Transportadores do Povo

No meu trabalho tenho a necessidade de viajar por várias cidades do interior do estado (no caso, Rio Grande do Norte). No deslocamento utilizo mais os chamados alternativos do que os ônibus de linha. Os motivos são vários, melhor preço, maior rapidez na viajem, enfim um melhor custo-benefício. Agora existe outro motivo que me faz optar por esse tipo de meio de transporte. Nos carros alternativos, posso conversar com diversas pessoas diferentes, ouvir histórias de vida, anedotas reais, e vários causos nordestinos. Lá os nordestinos que também utilizam o serviço conversam muito, para que a viajem se torne mais agradável e o tempo passe mais rápido.

Existem regras básicas para se pegar um carro alternativo, a primeira delas é nunca se espantar com o estado do carro. Afinal eles rodam muito, e são meio acabados mesmo. Depois é sempre por o cinto de segurança e procurar um lugar bem ventilado, pois andar pelo sertão não é nada agradável, principalmente no verão. Nessas andanças sempre me deparo com carros cuja porta por dentro não tem o puxador para abri-la, nem tão pouco a manivela para se baixar o vidro. Bom, isso é o mínimo. Já peguei um velho Chevette, num dia de chuva, que tinha uma goteira bem em cima do meu pé. Coisa não rara nesses carros são os buracos na lataria. Pois é, chovia mais dentro do que fora do carro. Sai ensopado. O motorista me garantiu que iria voltar no funileiro que fez o serviço e deixou justamente aquele buraco, provavelmente por que não o vira. Sei. Passei o dia com os pés encharcados.

Tirando o fato da precária conservação dos veículos, existe um lado bom e interessante nessas viagens, o humano. Geralmente o dono do carro é uma pessoa simples, que todos os dias faz das estradas seu campo de trabalho. É um trabalho cansativo, desgastante e se não fosse o gás combustível, não seria muito rentável. Seu Francisco dos Santos, tem 63 anos, e trabalha com frete há 30. Sempre fazendo a rota João Câmara – Natal. Todos os dias faz em média cerca de 5 viagens, cobrando R$ 7,00 por passageiro. Como todos os que trabalham fazendo frete, ele tem medo da violência, mas diz que nunca foi assaltado. E, faz questão de enfatizar, nunca se envolveu em um acidente, mas já perdeu vários colegas nas estradas. Seu Francisco tem uma família de cinco filhos, e mora com eles e a esposa. Consegue sustentá-los apenas com o dinheiro que ganha fazendo as viagens. Seu rendimento mensal é em torno dos R$ 1.100,00, já tirando os gastos com o carro e com combustível. – Depois que surgiu o gás, melhorou bastante nossa vida por aqui – comenta ele, sobre o gás natural, combustível que está presente em todos os carros de transporte alternativo.

A problemática que existe entre os alternativos e os oficiais, que são as empresas de ônibus já é velha conhecida nas estradas. Os dois lados reclamam os problemas que sofrem por terem a concorrência. Os donos das empresas de ônibus, que são os monopolizadores das linhas, não tem outras concorrências oficiais que façam a mesma linha dos seus ônibus. Ou seja, cada empresa trabalha em um itinerário sem prejudicar as outras. Quem sofre com isso, somos nós, os passageiros. Temos que esperar durante horas, além de pagar preços que deveriam ser mais baixos e ainda de andar em ônibus sucateados, que geralmente quebram na estrada. Ficamos totalmente a mercê das empresas. Geralmente por se tratar de pessoas simples e quase sempre sem instrução os ônibus atrasam, desviam das rotas ou simplesmente cancelam a viagem por ter um número pequeno de passageiros. E nessa história quem se aproveita são os alternativos. Com a defasagem do transporte oficial ganham terreno, mesmo tendo eles suas limitações e problemas, como os já mencionados: carros sem conservação e falta de conforto. O poder público tenta impedir esse tipo de transporte, pressionado pelos ricos donos das empresas, que possuem uma boa barganha política e tem sempre a lei ao seu favor. Alegando que pagam impostos e que são prejudicados pela concorrência desleal. Bem, como Seu Francisco e seus colegas enfatizam, é uma forma de sobrevivência, algo que fizeram a vida toda, e não saberiam viver de outra forma. Sem patrão, sem escritório, com total liberdade e ainda conversando horas e horas com pessoas diferentes e de certa forma se divertindo bastante.

