Uma Breve História dos Catecismos

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Sacanagem é um negócio deveras lucrativo e quase sempre com retorno garantido, em qualquer mídia. E em quadrinhos não seria diferente. Hoje em dia há uma infinidade de opções de álbuns com temáticas eróticas ou até pornográficas. Como europeu já levava a sério quadrinhos há muitas décadas, até a sacanagem ganha status de arte. O melhor exemplo são os álbuns desenhados por Milo Manara, com suas belas e sensuais personagens magras, de bundinha arrebitada, olhares lânguidos e narizes minimalistas, com muito amor pra dar. E outra beldade é Drunna, cujo rabo sensacional desenhado pelo italiano Paolo Eleuteri Serpieri são um espetáculo da nona arte safada, o estado-da-arte na putaria.

Porém, vendo esses álbuns de luxo vendidos livremente em livrarias e bancas especializadas a um preço nem sempre tão acessível à maioria da população que (sobre)vive de salário mínimo, lembrei dos bons tempos no qual quadrinhos “de sexo explícito” não tinha o status de arte respeitável, ao menos aqui no Brasil, e ser pego com um exemplar desses seria equivalente a ser apanhado por sua vizinha sexagenária e fofoqueira saindo de um cinema pornô no centro de São Paulo.E se fosse de menor, aí é que o bicho pegava. Mas independente disso, a juventude de muito marmanjo foi devidamente acalentada por quadrinhos pornográficos, a maioria considerada de gosto duvidoso e malvista por pais e defensores da moral. Entre fotonovelas pornográficas e revistas masculinas estilo “Playboy”, haviam os quadrinhos, alguns conhecidos por “catecismo”, geralmente com desenhos em preto e branco. E é desses quadrinhos, em especial, que me peguei lembrando há poucos dias. Não se aprendia a rezar com esses catecismos, e sim a ver e fazer coisas que até o capeta duvidaria.

O Nelson Rodrigues dos quadrinhos nacionais

Os “catecismos” surgiram no Rio de Janeiro pelos idos dos anos 50, de forma meio que clandestina, já que a censura que vigorava e que se manteve pelas décadas seguintes não via com bons olhos tamanha pouca-vergonha. Sim, era grande a safadeza, apesar do diminuto formato – um quarto de folha ofício. E o artista por trás desse atentado gráfico ao pudor assinava com o singelo pseudônimo de Carlos Zéfiro.mara_e_o_pintor.jpg

Apesar da fama adquirida ao longo dos anos, o traço em preto-e-branco de Carlos Zéfiro não era exatamente um primor. Ao contrário, era quase tosco, muitos decalcados de desenhos e poses alheios. E as tramas, argumentos e história também não eram um exemplo de excelência, com textos mal escritos e com erros grosseiros, por vezes. Mas ninguém queria entrar para a Academia Brasileira de Letras ou ser exposto no Louvre, e sim fornecer material (in)decente para os acólitos de Onã usarem em suas atividades manuais. Até porque dificilmente alguém colecionava ou guardava por muito tempo os exemplares, que viviam juntando mofo guardados sob colchões e eram lidos escondidos, normalmente na solidão do banheiro ou passando de mão em mão entre colegas. E seu público, predominantemente masculino e adolescente, não tinha muito do que reclamar, já que ali começava a descarregar a fúria de seus hormônios em ebulição e aprender alguns rudimentos da putaria, numa época que não se falava abertamente sobre tais assuntos.

E se a qualidade não era das melhores, a quantidade supria a demanda por novidades, já que Zéfiro produzia, em média, dois exemplares por semana. O esquema todo era praticamente artesanal, desde a confecção à distribuição. Nos exemplares não havia muitas informações sobre data de publicação, editora ou distribuidora (ir)responsáveis, por motivos óbvios, já que a polícia e os órgãos de censura se coçavam para descobrir quem produzia e espalhava a “palavra” de Carlos Zéfiro.Normalmente as histórias eram curtas, abordando temas mais cotidianos e explorando situações que culminam em uma boa trepada, sem maiores delongas, com títulos sacanas apelando para o duplo sentido. O argumento podia ser a viúva carente atrás de um consolo (por vezes de borracha, mesmo), a esposa infiel corneando o marido, que por sua vez revida na mesma moeda, a fogosa que espera o vizinho se embebedar para seduzi-lo, o sobrinho que passa a tia no rodo e a sua prima antes indignada, a ninfeta que pratica sexo anal pra manter a virgindade intacta, a ninfomaníaca sequestrada por bandidos e os seduz, e assim por diante. Havia também algumas coleções de perversões, como lesbianismo, sodomia, sexo entre freiras e padres e bestialismo. Tudo junto, por vezes.

