John Constantine – Um Patife dos Diabos
publicado originalmente em 13/03/2005
Vamos falar aqui de um mago inglês. Mas não se preocupem que não é o Harry Potter. Aliás, a única coisa em comum entre Harry Potter e o nosso personagem é a nacionalidade e o hábito de lidar com o metafísico. Mas fora estes aspectos, há diferenças abissais entre ambos.
Em época em que o mago mais famoso é um rapaz que usa óculos e é bem comportado, já existe a uns vinte anos um outro mago que não é um garoto, fuma e bebe desvairadamente, seu caráter é um tanto flexível e são poucos os seus amigos que sobreviveram a esta amizade para contar suas historias. Estamos falando de John Constantine.
O jovem de Liverpool não era exatamente um exemplo de bom moço. Meteu-se com drogas e arruaças, mas o que realmente mudou a sua vida foi o flerte com a magia negra. E tudo começou na cidade de Newcastle, quando ele e seus amigos tentaram usar de magia negra para enfrentar um demônio que possuía uma garotinha chamada Astra. Ele consegue acabar com o demônio, mas invoca outro pior, chamado Nergal, que reinvidica a garotinha ao inferno. Constantine tenta salvar a menina das garras de Hades, mas escapa do inferno apenas com um dos braços dela. Ele acaba internado como louco, e seus amigos são amaldiçoados pelo demônio, e cada uma acaba caindo em desgraça ao longo de suas vidas.
Mas o arrogante mago inglês não deixaria barato, e ao longo de suas aventuras no mundo do ocultismo, acaba reencontrando o demônio Nergal e se vingando dele. Mas, como em todas as suas histórias, suas vitórias são de Pirro, já que sempre sai com um gosto amargo e por que aqueles que ele usa para atingir seus objetivos morrem de forma pouco agradável, o que torna o personagem mais cínico, pois perde muito de seus amigos desta forma.
Após a fase Nergal e Monstro do Pântano, o inglês admirador de cigarros Silk Cut e de Gin Tônica enfrenta um de seus piores inimigos: um câncer no pulmão. Ele recorre a amigos e aliados do passado para tentar uma solução mística para o problema, mas tudo que consegue é atrair a fúria do primeiro dos Caídos, o senhor dos Infernos, o Bicho Ruim…Sim, o diabo em pessoa. E ele conseguiu esta proeza para livrar seu amigo irlandês, o cu-de-cana Brendan, de um pacto com o demônio, e faz o Lorde dos Infernos tomar água benta na forma de cerveja, não pelo altruísmo em si, mas por estar bêbado e se sentir ofendido pelo diabo. Mas, como de praxe, acaba escapando de uma forma malandra e brilhante, deixando os lordes do inferno putos da vida.
Isso é apenas um exemplo das aventuras deste inglês, cujas únicas armas contra os demônios é um pouco de magia e muita esperteza e malandragem, já que ele não usa armas poderosas e exóticas e não é exatamente bom de briga, fisicamente falando…
UM BRILHO INFERNAL
Quem criou o personagem foi o festejado roteirista de quadrinhos Alan Moore. Na metade da década de 80, muitos profissionais dos quadrinhos ingleses acabaram em solo americano, e isso foi uma das causas para a guinada que os quadrinhos de super-heróis sofreriam aquela época. Em 1985, a DC deixou nas mãos de Moore o personagem Monstro do Pântano, com o qual ele teve certa liberdade de trabalhar. E o resultado foi uma reviravolta no personagem e na criação de um novo paradigma nos quadrinhos de horror, que abusaria do horror psicológico, apesar da presença de criaturas bizarras e de cenas chocantes.
Reza a lenda que tudo começou como uma brincadeira entre desenhistas do Monstro do Pântano, algo que acabaria sendo corriqueiro em outras obras, como “Marvels” e “Kingdom Come”: inserir algum personagem, real ou não, da cultura Pop na história, mais como parte do cenário do que como protagonista ativo da história. E no número 25 da revista Swamp Thing, apareceria o cantor Sting, do The Police, em um canto da história. A idéia seria dos desenhistas Steve Bissette e John Totleben, mas Alan Moore acaba entrando no circuito e surge na número 37 da revista Swamp Thing o personagem que usa sobretudo caqui surrado, fuma feito uma caipora, é um escroto manipulador e…é a cara do Sting. Mas seu nome é John Constantine.
O personagem acabou tendo brilho próprio, e estreou sua própria revista intitulada “Hellblazer”, escrita inicialmente por Jamie Delano. Ele não foi o primeiro mago dos quadrinhos de super-heróis, mas era bastante atípico, já que não entoava magias poéticas, não lançava raios pelos dedos ou enfrentava vilões caricatos. Nem poderia se chamar de super-herói, estando mais para anti-herói. O cara é arrogante, canalha, egoísta e manipulador. Ou seja, uma pessoa comum. Através de seu grande conhecimento do mundo do ocultismo, ele enfrenta entidades e demônios em uma Londres sombria e decadente. Ás vezes o cenário muda para os pântanos da Lousiana, as ruas de alguma cidade americana, como New York, ou para o interior da Inglaterra.
A riqueza do universo das histórias de Hellblazer se dá por um texto bem escrito e também por uma galeria de personagens secundários bem trabalhados e vilões interessantes e assustadores.
Ao lado de John, há o sempre fiel Chas, um amigo da juventude do John, que dirige um táxi e ajuda Constantine, sempre resmungando pelas corridas grátis de táxi para seu amigo e eventuais entidades infernais.
Ao lado da ex-namorada de John, a irlandesa Kit Ryan, Chas provavelmente é um dos poucos que sobreviveu à amizade com Constantine, pois há uma longa lista de antigos amigos e namoradas que acabaram se dando mal. Emma, o padre Rick Nilsen, Ritchie e os demais amigos do tempo de Newcastle…
Ao que parece, o jeito cínico do personagem e o tom fatalista e pessimista de algumas histórias conquistou milhares de fãs, e até hoje o título é publicado na linha de quadrinhos adultos da DC, o selo Vertigo. Nestes anos, passaram pelo título roteiristas de peso, como Grant Morrison, Garth Ennis, Neil Gailman, Warren Ellis, entre outros. Atualmente quem está a frente das histórias do mago escroto é o roteirista Mike Carey.
COMENTÁRIOS A RESPEITO DE JOHN
Para quem quer conhecer o personagem, aqui no Brasil muitas das histórias foram publicadas em diferentes revistas e editoras. Os seis primeiros números da revista Hellblazer original foram publicadas na extinta revista Monstro do Pântano, da editora Abril, no número 12 ao 17.Anos depois, em 1995, a Abril lançaria a revista Vertigo, que trouxe histórias da linha de quadrinhos adultos da DC, e Constantine foi uma presença constante. Suas histórias foram retomadas em um ponto bem mais a frente do que as histórias do Mostro do Pântano, na fase Garth Ennis, com exceção na Vertigo nº 5, que traz o episódio de Newcastle, da fase Delano. Mas infelizmente o título durou apenas dozes números, e a editora Metal Pesado passou a publicar o personagem em português, retomando a cronologia deixada pela série extinta da Abril e eventualmente publicando histórias mais antigas ainda inéditas em português. Depois da Metal Pesado, ainda houveram títulos publicados pela Tudo em Quadrinhos, e atualmente o título está sendo publicado em português pela Brainstore (http://www.brainstore.com.br/), que também publica outros títulos do selo Vertigo.
Fizemos uma pequena seleção de algumas histórias marcantes deste personagem, e que ajudariam o leitor a conhecer melhor o personagem:
Hellblazer 8 – Esta história em especial marca a vida de Constantine porque é quando ele faz um pacto com Nergal e este injeta o próprio sangue em John. Vale lembrar que Constantine ainda não sabe que este demônio é o mesmo que ele enfrentou em NewCastle. Tal história faz parte de um arco de histórias escritas por Joe Delano, que inclui um “crossover” com histórias publicadas no título “Swamp Thing”.
Hellblazer 11 – Esta história mostra o inexperiente e petulante Constantine em sua juventude enfrentando Nergal pela primeira vez, condenando a si e aos seus amigos a uma vida perseguida por demônios. Publicada no Brasil na Vertigo 5.
Há muitas histórias boas da fase Garth Ennis. Aliás, são todas boas. Mas leia pelo menos estas aqui, o alfa e omega do Garth
Hellblazer 41 a 46 – O arco de histórias “Hábitos Perigosos”, escrito por Garth Ennis, onde Constantine descobre um câncer de pulmão e luta para salvar sua vida e sua alma, em um lance surpreendente que torna o Primeiro dos Caídos seu mais perigoso e impotente inimigo. Publicado no Brasil nos três primeiros números da série “Vertigo”.
Hellblazer 78 a 83 – “Um Patife nos Portões do Inferno” mostra como o primeiro dos caídos consegue se livrar da armadilha imposta pelo mortal Constantine. Ao longo da história, amigos de Constantine são mortos e, ao final, uma reviravolta surpreendente torna o mago mais uma vez triunfante, não sem um gosto amargo na boca. Publicado aqui pela Tudo em Quadrinhos no título Hellblazer 10, 11 e 12. Marca o final da fase Garth Ennis.
Hellblazer 71 – Outra da fase Ennis. Durante a fase dor de cotovelo e mendigo que passou após ter sido deixado por sua namorada Kit, Constantine se vê perdido nas últimas lembranças de um piloto de Spitfire durante a II Guerra Mundial. Pessoalmente gosto da história porque conseguiu, sem ser piegas ou óbvia, transmitir uma mensagem de otimismo e de apego à vida.
Uma história inédita
O título original da história é “Shoot”.Ela nunca foi publicada, pois a história fala sobre um tiroteio em uma escola, e tal história estava para ser lançada bem a época que ocorreu o tiroteio em Columbine em abril de 1999, e os editores da DC não entraram em um acordo com o roteirista Warren lles (The Autorith, Planetary) para publicar a história. Por estas coisas da Internet, tal história ficou disponível apenas digitalmente. Iclusive sites como o Rapadura Açucarada disponibilizaram versões digitais desta história. Uma página da história pode ser vista em http://www.hellblazerbrasil.net/revistas/shoot.html.
Há muitas outras histórias interessantes. Para se situar nos diversos arcos de histórias do cínico personagem, vale uma visita ao site http://www.hellblazerbrasil.net, que tem um checklist completo.
MAS, E O FILME?
Seguindo a tendência lucrativa de adaptar personagens dos quadrinhos em superproduções para o cinema, finalmente se lembram do velho Constantine de guerra e resolvem leva-lo para a grande tela. Mas adaptar quadrinhos parao cinema sempre encontra alguma resistência dos fãs do personagem, que exigem fidelidade ao original.
Fidelidade não é exatamente o forte do filme Constantine. Fãs do clone do Sting mundo afora tiveram arrepios na espinha ao saber que o seu personagem favorito seria interpretado pelo ator Keanu Reeves, fisicamente diferente do personagem. Mais pânico se espalharia pelos leitores fiéis de Hellblazer ao verem no trailer um Constantine empunhando uma espingarda em forma de cruz. E as notícias pareciam ser uma visão do inferno, pois o personagem seria americano, e não inglês, e a história se passaria em Los Angeles, e não em Londres.
Mas o filme finalmente é lançado, e o diabo não é tão feio quanto pintavam. Fora estas descaracterizações do personagem e eventuais concessões ao politicamente correto, típicas de Hollywood, o filme tem recebido boas críticas por parte de fãs dos quadrinhos. O diretor de videoclipes Francis Lawrence parece ter acertado a mão neste filme, que agrada fãs do personagem e o público que não conhece o Constantine dos quadrinhos. Alguns críticos mais entusiasmados chegam a decretar que o filme veio salvar o gênero do horro nos cinemas, fadados a refilmagens de películas japonesas.
Mas sinceramente, eu gostaria de ver no cinema alguém com o visual loiro e decadente, sendo curado pelos demônios de um câncer no pulmão. E a primeira coisa que ele faria com seus pulmões novinhos seria acender e tragar um cigarro, fazer um comentário jocoso e, pouco antes de sair de cena, fazer um gesto obsceno ao demônio. Eu aplaudiria sozinho esta cena.
facebook comments:






[...] que costuma levar tudo para o buraco da maldade (epa!);-“Hellblazer 49”, na qual o patife John Constantine ajuda o espírito pagão das antigas festividades orgiásticas que foram obliteradas pelas [...]