Essas Meninas (1)

As Vozes femininas que animam a Blodega
Particularmente meu instrumento musical preferido é a voz feminina, e quando a serviço de boas e melódicas músicas, melhor ainda. E o que não falta no Brasil é voz de mulher prestando bons serviços à música. E não falo apenas das cantoras e intérpretes mais conhecidas do grande público. E ao contrário do que acham muitos, provavelmente pela invasão de músicas de qualidade duvidosa nas paradas de sucesso, há talento novo na praça. Na realidade há muita coisa boa sendo produzida, apenas não aparecem na grande mídia e raramente são beneficiados com algum esquema de marketing e divulgação pesados. Anualmente são dezenas de CD’s impregnados de progesterona e cromossomos XX que chegam ao mercado. Infelizmente grande parte destas é ignorada pelo grande público. Mas mesmo não entrando em trilha sonora de novelas ou participando de turnês milionárias, muitas acabam cativando um pequeno, mas fiel séquito de admiradores.
Em suma, há coisa boa por aí sim, é só procurar e ter boa vontade em ouvir coisas novas, sem a necessidade de ser inicialmente saturado por uma excessiva exposição em rádio e TV ou ser “doutrinado” por esse ou aquele crítico.
Mas tergiverso, tergiverso. Deixemos de embromação e vamos ao que interessa. Um de meus passatempos é justamente garimpar essas jóias e compartilhar com os amigos. É um prazer descobrir novas e belas vozes, mesmo que a novidade chegue a mim assim que o disco saiu ou com alguns anos ou décadas de atraso. E, claro, aqui no balcão da blodega compartilharei algumas de minhas “descobertas” sonoras. E como estava devendo isso, vou logo com quatro beldades, coincidentemente todas paulistas.
Mallu Magalhães
Comumente acabo chegando a ouvir uma cantora que ainda não conheço por indicação de amigos que compartilham desse gosto, eventualmente alguma resenha em revistas ou ainda pelo intermédio do maior aliado dos artistas que não possuem a benção das grandes gravadoras: a Internet, principal ferramenta de divulgação de alguns novos talentos. Exemplo de artista que surgiu na Internet é a jovem Mallu Magalhães. O caso de Mallu Magalhães é atípico, porém é um bom exemplo de fenômenos surgidos na grande rede, pois ela estourou através de propaganda boca-a-boca cibernética. Apenas com algumas músicas gravadas por iniciativa própria e por incentivo de amigos, até então únicos ouvintes de seus trabalhos autorais, a adolescente de quinze anos pôs estes trabalhos em sua página no Myspace, trabalho influenciado pela folk music e com letras de sua autoria, em sua maioria em inglês. Por ajuda de seu amigo e meio que “facilitador” Manoel Brasil Orlandi, sua voz doce e suas músicas contagiantes começaram a atrair público, e após abrir um pequeno show da banda Vanguard, começou a chamar a atenção de críticos e jornalistas, e muitos já a vaticinaram como grande fenômeno da música, destacando sua pouca idade e seu talento multi-instrumentista. Logo o oba-oba na blogosfera aumentou os acessos de sua página no Myspace e a conduziu a mídia tradicional, a casas de show a ao assédio das gravadoras.
E mais do que isso, ela é responsabilizada por perverter a lógica do mercado fonográfico ao se tornar sucesso e arregimentar um batalhão de admiradores, aparecendo em programas de TV antes de gravar seu primeiro disco e sem fazer parte do cast de uma grande gravadora, ou seja, sem todo pesado suporte de marketing tradicional típico de qualquer produto lançado no mercado com o selo de uma multinacional do ramo. Muito provavelmente das quatro cantoras das quais aqui falo a grande maioria dos leitores já ouviu falar da Mallu ou já ouviu algumas de suas músicas, nem que tenha sido em algum comercial da Vivo ou da C&A, no Programa do Faustão ou na MTV. E como todo sucesso, ela tem fãs que fazem jus ao termo e detratores que atuam com igual intensidade.