Mas o que quero enfatizar não é a briga entre eles, e sim o que se passa dentro de um carro de transporte alternativo. Além dos motoristas, os passageiros sempre trazem boas estórias para fazer rir. E ainda acontecem cenas dentro dos carros, dignas de boas piadas. Certa vez, estava voltando da cidade de Santa Cruz para Natal, quando entra no carro um rapaz, que nos disse, era um guarda de trânsito. Estava sem farda e conversávamos normalmente, quando mais a frente uma mulher pediu parada. Também estava indo para Natal, e era uma professora do estado. Mais a frente, passando por um pequeno vilarejo estava no meio da estrada alguns jegues, desses que ficam andando e beirando a pista. O motorista diminuiu a velocidade, desviou dos jegues e continuou o trajeto. A professora, que não sabia que dentro do carro havia um guarda de trânsito, gritou fazendo graça: – Olha aí, um monte de guarda de trânsito – deu uma risada solitária, pois os outros passageiros, inclusive eu, sabíamos que ali dentro estava um guarda. Mais à frente, alguns quilômetros depois, estava outro jegue, pastando tranqüilamente na parte direita da pista. A professora soltou de novo a mesma piada, – Outro guarda de trânsito! – e novamente riu sozinha. O guarda, que estava sentado no meu lado, nada falou, mas dava pra se ver que o cara estava se enfezando. E guarda de trânsito do interior é meio bruto mesmo. Bom, e a cena voltou a se repetir. A professora morria de rir, enfatizando que outro jegue era um guarda de trânsito. Já na saída da cidadezinha, o pobre do guarda de trânsito deu um sorriso. Viu uma cena que era bem propicia para a ocasião. Um jegue em cima de uma jegue, com seu membro gigante adentrando a pobre da jegue fêmea. Ele deu um grito apontando – Olha aí, um guarda de trânsito comendo uma professora! – Não preciso dizer que o resto da viagem foi um silêncio só.

E cenas assim são bem comuns, além das galinhas e até das receitas de remédios caseiros. Como da vez em que estava indo pra outra cidade, com o nariz meio que coçando e espirrando muito. Um senhor, de feições tipicamente sertanejas, perguntou se tinha sinusite. Estava meio de saco cheio e acenei que sim. Pronto, ganhei um “personal farmacêutico” ele me deu uma receita, que garantiu que era tiro e queda. Apenas colocar no nariz, algumas gotas do óleo de mamona, uma planta medicinal da família das euforbiáceas (Ricinus communis), de onde se extrai o óleo de rícino, também conhecida como carrapateira, carrapateira-branca, carrapato, caturra. Ele deixou bem claro que só deveria pingar no máximo duas gotas, e que ficaria totalmente curado da sinusite. Bom, nunca testei a receita, mas quem quiser pode fazer que ele garante. Outra vez viajei ao lado de uma velhinha simpática, que trazia no colo uma cachorrinha bem pequena, da raça poodle. Ela trazia dentro de sacolas, a ração e água para a cadela. Quem não deve ter ficado feliz fora o dono do carro, pois seu banco traseiro ficou todo molhado e cheio de restos de ração. Mas pelo menos a cachorra não fez nenhuma necessidade fisiológica sobre o banco.

Mesmo com a briga entre os donos das empresas de ônibus, o que acontece é que a profissão de motorista de carro alternativo já é uma realidade brasileira. E virou até uma questão cultural dentro do nordeste. As pessoas geralmente ligam para os motoristas, e esses vem pegá-las em casa e as levam para onde queiram. Isso, nenhuma empresa faz. E por um preço razoável e que compensa mais do que o transtorno de se locomover até a rodoviária. Virou um serviço de utilidade pública, fazendo muitas vezes, o papel que seria das prefeituras, onde os enfermos são transportados por eles, alunos vão a escola utilizando o serviço alternativo, pessoas idosas que precisam ir resolver questões burocráticas em bancos ou repartições publicas e tem dificuldade de se locomover. Todos esses e muito outros casos, vêem nos transportes alternativos a única escolha disponível, a única forma de resolver seus problemas com o mínimo de conforto necessário. Sem motoristas como o Seu Francisco, sem o transporte alternativo, o povo do nordeste teria muito mais dificuldades no seu dia-a-dia, seriam muito mais sacrificados e ainda mais esquecidos.

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  • Pedro Nunes Araujo: Consultando, ou comprando a vista, informações detalhadas sobre “Gisele, a espiã nua que...
  • Moziel T.Monk: Vejo que esse “travamento” já alcançou proporção de ser classificado como síndrome....
  • Emilia Vaz: (Eu peço fiado,mas pago viu?) Não me acho uma escritora,mas eu juro que tento…rsrs É bom saber...
  • André: Adorei,sempre escutava essa filosofia do meu pai !!!!!!Branchu.
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