O Justiceiro

De Coadjuvante a Protagonista
Existem diversos exemplos de personagens secundários que acabam ganhando destaque e assumem suas próprias histórias como protagonistas. E um deles é o Justiceiro. Este personagem surgiu nas páginas da revista do Homem-Aranha. Em um mundo de preto no branco, com heróis e vilões bem definidos, aparece um anti-herói, que decide fazer justiça à margem da lei. Às vezes o aracnídeo o combatia devido a distorcida visão de justiça de Frank, e em outras ambos estavam do mesmo lado contra algum vilão.
Frank Castle, o Executor
Frank Castle é um veterano da guerra do Vietnã, que retornou aos Estados Unidos e, enquanto se divertia no Central Park com sua esposa e dois filhos, acidentalmente testemunhou uma execução da Máfia. Os criminosos resolveram eliminar as testemunhas, mas Frank Castle sobreviveu, e jurou dedicar o resto de sua vida a perseguir e eliminar toda a escória criminosa, usando seu conhecimento em táticas de combate adquiridos nos Fuzileiros Navais. Passa a usar um uniforme negro com uma enorme caveira branca e se auto-intitula “The Punisher”, aquele que pune.
Mesmo na época, personagens que fazem justiça pelas próprias mãos não eram novidades. Alguns afirmam que os criadores do justiceiro teriam se inspirado em Clint Eastwood, pelo personagem do cinema Dirty Harry, um policial violento. Mas ele evoca mais ainda o personagem de literatura Mack Bolan, criado por Don Pendleton em 1969 e editado até hoje, com relativo sucesso. Ele também é um fuzileiro naval que teve a família assassinada pela Máfia enquanto servia no Vietnã, e passou a assassinar mafiosos usando suas armas e conhecimentos militares.
Frank Castle foi introduzido nas histórias do Homem-Aranha em 1974, quando este era escrito por Gerry Conway e desenhado por Ross Andru. Por mais de uma década ele apareceu como um personagem coadjuvante nas histórias do amigo da vizinhança, e também nas histórias do Demolidor, nesta época desenhado por Frank Miller. Nos quadrinhos brasileiros, ele chegou a ser chamado de Vingador, mas depois se consolidou o nome Justiceiro.
A Little Bit of Rambo
A virada aconteceu na segunda metade da década de 80. Aos que se lembram, foi um período meio “belicista”. Os “anos Reagan” pediam heróis que não oferecessem a outra face ou poupassem seus algozes, e sim heróis que faziam o criminoso pagar, com juros e multa, os seus crimes. Surgiram Rambos, Braddocks e Exterminadores clonados em todas as mídias, e nunca os bandidos apanharam tanto, morreram tanto ou levaram tanto tiro. Foi nesse clima que o roteirista Steven Grant e o desenhista Mike Zeck tiraram o personagem do ostracismo e o colocaram na minissérie solo “Círculo de Sangue” mandando chumbo quente nos criminosos. O sucesso entre os leitores deste “novo” Justiceiro transformou Frank Castle em protagonista de dois títulos mensais, crossovers entre personagens da Marvel e DC e diversas Graphic Novels e mini-séries, algumas desenhadas por renomados artistas, como Jim Lee ou John Romita Jr.
Toda esta superexposição de um personagem que, sinceramente, não oferece muitos recursos dramáticos, acaba desgastando-o, que passa pelas mãos de diversos roteiristas que tentam variações sobre o mesmo tema ou fazem algo extremamente bizarro com ele. E quando eu falo bizarro, é pra valer, já que Frank Castle foi morto e trazido de volta a vida para ser uma espécie de instrumento de ira do céu, e ganhou poderes, como o de materializar qualquer tipo de arma que imaginar.
Foi nesse ponto que o roteirista Garth Ennis e o desenhista Steve Dillon pegaram o personagem, em idos de 2000. A dupla ficou famosa por seu trabalho nas revista Hellblazer e Preacher, ambas do selo Vertigo, da DC. Sensatamente, Garth ignorou por completo esta bobagem de vingador renascido do túmulo e trouxe de volta o violento vigilante, inserindo o seu típico humor negro e politicamente incorreto nas histórias de Frank Castle. Essa linha de histórias foi publicada pelo selo Marvel Knights, e posteriormente seria deslocada para o sela Marvel Max, mas voltado ao público adulto devido ao seu teor de violência.
O Justiceiro no Cinema
No auge do sucesso dos quadrinhos, em fins da década de 80, produtores de
cinema resolveram adaptar o personagem ao cinema. Surgiu o filme The Punisher estrelado por Dolph Lundgren. Como a maioria dos filmes baseados em quadrinhos anteriores a X-Men e Homem-Aranha, este filme sofria de orçamento baixo e de ser pouco fiel ao original dos quadrinhos, que se tornou um policial e não tinha a famigerada caveira branca estampada no uniforme. Apesar destes detalhes, é um filme de ação até “assistível”, com um número de mortes adequado ao personagem.
