Viva o Bloomsday!

Um bom e justo motivo para se tomar uma

O dia 16 de junho é comemorado em todo o mundo por entusiastas das letras e, principalmente, por leitores da obra do escritor irlandês James Joyce. É no dia 16 de junho de 1904 que ocorrem todas as ações narradas no livro “Ulisses”, lançado em 1922 e considerado um divisor de águas na literatura inglesa e mundial. A data se refere ao personagem central do livro, Leopold Bloom. Muito provavelmente este é o único feriado literário do mundo. Na Irlanda, terra natal de Joyce, se comemora com estilo, com os admiradores da obra discutindo o hermético livro sob o efeito de bastante cerveja escura nas mesas dos bares irlandeses. Não obstante ser um feriado irlandês, pelo mundo os entusiastas joyceanos aproveitam o mote e a data para também discutirem as peripécias dos personagens Stephen Dedalus, Leopold Bloom e Molly Bloom.

Mas em Dublin, cidade tão bem descrita no romance que, segundo dizem, poderia ser reconstruída apenas se baseando nessas descrições, é que a festa encontra sua maior manifestação. Ocorrem performances culturais nos principais recantos da cidade, como em O´Connel Street, no centro, com leituras e dramatizações de cenas do livro e apresentações de peças de teatro, tendo muitas vezes o próprio James Joyce como personagem. Na Irlanda, as festividades não se restringem a um único dia, se entendendo pelas semanas seguintes ao dia 16 de junho. Para se ter uma breve idéia da importância que o escritor tem em seu país de origem, sua efígie estampava a nota de dez libras até a adoção do Euro como moeda.

Não se sabe ao certo quando o Bloomsday começou a ser comemorado, havendo versões divergentes de que teria começado pouco depois do lançamento do livro ou após a morte do escritor, em 1941, ou ainda em 1954, meio século depois do cabalístico dia 16 de junho original.  Mesmo no Brasil, onde o hábito da leitura não é tão cultivado, alguns eventos marcam a data em algumas das principais capitais, como São Paulo, Belo Horizonte ou Recife, que já possuem grupos culturais que homenageiam a data já há algum tempo.

A Odisséia Moderna

Mas o que há de tão importante e relevante neste romance? A história, em si, é bem simples: o professor Leopold Bloom tira o dia 16 de junho de 1904 para perambular por Dublin com o jovem Stephen Dedalus, protagonista do romance “Retrato do Artista Quando Jovem”, para juntos encherem os cornos de cerveja preta e pensarem na existência. Enquanto isso, a senhora Bloom, a tal Molly, que não era mole não, lhe enfia uma galhada com o gaiato do seu empresário, Blazes Boylan. A idéia seria adaptar “A Odisséia”, de Homero, para os tempos modernos, com os personagens do livro representando os personagens do clássico grego. Mas ao invés do Ulisses levar vinte anos pra chegar a sua casa e sua esposa Penélope se conservar fiel, aqui a odisséia leva apenas algumas horas e um par de implacáveis chifres, os quais são resignadamente admitidos por Bloom, ciente de que não seria o primeiro, último e único homem de sua mulher. Parece até novela de Manoel Carlos.

Só que o que diferencia “Ulisses” de qualquer outro livro anterior é que James Joyce estendeu sua narrativa por centenas de páginas (a edição em português tem mais de novecentas), e o que torna este romance um divisor de águas é que o autor experimentou diversos estilos e técnicas narrativas que viriam a influenciar toda a literatura ocidental pelas décadas seguintes, usando e abusando da linguagem coloquial, de neologismos, monólogos interiores e do “fluxo de consciência” dos personagens.

Uma boa analogia sobre a importância desse livro para a literatura do século XX foi dada por um crítico: se a literatura do século XX fosse um plano bidimensional, James Joyce e Franz Kafka seriam as suas abscissas e ordenadas. Enquanto Joyce representava histórias simples com narrativas complexas, Kafka seria exatamente o contrário, com narrativa mais convencional, mas com temas e histórias mais insólitos. Daí, toda literatura produzida após estes dois estaria nesse plano formado por eles.

Se você admira o estilo de algum autor em especial, há uma grande chance de que ele tenha bebido da fonte James Joyce. Só para citar os exemplos nacionais mais célebres, os escritores Guimarães Rosa e Clarice Lispector devem parte de sua prosa ao irlandês inquieto.

Pela sua complexidade, “Ulisses” ganhou fama de difícil e hermético, tendo inúmeras interpretações e leituras, como previra seu autor. Mas não se deixe levar por viagens na maionese de algum crítico. Apesar de longo e exigir atenção do leitor, ele não é tão hermético quanto à obra seguinte de Joyce, “Finnegan´s Wake”. O mais respeitado crítico atual, Harold Bloom (que não é parente do cornudo personagem de Ulisses), elege Ulisses como um dos dez livros essenciais de uma boa biblioteca, e dela fala que é “um prazer, difícil, mas acessível ao leitor comum, inteligente e de boa vontade”, ao passo considera que “Finnegan´s Wake” “jamais será inteiramente acessível, nem mesmo ao leitor mais sofisticado”.

Para conhecer Joyce

A obra pela qual Joyce deverá ser lembrado “pelos próximos trezentos anos”, como ele mesmo definia, obviamente não é seu único, primeiro e último livro. Na realidade foi o penúltimo, e “Finnegan´s Wake” foi escrito anos depois.

