: Roger Moore (1973 a 1985)

O primeiro “reinício” da série se deu em 1973, com o ator Roger Moore, que disputara e perdera o papel com Sean Connery e George Lazemby anos antes. Moore já era relativamente conhecido do público pelos papéis nas séries de TV britânica “The Saint” e na americana “The Persuaders”. Em sua terceira chance, Moore finalmente acaba assumindo o papel de Bond, e entre 1973 e 1985, Roger Moore vestiria o smoking de 007 em sete produções, começando por “007 Viva e Deixe Morrer”. O que Sean tinha de charme e sarcasmo, Roger compensava com cara de pau e deboche (e uma cinta espremendo sua barriguinha saliente). Em sua primeira aventura, James Bond cruza o Atlântico para enfrentar traficantes de drogas, feiticeiros vudus e ditadores sanguinários na mística Nova Orleans e Jamaica ao som de Paul McCartney e com um elenco quase que totalmente negro. E para os urubus que previam o fiasco da série, o retorno de bilheteria os fez calarem o bico e os produtores conseguiram renovar o interesse pela série. E provavelmente Lazenby despediu e mandou seu agente pra casa de chapéu.

Scaramanga, o homem da pistola de ouro e dos três mamilos

Scaramanga, o homem da pistola de ouro e dos três mamilos

A este filme foi seguido “007 Contra o Homem da Pistola de Ouro” (1974). Em plena crise do petróleo, James Bond ia a Tailândia atrás de recuperar uma fonte de energia alternativa roubada por Scaramanga (Christopher Lee), o exótico assassino de três mamilos que usa uma pistola e munição especial para matar suas vítimas, e que tem como seu ajudante Nick Nack, vivido pelo ator verticalmente prejudicado Hervé Villechaize, se tornaria famoso anos depois no papel de Tatu, na série “A Ilha da Fantasia”.

Justamente após esse filme a associação entre os produtores Saltzman e Broccolli é desfeita, e este último prossegue com a lucrativa série. Coincidência ou não, a partir da produção seguinte, “007 o Espião que me Amava” (1977), a série começa a se levar menos a sério. Manteve-se a fórmula que funcionara nos filmes anteriores (Bond-Girls, conspiração, locações em diversos países, gadgets, carros velozes, guerra fria como pano de fundo, etc), mas isso tudo já estava virando clichê, os quais já eram imitados e parodiados, e a própria série partiu para a auto-paródia. Moore tem que salvar o mundo dos planos de Stromberg, um cientista que quer exterminar a raça humana, ao mesmo tempo em que tenta se safar da vingança de sua aliada circunstancial, a agente russa Anya Amassova (Barbara Bach), cujo amante teria sido morto por Bond em uma outra missão. Mas não é nada pessoal, apenas trabalho, e depois de salvar o mundo, Bond vai dar uns amassos na Amassova. Sim, o trocadilho é ridículo, mas essa fase de Bond também é.

O estilo Bond parecia cada vez mais fake e kitsch. Basta ver o filme seguinte,“007 Contra o Foguete da Morte” (1979), com a trama levando o agente de Sua Majestade ao Brasil em pleno carnaval do Rio de Janeiro, cuja animação e festividade só perdem para um velório em Condado (PB). Destaque para a segunda aparição do quase indestrutível vilão e capanga Jaws, papel dado ao gigantesco ator Richard Kiel, que apareceu no anterior “O Espião que Me Amava”. Por outro lado também marca o início da influência sofrida pelos rumos que a indústria de cinema americana tomou ao fim dos anos 70, quando “Star Wars” estourou e deu início a era dos BluckBusters. Mesmo baseando-se em um livro de mesmo título, a trama central foi totalmente mudada para dar a história um ar de ficção científica e de “guerra nas estrelas”, com referências até à “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”.

