Guerra, Espionagem e Sacanagem

No amor e na guerra, nem só o derrotado se fode…
Para aqueles que leram a matéria sobre Giselle, a espiã nua, aproveitamos aqui para falar alguns dos fatos envolvendo espionagem e sacanagem durante a II Guerra Mundial.
Mas já que falaremos nesse assunto, não poderíamos deixar de citar a mais famosa integrante desse panteão de agentes sensuais para lhes introduzir (epa!) o assunto. Mata Hari era o nome de guerra da “dançarina exótica” (pra não dizer outra coisa) Margaretha Geertruida Zelle,que atuou durante a Primeira Guerra em Paris, liberando pra os dois lados do conflito. Ninguém sabe realmente para que lado ela trabalhava, já que foi condenada como agente dupla entre França e Alemanha pelos franceses, e foi fuzilada. Há mais lenda do que fatos concretos sobre a vida dessa espiã
As Verdadeiras Giselles
Mata Hari não foi a primeira puta cortesã nem a última a se envolver com uma trama de espionagem e acabar se lascando bonito. A história de Giselle, apesar de ser ficção, foi vendida inicialmente como um caso real, baseado em um suposto diário de uma espiã a serviço da resistência francesa. Ignorando os lances, as reviravoltas da trama e as picaretagens do David Nasser, até que a história de Giselle poderia ter acontecido, já que as mulheres francesas acabaram se empenhando de corpo e alma na luta contra o invasor germânico. Paris era uma festa, mesmo em guerra.
A Alemanha nazista consegue invadir e obter a rendição dos franceses em 1940, mas a famosa resistência francesa só passaria a atuar dois anos depois, após o início da operação Barbarossa. Até então, Alemanha e URSS eram, teoricamente, aliados, e forças simpáticas ao comunismo no interior da França eram, por tabela, simpáticos aos nazistas. Alguns poucos descontentes haviam se refugiado na Inglaterra. Mas com a mudança da situação, os comunistas se dispuseram a se unir aos outros grupos para compor ações contra o governo estabelecido pelos nazistas. A partir daí, ações de guerrilha passam a incomodar os ocupantes alemães.
No esforço de guerra, a população começa a aderir à causa da França livre, e com as mulheres não é diferente. Muitas pegam em armas, outras atuam como mensageiras e espiãs. Já outras acabam se prostituindo para tentar obter informações valiosas e repassá-las ao Maquis, como passou a ser conhecida a Resistência Francesa.
Infelizmente, ao fim da guerra, muitas dessas mulheres não tiveram o reconhecimento de seu sacrifício, até porque o líder da resistência e futuro presidente francês Charles de Gaulle era tido como machista pra caramba. Das que se prostituíram ou se tornaram amantes de oficiais nazistas, muitas não conseguiram provar que estavam a serviço da resistência francesa, e acabaram execradas em praça pública. O castigo comum a estas mulheres julgadas colaboracionistas era ter a cabeça raspada e serem obrigadas a desfilar nas ruas para serem publicamente humilhadas. Suprema sacanagem. Depois o fresco do De Gaulle vem dizer que o Brasil é que não é um país sério…
O Comedor Polonês
Muitos anos antes do início da II Guerra Mundial, a Polônia estava ciente de que a Alemanha tinha pretensões bélicas, e que se a nação germânica resolvesse pegar novamente em armas, o rabo da Polônia tava na reta para ser invadido logo de cara. Por isso, os poloneses precisavam saber as reais intenções do seu vizinho, e montou uma rede de espionagem, inclusive conseguindo decifrar a complexa criptografia das primeiras máquinas Enigma.
Mas antes mesmo que o partido nazista tomasse o poder na Alemanha, os poloneses estabeleceram uma estrutura de inteligência naquele país. Um dos mais prolíficos espiões poloneses acabou em Berlim meio que por acaso. O capitão de cavalaria Jurik Von Sosnowski era um nobre polonês conhecido pelas suas, digamos, galinhagens. Para se ter uma idéia, ele havia sido transferido para o serviço secreto polonês como punição por ter colocado um par de chifres em um ministro. Mas o galante espião reverteu a situação a seu favor, pois seu perfil de “playboy” e gentleman o introduziram na sociedade berlinense, onde passava o rodo no mulherio alemão, promovendo festas extravagantes.
