Equilibrium

Assim se passaram dez anos, como diria aquela letra de bolero. Sim, dez anos desde que o primeiro “Matrix” foi lançado, para deixar de pernas pro ar a cultura pop do fim dos anos 90 e influenciar a estética dos filmes nos anos seguintes, para o bem ou para o mal, gerando paródias e imitações nas produções americanas dos anos seguintes. Mas isso acontece com qualquer filme ou estilo que cai nas graças do público, com produtores tentando repetir a receita de sucesso para conseguir alguma “receita” ($$$). Ou como diria o diretor Sergio Leone, “se eu sou o pai do Faroeste Espaguete, eu tenho muitos filhos da puta espalhados por aí”.
Um dos filhotes de Matrix é uma produção modesta de 2002 chamada “Equilibrium”. Na época do lançamento, direto em Home Vídeo no Brasil, a pouca publicidade dava a entender que seria apenas um “genérico” se aproveitando da onda criada por Matrix, e a chamada de capa não ajudava nem um pouco: “esqueça matrix”. Esse tipo de argumento em mim costuma ter o efeito contrário, e evito um filme desses o máximo que puder, como fiz com o filme “Jogos `Esqueça Seven!` Mortais”. E com um orçamento de “apenas” 20 milhões de dólares, poderia se esperar apenas um daqueles péssimos filmes que o balconista de locadora adora empurrar para clientes indefesos.
Eu mesmo o vi tardiamente, e por acaso. Mas mudei de idéia a respeito do conceito do filme. E nas eternas conversas de botequim, descobri que minha opinião é compartilhada por muitas pessoas. Resumindo, “Equilibrium” é um filme que merece ser visto e lembrado, mesmo não sendo um divisor de águas ou um clássico. É um ótimo entretenimento, com uma boa história. Não chega a ser Cult, mas está perto disso.
Se “Matrix” bebe da fonte do estilo cyberpunk, se baseando principalmente nos conceitos de “Neuromancer”, do Willian Gibson, em “Equilibrium” se vê referências à ficção científica mais conservadora, com ecos de Aldous Huxley, George Orwell e Ray Bradbury. As cenas de ação, o figurino dos protagonistas e a trilha sonora tem óbvia influência pós-Matrix, mas nada que chegue a beirar o plágio.
A trama remete a futuros distópicos descritos pelos autores citados acima: após uma terceira Guerra Mundial, a humanidade é capitaneada por um governo autoritário e centralizador que concluiu que as emoções humanas seriam a causa de seu flagelo, e decidiu manter tais emoções sob controle mediante o uso compulsório de uma droga chamada Prozium. Todo e qualquer pensamento criativo foi banido, inclusive a contemplação de qualquer forma de arte, tornando os cidadãos frios, apáticos e cópias padronizadas, o sonho de qualquer governante. E atos contrários a essas determinações eram violentamente suprimidos e sumariamente condenados à morte, e obras de arte imediatamente incineradas (como os livros em “Farenheit 451”). O governo central é formado pelo conselho do Tetragrammaton, cujo líder é chamado de “Pai”, que aparece a todos os cidadãos através de telões espalhados por Libria, uma referência ao “Grande Irmão” de “1984”.

Nesse contexto, na nação chamada Libria, foi criada uma polícia de elite para reprimir os grupos rebeldes ao regime. Essa elite denominada “Sacerdotes do Grammaton” é treinada em uma arte marcial denominada “Katá com Arma”, que ensina o uso simultâneo de pistolas automáticas, acrobacias e golpes de luta.
O melhor Sacerdote é John Preston (Christian Bale, que fizera “Psicopata Americano” e “Reino de Fogo”), que mesmo tendo a esposa executada pelo crime de sentir emoções, é um agente exemplar, frio e determinado. Porém após matar um colega ao apanhá-lo sentindo emoções (Sean Bean) e prender uma mulher acusada de guardar obras de arte (Emily Watson), ele acidentalmente deixa de tomar a dose de Prozium e começa a sentir emoções e a questionar o sistema, sob a suspeição do sacerdote arrivista Brandt (Taye Diggs) que anseia pela posição de Preston. No decorrer da trama, Preston entra em contato com o insurreto grupo conhecido como “Subterrâneo” e a ter empatia por sua causa, se tornando peça-chave numa trama envolvendo o poder vigente e as forças rebeldes.
Sendo uma produção mais modesta, o que segura o filme é o roteiro e o elenco, composto de bons atores e atrizes não tão conhecidos na época. A fotografia sombria mantém o clima “pesado”. As cenas de ação privilegiam a coreografia da técnica do Katá com Arma, curiosamente desenvolvida pelo próprio diretor do filme, Kurt Wimmer, o que dá um charme aos combates e chama a atenção daqueles que apreciam lutas e artes marciais em filmes. E não dispondo de efeitos “bullet time”, a coreografia é completada com movimentos de câmera e poucos efeitos especiais, rendendo boas sequências de tiroteio e uma pilha de cadáveres digna de um filme de guerra (pela contabilidade oficial do filme, 236 batem as botas no filme, e Preston é responsável por metade desses óbitos).
Mesmo à sombra de Matrix, esse filme não é o tipo que agrade ao público em geral, mas angariou alguns admiradores entre aqueles que gostam de ficção científica e acabam vendo na história que, mesmo com um visual e um marketing um tanto oportunista, o filme tem seu próprio brilho e é mais do que uma imitação no pior estilo Asylum (aquela produtora cara-de-pau que concebe plágios descarados de bluckbusters hollywoodianos). O protagonista Christian Bale acabaria, anos depois, se tornando mais íntimo do grande público ao ser chamado para viver o Batman na adaptação de Christopher Nolan para o personagem em “Batman Begins”, mas mantém uma carreira equilibrada entre grandes produções, como por exemplo o personagem John Connor no novo filme “Exterminador do Futuro: Salvação” e filmes independentes e de arte, tais como em “O Maquinista” e “O Sobrevivente”.
Para finalizar, não vou criar polêmica barata em afirmar que “Equilibrium” seja melhor que “Matrix”, pois cada filme tem seus méritos. Mas cá entre nós, se compararmos a trilogia, essa produção barata é bem melhor. A não ser em relação à premissa “Esqueça Matrix”, já que, infelizmente, “Matrix Reload” e “Matrix Revolutions” são ótimos motivos pra esquecer a trilogia…
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[...] de Allan Moore, que por sua vez é claramente inspirada em “1984”, como também o quase-cult “Equilibrium”. O outro romance de Orwell, “A Revolução dos Bichos”, também foi adaptado como desenho [...]
[...] com algumas modificações e disparando rajadas em filmes como “Equilibrium”, do qual já falei aqui antes, e quase que totalmente irreconhecível como a poderosa Lawgiver do Juiz Dredd em “O [...]