O Filho Problema de Odair José

capa do disco o filho de josé e maria, de odair josé

capa do disco "o filho de josé e maria", de odair josé

A Ópera-Rock do Rei do Brega

Quem por acaso viu a Virada Cultural de São Paulo esse ano deve ter observado que uma das atrações foi o cantor Odair José. Ícone do estilo brega e mantendo ainda uma série de fãs, em uma determinada época de sua carreira ele decidiu fazer algo totalmente diferente.  Um belo dia, Odair José criou uma ópera rock.

(publicado originalmente em Abril de 2007)

“Eu agora sou bem diferente…”

Odair José ficou famoso com aquela pérola do cancioneiro onde ele relatava a aventura de um indivíduo que queria se amasiar com uma prostituta. “Eu Vou Tirar Você desse Lugar” vendeu mais de 800 mil cópias naqueles tempos. Ele saiu da CBS e ficou um tempão na Phillips, onde emplacou outros sucessos, como a “Uma Vida Sò” (Pare de Tomar a Pílula) ou “Deixe Essa Vergonha de Lado”, que lhe valeu a alcunha de “cantor das empregadas domésticas”. Devido a sua vivência no meretrício, Odair abordava temas considerados tabus, e na época do regime militar acabou tendo diversos problemas com a censura.

Em 1977, Odair resolve lançar um LP com estilo totalmente diverso do que costumava lançar e que o consagrara junto ao público. Seu plano era produzir um disco em ritmo de rock, estilo garage e sem maiores sofisticações ou requintes técnicos. As influências assumidas de Odair são tão diversas quanto o pianista de Jazz Herbie Hancock, o cantor Peter Frampton e o filósofo Gibran Khalil. Na concepção original de Odair, esse disco seria um álbum duplo que contaria a história de um indivíduo de seu nascimento à morte.

Só que nem tudo saiu como Odair José queria. Mesmo com o aval da sua nova gravadora, os produtores não quiseram arriscar com uma “banda de garagem” e Odair gravou esse disco com a sua tradicional banda Azimute. A gravadora também não quis lançar o álbum duplo, preferindo lançar um único LP.

Em dez faixas, Odair relata em versos a conturbada história do casal-título e do fruto dessa relação fugaz. Em momento algum Odair afirma estar falando de Jesus, e sim de um indivíduo, do “Filho de José e Maria”. Mas a associação é inevitável. E ao colocar o personagem em dilemas existências quanto ao uso de drogas e da sexualidade ele causou celeuma, como também às críticas tecidas à instituição do casamento religioso e a própria igreja. Mesmo sem Odair adotar o termo, a imprensa logo o classificou como uma ópera-rock, certamente comparando-o a obras como Tommy, do The Who, ou The Wall, do Pink Floyd. A gravadora BMG/RCA, que acabara de contratá-lo, apostou em um novo sucesso popular, e ficou a ver navios quando o disco “O Filho de José e Maria” teve críticas desfavoráveis e baixa receptividade do público, e um padre chegou a excomungar Odair José. Muitos acusaram Odair José de tentar elitizar sua obra, se afastando do povão. Resumo da ópera-rock: o disco não vendeu porra nenhuma, o povo não entendeu, a crítica esculhambou, o padre excomungou, a gravadora ficou puta da vida e Odair José só teve aborrecimento. E o pobre ainda teve que ir ao Vaticano pedir perdão ao Papa.

Não obstante o fracasso comercial e a dor de cabeça obtida, vinte anos depois ele mesmo admite que esse disco é um dos melhores trabalhos de sua carreira. Hoje o disco pode ser considerado cult, e não apenas pela curiosidade de ser uma ópera-rock gravada por um ícone brega. O disco tem seus méritos, com arranjos legais, entre o psicodélico e o progressivo, talvez um pouco datados, mas nada que impeça de ser apreciado. Mas o Odair José está presente na simplicidade das letras e no jeito de cronista dos excluídos sociais. Uma pena que o disco não foi bem recebido naquela época, em que o público era bem menos tolerante com ousadias de seus ídolos. E como ele ainda é inédito em CD, só recorrendo a sebos em busca do vinil ou baixando as versões MP3 que circulam pela Internet. No tributo a Odair José, gravado por bandas do cenário independente lançado em 2006, a banda Shakemakers regravou a primeira faixa do disco, “Nunca Mais”, e o Pato Fu participou com uma versão de “Uma Lágrima,” faixa do disco “Coisas Simples”, que seria o segundo disco do LP duplo que Odair originalmente concebera.

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4 Pediram Fiado para “O Filho Problema de Odair José”

  • Caraca, que grata surpresa “Seu” Moziel!
    Quando fui voltar com o blog d’O Mico(que ainda tá meio em fase de testes) cheguei a procurar pelo O Busílis, que há muito não entrava, e qual não foi minha surpresa ao não achar nada por aquele endereço!
    Esse post do Odair José é bem legal, fiquei com vontade de escutar esse LP agora…
    Lembro de um caso que envolvia o Caetano Veloso tecendo elogios ao Odair, chamando ele pra dividir o palco e o escambau e a platéia vaiando-o.Ninguém ia admitir que curtia Odair José, “música de empregada”.
    Acho engraçado como a empregada é sempre usada “para o mal”,rs.
    O Chico Anysio, contra o TV Pirata, lançou mão do argumento dizendo que a empregada dele não entendia o programa.Clássico.
    Acredito que hoje, a mesma empregada, não entende como ele está na geladeira da Globo.

    ps:Vou colocar o link pro seu blog lá,abraço!

    • Idem ibidem, Felipe. Também foi grata surpresa os descobrir ainda na atividade, mesmo que em outro endereço. Nesse meio tempo muito dos sites e blogs que acompanhava morreram ou nao sao mais atualizados. Aliás, até blogueiro morreu nesse tempo todo.
      Esse episódio com o Caetano foi no show Phono 73, organizado pela gravadora Poligram (na época Phono) com todo o seu cast, que incluía quase todos os grandes da época, menos Roberto Carlos (como dizia anúncio da gravadora). Foi também durante esse show (que ocorreu em vários dias) que ocorreu o famoso episódio no qual Chico Buarque e Gilberto Gil tiveram os microfones desligados. Infelizmente a maioria das imagens registradas nao sobreviveu. Atualmente pode se encontrar o show em CD e DVD, mas esse é magrinho por falta de material. Se quiser mais informações sobre a ópera-rock do Odair, dá uma chegada aqui.
      E quanto ao Chico, do jeito que ele gosta de casamento e de fazer filhos, nao duvido nada que nesse ostracismo ele tenha casado com a empregada e a engravidado.
      Valeu a visita, felipe. Abraços!

  • José Carlos Kayser:

    Pois é meu velho, tenho todos os discos do Odair. Esse aí com encarte e tudo, comprado zero na loja (sou do tempo do vinil), e só agora fico sabendo que é uma ópera-rock. Sempre achei que era só “O Filho de José e Maria”.

    • Na verdade acho que Odair José nem costuma se referir a este disco como ópera-rock, isso foi mais um rótulo que atribuiram devido a na época este eestilo estar em voga, e acabou sendo algo, digamos, folclórico, e até hoje tem muitos que se referem a este disco como a “opera-rock” de Odair José. A propósito, você tem uma senhora raridade. Guarde-a bem. Abraços!

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