Uma dessas mulheres era Benita Von Falkenhyn, filha de um general do Estado Maior já falecido e recém separada. Após muita ralação entre ambos, ele se revela espião polonês, e como ela trabalhava no Ministério da Guerra, Sosnowski a convenceu a ser sua espiã. As informações assim obtidas foram consideradas por demais importantes pelo governo polonês. Sosnowski foi promovido a major, e seu chefe exigiu que o mesmo aumentasse sua rede de informantes. Ou seja, o galanteador começou a aliciar mais amantes que lhe servissem de espiãs. A própria Benita lhe apresenta algumas jovens, entre elas Irene Von Iena, também funcionária do Ministério da Guerra. Essa se torna amante e espiã, também. E suas informações são ainda mais valiosas, incluindo o nome de agentes atuando em solo polonês e os planos orçamentários do ministério. Mais uma que entra na vara do polonês e na rede de espionagem é Renata Natzmer, secretária de um departamento do exército alemão por onde passava todos os requisitos e especificações dos veículos militares. Assim, a Polônia descobriu que a Alemanha limpara a bunda com o Tratado de Weimar, que os proibia de desenvolver novos projetos de carros de combate e de construir veículos blindados. Isso era uma clara intenção dos objetivos bélicos alemães.
Claro que Sosnowski também era filho de Deus, e em meio a tanto “trabalho”, ele gostava de se divertir. Como adepto do esporte de corno chamado “Swing”, ele entrou numas de fazer troca de casais, e nessa putaria acaba cooptando a amante de um jovem chamado Josef Von Berg, a diliça chamada Kátia Berberian. Por sua vez, Von Berg se tornou noivo de Benita, a primeira das amantes espiãs.
Mas a casa acabou caindo, malandragem. Mesmo no ramo da espionagem, tem mulher que fala demais. Era o caso da dançarina Lea Niako, que também se tornou amante e espiã do polonês. Também despertou desconfiança a Renata Natzmer, que passou ostentar roupas e jóias incompatíveis com a mixaria que ganhava como secretária. Os homens a enquadraram, e ela cantou feito passarinho o esquema todo. Mas a mistura de sacanagem e espionagem soou meio inverossímil para a “inteligência” do exército. Só que a Gestapo não tinha nada de besta, e em contato com a dançarina safada e linguaruda da Lea Niako, descobre e rede de espionagem do polonês comedor e arma o esquema para pegar todo mundo no flagrante.
Sosnowski sabia que estava lascado, mas como todo cafajeste sofisticado, não resistiu a promover uma espécie de festa de despedida. Avisados por espiões, a Gestapo entrou no apartamento do polonês em 24 de fevereiro de 1934, rebocando todo mundo pro xilindró. A maioria dos convidados nada tinha a ver com espionagem, e foram logo liberados. Mas Sosnowski foi preso com suas amantes, inclusive Benita, que não estava na festa, mas foi encontrada na residência de seu marido, o corno do Josef Von Berg, que ignorava o esquema de espionagem, mas gostava da putaria.
Mesmo tentando assumir sozinho qualquer responsabilidade, Sosnowski não conseguiu livrar suas amásias da punição. Irene pegara perpétua, Kátia e Lea foram condenadas a dez anos de prisão, e Benita e Irene foram condenadas à morte e executadas. Sosnowski foi condenado à perpétua, mas acabou voltando à Polônia em 1936 ao ser trocado por um espião alemão.
Como sabemos, mesmo ciente da ameaça alemã através de seus espiões, a Polônia nada pode fazer para evitar a invasão em setembro de 1939, que deu início a II Guerra Mundial. Sosnowski acabaria preso e morto em um campo de concentração em 1942. O saldo final da putaria toda foi que todos da rede acabaram se fodendo.
