O Princípio de Peter

O Competente Estudo Científico da Incompetência Humana
Qual é a característica humana que esteve presente em todas as gerações civilizações e culturas, e que hoje é quase um valor universal, comum entre todos os povos e nações, independente de sua etnia, religião ou forma de governo? Uma jovem romântica poderia dizer “o amor”, um senhor cínico arriscaria “a intolerância”, mais alguém diria “o ódio”, ou “o racismo”, “a religiosidade”, a “crença em algo maior”. Bem, pode até ser que todas as respostas sejam satisfatórias. Mas algo que realmente é comum a todos os homens e mulheres que caminharam, caminham e caminharão sobre a Terra é a incompetência. Se pararmos e pensarmos, parece que todos que possuem uma função relevante cometem as mais inomináveis barbeiragens no exercício de suas respectivas funções.
E nem precisamos ir muito longe para vermos exemplos gritantes. O paradigma da incompetência normalmente é prerrogativa do poder público, já que as esferas do poder federal, estadual e municipal conseguem a proeza de gerir da pior maneira possível o erário, gastando mais do que arrecada, cobrando impostos abusivos e desperdiçando recursos. Mais especialmente em nosso país, cuja tributação é tida como excessiva e a saúde, a segurança e a educação públicas estão entre o sofrível e o desastroso. Se um indivíduo precisa dos serviços de algum funcionário público, irá se deparar com barnabés com má vontade e mais preocupados em preencher formulários e anexar documentos do que em resolver seu problema. E a própria infra-estrutura que depende de construção e manutenção do poder público nem sempre são os pináculos da boa engenharia. O primeiro exemplo que tenho é o de um viaduto em minha cidade que foi construído sobre uma pista asfaltada já existente. Sempre que chove, a água absorvida pela base não tem para onde escorrer, já que embaixo só tem asfalto, e a água sempre precisa ser drenada. Custou milhões ao tesouro público, e não se pensou nesse inconveniente. O viaduto ganhou até o carinhoso apelido de “Sonrisal” por parte da população local. Aliás, a chuva é sempre um inconveniente, e por mais que se saiba que ela é um fenômeno natural e freqüente, muitos projetistas parecem ignorá-la, já que cidades ainda inundam e o asfalto se dissolve, abrindo buracos que são sempre remendados. E nem preciso mencionar os exemplos recentes, como o caos no sistema aeroviário até a escassez de gás natural para as indústrias e veículos cujos proprietários foram convencidos pelo governo a adotar esse combustível.
Mas como incompetência não é prerrogativa do governo brasileiro, a iniciativa privada também mostra sinais de que há algo errado em quem está no comando, ou não teríamos empresas de grande porte falindo ou caras e modernas aeronaves caindo como moscas. Isso sem falar de nossos eletrodomésticos, automóveis e programas de software, que costumam dar defeito ou já virem cheios de bugs direto de fábrica, o que faz a alegria de oficinas, assistências e técnicos em geral.
E se você trabalha em uma grande organização, é quase certo que diariamente você se depara com decisões ou atitudes que são verdadeiros atentados ao bom senso, o que faz você imaginar que a gestão da sua empresa é feita de dentro de uma jaula de macacos. São supervisores, gerentes, donos de empresa ou funcionários que preferem se ater às regras e cujas decisões são visivelmente idiotas até para uma capivara, mas que são seguidas à risca. E não só em seu trabalho, mas ao seu redor, você vê inúmeros exemplos de crassa incompetência. Poderiam ser até engraçadas, se não fizessem você trabalhar ou se aborrecer desnecessariamente.
E isso não é coisa dos tempos modernos como poderiam pensar algum nostálgico. Uma boa passada em bons livros de história, de preferência escritos por competentes historiadores, pode nos fornecer alguns pequenos “causos” de merda retumbante provocada por nossos antepassados. Posto isso, parece até milagre que durante a Guerra Fria nossa incompetência não tenha começado um conflito nuclear por engano. A incompetência parece acompanhar a raça humana desde sua aurora. E o que é pior, a incompetência tem uma capacidade de sobrevivência incrível, e nem a Teoria da Evolução conseguiu dar cabo dela no gênero humano.
Aliás, até deixei de acreditar em teorias conspiratórias porque acho mais provável que os fatos relevantes da história sejam frutos da incompetência do que da orquestração de um grupo organizado. Ou você acha mais fácil acreditar que o 11 de setembro foi um grande plano levado à cabo pelo governo americano para justificar a política belicosa de George W.Bush ou simplesmente os órgãos da – vai lá – inteligência erraram feio em suas avaliações ao não fazer o dever de casa corretamente?
Bem, se fosse para citar exemplos de incompetência, teria que abranger todo campo de atividade humana e daria pra escrever um senhor livro. Mas creio que fui competente em me fazer entender que quem está à frente de fazer funcionar as coisas do mundo tem o péssimo hábito de fazer tudo nas coxas.