Para entrar no universo de Joyce, não é necessário você se enfiar justamente em “Ulisses” ou no mais hermético “Finnegan´s Wake”. Aliás, para qualquer autor, é recomendável você ir conhecendo-o através de seus contos, quando estes existem. No caso do irlandês, há um livro de contos chamado “Dublinenses”, do qual podemos destacar o conto “Os Mortos”, no qual ele descreve uma festa de fim de ano de uma típica família irlandesa. O título se refere à influência e relevância dos mortos entre os vivos, principalmente para o personagem Gabriel e sua esposa.

Outra literatura interessante são as cartas que o autor escrevia para a sua esposa, Nora Barnacle, reunidas no livro “Cartas a Nora”. Oscilando entre o fascínio, o fetiche e a exaltação sexual da parceira, Joyce podia declarar à sua amada coisas sublimes e outras que podem chocar os mais conservadores e pudicos, como afirmar que, em uma sala com mulheres peidando, poderia identificar o da sua amada.

Aliás, cabe aqui um breve, porém relevante, parêntesis. Por que dia 16 de junho de 1904? Segundo James Joyce, foi nesse dia que sua amada Nora Barnacle fez dele um “homem de verdade”, seja lá o que ele quis dizer com isso. Alguns críticos consideram que o próprio livro “Ulisses” seria uma espécie de declaração de amor que o erudito escritor tinha por sua simples esposa e amante. Sem muito eufemismo, a tal Nora deveria ser muito boa de cama e ter um senhor derriére, dada sua obsessão por esta parte da anatomia dela que Joyce tinha. A própria Nora ganharia uma biografia escrita por Branda Maddox.

Em português, “Finnegan´s Wake” foi publicada em edição bilíngüe, dividida em vários volumes. O clássico “Ulisses” está disponível em duas traduções, a mais antiga de Antonio Houaiss, e a mais recente, lançada em 2004, foi traduzida por Bernardina da Silveira Pinheiro, e é considerada mais acessível que a versão de Houaiss. Outros livros disponíveis são “Retrato do Artista Quando do Jovem” e “O Gato e o Diabo”. Há também a biografia do autor, escrita por Richard Ellmann.

Em outras mídias

Outra maneira de entrar no universo joyceano é ver como ele influenciou outros meios, que não a literatura. John Huston, conterrâneo de Joyce, fez seu último filme se baseando no conto “Os Mortos”. “Os Vivos e os Mortos“, de 1987, é excelente ao recompor a atmosfera do conto original, tendo praticamente todo o elenco formado por irlandeses, com exceção de Anjelica Huston, a filha do diretor.

Já em 2000 foi lançado o filme ” Nora”, que se baseia na biografia da mulher de James Joyce, Norma Barnacle. Dirigido pela irlandesa Ruth Barton, traz o ator Ewan McGregor como James Joyce e Susan Lynch como Norma.

A influencia do irlandês vai longe, até atinge nossa música popular. Guilherme Arantes tem uma música inspirada no universo de Joyce. “Céu de Dublin”   é uma das faixas do disco “Crescente”, de 1992, e o próprio Guilherme declarou em entrevistas a inspiração dos contos de “Dublinenses” na composição da música. Até na física quântica Joyce está presente, já que o prêmio Nobel Murray Gell-Mann escolheu o nome Quark para batizar as partículas fundamentais da matéria devido a uma frase do livro Finnegan´s Wake: “Três quarks para Muster Mark!”.

Nos quadrinhos, o toque de James Joyce apareceu na mini-série “Skreemer”. O argumento, a primeira vista, parece uma mixórdia sem sentido, pois mistura futuro pós-apocalíptico com história de gângsteres. Mas a história, o texto e a técnica narrativa são excelentes, tudo para contar a história de ascensão e queda do famigerado e fatalista bandido Veto Skreemer, sob a ótica do próprio e da família do irlandês Finnegan, que está sempre cantarolando a canção “O Despertar de Finnegan”. Uma excelente história em quadrinhos, escrita por Peter Milligan e desenhada por Steven Dillon, que ficaria famoso ao lado de Garth Ennis em títulos como “Hellblazer”, “Preacher” e “Justiceiro”. Esta história ganhou o premio Eisner de 1990.

Chega de papo e vamos ao que interessa!

Pois é, já que vocês foram devidamente apresentados ao universo de James Joyce e Ulisses, se prepare para hoje e nos próximos Bloomsdays tomar aquela cerveja preta com estilo. Eu, particularmente, farei minha parte para preservar a memória de James Joyce. Caso não encontre nenhum bar que venda cerveja Guinnes, vai descer um bom chope Xingu, mesmo.

Site do James Joyce Center

Site do museu de sua patroa

Trechos das cartas de James à Nora

James Joyce na Wikipédia

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  • Moziel T.Monk: Vejo que esse “travamento” já alcançou proporção de ser classificado como síndrome....
  • Emilia Vaz: (Eu peço fiado,mas pago viu?) Não me acho uma escritora,mas eu juro que tento…rsrs É bom saber...
  • André: Adorei,sempre escutava essa filosofia do meu pai !!!!!!Branchu.
  • suzilene: caraca o coelhinho é´loco e tarado e lindinho*-* fiado e´bom de mais. 100% play boy
  • Vampira Dea: Ótimo blog e post, parabéns. Os caras eram burros mesmo rsrrs

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