Senhor Monk e a Gripe Suína

Nestes últimos dias ao perambular pelas ruas me vejo cercado de emulações toscas do personagem Adrian Monk, já que a grande massa está paranóica com a tal gripe suína, ou gripe A H1N1. Para quem não conhece o personagem, ele é um ex-policial com uma incrível capacidade de dedução, mas também com uma série de distúrbios psicológicos ligados a transtorno obsessivo compulsivo. E entre suas paranóias está o medo de germes, o que o faz sempre carregar lencinhos de papel e a evitar maiores contatos com pessoas e objetos suspeitos. Essas neuras são a principal fonte das situações cômicas vividas pelo personagem, com as quais seus colegas e amigos precisam conviver e aturar.

Ao que parece, realmente há uma selva lá fora, como diz a música-tema do seriado. Mas além do contágio patológico propriamente dito, o maior contágio é o psicológico, que espalha de idéias errôneas e exageradas sobre o assunto. Realmente há motivo para tanta paranóia?

Há quem acredite que tudo isso seja fruto de uma conspiração para beneficiar os laboratórios que produzem antivirais. Inclusive há um vídeo já bem divulgado Internet afora que defende essa tese, intitulado “Operação Pandemia”. É uma possibilidade, obviamente. Não obstante, pessoalmente acho que o lucro dos laboratórios é mais um efeito colateral (muito bem aceito pelos laboratórios, diga-se de passagem). Deixei de acreditar em um “sistema” responsável por todas as conspirações do mundo. Sim, há acordos, jogadas e trapaças corporativas e governamentais que jamais verão a luz do sol por sua natureza ilegal ou, no mínimo, escrota. Mas daí a acreditar que tudo é manipulado pelo “sistema” para enganar o cidadão comum, é coisa de Arquivo X.

Se eu preciso culpar alguém pela paranóia vigente, que tal a poderosa indústria mundial de máscaras descartáveis, cuja produção deve estar encalhada desde a morte de Michael Jackson? Ou então os filhos da puta que comercializam álcool gel a peso de ouro. Sai mais barato esterilizar as mãos com vodca Absolut, cazzo! Mas sempre há oportunistas, principalmente no meio de catástrofes, mesmo que fictícias. Sempre haverá alguém esperto e escroto o bastante vendendo bilhetes para a Arca de Noé quando a água estiver na canela. Inclusive há até quem acredite em conspiração, mas ao contrário, ou seja, que o governo está escondendo da população o verdadeiro número de óbitos para não causar pânico. E sempre tem alguém que trabalha em hospital ou conhece algum médico mandando e-mail por aí dizendo essas coisas…

Mas vamos encontrar um culpado para linchar e pendurar. E quem virará um estranho fruto aqui será o suspeito de sempre: a imprensa, que está sempre a serviço de si mesmo, ou do dono do jornal, obviamente. Quando falei sobre H.L.Mencken, citei um artigo escrito por ele nos anos 20 do século passado. Sugiro a atenta leitura desse artigo. Se faltar tempo ou saco para ler mais do que legendas em figuras engraçadas, tenha boa vontade e leia a segunda parte do artigo, principalmente a que Mencken implacavelmente nivela por baixo a capacidade de discernimento do “homem comum”, da sua dificuldade em lidar com a razão e a facilidade em se deixar levar pelos sentimentos, principalmente pelo medo. Ou simplesmente citando o cabra:

“O problema com que se depara um jornal moderno, pressionado pela necessidade de se manter como um negócio lucrativo, é o de conquistar o interesse deste homem inferior — e, por interesse, não me refiro naturalmente à sua mera atenção passiva, mas à sua ativa cooperação emocional. Se um jornal não consegue inflamar seus sentimentos é melhor desistir de vez, porque estes sentimentos são a parte essencial do leitor e é deles que este draga as suas obscuras lealdades e aversões. Bem, e como atiçar os seus sentimentos? No fundo, é bastante simples. Primeiro, amedronte-o — e depois tranqüilize-o. Faça-o assustar-se com um bicho-tutu e corra para salvá-lo, usando um cassetete de jornal para matar o monstro. Ou seja, primeiro, engane-o — e depois engane-o de novo”

O detalhe é que isso foi escrito em 1920, mas parece que não mudou muita coisa. Ou já se esqueceram que, na visão de William Bonner, o apelido carinhoso do típico espectador do Jornal Nacional é Homer Simpson ? Em suma, o objetivo dos jornais é criar bichos-papões, cada um mais terrível que o outro, para depois afugentá-los, segundo Mencken. Se há alguns meses ninguém subia em um Airbus sem uma contração no esfíncter, no momento o bicho-papão vigente é a tal gripe A, que nos últimos dias precisa dividir o espaço com o Bispo Papão. Daí que ninguém sai à rua sem se fantasiar de Ninja do Funk. Isso quando se consegue sair de casa. Vai pigarrear ou tossir em um aglomerado de pessoas para se sentir um cão leproso, vai.

Mas não sou eu quem vai mudar a imprensa. E daqui a pouco ela empurra outro terror para o primeiro plano das notícias. Tampouco vou cometer a irresponsabilidade de afirmar que não existe risco. Existir existe.  Mas viver é arriscado, oras! Todavia já foi dito, não com tanta ênfase, que essa gripe mata menos que a gripe comum, com a qual convivemos há anos. Além do mais, há muito mais doenças bem mais perigosas soltas por aí. Nem preciso citar Hanta-virus ou Ebola, é só lembrar da velha dengue, que já nos aperreia há muito tempo. Mas vou dar uma de Poliana e ver o lado positivo das coisas, pois ao menos o brasileiro está adquirindo ótimos hábitos de higiene a pretexto de evitar a gripe. Em contrapartida há os exageros e a praga da auto medicação.

Ah, mas esse assunto foi melhor abordado por outros colegas ciberespaço afora. Leiam o que diz o Usuário Compulsivo , o Nerds Somos Nozes e o Rapadura Man Eudes Honorato. De minha parte manterei minha dosagem regular de vodca e cerveja para me manter livre de gripes, resfriados e ataques, pois não tenho nenhum parentesco com Adrian Monk, que só bebe água mineral Sierra Springs, e eu prefiro outras bebidas mais fortes, pois citando o finado Padre Levedo, os peixes fodem na água.

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  • Pedro Nunes Araujo: Consultando, ou comprando a vista, informações detalhadas sobre “Gisele, a espiã nua que...
  • Moziel T.Monk: Vejo que esse “travamento” já alcançou proporção de ser classificado como síndrome....
  • Emilia Vaz: (Eu peço fiado,mas pago viu?) Não me acho uma escritora,mas eu juro que tento…rsrs É bom saber...
  • André: Adorei,sempre escutava essa filosofia do meu pai !!!!!!Branchu.
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