Archive for setembro 2009
Tomando no Butico, digo, boteco

“Mexeu com o meu bar mexeu comigo!”
O mais novo barraco da Internet atende pelo nome de “Boteco São Bento”. Se você esteve na Ilha de Lost nestes últimos dias ou tinha coisa mais importante e interessante a fazer, como ler um livro, por exemplo, não deve estara a par desse fato. Mas resumindo, um blog intitulado Resenha em 6, que se propõe a avaliar desde filmes a botecos de forma rápida e irreverente, desceu a lenha em um estabelecimento de São Paulo, sendo a frase mais gentil “pior bar do Sistema Solar”. Nada demais, ao menos até alguém tomar as dores do muquifo nos comentários e em tom ameaçador, o que causou uma explosão de comentários e acessos ao blog, que deve ter multiplicado por 20 suas visitas. Cá entre nós, uma grande besteira. Tio Xiko vive reclamando do bar do Moacir na cara do proprio, e este só faz resmungar, no máximo, antes de servir a proxima cerveja.
Há alguns anos fiz um texto para o antigo site do Tio Xiko, o Crazymann, quando o imprensa marrom foi processado devido a um comentário de um leitor. Na época também foi publicado pelo Observatório da Imprensa um interessante guia jurídico para blogueiros, o qual acredito que ainda esteja valendo. De lá para cá já ocorreram muitos outros casos de medidas jurídicas contra blogueiros, como a família Sarney contra o movimento “Xô, Sarney” nas eleições de 2006. E é aos Sarney que os donos do Boteco estão sendo comparados pelos comentários, aludindo o fato mais recente de um filho do senador ter entrado com ação contra o jornal “O Estado de São Paulo” proibindo-o de veicular notícias sobre os escândalos alusivos ao clã maranhense.
E o fato já chegou a imprensa, pois advogados representando o Bar entraram com medidas jurídicas para a retirada do post e dos comentários dos supostos administradores e funcionários, pois alegam que tais comentários são falsos. E os administradores do Resenha em 6, por uma questão de bom senso até, preferiram não comprar a briga e acataram o pedido. Particularmente não os recrimino, pois uma ação judicial é cara e desgastante, e até que ponto vale a pena encarar isso, por mais certo que se esteja. Mas não deixa de ser um tiro no pé por parte dos administradores do estabelecimento, pois não obstante os donos do blog acatarem o pedido, outros blogs estão reproduzindo o texto, e uma mera busca no google mostrará inúmeras páginas se referindo ao fato. Inclusive blogs bem visitados e conceituados, como o Contraditorium, do Carlos Cardoso. Ou um blog criado exclusivamente para republicar a postagem. E além do mais os outros comentários permanecem, e até o momento já passaram de mil, a maioria reclamando de chope quente, caro e empurrado para os clientes. Não sei se isso terá alguma repercussão relevante ao ponto de afetar o movimento do Bar e servirá de tese para publicitários e acessores de imprensa comentarem sobre o impacto das novas mídias com coisas do tipo “10 atitudes a NÃO tomar quando seu cliente falar que seu atendimento é uma bosta”. Ou se será mais um daqueles assuntos que agitam o Twitter por dias e logo depois é esquecido, como os superpoderes priápicos de José Mayer, as limitações gramaticas da filha de Xuxa e as aventuras de Belchior na Tonga da Mironga do Kabuletê. Ao menos no momento a blogosfera e a twitterlândia só falam nisso. Só espero que isso não vá parar no Guia do Mochileiro das Galáxias , sob o risco de alguma raça alienígena querer explodir a Terra para eliminar essa ameaça.
A minha parte vou fazer é não pisando nem na calçada do estabelecimento. Depois de tanta recomendação negativa, acho que vou procurar um boteco de verdade, com direito a balconista om pano sujo no ombro, ovos coloridos na estufa e cerveja servida em copos americanos. E acho que farei isso agora. Com licença.
Poesias de Boteco – Parte 1

Mesa de Bar - João Werner - Foto Digital
Quando sentamos para tomar uma, as conversas vão longe, e geralmente recaem sobre a porcaria da política, ou o último assunto da moda. No meu caso, procuro sempre molhar o bico, e todo o resto do sistema digestivo, regado a cervejas (litrão, já tomou?) e a uma boa conversa de boteco, que quase sempre, são sobre estórias do interior ou ainda poesias populares do qual eu dou um extremo valor.
