Chet Baker: Demasiado Humano

Retrato em Branco e Preto do artista, quando jovem e quando decrépito
Hoje, 13 de maio de 2009, faz exatamente 21 anos que o trompetista Chet Baker deu o fatal mergulho da janela de seu quarto em Amsterdã, enfiando sua fuça já desdentada na calçada, saindo da sobrevida para entrar no panteão dos deuses pagãos do Jazz, consolidando um mito no melhor estilo James Dean e criando um dos ícones do gênero, se tornando mais um lendário empunhador do instrumento musical que celebrizara Miles Davis, Clifford Brown, Dizzy Gillespie em um longo etc, e morrendo de forma trágica igual a outros mártires do gênero como Billie Holliday ou John Coltrane. Só que, ao contrário desses, Chet não é uma unanimidade, e nem todos concordam em pô-lo no mesmo nível de tais monstros divinos.
Jazz é assunto mais polêmico do que receita de Dry Martini ou Caipirinha. Já começa pela própria definição, pois se você conseguir encontrar duas pessoas que concordem com o mesmo conceito do que é Jazz já é milagre de São Coltrane. E Chet Baker é justamente uma dessas questões polêmicas. A maioria dos críticos nunca o levou muito a sério, mesmo quando era um símbolo sexual naqueles anos antediluvianos da década de 50. A crítica o via mais como um golpe de publicidade da Costa Oeste, uma versão branca e publicável dos ícones negros, como Miles Davis, apenas um vertedor de baladas simples vendido como música romântica para ajudar os jovens a concretizarem seus encontros, tão pré-fabricado quando uma Britney Spears ou Backstreet Boys. Outros questionam seu talento, comparando-o a outros gênios e reduzindo sua importância real. Tais críticas teriam fundamento ou seria tudo despeito com o rapaz que saiu dos cafundós do interior e Oklahoma pra viver na Califórnia e ser uma sensação do Cool Jazz, representante mais popular da sofisticação do gênero, principalmente com sua interpretação de “My Funny Valentine”, música que praticamente tomou pra si?
Quando pré-iniciado nesse fascinante mundo do Jazz, muito ouvi falar de Chet, e comprei o peixe vendido pelos acólitos dessa quase religião. Mas confesso que entre aquelas coletâneas sem maiores critérios e gravações diversas as quais adquiria ou apenas ouvia, havia um misto de satisfação e decepção ao ouvir Chet, já que em muitos desses “greatest hits” que encontramos vida afora o critério de seleção das músicas é, no mínimo, estranho, por juntar em um balaio só distintas fases e estilos de um mesmo músico. E se ouvirmos um Chet dos anos 50 e na faixa seguinte algum registro dele nos anos 80 nos questionamos se é o mesmo intérprete em ambas. Ao menos Chet me ensinou a não perder tempo com isso e procurar o produto original, ou ao menos alguma coletânea decente, para evitar maiores decepções.
E falando em decepção, talvez a maior delas seja em “Let’s Get Lost”, a trilha-sonora de um documentário sobre o próprio, e um dos últimos registros dele em vida, que foi lançado pouco depois de sua morte. Durante um tempo penei em busca desse CD, principalmente após ouvir em uma excelente coletânea da RCA Victor, “Jazz at Midnight”, a faixa “Imagination”, extraída justamente de “Let’s Get Lost”. Também vi que ele interpretava alguns standarts, como “My One and Only Love” e “Retrato em Branco e Preto”. Quando finalmente consegui comprar o CD e ouvi-lo, fiquei com aquela estranha sensação de dinheiro rasgado. Seria isso o Chet?

