As Muitas Faces de Bond, James Bond (4)
The Show Must Go On, e por isso o próximo Bond é um Bond chamado ação, ou melhor , Pierce Brosnan
Quarta Fase: Pierce Brosnan
Se vocês bem se lembram, Brosnan foi aquele que por pouco não se tornou James Bond no meio dos anos 80, dando sua vaga a Timothy Dalton. Melhor pra Brosnan, já que teve uma segunda chance e aproveitou-a muito bem, sendo escalado para o retorno do personagem ao cinema, e em grande estilo.
Em “Goldeneye” (1995), Bond enfrenta um vingativo ex-agente da MI-6 em um mundo após o colapso da União Soviética, que serve de pano de fundo para a trama envolvendo uma arma orbital emissora de pulso eletromagnético. “Goldeneye” (referência à casa jamaicana de Fleming, onde este se isolava para escrever as histórias de Bond) consegue o feito de ressuscitar a série, atualizando o personagem aos agitados anos 90. Ou seguindo o lema do Leopardo, mudou-se algo para manter tudo igual. Brosnan emprestou charme e sarcasmo a Bond, trocando tiros e tapas com os inimigos da humanidade sem amarrotar o smoking ou perder a fleuma, e sem nunca esquecer de pedir sua bebida batida, não mexida, enquanto perscrutava seus oponentes em algum lugar sofisticado. O que mudou, então, além do Aston Martin ser trocado por um BMW Z3? A mais visível mudança foi na personagem “M”, pela primeira vez interpretada por uma mulher, a atriz veterana Judi Dench. O embate retórico entre “M” e Bond serviu para mostrar ao antiquado agente que o mundo pós-guerra fria era outro, seus métodos eram ultrapassados e que mulheres eram mais do que Bond Girls objeto para serem passivamente mortas ou postas como reféns, já que a presença feminina se tornou um pouco mais ousada na série, com a sensualidade e agressividade mais evidente. Mas obviamente Bond contra-argumentava com sua costumeira eficiência em salvar a civilização de alguma conspiração maluca. E a ação se tornou vertiginosa e extremamente inverossímil a cada filme dessa fase, com vilões megalomaníacos e estereotipados, reivindicando o papel de Bond no cinema de aventura em grande estilo.
Com o sucesso na nova fórmula, nos anos seguintes o mercado foi servido por seqüências a cada dois anos, em média. “007 – O Amanhã Nunca Morre” (1997) tem um dos mais movimentadas prólogos da série, com Bond invadindo uma “feira” de armas e escapando em um caça armado com ogivas nucleares. O vilão da vez é o magnata das telecomunicações Elliot Carver (Terence Stamp), que quer colocar a Inglaterra e a China em guerra apenas pra vender mais jornais. A partir desse filme as Bond Girls passaram a participar mais da ação, a exemplo da agente comunista chinesa Wai Lin (Michelle Yeoh), e James Bond aproveita pra fazer um upgrade de sua Walther PPK por uma Walther P-99.
No terceiro, “007 – O Mundo Não é o Bastante” (1999), Brosnan passa bem ao lado das diliças Sophie Marceau e Denise Richards enquanto corre meio mundo caçando o vilão insensível (literalmente) Robert Carlyle. Esse também seria o último filme no qual o ator Desmond Llewelyn seria o velho “Q”, pois ele morreria em um acidente de carro. Coincidentemente, talvez prevendo uma aposentadoria, ele introduz o personagem “R” (John Cleese) como seu pupilo.
Nesta mesma época mais uma vez a produtora Eon se envolve em um perrengue judicial por conta dos direitos autorais, já que a Eon detinha os direitos sobre quase toda a produção literária de Flemming, com exceção do primeiro livro da série, “Cassino Royale”, pois este fora adquirido em 1955 por Michael Garrison, que tentou levar a história para o cinema antes da criação da Eon, mas não obteve êxito em suas tentativas junto à 20th Century Fox. No frigir dos ovos, quem adquiriu os direitos do livro foi a Columbia, em 1960. Como em 1962 a Eon iniciou a franquia adaptando os demais livros, a Columbia propõe uma produção conjunta com a Eon para produzirem um filme baseado em “Cassino Royale”, mas a dupla Brocolli e Saltzman, provavelmente já putos com a complicação envolvendo a produção de “007 Contra a Chantagem Atômica”, se negam, e em 1967 é produzida uma versão em tom de paródia, com David Niven como 007 e Woody Allen como vilão.
Em suma, os direitos sobre o personagem James Bond estariam divididos da seguinte maneira: Eon e MGM produziram a franquia e tinham o direito sobre todos os livros, com exceção de “Cassino Royale”, Kevin McClory detinha o direito sobre a história de “007 Contra a Chantagem Atômica”, e a Columbia sobre “Cassino Royale”. E, para terminar de lascar, a Sony se associa a Columbia e procura McGlory na intenção de refilmar mais uma vez “…a Chantagem Atômica”. Obviamente a Eon e a MGM não gostaram nada dessa história e entraram mais uma vez numa disputa judicial. No fim das contas, a MGM e Columbia (leia-se Sony) entraram num acordo de cavalheiros, a Columbia cedendo Cassino Royale para a MGM e a esta cedendo os direitos sobre o Homem-Aranha. Parece ter sido um ótimo negócio para ambos…
A saideira de Brosnan se dá com “007 – Um Outro Dia Para Morrer” (2002),
com Madonna em dose dupla, cantando a canção-título e em uma breve participação na história, que traz um vilão coreano que modifica seu código genético como disfarce. John Cleese substitui Desmond Llewelyn como “Q”. Volta o Aston Martin com acessórios dificilmente encontrados em série, como mísseis e uma camuflagem invisível. Uma das Bond Girl é a bela agente da CIA vivida pela oscarizada Halle Berry, que surge na praia de biquíni em uma cena que lembra a aparição de Ursula Andress em “O Satânico Dr.No”, e se equipara com Bond em eficiência. Dessa fase é, com boa margem, o que leva a ação e a história aos extremos mais incríveis e extravagantes. Mesmo os fãs acostumados com as presepadas e acrobacias da série poderiam ter ganas de se levantar do cinema gritando “qui mintira da porra!”. Mesmo mantendo uma ótima arrecadação, este foi o último filme dessa fase. E o agente secreto de sua majestade mais uma vez seria recauchutado. Só que dessa vez de uma forma totalmente sem precedentes na série do cinema. E, é óbvio, isso veremos na próxima parte dessa matéria.
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