Agora peguei a manha de gravar essas poesias declamadas em mesa de bar para que não fiquem perdidas num esquecimento profundo causado pelo álcool. Com um velho celular sobre a mesa pego algumas dessas piadas, poesias, prosas, contos e causos e os gravo, numa qualidade ruim de lascar, mas que dá pra transcrever. Agora com algumas na mão, resolvi colocá-las na Blodega e compartilhar com vocês, em doses homeopáticas, pois sei que não é a mesma graça e emoção que elas tem quando são declamadas após alguns copos. Para tentar contornar esse problema, vai uma dica: leiam embreagados!
A que se segue é de um poeta desconhecido do interior da Paraíba, cujo o declamador melado não lembrou o nome. Lembrou apenas que ele era o barbeiro de uma cidade pequena, e descobrindo que tinha uma doença que fatalmente o levaria a morte escreveu:
Sou um vivo semimorto no leito da desventura
Meu remédio é amargura e a tristeza é meu conforto
Remando o barco pro porto da esperança perdida
E a matéria convencida desiludida da sorte
Só esperando que a morte parta a corrente da vida
De viver tenho vontade, me esforço, luto e pelejo
Mas olho atrás e não vejo os dias da mocidade
Ja descambei da metade estou chegando ao fim
Nada pra mim é ruim, nem a saudade me afronta
E brevemente tira a conta dos dias que faltam a mim
De acordo com o declamador, que em outra oportunidade falarei mais sobre ele, quando era menino escutava isso do seu pai, que sempre se lembrava do velho barbeiro. Se alguém souber a autoria dos versos ou tiver algo a acrescentar fique a vontade em comentar.
Estou gravando mais coisas, e com certeza voltarei a postar tudo que for interessante, pois conversa de bebo também é cultura.
Manual do Escoteiro Mirim x O Guia do Mochileiro das Galáxias

Para a geração atual que elevou o google à condição de oráculo universal, anos, quiçá décadas antes, já havia algo que funcionava tão bem quanto o google para se descobrir como se pede um caldo de cana em aramaico ou para saber o caminho mais curto para Alpha Centauri. Estamos falando de dois livros fantásticos da cultura popular. Um deles é o “Manual do Escoteiro Mirim”, sempre presente nas mochilas de Huguinho, Zezinho e Luizinho, e o outro é o “Guia do Mochileiro das Galáxias”, ferramenta deveras útil que dá título a série de livros de Douglas Adams que narra as aventuras e desventuras do último terráqueo, Arthur Dent. Esqueçam o Google. Mas qual é o melhor dos dois? Vamos a um breve comparativo…
Para quem leu as clássicas histórias do Tio Patinhas escritas por Carl Barks, sabe que a maioria das buscas do velho pão-duro em busca de tesouros escondidos em cidades perdidas no meio do nada se originaram de alguma informação contida naquele livrinho carregado por Huguinho, Zezinho e Luizinho. E de tão alegre, o pão-duro Tio Patinhas sempre dobrava sua contribuição anual aos Escoteiros. Mas como o dobro de nada continua nada…
E quando a aventura propriamente dita começa, a família Pato sempre se mete em enrascada. Como eles não são parentes de Jack Bauer, não apelam para a violência, senão os Metralhas estariam mortos desde os anos 50. Sempre utilizando de saídas inteligentes e engenhosas, os sobrinhos de Donald apelam para o pequeno livro quando todos estão metidos em algum rabo-de-foguete. E praticamente em todas as situações o livrinho tem uma resposta útil, seja para encontrar alguma passagem secreta em algum castelo em ruínas, aprender a pilotar naves extraterrestres ou saber qual a dieta mais indicada para unicórnios. E (quase) sempre o Tio Patinhas enche os cornos de ouro e os escoteiros colecionam mais medalhas de honra ao mérito.
