American Flagg!

Um precursor dos quadrinhos adultos americanos

Desde idos dos anos oitenta que os fãs de quadrinhos sabem que houve um processo que deixou as histórias em quadrinhos do mercado americano mais maduras e com histórias realísticas e personagens moralmente dúbios. As obras citadas como divisão de águas normalmente são “Watchmen”, “Batman – O Cavaleiro das Trevas” e “Sandman”. Mas antes dessas obras, uma editora já produzia revistas com histórias que já possuíam essas características.

First Comics

Surgida em 1983, a First Comics reuniu um pool de artistas para produzir um material diferente das grandes editoras DC e Marvel, com uma visão mais madura dos personagens e heróis. Ela é considerada a precursora dos quadrinhos adultos no mercado mainstream americano, além de permitir a seus roteiristas manterem o direito sobre suas criações, algo nada comum naqueles anos e que só se tornaria praxe após a criação da Image nos anos 90. Outra diferença em relação às editoras tradicionais é que cada série era independente, não interagindo em um único universo de eventos cronológicos. No início seus títulos tiveram boa repercussão na crítica e relativo sucesso de público. Uma de suas séries, inclusive, foi transposta para um seriado de TV: Jon Sable , que era um mercenário justiceiro criado por Mike Grell. Essa série foi exibida no Brasil no fim da década de oitenta com o título de “O Vingador”. Infelizmente a editora acabou não levando muita vantagem nesse pioneirismo, pois fechou suas portas em 1991.

Porém, durante o período em que funcionou, a série mais famosa e bem-sucedida dessa editora foi “American Flagg!”, escrita e desenhada por Howard Chaykin, que nos anos 70 já fizera alguns trabalhos para a Dc e Marvel, como a adaptação da série “Guerra nas Estrelas” para a “Casa de Idéias” . Mas ele se tornou um nome conhecido após o sucesso de “American Flagg!”, uma sátira futurista à sociedade americana.

A História

O futuro descrito por Howard Chaykin começaria a ser moldado em 1996, o “ano do dominó”, pois uma série de fatos mudaria o mapa geopolítico do planeta: Londres bombardeada pela Alemanha, acidente nuclear e perda da safra agrícola nos Estados Unidos, colapso da União Soviética após insurreição islâmica, novo surto de peste negra…O mundo vira uma zona. Os EUA perdem seu papel de líder econômico e novas potências surgem, como a União Brasileira das Américas e a Liga Pan-Africana.

Diante do caos, o governo americano decide se transferir de Washington para a base americana em Marte, enquanto que técnicos russos abrigados na base Gagaringrado, na Lua, desertam e se tornam o embrião da Plex, um conglomerado de corporações que praticamente se torna a autoridade central dos Estados Unidos, governando a nação como se conduzisse uma empresa. Nos centros urbanos americanos, as ruas estão tomadas por gangues e milícias urbanas, e os baluartes de segurança são os PlexMalls, mistura de condomínio fechado com Shopping Center. Os meios de comunicação e entretenimento são censurados, aeronaves privadas são proibidas e esportes se tornam ilegais, o que abre uma demanda por transmissões piratas, como a de jogos de basquete organizados e transmitidos à margem da lei. A Plex promove educação militarista e seus anúncios, programas e propagandas oficiais glorificam e glamourizam o uso da força e de um modo de vida hedonista, criando uma cultura de culto à violência, além de banalizar o erotismo. Para manter a lei nessa nova ordem mundial, a Plex funda a milícia armada Plexus Rangers.

Reuben Flagg é um americano nascido em Marte, cujos pais teriam sido classificados como “incorrigíveis boêmios” pelos padrões da Plex. Ou seja, eram idealistas em uma civilização puramente tecnocrata, cínica e decadente. E é nessa sociedade que Reuben cresce, alimentando ilusões patrióticas sobre sua nação. Coincidentemente, Reuben nasceu praticamente junto com o TRC, o Comitê Tricentenário de Recuperação, cuja meta é tentar recuperar os estados Unidos até o ano de 2076, quando a nação completaria 300 anos.

A história começa em 2031. Após ser substituído por uma cópia holográfica no programa de Tv chamado “Mark Thrust – Sexus Ranger”, Reuben se alista nos Plexus Rangers e é transferido de Marte para Chicago, Illinois, onde conhece o chefe local do Plexus Ranger, Hilton “Hammerhead” Krieger, sua filha Amanda e Raul, um gato geneticamente modificado. Logo ele é apresentado à realidade da Terra, onde a corrupção é endêmica e a violência é banalizada com ataques semanais de Gogangs ao Plexmall e conflitos armados entre milícias que são financiadas pela Plex e as batalhas são transmitidas pela TV.

Logo Flagg descobre que o TRC e a Plex paulatinamente estaria esterilizando a população através de um contraceptivo comercial chamado Mañanacillin e que o objetivo do TRC não seria reestruturar o território americano para voltar a sediar o governo, e sim lotear e vender seu território para potências emergentes, como o Brasil, e alcançar a total auto-suficiência em sua base marciana. E ainda há uma organização secreta de extrema direita chamada CTSA – Comitê Trabalhista de Sobrevivência Americana, que procura sabotar a Plex e defende idéias racistas e anti-semitas. Reuben, mesmo em uma realidade cínica e de poucos valores, decide que fará a sua parte para salvar o que resta do Sonho Americano. E para ajudá-lo nesse objetivo, ele assume a estação pirata de Hilton Krieger após a morte deste. Reuben passa por diversos percalços, mas consegue voltar a Marte e derrubar a Plex, tornando-se Presidente dos Estados Unidos no final da primeira série.