Obviamente essa coleção de costumes reprováveis deixava autoridades, religiosos e bastiões da moralidade com úlcera duodenal. Se Nelson Rodrigues já escandalizava o público com suas peças de teatro recheadas de perversões e desejos reprimidos e os quadrinhos em geral já sofriam uma pressão para serem proibidos ou censurados sob o pretexto de deseducar a juventude, imaginem nesse contexto o que se pensava a respeito dos “catecismos”. A depender do juizado de menores e de certas figuras hidrofóbicas, todas as revistinhas deveriam ser queimadas em praça pública e o autor levado “aos costumes”. O curioso é que nesses anos todos o máximo que se conseguiu foi apreender algumas cargas das revistas ou interrogar alguns suspeitos, sem nunca se descobrir a verdadeira identidade de Zéfiro, o que gerava um sem-número de especulações acerca desse mistério . Incompetência dos órgãos oficiaisbarulhinhobom.jpg, engenhoso esquema clandestino de produção das revistas, conivência de alguns agentes que, na verdade, adoravam o material, ou um misto disso tudo?

Pra variar, quem descobriu a verdade foi um repórter, mas só em uma época mais tolerante com sacanagens e afins. Mais exatamente Juca Kfouri, atualmente comentarista esportivo e que no início dos anos 90 era editor da “Playboy” brazuca. Em um furo (epa!) de reportagem, Kfouri apresentava ao mundo o funcionário público aposentado e ocasional compositor de sambas Alcides Caminha como a identidade secreta por trás da máscara de Carlos Zéfiro. Por isso ele se agarrava ao anonimato com unhas e dentes, pois se viesse a público suas atividades paralelas ao seu ofício de escriturário na Alfândega ele certamente perderia o emprego e iria preso. Consta que nem sua esposa ou seus cinco filhos sabiam de suas atividades paralelas.

Mas não só adolescentes punheteiros liam os “catecismos”, já que alguns marmanjos adultos apreciavam o material, e na segunda metade dos anos 50 o Rio de Janeiro transformou Zéfiro em um fenômeno de popularidade. Estima-se que a obra de Zéfiro em torno de mais de 600 exemplares de “catecismos” ou suas coletâneas, conhecidas como “testamentos” e “bíblias”. Infelizmente Caminha pouco desfrutou de sua fama, pois enquanto anônimo o ofício sacana não lhe rendeu muito dinheiro, e viria a falecer poucos meses depois que sua identidade veio a público. Mas não faltam homenagens que lembram sua relevância na memória cultural e afetiva de muitos. Marisa Monte escolheu desenhos de seus catecismos para ilustrar a capa e o encarte do CD duplo “Barulhinho Bom”, de 1997. E em anos recentes a editora carioca A Cena Muda lançou alguns dos catecismos de Zéfiro, que podem ser encontrados em respeitáveis livrarias.

A Herança de Zéfiro

É óbvio que algo com tamanho apelo e retorno financeiro criaria escola. E diversos imitadores de Zéfiro viriam a surgir, e as editoras viam nas pequenas revistas pornográficas um filão com retorno garantido. Praticamente reaplicando a mesma fórmula consagrada por Zéfiro, diversos títulos abarrotaram as bancas nas décadas seguintes, inclusive quando Carlos Zéfiro se “aposentou” da “função”. Mais gerações viriam a conhecer diversos tipos de “catecismos” e suas variantes nos anos 70, 80 e 90. Certo que, à medida em que a censura se abrandava com o fim do regime militar, a atividade em si perdia um quê de sua clandestinidade, passando a ser distribuída de forma mais regular, e os novos catecismos e similares dividiam espaço com as fotonovelas eróticas e revistas de nu feminino como a “Playboy” e “Ele e Ela”. Porém sempre permaneceu sua proibição de venda para o seu maior público, os adolescentes, o que ainda trazia algum clima de contravenção à aventura de se ir à banca e convencer o “jornaleiro” a passar um exemplar, mesmo que escondido em uma sacolinha plástica ou em outra revista mais respeitável.zefiro.jpg

