O Universo em Desencanto do Síndico

O melhor e menos conhecido trabalho de Tim Maia
Se James Brown era o Papa do Soul, Tim Maia foi nosso maior arcebispo da black music aqui no Brasil. Inicialmente flertando com o que viria a ser a Jovem Guarda, Tim Maia passara um período nos States e volta impregnado com o vírus da black music americana, que seria o foco de sua carreira, carreira esta marcada por altos e baixos, muito em parte devido a seus problemas com drogas e a fama de desmarcar apresentações em cima da hora. Pouco antes de morrer, em 1998, Tim Maia voltou a cair nas graças do sucesso, foi regravado por Marisa Monte e Paralamas do Sucesso, e muitos tem na ponta da língua seus maiores sucessos, como “Você”, “Me Dê Motivos”, “Do Leme ao Pontal” e “Primavera”.
Mas o público em geral desconhece uma fase do cantor que seus fãs mais ardorosos decretam como sua melhor. Em parte por culpa do próprio Tim Maia, que fez de tudo para apagar isso de sua biografia. E o que diabos o levaria a omitir do público o que poderia ser sua melhor obra? Não parece muito racional.
Mas, com perdão do trocadilho, é racional, já que foi a época em que o cantor abraçou a filosofia dita Racional da seita Universo em Desencanto, um emboglio filosófico que mistura misticismo, candomblé e ufologia, fundada por Manoel Jacinto Coelho. Tim Maia, famoso por costumeiramente enfiar o pé na jaca, surpreendeu quando, no meio dos anos 70, resolve entrar de cabeça na filosofia racional, dando um tempo em seus excessos. Entre 75 e 76 Tim Maia se livra da maioria dos seus bens, passa a se vestir de branco, convence seus músicos a acompanhá-lo na empreitada, que até pintam seus instrumentos de branco e funda a gravadora Seroma, um acrônimo de seu nome, Sebastião Rodrigues Maia. E foi em sua primeira incursão pelo mercado de disco independente que Tim Maia grava e produz seus dois LP´s “Tim Maia Racional”.
Quando lançados, é óbvio que os fãs tradicionais não entenderam porra nenhuma. Só a música “Imunidade Racional” do volume 1 tocou bem nas rádios e a divulgação do disco foi amadorística, praticamente no boca a boca Os discos não venderam muito e apresentações ao vivo eram, em sua maioria, para divulgar o Universo em Desencanto, diversas vezes executadas em eventos da seita e sem fins lucrativos.
Mas Tim Maia não durou muito na seita, já que suas expectativas de transcendência cósmica, ou seja lá o que diacho ele esperava disso, não se concretizaram, e ele ficou a ver navios, já que necas de discos voadores. Tim rompeu com Manoel Jacinto, a quem antes cantara como “o maior homem do mundo, homem sábio e profundo” na faixa “O Grão Mestre Varonil”, e voltou com força total ao antigo estilo de vida. Após o desencanto com o Desencanto, os dois discos dessa época viraram assunto proibido para o velho síndico. Ele simplesmente renegava aqueles meses místicos. Relançar os discos, nem pensar, e a idéia de alguém regravar suas músicas desses discos também não era bem vista por ele, que se esquivava de eventuais propostas. Gal ainda conseguiu regravar “Imunidade Racional”, de longe a música que menos cita a seita em sua letra, no disco “Aquele Frevo Axé”.
Tudo isso deu uma aura quase lendária a esses discos, e para obter um LP original só disputando à tapa os raros exemplares em sebos, que poderiam chegar à casa dos quatro dígitos, a depender do estado de conservação. Bem produzidas cópias piratas em CD foram lançadas em São Paulo, e nos anos recentes versões em MP3 se espalharam pela rede.
Mas o interesse em torno desses discos é mais do que simples curiosidade bizarra. Como um recém convertido, Tim Maia usou de proselitismo nas letras de suas músicas nessa fase, divulgando a filosofia Racional e convocando os potenciais fiéis a lerem o livro “Universo em Desencanto”. Mas longe da chatice típica dessa abordagem, as músicas são excelentes exemplos do melhor da black music, desde que se ignorem os apelos do velho síndico a ler o tal livro. Na verdade os arranjos foram executados e gravados antes de Tim Maia se “racionalizar”, e as letras originalmente compostas para o trabalho foram modificadas para passar a mensagem racional. Os músicos estavam em estado de graça, e a voz de Tim perfeita, muito provavelmente devido a sua momentânea abstinência. Há músicas à capela e algumas com letras em inglês, mas a maioria é acompanhada pela sua banda. Há ótimas músicas, como “Imunização Racional (Que Beleza)” e “Bom Senso”. Os seguidores do soul, funk e black music tem nessa fase um referencial enorme. Para ter uma idéia da idolatria, os Rappers Racionais MC´s creditam o nome da banda a esses discos, além de samplearem músicas do dito. Basta comparar a introdução de “Ela Partiu” com a de “Homem na Estrada”. Marcelo D2 também sampleou Tim Maia em seu disco “Eu Tiro é Onda”, e a música “O Caminho do Bem” fez parte da trilha sonora do filme “Cidade de Deus”.
Mas isso nunca convenceu Tim Maia a relançar essa parte de sua obra. E mesmo depois de morto, parte de seu legado esteve sob disputa judicial entre herdeiros, o que atrasou um eventual lançamento em CD. Essa situação só veio se definir em 2005, e o filho Carmelo Maia, que por coincidência nasceu na época Racional de Tim, liberou o relançamento. O primeiro disco “Tim Maia Racional” foi lançado em CD em Abril de 2006 pela gravadora Trama, que precisou recuperar a gravação a partir de LP´s, já que não dispunham das matrizes originais. Finalmente o grande público teve fácil acesso a esse período da vida artística de Tim Maia.
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Adorei esse site, falando bem ou mal da CULTURA RACIONAL, está divulgando, porque no final da história queira ou não queira todos vão ler esse livro e quem não quiser de verdade está perdido, infeliz daqueles que estiverem com má intenção porque estão traindo a sí próprios, porque quem fala errado de uma coisa que não conhece verdadeiramente está traindo a sí próprio.Parabéns! Pelo site.