A modelo e atriz Barbara Bach e o espião que a (m)amava

A modelo e atriz Barbara Bach e o espião que a (m)amava

Mais uma década acaba e James Bond entraria nos anos 80 com mais três filmes dessa fase. Em “007 Somente para Seus Olhos” (1981), Blofeld aparece nas cenas iniciais e, aparentemente, é morto em definitivo, e Bond se vê envolvido em uma trama contra a KGB em busca de um sistema de controle de armas nucleares. Curiosamente é o único filme em que o chefe de 007, “M”, não participa, já que o ator Bernad Lee, que interpretava o personagem desde 1962, morrera naquele ano. “007 Contra Octopussy” (1983) trouxe um novo “M” (Robert Brown), uma Bond Girl chefe de uma misteriosa organização de mulheres (Maud Adams, que já fora Bond Girl em “007 Contra o Homem da Pistola de Ouro”) e uma conspiração envolvendo tesouros da era czarista e tentativa de atentado nuclear contra a Alemanha.  A movimentada cena de abertura, com ele pilotando um minúsculo avião a jato e escapando a um míssil é coroada com ele aterrissando no primeiro posto de gasolina que encontra para completar o tanque! Mas James Bond teria que enfrentar, naquele ano, além de generais soviéticos e príncipes afegãos, a ele mesmo, já que outro filme de James Bond foi produzido e lançado naquele ano, e por produtores concorrentes.
Contrariando uma suposta promessa pessoal, Sean Connery voltaria ao papel que lhe consagrara anos antes em uma produção “independente” intitulada “Nunca Mais Outra Vez”, que é uma refilmagem de “007 Contra a Chantagem Atômica”. Esses vocês lembram que foi pivô de uma disputa judicial por direitos autorais durante a fase Sean Connery, que acabou em um acordo entre ambas as partes.

Mas McClory ainda não se satisfez, já que nos créditos ainda apareceram

O terrível vilão Jaws e sua mortífera fungada no cangote

O terrível vilão Jaws e sua mortífera fungada no cangote

como se baseado em um livro de Ian Fleming, e ele mesmo tinha a intenção de produzir um filme com sua história. Ele tentou em 1976, todavia foi juridicamente impedido por uma ação movida pela United Artists, co-produtora da série com a Eon. Anos depois McClory entrou na justiça pelo direito de adaptar novamente o livro para o cinema, conseguindo um parecer favorável nos anos 80, o que levou sua associação com a Warner e a Orion para produzirem um filme com o personagem, escalando Sean Connery. O resultado acabou sendo emblemático, meio que simbolizando um “duelo” entre os dois James Bond, um retorno ao “modus operandi” antigo em contraponto a esbórnia da série com Moore, para deleite das viúvas da fase Connery.  Reza a lenda que o título seria uma piada com a promessa de Connery jamais voltar ao papel de Bond após “…Os Diamantes São Eternos”. Mesmo envelhecido e usando peruca, ele não fez feio na tela, e mesmo vencendo a SPECTRE de novo, tendo boa crítica e papando a (então) jovem Kim Bassinger, a bilheteria perdeu feio se comparada ao concorrente.

Mas Bond não tinha apenas ele como concorrente. Paradigma dos filmes de ação, James Bond inspirou outros protagonistas de filmes arrasa-quarteirão visando apenas o entretenimento, algo que começou a pipocar nos anos 80. Se Steven Spielberg não podia dirigir um filme de Bond, então ele se contentou com Indiana Jones, mesmo. Além disso, começaram a aparecer os personagens que trariam, no decorrer dos anos 80, a marca da ação e violência dos filmes dessa década.  E Roger Moore se aposentaria em “007 Na Mira dos Assassinos”, enfrentando Grace Jones e Cristopher Walker, que queriam destruir o Vale do Silício. Mesmo rendendo boa bilheteria, houve críticas negativas, principalmente a Moore, que então tinha 57 anos de idade. No meio da década de 80, era necessário renovar mais uma vez a série com um novo ator para o papel. Conseguiria Brocolli repetir sua proeza?

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