Além dos temas de sempre abordados por Zéfiro, também era comum uma abordagem mais leve e humorística do sexo. Também apareceram muitas paródias a personagens de desenhos e quadrinhos, como super-heróis ou personagens infantis, todos em posições comprometedoras, no melhor estilo “não é o que vocês estão pensando”. Muitos devem se lembrar do Popeye brochando com disfunção erétil apelando para o espinafre levantar seu pau moral, ou Cebolinha mostrando a Mônica a semelhança entre seu penteado e os pentelhos pelos pubianos, ou Fred Flintstone e seu vizinho Barney praticando um swing involuntário na idade da pedra. A qualidade gráfica melhorou também, com a disposição de mais opções de quadrinhos coloridos, principalmente a partir dos anos 90.

Alguns desenhistas se manteriam no anonimato, mas não era difícil algum desenhista “de respeito” fazer “um bico” em alguma publicação erótica ou pornográfica, e por isso vez por outra dava para achar uma pérola de história bem contada e desenhada no meio de pura e simples pornografia. Por exemplo, o hoje conhecido Mike Deodato Jr, que atendia pelo nome Deodato Filho e cujo estilo pré-Jim Lee era mais realista e baseado em fotografias ilustrou algumas histórias eróticas. Joe Bennett, quando assinava Bené Nascimento e ilustrava os excelentes argumentos do roteirista Gian Danton, é responsável por uma das mais bem escritas histórias eróticas nacionais que já li, que combinava temática de super-herói, sexo e uma certa profundidade psicológica dos personagens: “A Insólita Família Titã”, publicada nos anos 90 na linha erótica de quadrinhos da editora Nova Sampa.

Esse sub-gênero de quadrinhos eróticos não chegou a desaparecer, mas a variedade encontrada hoje nas bancas é mínima. Como os quadrinhos tradicionais perderam espaço para os mangá, hoje há uma variedade de hentais nas bancas. Não que não exista material erótico e pornográfico impresso, mas diante das opções disponíveis hoje em dia, dificilmente um adolescente precise apelar para obter quase que ilegalmente algum material para satisfazer seus instintos. Com a disposição de Internet, CD-ROM´s e televisão a cabo oferecendo erotismo e pornografia para todos os gostos e mídias, apelar para quadrinhos toscamente desenhados em preto-e-branco é só para alguns poucos excluídos digitais.

Mas se a Internet tornou obsoleta essa forma de “lazer”, o ciberespaço também ajuda a guardar e divulgar esse tipo de material, já que os scans de quadrinhos se popularizaram nos últimos anos, e não é difícil encontrar diversos títulos disponíveis para visualização ou download. Inclusive material antigo, do próprio Carlos Zéfiro. O colega blogueiro do Quadrideko mantém, entre seus empreendimentos virtuais, o quadrisexy, onde disponibiliza esse tipo de material para download. E procurando direitinho se encontra alguma coisa do Zéfiro. E a propósito, dois jornalistas mantém um site dedicado a Carlos Zéfiro, e inclusive prometem o lançamento de uma biografia desse ícone da sacanagem nacional. Além de informações, há alguns catecismos disponíveis para download. Algo digno de uma salva de palmas, caso uma de suas mãos não esteja ocupada…

 

 

 

 

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  • Moziel T.Monk: Vejo que esse “travamento” já alcançou proporção de ser classificado como síndrome....
  • Emilia Vaz: (Eu peço fiado,mas pago viu?) Não me acho uma escritora,mas eu juro que tento…rsrs É bom saber...
  • André: Adorei,sempre escutava essa filosofia do meu pai !!!!!!Branchu.
  • suzilene: caraca o coelhinho é´loco e tarado e lindinho*-* fiado e´bom de mais. 100% play boy
  • Vampira Dea: Ótimo blog e post, parabéns. Os caras eram burros mesmo rsrrs

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