Seja um Paulo Coelho você Também

Depois de ver uma propaganda de um novo carro super chique que custa mais do que o bolso dos pobres mortais podem comprar, me lembrei desse texto do Moziel, falando sobre o astro da propaganda do carrinho, o Paulo Coelho. Claro é uma reedição, visto que o velho Moza está com os dedos atrofiados, mas tá valendo.

Seja um Paulo Coelho você Também

Não obstante o comentário venenoso dos puristas que sacodem pedras e infâmias contra o ex-fã do Aleister Crowley, o velho mago está cagando e peregrinando, pois está enchendo os bolsos de grana e conseguindo fãs famosos. Como milhões de moscas, incluindo as moscas famosas, não podem estar erradas, o negócio mesmo é ser camelô do metafísico e vender alto-ajuda barata em forma de romances rebuscados. E, como a coisa tá preta pra todo mundo, vamos tentar faturar em cima desta onda de magia e feitiçaria. Quem sabe você não cria o novo Harry Potter e vende os direitos do seu personagem para Roliúde?

NÃO É FEITIÇARIA, É PICARETAGEM!!

Mas não desprezemos o trabalho dos picaretas, já que escrever livros de magia não é assim tão fácil quanto escrever uma redação para o vestibular de faculdade privada de terceira linha. De qualquer maneira, eis aqui a nossa modesta contribuição para criarmos mais algumas dezenas de fenômenos das letras nacionais. Se o sucesso bater a sua porta, se lembre de nós. Mas se bater a sua porta oficiais de justiça com acusações de plágio, esqueça que existimos.

- Tenha um passado sombrio, que faça o leitor perceber que você flertou com o lado negro da força, sofreu o diabo e debandou para o lado dos mocinhos. Algo como ser seguidor de Aleyster Crowley, que também atendia pela alcunha de “A Besta”. Não, ele não era um leitor de Paulo Coelho, e sim um ocultista carinhosamente conhecido como o homem mais amoral do mundo, em sua época. Mas se o máximo que você se aproximou das forças das trevas e de magia negra foi uma consulta a um pai-de-santo pra tentar comer a gostosa da vizinha com a ajuda dos orixás, invente qualquer coisa. O que importa é seu passado sombrio.

- Seja espada. Mais do que isso, tenha uma espada, pois todo mago moderno precisa de uma. Mesmo que a sua espada de mago seja uma imitação barata de uma Katana, facilmente encontrada em qualquer loja de lembranças na rua 25 de Março.

- Quando falamos em passado sombrio, não estamos falando em fazer versão mela-cueca de músicas hispânicas para cantoras de sucesso minuto. Procure fazer os repórteres se lembrarem de suas letras e parcerias mais condizentes com sua fama, com versos do naipe de “ Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais/No cume calmo do meu olho que vê/Assenta a sombra sonora de um disco voador”. Bem melhor do que jogarem na sua cara versos do tipo “Eu Queria Ser/Como uma Criança/Cheia de esperança e Feliz/E Queria DAR/TUDO que há em mim/Tudo em Troca de Uma Amizade”.

- Seja otimista em suas frases. Não pega bem para um mago do bem declarar que o Universo inteiro conspira para que você tome na bunda. É mais bonito falar o contrário, que o universo conspira para a sua felicidade. E vende mais, acredite.

- Declare publicamente que é capaz de controlar o clima, mas não o faz diante das câmeras porque seria uma demonstração arrogante de seus poderes, o que não condiz com um mago do bem e antenado com as tendências. Além de que, pegaria mal tentar fazer chover e o sol continuar escaldante por horas a fio.

- É essencial ser odiado pela crítica mais séria. Se você receber elogios de alguém do calibre de Harold Bloom, se prepare para ser lido e relido por séculos, mas a um passo da fome enquanto vivo. Prefira ser um autor pop e desprezado pelos acadêmicos mais ranzinzas. Não se pode agradar a todos. Então agrademos aqueles que dão mais lucro.
- Para calar a boca daqueles críticos que insistirem em afirmar que seus livros não passam de manuais auto-ajuda travestidos de romances de duendes e afins, dê um jeito de ser respeitado e entre na Academia Brasileira de Letras, para calar a boca de todos. Apesar de que uma instituição que aceite Marco Maciel e José Sarney não pode ser tão levada a sério…

PLANTE UMA ÁRVORE, FAÇA UM FILHO E PEÇA PARA O MOLEQUE DERRUBAR A ÁRVORE E FAÇA PAPEL PARA UM LIVRO

Mas não é só de imagem que vive o mago moderno. Ninguém realmente se sustenta apenas com energia positiva ou luz. Grana sempre é bom, principalmente se for em dólar e tiver bastantes dígitos. Para isso, não dá para pregar a verdade universal no botequim ou na praça da Sé, já que o retorno financeiro é pífio. É preciso vender livros. E como livros não são elementais com vontade própria que se escrevem sozinhos, é preciso algum esforço para fazê-los. Não saberia escrever uma redação para entrar numa faculdade particular de jornalismo? Sem problemas. Nossas dicas são infalíveis. Antes de você sentar na margem direita do Tietê e chorar, estará escrevendo romances que venderão como cocada na feira.

- O negócio é o seguinte: é misturar personagens comuns com situações místicas ou ocultistas. Mas nada de múmias, vampiros, lobisomens ou de guerra entre anjos e demônios. Coisa do passado. Entidades místicas de hoje são globalizadas, usam Internet, investem na bolsa, vestem roupas de grife. Ninguém levaria a sério um demônio vestido como o Chapolin Colorado e feio feito o…diabo? O capeta tem que ter boa aparência, vestir Versace, ter escritório em Wall Street.

- O título também não pode ser muito óbvio. Coisas do tipo “Só o Amor Constrói” é bonitinho, mas não convence aquelas mulheres que querem parecer inteligentes e compram estes lixos encadernados vistosamente. É necessário m título curto com uma palavra de significado pouco conhecido (Maktub, Brida, As Valkírias,Zahir), ou um longo título que remonte a lugares ou situações não muito óbvias (A Margem do Rio Piedra Sentei e Chorei, Manual do guerreiro da Luz).

- Misture a narrativa da história, que em essência deve ser simples, com descrições elaboradas de personagens, paisagens e ações simples, entremeando a narrativa com citações a culturas pagãs e orientais, enfiando no meio umas frases de efeito com mensagens edificantes.

– Não preciso dizer que o bem deve vencer no final, sem nenhuma sombra de dúvida, mesmo que o protagonista tenha um affair com entidades malignas durante a trama. Acredite, isso funciona em Hollywood e no Projac a décadas.

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