Segundo as lendas de Patópolis (não confundir com Patos, na PB), esse livro foi escrito originalmente pelos guardiões da Biblioteca de Alexandria e descoberto pelo fundador da cidade, Cornelius Pato, cujo filho teria fundado os Escoteiros-Mirins para protegerem este livro. Nesses tempos em que o Universo Disney está prestes a se fundir com o Universo Marvel, talvez venhamos a saber se o Manual dos Escoteiros também conterá informações definitivas sobre o passado de Wolverine, de como reconhecer um Skrull disfarçado de herói ou saber como o Surfista Prateado satisfaz suas necessidades fisiológicas… A dúvida é saber como diacho cabe tanta informação em um livrinho do tamanho daqueles livros “Sabrina”…
Ao menos esse não é o problema de nosso outro livro, o “Guia do Mochileiro das Galáxias”, já que ele é um dispositivo eletrônico multimídia em forma de livro e é constantemente atualizado, sendo o companheiro de aventuras de Arthur Dent e Ford Prefect pelos locais mais estranhos do universo. Se o lema dos escoteiros é “sempre alerta!”, a frase estampada na capa do guia é “Não Entre em Pânico”, mesmo que você esteja flutuando no vácuo sem proteção alguma ou que seu planeta natal seja obliterado em minutos. O “Guia do Mochileiro das Galáxias” é o mais famoso repositório de conhecimento universal, superando em vendas a “Enciclopédia Galática”, até porque é bem mais barata, e é um dos livros mais vendidos da galáxia, superando outros tomos úteis como “A Enciclopédia Celestial do Lar” e “Mais 53 Coisas Para se Fazer em gravidade Zero”, contendo o conhecimento coletado por diversos “mochileiros” espalhados pelo universo afora, que prestam serviço para a Companhia Cibernética Sírius, aquela composta por “um monte de babacas que serão os primeiros a irem para o paredão quando a revolução estourar”. E um desses mochileiros é o filho do planeta Betelgeuse, Ford Prefect, que só conseguiu uma carona para escapar da Terra pouco antes dessa ter sido removida do Universo para dar passagem de uma via expressa hiperespacial. Outro conselho utilíssimo desse guia é o de sempre portar uma toalha, objeto de muita utilidade para qualquer mochileiro, e a única coisa que você precisará quando o universo der tilte. Além de informar a respeito de milhões de planetas e plagas inter-espaciais, traz dicas muito relevantes, como a receita do famoso drinque chamado Dinamite Pangalática a partir de aguardente Janx, bem como do endereço completo das ONGs que lhe ajudarão a se recuperar da ressaca. Também dá para descobrir locais interessantes, como o Restaurante no Fim do Universo. Só não tem a resposta para a pergunta fundamental sobre a vida, o universo e tudo o mais. Aliás, nem a pergunta, já que todo mundo sabe que a resposta é “42″, mas não se sabe exatamente qual a pergunta correta…
Ironicamente, as edições mais antigas do “Guia…” não trazem muitas informações sobre a Terra, sendo seu maior ponto fraco. Aliás, a única informação disponível por muito tempo sobre o planeta azul se resumia a palavra “inofensiva”. Após uma atualização do guia, a informação se tornou mais completa: “praticamente inofensiva”. Elucidador pra cacete…
Mas um defeito em ambos os guias é a ausência de referências ou maneiras de se encontrar um puteiro em cidadezinhas do interior, algo deveras útil para alguns mochileiros e eventuais turistas acidentais. No caso do “guia…”, talvez até ajude nesse quesito, desde que você queira putas com três seios em algum cafundó do outro lado da galáxia de Andrômeda. E o “manual do Escoteiro…” nem pensar, senão seria “manual do escroteiro”. No máximo pode indicar algum tesouro escondido nas ruínas da Casa da Mãe Joana, em Avignon
Mas para isso você não precisa nem de um nem de outro. Mesmo que não seja uma informação que seja divulgada nos classificados do jornalzinho ou difusora da cidade, dá pra descobrir sem maiores dificuldades. Mas também pega mal sair perguntando aonde as putas trabalham pro primeiro transeunte da cidade. O método infalível para se descobrir discretamente a localização da “casa de favores” em qualquer cidadezinha é simples e rápido: passeie descompromissadamente pela cidade até encontrar o padre da paróquia. Puxe conversa, e sem mais nem menos, pergunte onde fica a igreja, informação a qual ele responderá prontamente. Aí complete:
- Ah, então a igreja fica perto da rua do cabaré?
- Nããão! O cabaré fica do outro lado da praça, na primeira rua à esquerda.
- Obrigado, padre!
Isso nunca falha.
