Uma Caipirinha na Blodega

Estão servidos?
Já dizia o escritor Ernest Hemingway a respeito da clássica bebida Dry Martini: se você se perder na África, basta parar em um canto e começar a preparar uma dose de Dry Martini. Logo aparecerá alguém para dizer que a proporção entre Gin e vermute está errada.
A pilhéria de Hemingway serve para ilustrar a polêmica envolvendo o preparo desse tradicional drinque, cuja variante com vodca é a preferida do agente James Bond. Mas temos nossa versão de drinque polêmico, bem brasileiro. A boa e velha caipirinha, bebida que dizem, foi criada no interior de São Paulo com a nobre intenção de curar resfriados.
Só que como o Dry Martini, ela tem sua porção polêmica, já que sempre terá alguém reclamando que tem açúcar demais ou de menos, a cachaça está muito forte, o limão muito amargo ou com sementes e gomos pelo copo. Ou simplesmente dando a palavra ao Visconde da Casa Verde: “Sempre mal dosada. Uma hora, tem muita pinga e ainda falta açúcar. Quando tem gelo, tem pouca pinga e acaba ficando aguada. Quando está doce, não foi bem coada e as sementes do limão ficam enroscando nos dentes e na garganta. E assim por Diante”. Por isso, se estiveres perdido no meio da Amazônia, prepare uma caipirinha que logo aparecerá o próprio Coronel Fawcett para reclamar que você está errando o preparo.
Não obstante essa problemática, a caipirinha é das bebidas mais icônicas do nosso Brasil varonil-etílico. E não faz feio em nenhum ambiente, seja num pé-sujo ou em um sofisticado bar de hotel sete estrelas.
Mas mesmo eu preciso entrar na polêmica, já que tenho minhas idiossincrasias quanto ao preparo desse molha-garganta. Por exemplo, a receita tradicional do drinque preconiza o seguinte: corta-se o limão em rodelas ou fatias, joga-os em um copo baixo e largo com duas a três colheres de açúcar, esmaga-se as rodelas com um pequeno pilão e depois se acrescenta a cachaça e gelo. Há quem prefira substituir a cachaça por vodca, algo que ocorreu em uma época na qual a cachaça não gozava de boa fama, e por muitos anos a caipiroska suprimiu a caipirinha em respeitáveis círculos de boêmios. E a receita permite uma infinidade de variações, mudando-se a bebida e/ou a fruta. E sabemos que tem muito bartender mundo afora que gosta de inventar moda e frufru demais em bebidas, e essa história de misturar saquê com lichia ao invés de cachaça com limão é, como diria Pedro Bial, coisa de veado.
Por isso a bebida tradicional mesmo é a boa e velha caipirinha, com cachaça de boa procedência, algo que normalmente não falta Brasil afora.
Meu modus operandi é um pouco diferente do tradicional. Parafraseando James Bond, prefiro-a batida, não mexida. Por isso eu a preparo na coqueteleira, para misturar bem todos os ingredientes. Os metidos a especialista não recomendam o uso da coqueteleira, mas aqui nessa Blodega não prescindo dessa fundamental ferramenta de trabalho. E se eles acharem ruim podem ir tomar no… Harry’s Bar.
Os ingredientes são os tradicionais, sem firulas: um limão taiti ou galego, açúcar, gelo e cachaça. Mas por favor, uma cachaça boa, de preferência uma branquinha de alambique, evitando as industriais. Porque ninguém merece 51, Caranguejo ou Sapupara.
Mas voltemos à vaca fria. Normalmente corto o limão, taiti ou galego, em duas metades, e antes de espremer seu sumo tomo o cuidado de remover a polpa branca para reduzir o amargor. Se o limão for grande, uma metade é suficiente para uma dose. Limão espremido, duas a três colheres de sopa de açúcar, uma pedra de gelo e uma dose chorada de cachaça na coqueteleira e agitamos bem a mistura. No copo alguns cubos de gelo, que podem ser inteiros ou levemente quebrados, sem estarem granulados demais para não derreterem rápido. Um bom macete pra quebrar os cubos de gelo é batendo com a parte de trás da colher.
No copo com gelo ponho a mistura batida, adiciono um canudo cortado e o
resto é com você. Prefiro a coqueteleira para misturar bem o açúcar, além de que ela possibilita coar um pouco o sumo do limão ao servir a bebida. Normalmente as mulheres preferem a bebida mais doce, e os homens mais forte, mas essa proporção costuma agradar a (quase) todo mundo. E se quiser numa única mexida fazer mais de uma dose é só manter a proporção de uma dose para duas a três colheres de açúcar e um limão, e se o limão for grande e fornecer bastante sumo pode servir para duas doses.
(esse post dipsomaníaco é dedicado a uma turma de garotas muito animadas lá da minha terrinha. Um abraço com muito açúcar, afeto, limão e gelo a todas)
facebook comments:





Ahhhh ja copiei a receita!!! hehehe
Mas sei q não fica igual a sua não!
Saudade das nossas conversas, caipirinhas e música nos sábados da vida!
Xero grande
AH, linda, saudades também temos de sobra! Mas vá tentando acertar a receita
Beijos!
[...] é assunto mais polêmico do que receita de Dry Martini ou Caipirinha. Já começa pela própria definição, pois se você conseguir encontrar duas pessoas que [...]
[...] falei sobre o zen e a arte de preparar caipirinhas em outro papo um dia desses, e frisei que um aspecto importante da receita seria a cachaça, e [...]
[...] Caipirosca: Variante da nossa conhecida caipirinha, substituindo a cachaça por vodca. A prática surgiu por um certo preconceito contra a nossa branquinha, algo injustificável hoje em dia devido a disponibilidade de excelentes marcas. Mas isso não desqualifica a caipirosca como alternativa bolchevique à caipirinha. Para preparar a versão russa do drinque nacional, é a receita de praxe: um limão galego ou taiti, uma dose bem chorada de vodca e duas colheres de açúcar. Normalmente se corta o limão em rodelas para serem espremidas com o pilão direto no copo, no qual se mistura a vodca, o açúcar e bastante gelo. Particularmente prefiro espremer o sumo do limão e misturar tudo em uma coqueteleira. O macete para se evitar que o limão amargue muito o drinque é não espremer muito a casca e remover os gomos brancos do limão antes de espremê-lo. A proporção de sumo de limão e açúcar pode ir do gosto de cada um, mas essa proporção normalmente satisfaz a maioria. Sobre caipirinha já falei bem em um outro post. [...]