A série

A obra de Chaykin chamou bastante atenção pela violência e sexismo presentes, algo ainda impensável em uma era pré-Watchmen nos quadrinhos mainstream. Reuben não tinha do que reclamar, já que era freqüente ele dividir a cama com alguma de suas eventuais amantes. Mas a série tinha outros méritos. Os protagonistas estavam longe de um ideal romantizado de herói, sendo pessoas falíveis e moralmente imperfeitas. O próprio Reuben é descrito por Amanda Krieger como “um cafetão em potencial, canalha, meio perverso, cruel, mas joga limpo”. Chaykin usou uma linguagem publicitária, com páginas cheias de onomatopéias e letreiros chamativos. A narrativa usava a programação da Tv como contraponto narrativo  para apresentar aos leitores os detalhes do universo de Reuben Flagg sem precisar recorrer a enfadonhos textos introdutórios. Esse recurso seria utilizado anos depois por Frank Miller em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. Mesmo não sendo lembrada ao lado de outras obras que se fizeram clássicas, “American Flagg!” tem sua importância por antecipar a mudança que ocorreria nos quadrinhos nos anos seguintes, e influenciou alguns autores contemporâneos, como o Warren Ellis e o Brian Michael Bendis. Em seu primeiro ano a série recebeu nove prêmios Eagle Awards

Mas nem tudo são flores. Os doze primeiros números da série mantém a qualidade da série, mas o criador se afasta do processo criativo e se envolve em outros projetos, como a versão moderna do herói pulp “O Sombra”. A qualidade das histórias sofre um revés, e os conceitos originalmente concebidos e determinados pelo criador acabam não sendo respeitados, e o personagem acaba deixando de ser um herói de moral ambígua e se torna só mais um herói de quadrinhos e os lances criativos cedem lugar à idéias non-senses e bizarras. Outros roteiristas assumem o título, como J.M. DeMatteis e até Alan Moore. Mas o sucesso inicial aos poucos dá lugar a baixas vendas. Chaykin reassume o título, mas a revista dura cinqüenta números e é cancelada em 1988.

Meses depois, a série é retomada sob o título “Howard Chaykin´s American Flagg!” e dura doze números. Essa nova edição retoma os eventos um ano após o final da série anterior e tentou reviver o clima das primeiras histórias. Não se sabe se a intenção seria retomar a revista como uma série mensal ou se seria realmente uma série limitada. Mas serviu para dar um ponto final ao personagem. Não, ele não morre, mas ele aparece como um dono de casa cheio de filhos e criando barriguinha de cerveja.

Atualmente está disponível no mercado americano em um único volume de capa dura ou dois volumes em encadernação normal algumas das histórias dessa série, lançada nos States pela Dynamic Forces e Image Comics. Além do material reeditado, há algumas páginas inéditas adicionais. E, para variar, não há previsão de lançamento no Brasil.

Edições brasileiras

E falando em Brasil, essa série foi publicada aqui de forma breve no fim dos anos oitenta e início da década de 90. A Editora Cedibra publicou, além de “American Flagg!”, mais três títulos da First Comics: “John Sable”, “Badger” e “Grim Jack”. “American Flagg!” durou apenas quatro números, editados entre novembro de 1987 e março de 1988. A Abril lançou em 1990 na série “Graphic Album” a Graphic Novel “Tempos Difíceis”, que reúne os três primeiros números da série. Depois, de dezembro de 1990 a maio de 1991, publicou a série até o número 6 , totalizando três arcos de história e deixando os fãs brazucas da série a ver navios. Bem que as editoras brasileiras poderiam ter sido mais boazinhas ao tratar uma série que mostrava o Brasil como futura potência mundial.

Mas para servir de consolo, nessa época surgiu bastante material do Chaykin nas bancas brasileiras. Anos antes ele era presença nas revistas do Batman, que editavam sua versão do “Sombra”, e na minissérie de luxo do “Falcão Negro”, um revival do piloto polonês criado por Will Eisner durante a II Guerra Mundial. E após “American Flagg!” ainda saiu por aqui a Graphic Novel com o Wolverine e Nick Fury, “Black Scorpion” pela editora Abril, as duas Graphic Novel “Time2” (Time Square) lançadas pela Globo e a série erótica e polêmica “Black Kiss”, curiosamente lançada pela Toviassu, editora da revista “Casseta Popular” e que seria acrônimo de “todo viado é surdo”.

facebook comments:

Peça Fiado

Receba a Blodega

Digite seu email:

Desenvolvido por FeedBurner

Bate-Boca

  • Pedro Nunes Araujo: Consultando, ou comprando a vista, informações detalhadas sobre “Gisele, a espiã nua que...
  • Moziel T.Monk: Vejo que esse “travamento” já alcançou proporção de ser classificado como síndrome....
  • Emilia Vaz: (Eu peço fiado,mas pago viu?) Não me acho uma escritora,mas eu juro que tento…rsrs É bom saber...
  • André: Adorei,sempre escutava essa filosofia do meu pai !!!!!!Branchu.
  • suzilene: caraca o coelhinho é´loco e tarado e lindinho*-* fiado e´bom de mais. 100% play boy

Olha o Passaralho!

RSS

Blogueiros do Brasil

Clientela