Os Eleitos

“Estão rindo porque ainda não sabem a respeito do termômetro retal…”
Neste ano que se comemorou os quarenta anos do pouso da Apolo XI no Mar da Tranquilidade, coincidentemente um livro que conta como tudo isso começou completou trinta anos de seu lançamento: “Os Eleitos”, do renomado jornalista Tom Wolfe.
I Remember Clifford

Senhoras e senhores, andei colaborando com o colega de ofício Lucas Colombo e enviei-lhe um texto sobre o trompetista Clifford Brown. Nunca ouviu falar? Então vá lá no Mínimo Múltiplo e descubra, oras! All That Jazz!
Rapadura, Jabá e Superstição

Para quem é chegado a números cabalísticos, o 13 pode ser prenúncio de mau agouro, de urubus dando rasante na nossa sorte. Mas incorpore o espírito de Zagallo e baixem o mais novo número do FARRAZINE, cortesia aqui da Blodega. nos sabores Versão PDF, Varsão RAR ou leitura on-line. Críticas, elogios, declarações de amor ou doações de dinheiro direto com os culpados responsáveis (bem, doações em dinheiro também são bem-vindas neste balcão).
O porquê de ter desistido da física

Sobre física quântica e a ciência de ouvir impropérios
Nota do blodegueiro: Li há alguns dias esse artigo no Nerd somos Nozes e lembrei de que havia escrito algo sobre o tema há algum tempo para o velho Busilis. Enquanto eu aprendo a adestrar pinguins (e espero uma Internet decente) aqui vai mais uma reprise. Inté!
Junto com muitos de minha geração, fui profundamente influenciado pelo finado Carl Sagan e sua série de divulgação científica chamada “Cosmos”, que foi relançada em DVD há alguns anos. Na minha juventude, claro que tive sonhos românticos de me tornar um cientista e salvar o mundo a partir de um laboratório. Claro que isso mudou quando descobri que, no Brasil, quem vive de ciência está normalmente a um passo da fome.
Mas o mal estava feito, e me meti na área de exatas. Houve, claro, um período que me desentendi com os números e me enveredei pelas veredas da área de humanas. Mas isso é assunto para outro texto, e me conciliei com as ciências exatas. E ao concluir um curso desta área, o fascínio pelas ciências exatas voltou, e me inclinei a estudar seriamente física, além do conhecimento aplicável a minha área, devido ao fascínio inerente a obtenção de conhecimento nessa área. Mas acabei desistindo de uma jornada mais profunda. Mas por uma causa menos óbvia.
Desisti da Física simplesmente porque, se você tenta enveredar pela Física Quântica, acaba se envolvendo em mal entendidos e nunca é compreendido. Aliás, compreender a Física Quântica em sua totalidade é coisa para uns cinco homens de todo o planeta. A gente pode, se muito, tentar entender algumas analogias. O que já é algo bem complicado, já que os conceitos mais caros à mecânica quântica tiram um sarro contra o senso comum e a lógica normal das coisas. Princípio de Incerteza, Teoria da Superposição e Gato de Schrödinger são coisas que entortariam o raciocínio de qualquer cidadão razoavelmente informado. Aliás, pronunciar Schrödinger já é tarefa muito da estranha.
Vou citar apenas um exemplo. Uma das características de algumas partículas é que elas podem assumir simultaneamente dois estados. A alegoria do gato de Schincariol Schrödinger seria enfiar um gato dentro de um caixote com um dispositivo ligado a uma cápsula de veneno, que pode ser acionada a qualquer momento. Enquanto a caixa está fechada, não se pode definir se o gato está vivo (e mandando os físicos à merda) ou se já foi dessa para melhor. Pelo raciocínio da mecânica quântica, assume-se que o gato está vivo E morto, simultaneamente, devido a esta incerteza de seu estado, e da impossibilidade de se definir o estado sem interferir no mesmo. Lindo, não? Não é George Romero, mas gatos mortos-vivos atormentam muitos estudantes de física. E o pior é que este raciocínio funciona, pelo menos é o que dizem.
O grande problema é que, sempre que eu vou explicar a Teoria da Superposição ou exemplificar com a alegoria do gato de Schupaquiédiuva Schrödinger, eu praticamente escuto a mesma coisa de meus interlocutores:
- Vai te foder, Moziel! Que porra é essa?
