Quem quer ser um milionário e dirigir um Gran Torino ouvindo a Cavalgada das Valquírias?

Neste fim-de-semana deixei a Blodega mais uma vez no piloto automático e fui tentar por em dia minha dívida eterna para com a sétima arte, e aproveitei para ver alguns filmes recentes na esperança de não ter gasto tempo e dinheiro à toa. No geral o ganho foi excelente, pois os filmes escolhidos não deixaram margem de dúvida quanto a sua qualidade.  E como faz tempo que não falo de filmes aqui nesse balcão, retiro a poeira da prateleira de DVD’s e ofereço três (resenhas de) filmes ao preço de um(a).  Isso sim é promoção!

Gran Torino
Para quem acompanha o trabalho do veterano Clint Eastwood nos últimos anos, desde o filme “Os Imperdoáveis” sabe que seus filmes não costumam vir com finais felizes ou cenas belas e edificantes. São histórias adultas, com personagens por vezes amargos e fatos inexoráveis da vida. Assistir a “Sobre Meninos e Lobos”, “Menina de Ouro” e “A Troca” é uma experiência não exatamente leve, da qual não dá para sair indiferente. Nem tampouco alegre.

No mais recente “Gran Torino”, Clint dirige e protagoniza a história de Walt Kowalski, um viúvo veterano da Guerra da Coréia e aposentado da Ford, amargo e mal-humorado, cujos filhos e netos pouco conhece e que vive às turras com a vizinhança em um bairro suburbano de Detroit, em sua maioria composta de imigrantes orientais, e com um jovem padre que, por promessa a falecida senhora Kowalski, tenta convencê-lo a se confessar e a mudar de atitude. A princípio intolerante com os estrangeiros, principalmente por conta de sua experiência na guerra, aos poucos começa a se aproximar dos vizinhos após um incidente onde tentam roubar seu bem conservado carro Ford Gran Torino 1972, principalmente da adolescente inteligente e irreverente Sue Lor e de seu irmão tímido Thao, envolvido em problemas com gangues. Aos poucos, os orientais vão contornando sua rabugice e ele começa a ser bem visto e se sentir a vontade entre seus vizinhos como nunca se sentira, mesmo entre seus filhos e netos.

Ao contrário de filmes outonais sobre a velhice, aqui o personagem de Clint mostra que ainda tem muito fogo sob as cinzas, mostrando serviço como o típico homem americano, com a garagem lotada de ferramentas e se ocupando de pequenos consertos e de trocar desaforos com os velhos amigos enquanto bebe uma cerveja, e por mais amarga que seja a história e o personagem, Clint empresta carisma a uma figura tão fina quanto parede de castelo e porta de igreja, o que despertará a simpatia de quem assistir a este filme.

E como uma versão aposentada do Dirty Harry, ainda sabe resolver alguns assuntos na base da porrada ou de suas “ferramentas”: um fuzil Garand M1 e uma pistola Colt 1911 .45, tão velhas de guerra quanto ele, mas ainda mostrando serviço. Mas não se iluda que esse não é um filme de ação, onde no final os problemas são resolvidos após um banho de sangue apoteótico. Ao que parece, Dirty Harry aposentado usa mais a cabeça que as armas, mas ainda macho até o último segundo em cena.

Quem Quer Ser um Milionário?
Havia assistido no cinema “O Curioso Caso de Benjamin Button” no início do ano, um forte candidato ao Oscar, mas que perdeu feio para o filme de Danny Boyle, “Quem Quer Ser um Milionário?”. Curioso fiquei eu em ver o que o filme do Boyle tinha que o de David Fincher não tinha. O Boyle já tinha o benefício da dúvida por trabalhos anteiores do inglês os quais assisti e gostei do resultado: “Trainspotting”, “Cova Rasa”, “A Praia” e “Extermínio”, principalmente pelos recursos visuais que ele costuma utilizar para contar uma história.

E os oito Oscar foram merecidos. O filme é excelente, sem nenhuma dúvida. A história do jovem Jamal, que sem nenhuma instrução formal, favelado e servindo chá em uma empresa de Telemarketing, conseguiu a proeza e chegar a final do programa respondendo a perguntas e prestes a ganhar uma fortuna. Parece um mero conto de fadas, uma história edificante bem ao estilo dos musicais de Bollywood. Mas não nas mãos de Boyle, que com poucos recursos, orçamento reduzido e elenco local sem nenhuma estrela internacional cometeu um excelente filme. Acusado de fraude no programa, dada a improvável façanha para alguém criado nas favelas da Índia, o início do filme já mostra Jamal sendo “interrogado” pela polícia, e explicando como conseguiu responder as tais perguntas. Nisso a narrativa não linear do filme chama a atenção, sobrepondo o interrogatório às cenas do programa de perguntas e respostas, e cada pergunta é a ponte para um outro flashback que retoma a infância e adolescência difícil de Jamal, seu irmão Salim e a jovem Latika no meio da miséria em Mumbai, miséria essa mostrada sem muito verniz. Os irmãos perdem a mãe ainda crianças e precisam se virar nas ruas, se envolvendo com exploradores de crianças e toda natureza de criminosos. Enquanto Jamal procura manter sua integridade e sua amizade com Latika, amizade que se transforma em paixão com o tempo, seu irmão Salim se envolve com os criminosos e se torna um capanga de um chefão de Mumbai, e as circunstâncias terminam por distanciar os três. Os fatos relembrados, e que com certeza marcaram o caráter e a vida de Jamal, ironicamente trazem exatamente as respostas às perguntas feitas no programa de TV, como se o destino o estivesse preparando para aquele dia desde a sua infância. E o mais irônico é que ele só se inscrevera no programa por saber que sua amada Latika era fã e não perdia a oportunidade de assisti-lo. O que poderia ser uma história banal ganha contornos de excelente filme, com o uso adequado da linguagem do cinema – a qual Boyle domina bem – e não se furtando a mostrar as misérias de uma terra de contrastes. É um conto de fadas, sim, mas com uma excelente narrativa.

Operação Valkíria
Gosto bastante de histórias de guerra, principalmente sobre a II Guerra Mundial. Mesmo assim me furtei a ver este filme no cinema por já conhecer o fato real no qual se baseava e saber o desfecho da história sobre a conspiração para tomar o poder da Alemanha nazista nos anos finais do conflito.

O tema não é tão estranho para Bryan Singer, que antes de ficar famoso por “X-Men” dirigira o filme “O Aprendiz”, sobre a doentia relação entre um criminoso nazista disfarçado e o adolescente que descobrira sua identidade. Em “Operação Valkíria”, Singer reconstitui a conspiração contra Adolph Hitler centrando a narrativa em cima do mutilado Coronel Stauffenberg, que se tornou peça-chave de um atentando a bomba armado por oficiais da alta cúpula insatisfeitos com o rumo que a guerra havia tomado. A história desse oficial é tema do filme “Stauffenberg”, produzido em 2004 para a TV alemã.

O trunfo do filme é que, mesmo para quem conhece a história e seu desfecho, a narrativa consegue manter a atenção e gerar suspense. O elenco está excelente, com nomes como Kenneth Branagh, Tom Wilkinson, Terence Stamp e Tom Cruise. E para quem não conhece a história, melhor ainda. Sei que ‘e fato e consta nos melhores livros, mas não vou estragar o final para quem ainda não assistiu ao filme ou não leu a respeito.

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