Trate Bem a Sua Musa
Um pequeno manual de relacionamento entre você e aquela que lhe inspira
- Não persiga a inspiração obsessivamente. A musa é como toda mulher. Não adianta forçar a barra quando ela não liberar o que você mais quer dela. No caso, inspiração. Se ela não vier, paciência. Apenas relaxe, e quando menos você esperar, ela estará massageando seu ombro e pescoço, e logo você terá o que quer. Diz a lenda que Hemingway levou dez anos pra terminar “O Velho e o Mar”, um livro fininho. Por isso não se desespere. Se tem que cumprir prazo de fechamento de edição, azar o teu. Para se precaver, tenha sempre em mãos algum texto pra encher lingüiça, que nem feda nem cheire, ou quando a inspiração vier aos borbotões, já deixe algo “na agulha”, pra essas eventualidades.
- Mas também não fique paradão esperando uma iniciativa por parte dela. Você é homem, pô! Você precisa tomar a iniciativa. Após aquele insight estupendo, não espere que tudo venha de uma vez antes de realmente começar a produzir.Depois do lampejo de idéia, meta a mão na massa, e aí a musa se abrirá para você, com idéias fluindo como água.
- Você tem que tratar bem a musa, não exigir muito dela, não desprezá-la. Saia com a sua musa, a leve para jantar, tomar um chope com uns amigos, conversar lorota, passear pela cidade, ler um livro, pegar um cineminha. Nessas horas é que ela, sem que se peça ou se espere, sussurrará aos seus ouvidos coisas até então impensáveis.
- E não se ache muito, saiba dar crédito a sua inspiração, senão a musa se sentirá ofendida e pode lhe passar a perna. Se ela achar que você está muito presunçoso ou acomodado, ela pode, só de sacanagem, alegar uma dor de cabeça quando você mais precisar dela. Ou pior, só por capricho, ela fará você escrever algo tão ridículo e sem noção e você ficará crente que está abafando. Sabe como são as mulheres…
- Dizem que a musa é chegada a se vestir de couro negro e apreciar seu sofrimento para que surjam boas idéias. Não é bem assim. A musa gosta de viver, e viver implica em de vez em quando ter o esqueleto sacudido pelas adversidades. Mas nem por isso vá atrás de sofrimento deliberadamente, senão tudo que você pode escrever são versões modernas dos contos do Marquês de Sade.
- Não despreze sua musa, comparando-a com aquelas gostosas que estiveram ao lado de grandes escritores. Mesmo que a sua tenha engordado, esteja com algumas celulite e estrias, ela é a SUA inspiração e te ama. Não tente ter um caso com a inspiração alheia, pois tudo que você pode conseguir é uma masturbaçãozinha intelectual. Fora que você não teria inspiração nenhuma pra dar explicação a sua musa se fosse pego no flagra, além da frase batida “não é isso que você está pensando!”.
- Dizia Willian Blake – ou a musa dele – que os caminhos do excesso levam ao palácio da sabedoria. Também tem aquela sobre abrir as portas da percepção e outras desculpas para você se encher de cachaça ou coisa mais forte – ou mais ilegal. Pode até ser que funcione, até porque toda mulher deve ter a tara secreta de ver um homem morrer por ela, nem que seja aos poucos. Mas cuidado para não deixar seus rins e fígado imprestáveis se resolver escrever a obra de sua vida, porque poderá ser a última. Ou pior, póstuma.
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