Isso aconteceu quando elaborava uma breve apresentação sobre criptografia que envolvia a menção de computação quântica, que utiliza a Teoria da Superposição para sua lógica binária. Claro que, ao tentar mostrar como um computador quântico teórico funcionaria com bits que seriam 0 e 1 simultaneamente, ouvi o sonoro “Vai te foder, Moziel! Que porra é essa?”. Pior é quando eu exponho a teoria alternativa, que é a dos múltiplos universos paralelos, onde a partícula de outro universo acabaria interferindo na partícula deste universo. Aí eu escutava um “Vai tomar no cu, cacete!”. Haja incredulidade, oras!
Por estas e outras que desisti de me enveredar nesse universo numa casca de noz. Vou ter que me contentar com a boa e velha física clássica de Newton. Pelo menos é mais fácil explicar como uma jaca acaba caindo na cabeça de algum desavisado do que tentar descobrir por que existem exatamente três gerações de quarks e léptons. Como diriam a mim, vai te foder, cazzo!
O Universo em Desencanto do Síndico

O melhor e menos conhecido trabalho de Tim Maia
Se James Brown era o Papa do Soul, Tim Maia foi nosso maior arcebispo da black music aqui no Brasil. Inicialmente flertando com o que viria a ser a Jovem Guarda, Tim Maia passara um período nos States e volta impregnado com o vírus da black music americana, que seria o foco de sua carreira, carreira esta marcada por altos e baixos, muito em parte devido a seus problemas com drogas e a fama de desmarcar apresentações em cima da hora. Pouco antes de morrer, em 1998, Tim Maia voltou a cair nas graças do sucesso, foi regravado por Marisa Monte e Paralamas do Sucesso, e muitos tem na ponta da língua seus maiores sucessos, como “Você”, “Me Dê Motivos”, “Do Leme ao Pontal” e “Primavera”.
Mas o público em geral desconhece uma fase do cantor que seus fãs mais ardorosos decretam como sua melhor. Em parte por culpa do próprio Tim Maia, que fez de tudo para apagar isso de sua biografia. E o que diabos o levaria a omitir do público o que poderia ser sua melhor obra? Não parece muito racional.
Mas, com perdão do trocadilho, é racional, já que foi a época em que o cantor abraçou a filosofia dita Racional da seita Universo em Desencanto, um emboglio filosófico que mistura misticismo, candomblé e ufologia, fundada por Manoel Jacinto Coelho. Tim Maia, famoso por costumeiramente enfiar o pé na jaca, surpreendeu quando, no meio dos anos 70, resolve entrar de cabeça na filosofia racional, dando um tempo em seus excessos. Entre 75 e 76 Tim Maia se livra da maioria dos seus bens, passa a se vestir de branco, convence seus músicos a acompanhá-lo na empreitada, que até pintam seus instrumentos de branco e funda a gravadora Seroma, um acrônimo de seu nome, Sebastião Rodrigues Maia. E foi em sua primeira incursão pelo mercado de disco independente que Tim Maia grava e produz seus dois LP´s “Tim Maia Racional”.
Quando lançados, é óbvio que os fãs tradicionais não entenderam porra nenhuma. Só a música “Imunidade Racional” do volume 1 tocou bem nas rádios e a divulgação do disco foi amadorística, praticamente no boca a boca Os discos não venderam muito e apresentações ao vivo eram, em sua maioria, para divulgar o Universo em Desencanto, diversas vezes executadas em eventos da seita e sem fins lucrativos.
Mas Tim Maia não durou muito na seita, já que suas expectativas de transcendência cósmica, ou seja lá o que diacho ele esperava disso, não se concretizaram, e ele ficou a ver navios, já que necas de discos voadores. Tim rompeu com Manoel Jacinto, a quem antes cantara como “o maior homem do mundo, homem sábio e profundo” na faixa “O Grão Mestre Varonil”, e voltou com força total ao antigo estilo de vida. Após o desencanto com o Desencanto, os dois discos dessa época viraram assunto proibido para o velho síndico. Ele simplesmente renegava aqueles meses místicos. Relançar os discos, nem pensar, e a idéia de alguém regravar suas músicas desses discos também não era bem vista por ele, que se esquivava de eventuais propostas. Gal ainda conseguiu regravar “Imunidade Racional”, de longe a música que menos cita a seita em sua letra, no disco “Aquele Frevo Axé”.