Mas resolveram aproveitar que quadrinhos e cinemas estão dando um casamento com filhos verdinhos de montão e Frank Castle volta a protagonizar um filme em 2004. Este é dirigido por Jonathan Hensleigh e tem um orçamento melhor que o anterior. Não chega a ser um Batman Begins, mas dá pra fazer um estrago. O escolhido para fazer o papel do personagem com desejo insaciável de matar é o ator Thomas Jane. Neste filme, Frank Castle é um agente do FBI trabalhando disfarçado, e uma de suas ações acaba provocando a morte de um mafioso da família Saint, cujo chefe é Howard Saint, interpretado por John Travolta, que pede como vingança o assassinato da família de Castle. Depois disso, tome bala!
Os roteiristas do filme, mesmo não seguindo ipsi litteris as características do personagem (de ex-fuzileiro a agente do FBI) e os detalhes da chacina de sua família, tiraram muitos elementos dos quadrinhos. Nota-se alguns personagens secundários criados por Garth Ennis na fase mais recente do herói, como os vizinhos do muquifo onde Castle se esconde e o enorme e quase indestrutível bandido Russo. Mas há muitos elementos retirados de outras fases de Castle, destacando a seqüência final, bastante parecida com a mostrada na mini-série Justiceiro: Ano Um, publicada por aqui em 1996, onde ele menciona em seu monólogo a expressão latina Sic Vis Pacem, Parabellum, e ataca a casa dos Saint.
Resumindo, a história é boa, apesar do início ser um pouco sem ritmo, mas se torna um bom filme de ação. Mas o que se nota é que o roteiro se preocupa em transformar o psicopata em busca de vingança, justificando seus atos devido à selvageria com que seus parentes são chacinados. Nas revistas, a muito os assassinos de sua família foram mortos, mas ele continua matando, como um louco, não como um herói em uma cruzada justa.
O problema é que o personagem realmente parece funcionar melhor nos quadrinhos quando é retratado como um psicopata frio e obsessivo cujo objetivo é aumentar a contagem de corpos, sem que haja nenhum conflito de consciência, dúvida ou culpa. Neste ponto, a equipe que produziu a mini-série, o roteirista Steven Grant e o desenhista Mike Zeck, que deu origem a tudo sobe trabalhar, inclusive em uma Graphic Novel posterior, publicada com o título Retorno ao Grande Nada. Também Garth Ennis soube captar esta “essência” do personagem, e em algumas histórias, ele deixa transparecer que a tragédia familiar de Frank foi apenas um pretexto para ele liberar seu lado sombrio, e que intimamente ele chegara a desejar isso para justificar seus atos violentos.
E talvez tendo isso em mente que os produtores investiram novamente em Frank Castle no cinema, com o filme “Justiceiro – Zona de Guerra”, lançado em fins de 2008 nos EUA. Mais do que uma seqüência do filme de 2004, é mais um reinício da história, já que muitos dos elementos do filme anterior são ignorados, inclusive as circunstâncias da morte de sua família, que se torna mais fiel às origens dos quadrinhos. Mas isso só é mostrado em breves flashbacks ou comentários, preferindo-se não recontar a origem do personagem, e o filme já começa com Castle barbarizando em um jantar de um mafioso. E dessa vez não pouparam nas cenas violentas, com requintes do tipo gargantas cortadas, cabeças estouradas ou corpos mutilados, cortesia do diretor Lexi Alexander (“Hooligans”). Outros personagens foram aproveitados dos quadrinhos, como o ajudante Microchip e o vilão Retalho. E Ray Stevenson (o pouco delicado Tito Pullus da série “Roma”) é melhor Justiceiro do que seus antecessores, incorporando realmente a “sutileza” do personagem, de poucas palavras e muita ação, pois foram precisos quase trinta minutos e dois massacres pala ele ter alguma fala.
Infelizmente o roteiro deixa a desejar, e o tratamento dado aos personagens beira o caricatural. O Microchip do filme é pouco aproveitado, que de gênio da informática e fornecedor de armas e alta tecnologia se limitou a ser um mero auxiliar. A história é fraca e sofre do dilema da maioria dos filmes de ação atual, que se preocupam em produzir seqüências de ação e violência que são costuradas meio sem muito nexo, deixando a história em segundo plano.No final, o que poderia render mais uma boa franquia para a Marvel resulta em um filme de ação mediano, não muito superior aos concorrentes. Tanto que sua recepção nas bilheterias americanas foi péssima, e por aqui foi lançado direto em DVD este mês.

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