Tudo bem, mas e eu com isso? Digo, sou mais um fã ou detrator da doce Mallu? Nem tanto ao céu nem tanto a terra. Como apreciador da voz feminina, e ao mesmo tempo avesso a produtos pré-fabricados, pop de qualidade duvidosa e desconfiado de produtos de sucesso instantâneo, era minha obrigação conferir isso pessoalmente. Seu estilo não é exatamente o meu preferido, mas precisava saber se tanto hype era justificado ou seria apenas vapor barato. A menina tem talento e potencial, não há o que discutir. Meu filho mais velho gostou, minha esposa detestou, o que deve refletir que, mesmo sob influência de um estilo de música não tão comum entre os jovens, são eles quem mais se identificam com a musica e o estilo da menina, que no momento deve ter seus quase 17 anos, e eu e minha esposa não somos exatamente jovens (tá, só não somos mais adolescentes, mulher, não me belisca). Mas admito que a voz da menina me agradou, principalmente pelo fato de seu estilo priorizar instrumentos acústicos a eletrônicos. Não é meu disco de cabeceira, mas ela tem umas melodias que acabaram, inevitavelmente, grudando no meu ouvido. A tão badalada “Tchubaruba” realmente é gostosinha, mas as que eu preferi são “Angelina” e “O Preço da Flor”. Mesmo assim ainda considero os arranjos e letras bem simples, sem maiores floreios ou sofisticações. Se isso é estilo ou apenas imaturidade profissional, o tempo dirá.
A questão é se seu talento (e sanidade) sobreviverá a seu sucesso precoce, já que vimos esse filme – talento infantil que cai no ostracismo na vida adulta – antes em diversas áreas. Ao menos seu pai parece ter tomado a decisão certa ao orientá-la a não assinar contratos com grandes gravadoras que mais parecem pactos mefistofélicos ao submeter e descaracterizar qualquer talento perante as “regras” do mercado, expondo excessivamente a imagem na imprensa. Seu trabalho de estréia que saiu ano passado é uma produção independente financiado pelo dinheiro que ganhou com o uso de suas canções em comerciais. Do mesmo modo que há muito talento mirim que foi sugado até o talo pelo mercado antes da maioridade, também há exemplos de talentosos artistas que começaram cedo e conseguiram levar uma carreira de décadas. Esperemos que ela enverede por esse caminho e tenha oportunidade de amadurecer seu talento.
Página no Myspace
Bruna Caram

E se é pra falar em talento precoce, a jovem Bruna Caram começou ainda mais cedo, porém não de forma retumbante e repentina. Desde os nove anos que ela canta, pois com essa idade começou a cantar nos Trovadores Mirins, a versão infantil dos seresteiros Trovadores Urbanos, ao qual foi promovida aos quinze anos e onde cantou até os vinte, quando decidiu seguir carreira solo, em busca de personalidade própria nas interpretações das músicas. Aventurou-se na gravação de seu primeiro disco, “Essa Menina”, que foi lançado no Japão pela gravadora JVC e teve a faixa-título entre as mais executadas na principal rádio da Terra do Sol Nascente. Bom começo, principalmente se considerarmos que se trata de um disco de canções inéditas, de autoria de Otavio Toledo.
E a jovem paulistana de 21 anos certamente deve ter feito todas as lições de casa quando passou parte da infância e a adolescência se dedicando à música. O disco tem belos arranjos, ótimas e inteligentes letras, músicos competentes e a linda voz de Bruna. E mais importante, tem personalidade, identidade, sei lá, uma coisa só dela mesmo, sem termos aquele incômodo Deja Vu ao ouvirmos, com influências da música pop de qualidade e do Jazz. Foi uma descoberta um tanto tardia, pois a conheci no início desse ano quando vim morar em São Paulo, e até agora não me canso de ouvi-la. Nas rádios especializadas em músicas brasileiras já é possível ouvi-la, principalmente a faixa-título e “Cavaleiro Andaluz”, cuja letra é um romântico apanhado de referências à mitologia grega e a São Paulo. Mas o disco inteiro tem ótimas canções, como “Sensação”, “Um Blues”, “Fundo Falso” e um bom etc. Ótimo início de carreira e uma ótima trilha sonora para meus dias como paulista honorário. Esperemos, otimistas, seus próximos trabalhos. Ah, mesmo inicialmente relutante no uso de computador profissionalmente, ela tem um site e um blog. Por sinal um senhor site.
Sobre as outras duas deixo para o próximo post.
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