Tudo isso deu uma aura quase lendária a esses discos, e para obter um LP original só disputando à tapa os raros exemplares em sebos, que poderiam chegar à casa dos quatro dígitos, a depender do estado de conservação. Bem produzidas cópias piratas em CD foram lançadas em São Paulo, e nos anos recentes versões em MP3 se espalharam pela rede.
Mas o interesse em torno desses discos é mais do que simples curiosidade bizarra. Como um recém convertido, Tim Maia usou de proselitismo nas letras de suas músicas nessa fase, divulgando a filosofia Racional e convocando os potenciais fiéis a lerem o livro “Universo em Desencanto”. Mas longe da chatice típica dessa abordagem, as músicas são excelentes exemplos do melhor da black music, desde que se ignorem os apelos do velho síndico a ler o tal livro. Na verdade os arranjos foram executados e gravados antes de Tim Maia se “racionalizar”, e as letras originalmente compostas para o trabalho foram modificadas para passar a mensagem racional. Os músicos estavam em estado de graça, e a voz de Tim perfeita, muito provavelmente devido a sua momentânea abstinência. Há músicas à capela e algumas com letras em inglês, mas a maioria é acompanhada pela sua banda. Há ótimas músicas, como “Imunização Racional (Que Beleza)” e “Bom Senso”. Os seguidores do soul, funk e black music tem nessa fase um referencial enorme. Para ter uma idéia da idolatria, os Rappers Racionais MC´s creditam o nome da banda a esses discos, além de samplearem músicas do dito. Basta comparar a introdução de “Ela Partiu” com a de “Homem na Estrada”. Marcelo D2 também sampleou Tim Maia em seu disco “Eu Tiro é Onda”, e a música “O Caminho do Bem” fez parte da trilha sonora do filme “Cidade de Deus”.
Mas isso nunca convenceu Tim Maia a relançar essa parte de sua obra. E mesmo depois de morto, parte de seu legado esteve sob disputa judicial entre herdeiros, o que atrasou um eventual lançamento em CD. Essa situação só veio se definir em 2005, e o filho Carmelo Maia, que por coincidência nasceu na época Racional de Tim, liberou o relançamento. O primeiro disco “Tim Maia Racional” foi lançado em CD em Abril de 2006 pela gravadora Trama, que precisou recuperar a gravação a partir de LP´s, já que não dispunham das matrizes originais. Finalmente o grande público teve fácil acesso a esse período da vida artística de Tim Maia.
Manda Lascar Severino Portões

Nestes dias a pobre Blodega andou às moscas por culpa de uma invasão de pinguins aqui nesse balcão virtual. Literalmente tudo foi tomado de assalto por essas pestes, que me obrigaram a me manter ausente e a ingerir hectolitros de cerveja, rom e vodca enquanto barbarizaram as configurações de meu computador.
Resumindo, fui forçado a entrar no mundo do software livre por um compadre de longa data que invadiu visitou minha casa nestes últimos dias, e que tem algo bastante pessoal contra o velho Severino Portões e sua fábrica de janelas. O bom é que não precisarei desembolar uma grana violenta para atualizar sistema operacional e outros aplicativos. O ruim é reaprender a utilizar os equivalentes gratuitos de uma pá de aplicativos com os quais estava habituado a trabalhar. Inclusive o Zoundry, que acabei de conhecer, mas que só roda em Windows. Bem, tem como fazer uma gambiarra para rodá-lo na Antártida no Linux
Ao menos fiquei com a promessa de mais um colaborador para esta blodega. Vamos ver se ele se lembra da promessa – e das idéias -após se recuperar da ressaca.
E, como de praxe, voltemos a programação normal dessa Blodega. Ou o que mais se aproximar desse conceito.
Maria Rita: É samba, ô meu!
Estava vendo por acaso que a Som Livre lançou na sua linha de coletâneas “Perfil” um dedicado à Maria Rita, um picadinho dos seus 3 discos dessa relativa curta carreira. Desde os tempos que estava perdido na Ilha de Lost (assunto ao qual devo voltar em breve) que estava devendo um comentário sobre essa moça, e aproveito o pretexto para por esta fatura em dia.
Se Ligue na Blodega!