Deixando de lado o papel de fã e analisando os fatos, acabamos sendo obrigados a concordar com os críticos, ao menos em parte. Talvez eles estejam certos em decretar que Chet morrera décadas antes daquele mergulho holandês, ao menos uns trinta anos de assombração em vida. Assombração essa que penava mais pela Europa do que em sua própria terra, já que era mais bem recepcionado pelo público do Velho Mundo, tentando soprar o instrumento tibiamente, mas sem lembrar seus registros de anos anteriores, muito em parte devido a ter perdido os dentes, provavelmente apanhando de algum traficante. E também não dá para negar que nas últimas décadas de vida ele era apenas um rascunho do que era. Ou pior, do que poderia ter sido ou daquilo que seus fãs achavam que era. Quando esteve no Brasil no Free Jazz Festival de 1985, aqueles que nunca tiveram chance de ouvi-lo ao vivo provavelmente se decepcionaram com sua burocrática presença. Sua imagem entre os admiradores se conservou até hoje, mas ele se acabou em corpo e alma, um Dorian Gray às avessas. Se Chet tinha 58 anos ao enfiar as fuças no chão em 1988, seu rosto aparentava o dobro. E por dentro seu organismo já devia ter entrado no cheque especial da morte há muito tempo por tanto abuso, principalmente o consumo de heroína.
O jornalista Ruy Castro, quando da morte do trompetista lá nos Países Baixos, lançou a pá de cal com um artigo desmistificando a lenda em torno do mais famoso representante do Cool Jazz e do West Coast. já imaginando o grau de beatificação ao qual ele seria colocado pelos fãs. E como em uma estranha missa do primeiro aniversário de sua morte, escreve outro artigo para completar o serviço quase um ano depois. E desfaz alguns mitos, sendo o principal desses mitos é que o seu jeito de sussurrar suave e baixinho as melodias ao cantar teria influenciado diretamente João Gilberto e a Bossa Nova. Aliás, há quem defenda exatamente o contrário, de que João Gilberto é que teria influenciado Chet. Não obstante a Bossa Nova ter sido claramente influenciada pelo Jazz e este ter uma dívida para com a Bossa Nova, principalmente o West Coast, Ruy deixa bem claro que essa de sussurrar baixinho ao microfone antecede tanto Chet quanto Gilberto, apontando Joe Mooney como um dos que já usavam esse recurso anos antes e que teria realmente influenciado o jeito de cantar dos cariocas “desafinados”, além de outros sussurrantes como Page Cavanaugh e Matt Dennis entre os cantores, e Peggy Lee ou Blossom Dearie entre as mulheres. Muito do mito também é desfeito na biografia escrita por James Gavin, “No Fundo de um Sonho – A Longa Noite de Chet Baker”, por sinal prefaciado por Ruy Castro.
Mas seria polêmica barata ou iconoclastia oportunista simplesmente sapatear em seu túmulo e reduzir a pó a obra desse músico, além de ser uma bruta sacanagem com ele e seus fãs. Apenas estamos lembrando que Chet era humano, demasiado humano, com suas limitações e defeitos. Mesmo assim, ainda não trocaria o mais decadente Chet por uma orquestra inteira de Kenny G’s ou Caios Mesquitas.
Mesmo que os críticos se recusem a pô-lo no mesmo patamar de outros gênios, seus seguidores não ligam. E seu instrumento, seja a voz ou o trompete, sempre remeterá a um clima romântico e sofisticado. Muito provavelmente Chet ajudou a abater muitas presas indefesas entre doses de Martini, e ainda ajuda. E a isso lembremos o velho Chet, e se quiser homenageá-lo decentemente apenas ouça algumas de suas velhas gravações. Garimpando sua vasta obra há belas e pungentes músicas, tanto pelo seu trompete quanto por sua voz. Por exemplo, enquanto redijo essa esculhambação de texto escuto o disco “Chet”, de 1959, o qual é excelente. Também posso citar suas parcerias com o sax tenor Zoot Sims, como no disco “Chet Baker & Strings”, que tem pérolas românticas como “You Don’t Know What Love Is” e “The Wind”. Parece mais fácil encontrar gemas preciosas em sua produção dos anos 50, mas com cuidado podemos descobrir maravilhas espalhadas pelas décadas seguintes. Pessoalmente gosto de sua leitura de “Once Upon a Summertime” (versão americana de “La Valse des Lilas”, de Michel Legrand), que é de 1977.
Sim, Chet Baker era imperfeito em vida e obra. Mas talvez isso o torne mais passível de ser admirado e seguido pelos motivos certos.
facebook comments:






A CANÇÃO DE CHET BAKER
Ouço o som de um pistão mais veludo,
mais suave, mais bonito e mais triste,
que já se viu… sua música ressoa em
minha alma, que em estado de graça,
vibra de êxtase e saudade.
Ah, Chet Baker!
Há tardes que nossas dores
ardem de infinita saudade…
quando ouço sua canção ecoando
pelos espaços infinitos do universo.
Nesse instante tão belo,
nesse silêncio eterno
é gerado mais um verso.
Regina Rousseau