Fim-de-semana perdido se despedindo em Las Vegas dos dias de vinho e rosas

Antes que os politicamente corretos acusem essa blodega de apologia ao alcoolismo, ofereço um brinde e um “fodam-se” grátis, já que o politicamente correto é uma das invenções mais escrotas depois do karaokê. Mas tirando as pilhérias, concordo que o alcoolismo é um problema sério e que deve ser abordado de forma responsável, mesmo que os potenciais e verdadeiros alcoólatras raramente admitirem o serem e ouvirem a respeito, o que torna o tema mais intragável do que cachaça barata. Mas se me pedirem para convencer alguém a parar de beber, eu acabarei chamando o elemento para um boteco, tentarei demovê-lo e acabaremos mais melados do que espinhaço de pão doce. Por isso, passo a palavra a Hollywood, que entende tanto de bebida quanto de fazer filmes. Bem, esqueçam esse último item. De toda forma, de vez em quando acertam, e seguem três filmes cujos DVD´s deveriam ser vendidos engarrafados.

A primeira lapadfarrapo.jpga: Farrapo Humano

Billy Wilder foi um diretor de ideias escrotas e bem executadas, o que se tratando de Hollywood é, até certo ponto, um milagre. E quando ele decidiu abordar o alcoolismo de forma séria e pesada em um filme, isso sim pareceu algo difícil e fadado ao fracasso comercial. Os bebuns dos filmes americanos até então eram ridículos e divertidos, no máximo. E os atores, diretores e roteiristas de Hollywood costumavam secar diariamente em cerveja, uísque e outros aperitivos o equivalente ao deslocamento do U.S.S Einsenhower. Isso num dia chato. Daí que o alcoolismo era, e de certa forma ainda é, um tema tabu.

Mas Wilder conseguiu convencer a Paramount a comprar os direitos do romance “The Lost Weekend”, de Charles Jackson, e ao lado do co-roteirista Charles Brackett, adaptou a história e conseguiu filma-la contra todas as expectativas -leia-se a indústria de bebidas (que acreditavam que iria afetar suas vendas), as ligas anti-bebidas (que achavam justamente o contrário) e os órgãos de auto-regulamentação do cinema, ainda seguidor do código Hays. Na época os fabricantes de água-que-passarinho-não-bebe cogitaram comprar o filme da produtora e destruí-lo, possibilidade que deve ter causado uma séria gastrite em Wilder. Mas tudo acabou dando certo, pois em 1945 o filme “Farrapo Humano” foi sucesso de crítica e público, além de ganhar quatro Oscars: ator, diretor, roteiro e filme, somente, consagrando Wilder como um grande artífice do cinema.

O então astro Ray Milland foi convocado para ser o protagonista Don Birnam, um escritor tentando escrever um romance que nunca chega ao papel, já que suas mãos estão por demais ocupadas segurando algum copo ao invés de castigarem o teclado da máquina de escrever. E como ele não a usava, mesmo, em certo momento do filme ele tenta empenha-la para conseguir uns trocados que lhe garantissem o próximo gole. A habilidade de Wilder como diretor, o próprio livro que originou o filme (cujo autor era alcoólatra) e a experiência do roteirista Charles Brackett em lidar com pudins de cachaça trouxeram credibilidade a história, que não resvalou em clichês fáceis do gênero. As cenas de delirium tremens de Birman vendo morcegos e ratos e a do pavilhão de alcoólatras no hospital deveriam ser suficientes para muitos evitarem o primeiro trago, já que como diz o barman do filme, um é pouco e cem não bastam.

Já o final pode, à primeira vista, indicar uma recuperação do protagonista. Porém ele é incerto, dúbio e inconclusivo, como Wilder mesmo confirmaria, e nada garante que o escritor tome vergonha na cara e resolva escrever se romance ao invés de se dedicar a acabar com o estoque de bebidas da cidade. O que não deixou de ser uma malandragem de Wilder para garantir alguma simpatia (e bilheteria) do público, que veria um final feliz onde havia apenas alguma ambiguidade, mas sem maiores concessões.

Cotação: quatro lapadas

Mais uma, Garçom!

Outro clássico da dipsomania cinematográfica é o filme de 1962, “Vício Maldito” (Days of Wine and Roses), que trouxe o casal Jack Lemmon e Lee Remick na tarefa de Sísifo de esvaziar as garrafas do mercado. O filme começa “zuzobem”, com Lemmon bem sucedido no trabaldaysofwine.jpgho misto de executivo e alcoviteiro, se casando com a bela secretária de um dos clientes e evoluindo em seu trampo. No começo era só uma dose com os colegas de trabalho e a esposa não bebia. Uma filha e duas piscinas olímpicas de bebidas depois, a vida de ambos começa a degringolar, pois a esposa também começa a beber, e até que ambos percebam que estão com um sério problema, o emprego, a casa, o casamento e o resto de dignidade de ambos desce pelo ralo.

