Bettie Page

(originalmente publicado em maio de 2005)

A Rainha das Pin-Ups em Carne e Osso

Na pré-história do entretenimento adulto moderno, décadas antes das Playboy, Hustlers e congêneres, haviam as pin-ups, que eram fotos de mulheres atraentes. A expressão “pin-up” se refere ao ato de se pendurar tais figuras, e por extensão acabou servindo para designar qualquer imagem de mulher gostosa em poses sensuais e pouca roupa. O hábito de se arrancar páginas de revistas com imagens de divas está associada aos soldados americanos durante a II Guerra Mundial, que as colavam em seus alojamentos.

É estranho falar em pin-ups girls em pleno século XXI, já que os costumes estão bastante liberais e o material erótico e pornográfico produzido hoje em dia, profissionalmente ou amadoristicamente, deixa qualquer foto ou desenho de pin-up com cara de ingênuo ou recatado. Mas as pin-ups ainda mantêm seu encanto, já que no seu tempo a safadeza não poderia ser totalmente escancarada, o que valia era o máximo de sensualidade e insinuação que um belo corpo poderia transmitir sem que fossem mostrados pêlos pubianos.

Desse universo de gostosas seminuas, uma deusa escultural ainda hoje é cultuada e lembrada. Para os padrões anoréxicos de hoje, muitos poderiam considerá-la cheinha. Mas que se lasquem. A mulher tinha carne pra dar e vender. Ela era a tia-avó da Tiazinha, ela era a vizinha provocante, a prima mais velha ou qualquer fantasia que lhe apeteça. Estamos falando de Bettie Page, a eterna musa pin-up.

Apesar de ter vivido um momento áureo na sua carreira de modelo fotográfico, sua vida esteve longe de ser um conto de fadas. Aliás, desde cedo, a vida não deu trégua àquela garota nascida prematuramente em um cinema na cidade de Nashville no ano de 1923 e batizada de Betty Mae Page. Em seu próprio lar, sofreu o assédio e abuso do próprio pai, um homem obcecado por sexo, algo que deixou fortes marcas em sua personalidade. Conseguiu sair de casa ao se casar com seu primeiro marido, Billy Neal, deixando seu passado enterrado nos cafundós do Tennessee e foi para a Califórnia.

Enquanto seu marido foi lutar na guerra, ela alimentou o sonho de se tornar atriz e tentou a sorte em Hollywood. Mas Betty queria vencer pelo talento, e apesar de ter mantido sua integridade ao não ceder aos “testes de sofá”. Mas ao não abrir suas pernas para algum executivo de Hollywood, os estúdios lhe fecharam as portas. Diz a lenda que, após se tornar famosa, Howard Hughes, o homem com muitos milhões de dólares (e alguns parafusos a menos) a assediou, prometendo mundos e fundos.Mas ela não quis nada.

Já separada pela primeira vez de seu marido, Betty peregrinou por algumas cidades e acabou fixando residência em New York em 1947, onde trabalhava como secretária, mas retornou à terra natal e ao marido após uma tentativa de estupro. Pense numa mulher azarada da porra! Sem se aquietar no canto, larga mais uma vez o marido e volta meses depois a New York. Cansada de tanto dar com os burros n’água, Betty conheceu a fama após posar para um fotógrafo amador na praia de Coney Island, em 1950. O fotógrafo, de nome Jerry Tibbs, a convida a posar em troca de dinheiro. E ela se revela uma excelente modelo de pin-up, já que intuitivamente ela fazia caras e bocas em poses sensuais e insinuantes. Para que a recatada menina do sul se tornasse Bettie Page, a rainha das pin-ups, só faltava a sua marca registrada: seu penteado em franja, sugestão do próprio fotógrafo.

Poucos anos depois desse primeiro contato com o mundo da fotografia, ela conheceu o empresário de entretenimento adulto softcore Irving Klaw, que começou editando revistas de modelos sensuais, e depois passou a publicar apenas as fotos. Betty trabalhou para ele, e suas fotos se tornaram best-sellers. A morena sensacional posou de todas as formas e com o mínimo de roupa possível, em biquínis ou lingeries. Seu natural exibicionismo diante das câmeras seria atribuído por seu biógrafo, Richard Foster, como uma reação psicológica aos abusos sexuais sofridos na adolescência. Seja lá qual for o motivo, Betty havia nascido para aquilo.

