Essas Meninas (2)

Continuando nossa conversa sobre música boa, fiquei devendo falar de mais duas cantoras, se não me falha a memória. Vamos a elas

Mariana Aydar e Verônica Ferriani

O poetinha Vinícius de Morais vociferou  que São Paulo seria o túmulo do samba, e os cariocas adoram lembrar isso para reivindicarem suas prerrogativas sobre o ritmo. E em se falando em túmulo, o samba andou ruim das pernas entre os nos 80 e 90 e por pouco realmente precisou de túmulo, jazigo e epitáfio. E a extrema-unção seria o pagode mauricinho e mela-cueca que estourou nos anos 90. Mas ele teve a utilidade de limpar a área para o retorno do samba, como bem disse a escritora Heloisa Seixas. E tudo bem que a ressurreição se deu principalmente no Rio de Janeiro, com uma nova geração de artistas resgatando a obra e os decanos do gênero, e desde o fim dos anos 90 que dezenas, quiçá centenas de trabalhos tendo o samba como fulcro ou influência foram lançados.

E mesmo São Paulo tem sua contribuição com a nova geração do gênero. Uma dessas contribuições vem de Mariana Aydar. Ela não chega a ser novidade, e a “conheci” no início de 2007 ao ouvir seu primeiro trabalho “Kavita 1”, sobre o qual cheguei a comentar no velho site “Busílis” . Se em sua estréia ela privilegiou um repertório de regravações em sua maioria, seu segundo e mais recente disco, “Peixe Pássaros Pessoas” a paulistana se aventura mais seu lado autoral, trazendo algumas composições próprias e gravando músicas inéditas de autoria do artista plástico Nuno Ramos e do produtor Duani.

Como em seu trabalho anterior,  o samba lhe persegue e ela não nega, como afirma na canção “O Samba me Persegue” na qual divide o microfone com Zeca Pagodinho. O samba aparece também em “Manhã Azul”, “Poderoso Rei”, “Teu Amor é Falso” e “Florindo”, todas de autoria de Duani. Mas o samba aqui é mais uma referência do que uma reverência, havendo espaço para outros ritmos, como a faixa “Tá?”, que tem uma levada meio de xaxado e forró e com uma curiosa e irônica letra que omite a sílaba final “ta” nos versos com mensagem ecológica. A canção que dá título ao trabalho também não tem praticamente nada de samba, possuindo uma percussão quase marcial, como também a mais bela música do CD, na humilde opinião do blodegueiro, “Palavras Não Falam”, de autoria da própria Mariana, que costuma assinar suas composições como “Kavita”, palavra que em sânscrito significa “poeta”.

Algumas dessas músicas podem ser devidamente conferidas em seu perfil no Myspace

Outra intérprete paulista influenciada pelo samba é Verônica Ferriani, que desde 2003 se apresentando profissionalmente e enveredou como intérprete do samba tradicional desde 2004, concomitantemente a um trabalho em dupla com Chico Saraiva e com o conjunto Gafieira São Paulo. E a poucas semanas lançou seu primeiro CD.

Além de ótima intérprete, a escolha do repertório fugiu um pouco a músicas muito conhecidas ou óbvias, também não se resumindo ao samba. O disco abre com a música de temática pesada e letra amarga de Gonzaguinha, “Sorriso nos Lábios”, da sua fase “cantor-rancor”. É seguida pela Bossa Nova bilíngüe “If I Want To Be a Lover”, “Com Mais de Trinta”, dos irmãos Valle e uma clássica da Black Music brazuca “Eu Amo Você”, do meu conterrâneo Cassiano. Já nas primeiras músicas dá pra sentir um clima bem anos 70, e o arranjo ajuda bastante, principalmente o teclado, ecoando os órgãos e sintetizadores típicos daqueles tempos, mas sem parecer datado ou nostáugico. “E cadê o diacho do samba?”, o impaciente leitor deve perguntar nesse momento. Calma que a seguinte é “Perder e Ganhar”, de Paulinho da Viola, um legítimo samba carioca. Além das regravações de “Retalhos”, “Ahiê” e “Fez Bobagem”, o disco é completado pelas inéditas “Bem Feito” e “Na Volta da Ladeira”, composições de Rubens Nogueira e Paulo César Pinheiro. Como o primeiro trabalho da Mariana Aydar, esse parece ser mais um apanhado das influências musicais da cantora. E pra esse ano ela deverá gravar mais dois discos, um com a Gafieira carioca e outro com Chico Saraiva pelo Projeto Pixinguinha. Mais uma para acompanharmos de perto.

Por enquanto é isso. Sempre oportunamente teremos mais dicas e comentários sobre musicas, cantoras e afins.

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