A Cafetina da Gestapo
Mas putaria que é putaria tem que ser organizada, como diria José Wilker em “Bye Bye Brasil” . E de organização os alemães entendem, e também de putaria. Mas após a casa do espião polonês cair, a cópula, digo, cúpula alemã viram o potencial de se usar a sacanagem propriamente dita para se obter informações. Só que, ao invés de treinar espiãs para serem prostitutas, os alemães preferiram pegar direto as “profissionais do séquisso” e treiná-las como espiãs.
Reinhardt Heydrich, responsável pelo serviço secreto da SS, era piolho de cabaré em um estabelecimento, digamos, tradicional em Berlim, o “Salão Kitty”, de Käte Schmidt, ou Kitty, para os íntimos, que não eram poucos. Como ajudar a dominar o mundo é uma tarefa estressante, ele costumava freqüentar o estabelecimento. Em umas dessas noites, meses antes do início da guerra, ele tomara umas a mais e convidou duas jovens que deveriam estar sentadas em seu colo a trabalharem como espiãs. Seu lugar-tenente, Alfred Naujocks tava achando aquilo conversa de bêbado, mas o oficial insistiu que as ”habilidades diplomáticas” das damas poderiam ser muito úteis. Então tá.
No dia seguinte, junto com a ressaca, o oficial estava com os planos elaborados e, após Kitty saber do interesse da SS em tornar seu bordel um antro de espionagem, ela concordou e se tornou uma funcionária remunerada. E bem remunerada, diga-se de passagem. Ou você acha que 15 mil marcos por semana nos anos 40 era pouco? Aliás, mesmo hoje, é um salário respeitável. O governo alemão injetou muita grana para que o “salão Kitty” fosse redecorado luxuosamente, além de colocar equipamentos de escuta e espionagem por toda à parte. A cozinha e a adega receberam especial atenção. Tudo para que o salão fosse bem freqüentado por oficiais, milionários e diplomatas de países aliados ou não. Também todos os fetiches e taras eram atendidos, já que a casa passou a dispor de diversos assessórios sexuais e uniformes para satisfazer quaisquer fantasias dos clientes. E obviamente era tudo anotado em relatório.
A cafetina Kitty tratou de selecionar o que havia de melhor em termos de mulherio, todas lindas e limpinhas. Mas era o próprio Reinhardt Heydrich quem entrevistava as futuras espiãs, oriundas de várias partes da Europa, avaliando suas “habilidades diplomáticas”. Que dureza…
Com o início da II Grande Guerra, oficiais e adidos diplomáticos de países aliados ou simpáticos ao regime passaram a ser a freqüência predominante. Como o Brasil era inicialmente simpático aos regimes nazi-fascistas, provavelmente muito diplomata brasileiro freqüentou esse puteiro de luxo. A maioria dos relatórios e informações obtidas ainda continua em segredo, mas algumas informações de clientes vieram a público, como as referentes ao Conde Ciano (sobrinho de Mussolini) e ao futuro ditador da Noruega, Quisling, entre outros. O Conde chegava a passar quase vinte horas seguidas dentro da “casa de favores” de Kitty, e gostava de trilha sonora de um piano enquanto participava de orgias. O próprio Himmler teria tido um caso com a puta velha da Kitty. Mas a maioria dos nomes e respectivas taras ainda continuam em segredo até hoje, um prato cheio para algum pesquisador que venha a ter acesso a estes dados.
Aliás, mesmo já em avançada idade, consta que Kitty era dotada de rara beleza e de “habilidades diplomáticas” adquiridas ao longo de sua vida. Como não era besta, era gostava mesmo era de rapazotes, os quais matinha com a fortuna que ganhava.
O mentor dessa putaria toda foi assassinado na Hungria, mas as atividades do salão prosseguiram. A Guerra acabou com a derrota alemã, mas o bordel seguiu impávido colosso, sem espionagem mas com putaria, já que as forças aliadas de ocupação também apreciavam o material em questão, e Kitty conseguiu se manter no pós guerra, até que morreu em 1954, já com 72 anos, após décadas de serviços prestados à sacanagem e à espionagem.
facebook comments:




