Porra, Amar é Importante!

Revendo as velhas músicas e velhos filmes, lembrei da trilha sonora do filme “Cidade Oculta”, de 1986, o mais Will Eisner dos filmes nacionais, cuja música ficou a cargo de Arrigo Barnabé, na época áurea do movimento Lira Paulistana, e contou com a participação de outras vozes desse movimento, como a Tetê Espíndola e a Vânia Bastos. Uma das músicas, que tocou bastante na época, e da qual lembrei nesse domingo de manhã foi “Pô, Amar é Importante”. No caso, o “pô” é um belo de uma “porra” implícito. E também o verso “só sei que gosto do teu corpo pra caramba”, o “pra caramba” aí, obviamente, trazia um quase evidente “pra caralho”, que nunca passaria pela censura ainda vigente naqueles tempos.

Lembrei disso por ver na Folha de São Paulo do último domingo, já em clima de Dia dos Namorados, uma foto com uma pichação recorrente em pontos como a Avenida Paulista ou a Brigadeiro Faria Lima, com o romântico dizer “O amor é importante, porra”, e que está causando certa celeuma e curiosidade em relação ao autor, que até agora não se pronunciou. O próprio jornal correu atrás de grafiteiros em busca do autor da pichação, e  a blogueira Adelaide Ivanova ajudou a popularizar a imagem Internet afora.

Isso também me lembrou outra pichação famosa: “Celacanto provoca maremoto”. Inclusive consta que o obtuso regime militar imaginou que seria alguma mensagem entre subversivos, e reza a lenda que no DOPS chegaram a abrir um dossiê sobre o tal “Celacanto”, suposto inimigo do regime. Claro que os militares nunca haviam assistido “National Kid”, até porque muitos desses militares não devem ter tido uma boa infância. E certamente estes mesmos militares deveriam reagir com a paranóia de costume ao se depararem com uma frase tão simples e singela quanto “o amor é importante, porra”.

E se o “companheiro” celacanto poderia provocar maremoto, o amor pode provocar maremotos, terremotos, tsunamis, colisão de mundos, explosões de Supernovas e reações em cadeia. Que o confirmem os homens e mulheres que viram sua razão assaltada pela presença fulminante desse sentimento. E porque estou me restringindo ao amor entre pares. Todo amor é importante, porra, seja ele entre irmãos, entre pais e filhos ou entre desconhecidos. Independente se os românticos o idealizam ou os pragmáticos o encaram apenas como fenômeno químico e fisiológico ou os cínicos apenas achem que seja um artifício da natureza para garantir a perpetuação da espécie, não dá pra ignorar seus efeitos. E por mais evidente e óbvio, quase piegas seja isso, percebo que há épocas e locais que isso precisa ser lembrado, seja por um compositor consagrado ou por um grafiteiro anônimo.

No frigir dos ovos, amar é importante, porra? Claro que é, caralho!

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