Ao lado de “Farrapo Humano”, “Vício Maldito” se tornou um clássico do tema, e tem o trunfo de ter um ator superior e um final mais sombrio. Dessa vez baseado em um roteiro original, Blake Edwards contou com a consultoria dos Alcoólicos Anônimos. Apesar de que talvez nem precisasse, pois parecia que os principais envolvidos no filme, direta ou indiretamente, tinha um pé no boteco. O diretor, o protagonista e o roteirista J.P. Miller tiveram histórico de abuso da manguaça, porém devidamente recuperados. Johnny Mercer, autor da música-tema, “Days of Wine and Roses”, era alcoólatra assumido e seguiria impávido colosso em sua luta até morrer disso uns 13 anos depois. A propósito, o título original foi retirado de um poema inglês intitulado “Vitae suma brevis”, e seu autor, Ernest Dowson, morreria aos 33 anos, junto com o século XIX. Adivinhem de quê…

Cotação: cinco lapadas

Juro que é a saideira…

leavinglasvegas.jpgHollywood voltaria outras vezes ao tema, seja ele central ou periférico à trama. Mas como o público costuma preferir finais felizes, nada mais esperado do que um final redentor após um calvário servido em doses, sob o risco de resvalar no piegas e no sentimentalismo falso, uma mistura com mais potencial para ressaca do que Tequila com Vodca.

Um ótimo filme de safra mais (ou menos) recente é “Despedida em Las Vegas” (Leaving Las Vegas), dirigido em 1995 pelo diretor Mike Figgis. O início do filme já dá uma ideia clara do que espera o protagonista Ben Sanderson, vivido por Nicholas Cage, ao mostra-lo no supermercado enchendo o carrinho apenas com bebidas. Esse é profissional. Ou era, já que a história começa com ele sendo demitido, sem esposa ou filhos em cena, a não ser uma sutil referência a esse passado afogado em vermute. Logo após levar um pé na bunda do emprego de roteirista, ele decide chutar tudo pro alto e ir para Las Vegas gastar o que lhe resta até seu fígado virar gelatina.

Em sua jornada em busca da última saideira, ele conhece Sera (Elisabeth Shue), uma prostituta envolvida com um cafetão do leste europeu cheio de problemas (Julian Sands) e devendo até as cuecas a criminosos. Mas o drama do cafetão pouco ocupa a história, e logo Sera e Sanderson, esses dois belos exemplos de conduta, se conhecem e iniciam um relacionamento mais sério que as obrigações contratuais do michê. O que poderia ser um caminho de redenção para ambos em um roteiro mais açucarado e previsível é apenas um acidente casual, e nem mesmo o amor que praticam é suficiente para deter a espiral descendente dos personagens em termos de degradação física e moral. Há várias cenas que mostram os efeitos implacáveis da manguaça no corpo, como quando ele precisa de uma dose logo pela manhã para parar a tremedeira tempo suficiente para poder endossar o cheque de sua rescisão, ou a cena final. Ambos os protagonistas estão em ótima forma, inclusive Shue, antes conhecida como a personagem adolescente e bonitinha de filmes como “De Volta Para o Futuro”, surpreendeu como uma prostituta das ruas de Las Vegas, sem pudores ou adocicamentos estilo “Uma Linda Mulher”, que topa praticamente tudo, desde que não esporrem seus cabelos recém lavados.

Destaque para a trilha sonora jazzística, com os temas originais compostos e escutados pelo próprio diretor. Alguns standarts são executados corretamente por Sting, como “Angel Eyes”, “It´s a Lonesome Old Town” e “My One And Only Love”, se casando bem com vários momentos da história, como quando abre a porta para Sera após Sting sussurrar o verso “..and you appear in all your splendor…”.

Para um filme com um orçamento relativamente baixo, “Despedida…” se tornou um sucesso de público e crítica, e rendeu o Oscar de melhor ator para Nicholas Cage, que a partir daí se tornou um astro do primeiro time e mantém, desde então, sua presença quase constante em grandes produções. Já Elisabeth Shue ainda participou de alguns filmes blockbusters, todavia anda meio afastada das grandes produções nos anos mais recentes.

Mas quem realmente não aproveitou o sucesso foi o roteirista e autor do livro autobiográfico no qual se baseia o roteiro do filme, John O´Brien, que não teve a paciência de se matar na velocidade do álcool e se suicidou duas semanas após o início da produção do filme.

Cotação: três lapadas e meia, mas bem choradas

Compartilhe:
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • Live
  • MySpace
  • Technorati
  • Ueba
  • Dihitt
  • Rec6
  • Blogblogs
  • email
  • Tumblr
  • Twitter

Leave a Reply

Olha o Passaralho!
RSS
Nossa Filial no Tumbrl
Bate-Boca
  • Componentes Eletronicos: Olha gostei deste artigo. Show este site
  • Romeu Martins: Hehe, obrigado pela edição, Monk ;-) E parabéns de novo pela resenha.
  • Moziel T.Monk: E para quem quiser conferir mais do genero, começou ontem em SP uma mostra de Faroeste Espeguete no...
  • Filipe: Realmente Meu Nome é Ninguem é um clássico. O Western Spaghetti contém diversas pérolas como Um caixão...
  • Moziel T.Monk: Acho que a veterana Gisele inspirou muitos pais. Acredite, você é a quarta que escuto falar isso...
Balaio
Outras Bodegas
Todo dia é dia
agosto 2009
S T Q Q S S D
« jul   set »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  
Divulgue essa Blodega

Blodega do Moziel

Clientela



Cata-Corno
Agregadores
SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline