Grandes Bebedores: H.L.Mencken

Como passei o último fim-de-semana enxugando hectolitros de cerveja na companhia de amigos, enquanto curto a ressaca resolvo homenagear os famosos colegas de copo com uma categoria nova na blodega: bêbados famosos. E para inaugurar a Sala Vip dessa blodega, uma figura pra lá de ilustre e elegante, o jornalista H.L.Mencken, que bem podia reivindicar a posição de santo padroeiro do jornalismo, se ele acreditasse nessas coisas.
E quem, por cargas d’aguardente foi Mencken?
Henry Louis Mencken, ou H.L.Mencken foi um jornalista, ensaísta, crítico e editor americano, nascido em Baltimore em setembro de 1880, cujo estilo influenciou gerações de jornalistas e escritores americanos e mundo afora. Seu modus operandi iconoclástico basicamente se resumia a expor ao ridículo idéias e argumentos, com floreio e estilo, mostrando que o rei além de estar pelado, tinha o pau pequeno. E nada era sagrado para ele. E sua arma demolidora era o humor rebuscado, além de uma série de frases e referências de entortar o juízo de um eventual antagonista. O “American Way of Life” foi empenado a marretadas retóricas. Mencken desprezava o chamado homem de classe média americano, classe a qual se referia pejorativamente como “Booboisie”, normalmente lhe reservando adjetivos pouco louváveis, de “besta” pra baixo. O próprio regime democrático era por ele definido como “a arte de gerir o circo a partir da jaula dos macacos”.
Era assumidamente elitista, não defendendo a supremacia de uma raça, nacionalidade ou credo sobre outra, e sim a superioridade intelectual de poucos indivíduos em relação a grande maioria. Para Mencken, o ser humano é, em grande parte, um grande embusteiro, covarde e incompetente na maioria de suas atribuições. Ele foi um dos mais acirrados ateus de seu – e de outro –tempo. E para ele religião alguma merecia maior reverência. Os grupos fundamentalistas americanos como os puritanos, a igreja Batista e os metodistas eram alguns de seus alvos preferidos. Seus artigos frequentemente desconstruíam com fina ironia e elegância todo e qualquer argumento que sustentasse dogmas religiosos, desqualificando a existência de Deus e ridicularizando seus representantes, carinhosamente chamados de “cambistas do paraíso”. O artigo “Cerimônia Memorial” enterra todas as divindades na mesma vala comum e a cobre com uma pá de cal. Isso décadas antes de Richard Dawkins começar sua rixa pessoal com o Todo-Poderoso. E com mais finesse e graça do que o professor inglês. Sorry, Dawkins. Nem sua terra natal, Baltimore, era poupada, já que, segundo ele, “trocava de moda a cada estação e de preconceito a cada geração”. E muito menos sua profissão. O famoso artigo de 1920, “Sobre Jornalismo” traça um retrato sem retoques da imprensa à sua época. E nesses tempos de gripe suína, o ofício de vender bichos-papões à população não mudou muito nesses quase noventa anos.
Com todos esses predicados politicamente incorretos, Mencken era de uma popularidade incrível nos anos 20 e 30. A partir de seu bunker no Baltimore Sun, distribuía petardos e obuses verbais a torto e a direito, e seus artigos, ensaios, contos e críticas eram devorados por todos, inclusive pelo homem médio a quem tanto esculhambava. Um mistério inescrutável, já que a concorrência procurou emular o jeitão de Mencken, tentando criar seus clones em cativeiro e devidamente domesticados, o que normalmente se revelava um fiasco, já que as imitações baratas nem chegavam aos pés do original.
Mencken se tornou célebre ao cobrir o “Julgamento do Macaco”, quando um professor do Tenessee foi processado por ensinar a Teoria da Evolução em 1925. Em seus artigos, Mencken desqualificou os criacionistas com tiradas como afirmar que os macacos é quem deveriam processar os homens ou de que os criacionistas acreditariam que Jonas engolira uma baleia se isso estivesse na Bíblia. Esse episódio inspirou a peça “O Vento Será Tua Herança”, cujo personagem E. K. Hornbeck era visivelmente o próprio Mencken. Na primeira versão para o cinema, foi vivido por Gene Kelly.
Ele e seu sócio da esnobe revista “Smart Set”, George Jean Nathan, eram dois fanfarrões que espalharam o terror entre os autores da época, já que as críticas de ambos poderiam reduzir a pó as pretensões literárias de algum pobre candidato a escritor. A dupla era implacável e irônica, e nem autores consagrados ou clássicos eram perdoados. Dostoiévsk encabeçou a sua lista de escritores mais chatos de todos os tempos. Em compensação, quando gostava de um artista, movia céus e pedras para exaltá-lo. Mencken elevou a categoria de gênio escritores como Joseph Conrad, Edgar Allan Poe, Mark Twain e Ambrose Pierce. Admirava o filósofo Friedrich Nietzsche, idolatrava a música clássica, principalmente Beethoven. Poesia e artes plásticas ele considerava como “menores”, e gêneros musicais mais populares, como o Jazz recém-nascido e ainda cru, coisa indigna de civilizados. Mesmo temido, circulou livremente no meio da elite cultural americana daqueles anos.
Alguns de seus artigos eram pura gozação, como aquele famoso sobre o “dia da banheira”, onde ele criava uma ficcional, enciclopédica e absurda história da invenção da banheira que, durante um bom tempo, foi citada em outras publicações como verdadeira. Imagina isso hoje em dia em tempos de Internet e hoaxes fáceis.
Sua popularidade caiu um pouco durante e após a II Guerra Mundial, já que era assumidamente germanófilo, além de ser contra o presidente Roosevelt e a política do New Deal. Em 1948 teria um derrame que o deixou incapaz de ler ou escrever, o que deve ter deixado muita gente aliviada. Morreria – ou melhor, foi “assumir suas funções públicas no inferno” – em 26 de janeiro de 1956. Para quem quiser conhecer mais sobre o trabalho do sujeito não falta material. Em português, o jornalista Ruy Castro organizou uma coletânea de artigos, frases e pensamentos de H.L. Mencken em “O Livro dos Insultos”. Há também “O Diário de H.L.Mencken”, escrito por Charles A. Fecher. Todavia essa biografia não é tão bem vista por alguns por tentar rotular algumas declarações e posições de Mencken como racistas e anti-semitas. Uma biografia mais recente – “Mencken, The American Iconoclast” – foi escrita por Marion Elizabeth Rodgers em 2005, mas ainda não está disponível em português. E na rede não faltam sites e reproduções de seus textos mais famosos.
E o porquê de Mencken estar inaugurando essa galeria de grandes bebedores? Bem, pelo que consta, Mencken não era o tipo que bebia como se o estoque de etanol do mundo fosse acabar nas próximas horas, se compararmos a outros que, certamente, freqüentarão esse cantinho de nosso boteco. Mas ele apreciava bastante o precioso líquido, já que para ele uma noite perfeita poderia se resumir a ouvir música clássica e encher a cara com um amigo enquanto ambos frescavam de Deus e do mundo. Além do mais, em plena vigência da Lei Seca, ele defendia abertamente a liberação do consumo de bebidas alcoólicas. Um de seus mais famosos artigos, “O Periélio da Proibição”, era um ataque bem fundamentado à emenda constitucional que – teoricamente – privava os americanos de molharem suas gargantas com algo mais substancial do que água ou suco de uva, mostrando seus pontos fracos e que era, no frigir dos ovos, um retumbante fracasso, até porque todo mundo estava pouco se fodendo pra Lei Seca e enchia a cara do mesmo jeito. Em outro divertidíssimo texto, também escrito nesse período negro para os bebuns, ele defendeu a teoria de que as pessoas seriam melhores se a atmosfera estivesse borrifada com álcool, “obrigando” a todos de se manterem levemente altos, sem o perigo de ninguém ficar sóbrio o suficiente para cometer desvarios como iniciar guerras. Ou seja, motivo mais do que suficiente para freqüentar nosso pé-sujo virtual.
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[...] a imprensa, que está sempre a serviço de si mesmo, ou do dono do jornal, obviamente. Quando falei sobre H.L.Mencken, citei um artigo escrito por ele nos anos 20 do século passado. Sugiro a atenta leitura desse [...]
Caro Moziel D.Brubeck,
voltei à sua Blodega, como prometi, e li todo seu post (num só gole) sobre o Mencken. Quem o aprecia muito, aliás, é meu mestre Daniel Piza, colunista do Estadão. Veja o que ele diz sobre o americano aqui: http://blog.estadao.com.br/blog/piza/?title=mencken_como_nao&more=1&c=1&tb=1&pb=1. O Piza não gosta dele por ser “nietzschiano antidemocrata”, mas pela contundência, pelo humor e pela riqueza vocabular. Vale ler. Abraço.
Concordo com o Piza. E Mencken, além de ser antidemocrático, detestava Jazz. Mas a prosa da figura era ótima. Preciso reler “O Livro dos Insultos” periodicamente. E sempre apareça quando quiser, cabra!
[...] “Transmetropolitan” cujo protagonista é o repórter Spider Jerusalém, uma mistura de H.L.Mencken e Hunter S.Thompson, um escroto, misantropo, porra-louca e ermitão que se vê obrigado a abandonar [...]
[...] situação periclitante me lembrou um texto do velho jornalista H.L.Mencken, de quem já falamos aqui nessa blodega. Em um texto ousado, se considerarmos a vigência da famigerada Lei Seca nos EUA, [...]
[...] às crônicas e contos de Woody Allen para a New Yorker em “Cuca Fundida”, aos escritos de H.L. Mencken em “O Livro dos Insultos” e aos bombons com fel das tiradas witty de “O Melhor do Mau [...]
[...] pode me perguntar por que ainda escrevo, já que não estou sendo remunerado para isso. Citando H.L. Mencken, escrever seria uma alternativa sensata e dentro da lei dos países civilizados a outras maneiras [...]
[...] um dos hoaxes mais antigos e conhecidos da imprensa moderna foi criado pelo jornalista americano H.L.Mencken em 1917 no artigo “Um Aniversário Esquecido”, no qual se queixa da negligência da população [...]