Diário de uma Malvada
Esse texto foi escrito por uma antiga colunista do nosso site mais antigo ainda, CrazyMan, Dyell Araújo. Ela é meiga, e nunca frequentou a Blodega. Não gosta de blodegueiros, mas até que escreve bem. Vejamos se está aprovada na nossa mesa:

Diário de uma Malvada
Querido caderno de veludo roxo com letras douradas onde confesso todas as minhas maldades. Como tem passado?
De um tempo para cá a minha vida vem estado numa calmaria sem fim. Não entendo como ser vilã e presidente de uma multimilionária firma de porcelana, alimento e roupa íntima. Depois que matei aquele motorista que me chantageava aproveitei essa calma toda e coloquei silicone. Vilã tem que ser peituda! Hoje, pela manhã, demiti a empregada, Mercedita del Ben, aquela com seis filhos e um marido alejado. Dá para acreditar? A mocoronga loira esqueceu de colocar adoçante no suco de umbu. Fui obrigada a demiti-la, tenho que ser sincera, que enquanto ela chorava implorando para que eu não a demitisse ou pelo menos não a matasse, quase morri de rir, mas me controlei, lembrei que mais tarde teria que me depilar e fingi que não achei divertido ela contando do sobrinho cego. E por falar em sobrinho cego, um vagabundo, isso sim diário, ontem pedi para que ele lavasse minha Beêmi e ele veio com uma conversinha de que era cego, vê se pode? Como se ser cego justificasse alguma coisa. Assim como aquele alejado do marido da Mercedita disse na frente do titio que a culpa de sua deficiencia era minha só porque o atropelei seis vezes seguidas e ainda não prestei socorro. Concidências existem! Pobre! Sempre querendo culpar alguém! Sempre!
A tarde recebi as fotos da humilhação publica da minha irmã, detesto gente boazinha. Depois que roubei sua parte nas ações, depois que roubei seu namorado, a expulsei de casa e fiz com que ela perdesse a memória, ela conseguiu ganhar uma homenagem chorosa por trabalhar como voluntária no orfanato. Não contei outra, diário de capa roxa, raspei seu cabelo, rasguei seu vestido na frente de todas e ainda forgei fotos dela sendo comida pelas criancinhas. As fotos ficaram hilárias, sua cara quando viu tudo aquilo, sua careca branco com vestido rasgado. Só lamentei não ter jogado lama, fica para a próxima humilhação pública. Ela jurando ser inoescente, espero que o DVD chegue logo, vou dar altas gargalhadas diabólicas com o som de suas lágrimas, as pedradas voando (onde aquele povo arrumou pedras e tomates?) Como sou mal!
Ontem ela veio me dizer que sabia quem tinha feito tudo aquilo. Eu quase que tive um susto, então ela disse: “Foi a Gonçala!”. E eu confirmei. Pobre tem que sofrer! Quer dizer, a Gonçala quando ficar pobre vai sofrer mais. Sei que ela é minha única amiga de verdade. Na verdade ela só é minha única amiga de verdade porque não sabe que matei seu marido, roubei seus brincos e incriminei o mordomo, afoguei seu cachorro e ainda penhorei sua casa…Tá bom! Tá bom, eu também roubo no poquer. Mas isso eu acho que no fundo ela já sabe ou é muito burra, five ases?!?
A Gonçala realmente merece sofrer, sofrer porque é burra, sofrer porque acho que ela tem uma paixão lesbica por mim. Mas quem não tem? Sou linda, ruiva e ainda por cima rica, cada vez mais! Ah! Eu sei, sou manipuladora sexual. Que diga o Frederico Augusto de Castida, o ex. da minha irmã. O homem com quem ela tem uma filha que pensa que morreu. Eles nem sabem que eu a troquei por um bebê que estava morto e planejo vender seus orgãos. E ainda nem imaginam que a pirralha que eles tanto amam no orfanato é exatamente a filha que eu roubei.
Detesto a pirralha, Frederica Augusta sempre com aqueles enormes olhos azuis me dizendo: “Te amo, Malvina! Malvina…Te amo! Malvina fiz um desenho de nós duas!“. Essa pirralha é lesbica!!!
Ninguém sabe, Di!, mas tenho planos para aquele orfanato. Por coincidencia enquanto enterrava um corpo descobri que havia petróleo embaixo daquele orfanato. E tudo indica que uma reserva inestimavel de diamantes. Minha paixão! Minha única paixão!
Amanhã vou a casa do Francisco Antônio dizer que o amo. E ele vai acreditar e transferir toda a diretoria do orfanato para mim. E vou fechá-lo. Com certeza serei muito feliz quando aquelas crianças forem morar na rua e eu ficar mais rica ainda. Não sei como, mas na minha vida tudo dá certo.
A tarde fui ao shopping onde me encantei por um colar de diamantes, tive que vender a casa onde minha avó repousa. Peguei abuso daquela casa desde que o maldito motorista começou a me chantagear. Disse que sabia de todas minhas maldades e que iria contar para todos. Descobri, acidentalmente, que ele sofria do coração e que tomava remédio controlado. Numa noite dessas entrei em sua casa e troquei seu remédio por naftalina. Foi tão engraçado vê aquele careca na minha frente implorando para viver, pedindo que o salvasse: “Malvinaaaaaaaaa” e POF morreu.
Depois que ele morreu fui para o celeiro e tive uma noite de amor com seu filho, Ricardo esposo da doce Manuela. Enquanto transavamos como dois animais pensei no que poderia fazer contra a doce Manuela. Ela com aqueles cabelos compridos, cantando sempre, vestida de camponesa. Pensei em tocar fogo na casa dela, mas sabe como é gente boazinha, ela iria entrar na casa salvar os animais, as crianças e depois ainda pousaria como heroína. E eu seria obrigada a forjar fotos ou fazer outra humilhação publica. E sinceramente, não tenho sapatos para tanto! Tenho, mas forjar fotos já está ficando muito na cara. Contratarei atores…Ou a incriminarei, tenho ainda dois crimes sobrando.
Sebastião teve que morrer! Ele sempre com aquela cara de ‘eu sei que você não é boa Malvina! Eu sei que você aos dezesseis anos dormiu com o professor para passar de ano! Sei que você foi responsável pelo assassinato do Rex! Malvina…Seja melhor!’ Sabotei o seu carro!
Quase que fiz xixi nas calças quando vi o seu carro caindo morro abaixo. A explosão! Amo explosões. Seu porshe caindo e BUM, ninguém explode como os porshes. Eu sei, ele era meu pai. Fiquei com dó da mamãe se debatendo quando soube da notícia. Não sei como consegui chorar em seu enterro. Fiz um teatrinho, disse que a culpa era do alcoolismo do meu pai.
Deus sabe como foi difícil para mim fazê-lo ficar alcoolatra. Tinha que lembrar a todos que ele era alcoolatra. Planejei isso aos 4 anos quando decidi que queria ser dona da empresa. Comecei desligando os aparelhos que mantinham o vovô vivo, depois matei o Rex, herdeiro do vovô, depois comecei a fazer meu pai ficar deprimido, ai implantar bebida e convencê-lo a beber foi um passo. Eu não sei se sou muito inteligente, sortuda ou sou cercada de idiotas.
Bem, vou ficando por aqui, pretendo fazer algumas mechas, a depilação, para depois ver se consigo estoquir a Maria de Fátima. Tenho certeza que poderei deixá-lo em cima da mesinha, no centro onde daqui a pouco todos irão se reunir para ler uma carta que meu pai deixou antes de morrer, onde, segundo ele, há revelações bombasticas. O que pode ser? Rex teve filhotes?!
Meu Deus, como sou mal!
Beijos,
Malvina Fontes Aguiar de Padua Santana