Com a fama adquirida, ela tentou retomar seu velho sonho de se tornar atriz. Chegou a aparecer em comerciais e programas de TV, mas sua postura quanto a não ceder às cantadas dos produtores impediram-na de ascender nessa carreira. Mas quem precisa de Hollywood? Durante a primeira metade dos anos 50, sua fama de pin-up a colocou no pico de sua carreira. Após conhecer na Flórida a fotógrafa Bunny Yeagar, ambas produziram certamente as melhores fotos da modelo, no auge de sua forma. Uma dessas fotos acabou parando nas páginas da Playboy em 1955, a clássica foto com ela nua, de perfil, usando um gorro de Papai Noel, enfeitando uma árvore de Natal e piscando maliciosamente para a câmera.

Mas a vida é real, e de viés, passou uma rasteira na coitada. Naqueles anos meio paranóicos, tudo era motivo para investigação do senado. Até os quadrinhos foram acusados por transformar jovens em potenciais criminosos. Agora o senado achava que as fotos sensuais eram perigosas. Um maluco chamado Esten Kefauer, senador pelo Tennesse, resolveu perseguir a indústria pornográfica. Mesmo sem achar nenhum material que pudesse ser considerado pornográfico produzido por Irving Klaw, eles acabaram lhe atribuindo a culpa da morte de um adolescente que morrera asfixiado após praticar auto-bondage, e as fotos de BDSM que Betty tirou na época em que trabalhava com Irving Klaw teriam sido a suposta “inspiração” que levaram o jovem a se matar acidentalmente. Por isso, Betty teve que depor no Senado, uma experiência que se revelou traumatizante. Após isso, a sua carreira entrou em uma espiral descendente. Chegou a se casar com um jovem quinze anos mais moço, mas o casamento durou poucas semanas. Suas últimas fotos são de 1957, tiradas por um salva-vidas da Flórida. Depois disso tudo, com sua psique em frangalhos, acaba se convertendo ao protestantismo e renegando sua vida anterior.


Durante os anos em que esteve afastada da mídia, Betty não envelheceu tranqüilamente. Surtos esquizofrênicos a fizeram se envolver em episódios violentos e acabaram com outro casamento seu, com o viúvo Harry Lear, e a fizeram ser internada diversas vezes em instituições psiquiátricas, principalmente depois que ela atacou e matou uma senhora para a qual trabalhava, em 1982. Mesmo após sair do isolamento em 1992, Betty se mantém preservada do público, e poucas pessoas de sua intimidade sabiam seu endereço. Raramente concedia entrevistas, e quando o fazia não mostrou o rosto nesses anos recentes. Talvez como Greta Garbo, ela quisesse que o mundo guardasse a sua imagem de quando jovem. Betty viria a falecer em 11 de dezembro de 2008.

Mas o mito sobreviveu a Bettie. Mesmo sem não mais fotografar e praticamente não mais aparecer em público, o mito da rainha das curvas sobreviveu à virada do século e chega aos dias de hoje intacto. Bettie se tornou um símbolo da cultura pop, aparecendo em capas de CD (o primeiro da LDR Band, por exemplo) ou servindo de modelo para action figures. Nos anos 80 foi homenageada nos quadrinhos pelo desenhista Dave Stevens com a personagem Betty, namorada do herói Rocketeer (que seria adaptado para o cinema tendo a atriz Jennifer Connely como a personagem). O desenhista voltaria à personagem nos anos 90 em uma série intitulada “Bettie Page Comics”, pela Dark Horse. Dave Stevens é um dos poucos que manteve contato com a reclusa Betty. Também foram produzidos documentários sobre sua vida e escrito livros sobre sua biografia, sendo o mais conhecido o “The Real Bettie Page”, biografia não autorizada escrita por Richard Foster. Sua imagem é cultuada em milhões de sites Internet afora. A vida da deusa morena já foi tema de diversos documentários e filmes. Dos mais recentes, há a produção de baixo orçamento “Bettie Page: Dark Angel”, de 2004. Em 2005 foi lançado o filme The “Notorious Bettie Page”, dirigido por Mary Harron (Psicopata Americano).

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