Mesmo tão gritante, a incompetência humana parece ser um assunto tão evitado e tabu quanto a pedofilia nas igrejas católicas ou a corrupção nas hordas petistas. No campo da gestão administrativa, os pioneiros do estudo científico da administração subestimaram o caráter relevante desta faceta do homem, sua capacidade inerente de fazer bosta em larga escala. Max Weber estudou as disfunções da burocracia, colocando a culpa sobre a ineficiência das organizações devida a sua excessiva complexidade. Mas parece que ninguém queria encarar a verdade universal sobre a incompetência humana. Ou não tinham competência para falar de incompetência.
Ou quase ninguém. Mas dificilmente nossos professores de administração mencionam os estudos de Laurence Peter. Talvez por medo de difundirem a idéia iconoclástica de que todo mundo é incompetente, inclusive eles. Ou porque eles são tão incompetentes como professores que jamais ouviram falar em Laurence Peter, apesar de seu estudo ser citado em bons livros de Teoria Geral de Administração. Ao menos nenhum professor de minha faculdade mencionou este estudo.
Bem, o professor Laurence J.Peter dedicou alguns anos de sua vida acadêmica a estudar a incompetência humana que infectava as organizações, e seu colega Raymondo Hull o ajudou a organizar os dados e a publicá-los, no fim dos anos 60. Certamente eles não são tão lembrados como grandes teóricos ou efêmeros gurus da administração. Talvez porque eles, ao contrário dos papas da auto-ajuda corporativa, não evocam a litania bonitinha sobre os valores positivos das pessoas, e sim estudam algo que normalmente as pessoas querem socar para baixo do carpete, por razões óbvias.
Mas chega de enrolar e vamos ao enunciado principal que é o fulcro de toda a obra de Peter, a partir da qual ele tece suas observações e teorias. Eis o princípio de Peter!
“Numa Hierarquia, Todo Empregado Tende a Subir Até Seu Nível de Incompetência”
E o que quer dizer esta frase tão simples? Bem, se alguém tem que explicar sua obra ao seu público, é porque um dos dois é incompetente. Mas vamos lá. O que o louvável Professor Peter quer dizer é que, durante a ascensão profissional dentro de uma organização, o indivíduo será um bom funcionário e será sistematicamente promovido até uma função a qual ele não terá competência em cumpri-la a contento. E como será um incompetente, não será mais promovido, ficando para o resto de sua vida profissional estagnado nesta função a qual ele não tem competência para cumprir, fazendo besteira a três por quatro até se aposentar. Ou seja, ele atingiu o seu nível de incompetência. Este nível de incompetência pode estar nos primeiros degraus de seu plano de cargos e salários ou pode estar no topo da pirâmide hierárquica, a depender das características de cada um. Você já deve ter escutado a máxima “Perdemos um bom técnico e ganhamos um gerente de merda!” ou variações dessa. É o clássico exemplo de um funcionário exemplar que foi promovido e alcançou o seu nível de incompetência em uma posição hierárquica acima.
Em sua teoria Peter disserta sobre as diversas variações de como se pode alcançar o nível de incompetência e das diversas conseqüências que podem decorrer disso, praticamente criando toda uma ciência em torno da hierarquia, a hierarquiologia. Mas e aí, a incompetência teria solução? Meio complicado. Dificilmente alguém pode recusar uma promoção, mesmo que esteja ciente de que não será competente na nova função. O máximo que se pode fazer é procurar amenizar sua condição de incompetência, ou caso ainda não tenha alcançado o seu nível, dissimular um pouco de incompetência para evitar a fatídica promoção, naquilo que o autor chama de “incompetência criativa”. E em uma organização, os incompetentes devem ser mantidos a uma distância segura dos competentes, para que não atrapalhem quem realmente trabalha. E claro, o número de incompetentes em uma organização não podem exceder determinado número sob o risco da empresa ir pras cucuias.
As idéias de Peter foram publicadas em livro no final dos anos sessenta, em um tempo em que os livros de gestão não eram livros de auto-ajuda disfarçados. Inclusive a minha edição é bem antiga, com o provocativo título “Todo Mundo é Incompetente – Inclusive Você”, da José Olimpyo Editora, da qual tive que espantar poeira, ácaros e traças para consultar ao escrever esse texto. Além de ter um texto leve e engraçado – a introdução com exemplos crassos de incompetência é de causar incontinência urinária -, as ilustrações que o acompanham são de autoria de Ziraldo, por sinal um competente desenhista e cartunista, mas infelizmente meio incompetente em gerir revistas e jornais próprios.
Mas qual minha surpresa ao saber que o original de Peter é ainda publicado. Além de novas edições dessa versão, há outras com o nome “O Princípio de Peter”, da editora Campus, e “Por Que as Coisas Nunca Dão Certo”, da Record. Sugiro que leia sem medo. Depois, sua vida não será mais a mesma. Encare a inevitável verdade sobre a minha, a sua, a nossa incompetência. Perca a reverência em relação aos que nos lideram, sejam eles os mandatários dos três poderes ou o nosso gerente imediato. E parafraseando Rui Barbosa, de tanto ver triunfar as nulidades, acho que temos chance de pegar uma boquinha dessas, já que competência não é pré-requisito, mesmo. E quem sabe você não acaba se salvando de se tornar mais um dos milhões de incompetentes que se espalham como praga nas organizações mundo afora?
