Os Eleitos

“Estão rindo porque ainda não sabem a respeito do termômetro retal…”
Neste ano que se comemorou os quarenta anos do pouso da Apolo XI no Mar da Tranquilidade, coincidentemente um livro que conta como tudo isso começou completou trinta anos de seu lançamento: “Os Eleitos”, do renomado jornalista Tom Wolfe.
Tom Wolfe foi um dos artífices do chamado “Novo Jornalismo”, cujo conceito pode ser sintetizado em dar uma forma de romance a narrativas jornalísticas, fugindo a mera e fria descrição dos fatos e utilizando de recursos que causariam ganas homicidas em qualquer profissional de copidesque ou editores caretas, como o uso de onomatopeias, emprego nada convencional de pontuação (como por vários sinais de exclamação ao fim da frase), fina ironia e humor. Sua bibliografia inclui doze livros de não-ficção e três romances, entre eles o seu mais famoso livro e considerado a síntese do zeitgeist oitentista americano: “A Fogueira das Vaidades”.
Entre seus livros de não-ficção um interessa em especial àqueles que apreciam assuntos ligados à aviação militar, como este que vos fala: “Os Eleitos”, de 1979, o qual só tive oportunidade de ler recentemente. Baseado em livros, documentos oficiais e depoimentos das pessoas envolvidas, Tom Wolfe recria os primeiros anos do programa espacial americano, que iniciou sob o governo Eisenhower com o intuito de por um americano em órbita, mas que tomou novos ares com Kennedy, que prometeu pôr um americano na Lua antes do fim dos anos 60. O título original é “The Right Stuff”, que poderia ser traduzido livremente como “a ‘coisa’ certa”, sendo essa “coisa” aquele algo difícil de definir, misto de fibra, coragem e habilidade, que seria a condição sine qua non que diferenciaria os pilotos de caça dos seus pares, aquilo que os tornava especiais e adequados as suas missões quase suicidas.
A narrativa começa apresentando as condições perigosas dos pilotos americanos da primeira geração de jatos de combate e a realidade pouco lisonjeira do grande número de acidentes aos quais estavam sujeitos, principalmente sob o ponto de vista das esposas dos oficiais envolvidos nos testes de tais “esquifes voadores” ou “fazedores de viúvas”. Nesse ponto Wolfe utiliza um recurso interessante de repetir praticamente o mesmo texto para descrever os sucessivos acidentes fatais dos colegas do piloto Pete Conrad e o ritual que os segue, incluindo a ansiedade das esposas, o cerimonial funerário e a reação quase indiferente dos colegas para realçar a situação das companheiras dos pilotos, o que servirá posteriormente para melhor ilustrar a situação das esposas dos futuros astronautas. Em seguida mostra a rotina da base de Edwards, no deserto californiano, onde os protótipos de alto desempenho da Força Aérea eram testados, e onde Chuck Yeager quebrou a barreira do som em voo nivelado a bordo do avião-foguete Bell X-1, tornando-se um lendário e respeitável membro da irmandade dos pilotos e estabelecido na posição mais alta da hierarquia não oficial dessa trupe, que alternava seus voos ousados com a rotina de bebedeiras no bar de Pancho Barnes e rachas de carros.
Tudo isso serve de introdução e contraponto para ilustrar o início do programa espacial americano, que foi moldado às pressas diante do trinfo soviético em por o Sputnik em órbita em outubro de 1957, antes do satélite americano, que só riscaria os céus no ano seguinte. No auge da Guerra Fria, a superioridade soviética parecia ameaçar a hegemonia americana e a própria sobrevivência da democracia, e para fazer frente a esta “ameaça”, o governo americano cria uma agência civil com a incumbência de despachar um americano ao espaço o quanto antes, a despeito dos projetos e planos mais elaborados da Força Aérea em construir uma espaçonave, mas que levariam mais tempo para se concretizarem. Daí surgiu a NACA (depois NASA) e o projeto Mercury.
O que poderia vir a ser um livro louvando a coragem e o pioneirismo dos sete astronautas, suas respectivas esposas e todos envolvidos, direta ou indiretamente, no projeto Mercury, naquele melhor estilo “chapa branca”, Tom Wolfe prefere remover o verniz patriótico para mostrar alguns aspectos pouco louváveis dos personagens e das situações, como o plano original de se utilizar qualquer candidato potencial, não necessariamente pilotos, ideia que só foi debelada pela insistência do então presidente Eisenhower de empregarem pilotos, a concepção original do tripulante da cápsula ser meramente uma cobaia para se experimentar a reação do corpo a viagens espaciais, com direito a todo tipo de sensor pregado ao corpo, incluindo um termômetro enfiado no rabo,a guerra de egos entre os candidatos ao primeiro voo espacial Allan Shepard e John Glenn, o desdém dos pilotos tradicionais em relação ao papel quase passivo dos futuros astronautas, já que o projeto Mercury previa voos totalmente automatizados, as gozações por conta do envio de macacos como “os primeiros astronautas americanos no espaço”, os sucessivos fiascos dos foguetes americanos que cismavam de explodir ou de simplesmente não se erguerem do solo, o aspecto humilhante e questionável de alguns exames aos quais os candidatos foram submetidos, a pressão dos “eleitos” para exercerem um papel mais ativo no programa, as insinuações de medo e incompetência a alguns dos astronautas, mais exatamente Grisson e Carpenter, os triunfos e superioridade do programa espacial soviético, como Yuri Gagarin se tornar o primeiro homem no espaço em abril de 1961, semanas antes do voo suborbital de Alan Sheppard, o que parecia obliterar as conquistas americanas e condena-las a um eterno segundo lugar na corrida espacial, além de espalhar o temor da dominação comunista. Até o papel da imprensa nos episódios, a quem Wolfe se refere sarcasticamente como “Distinto Cavalheiro”, é ironicamente criticada por justamente fazer o tipo “chapa-branca”, publicando apenas notícias louváveis e dourando a pílula. Isso tudo no melhor estilo Tom Wolfe, carregado de ironias e comentários jocosos.
Mas tal abordagem, a princípio iconoclástica, acaba tendo resultado inverso, pois torna mais humana a saga dos primeiros americanos ao espaço, e dá a exata dimensão do feito desses pilotos , cidadãos americanos de origem simples e humilde que foram alçados ao estrelato antes de alcançarem as estrelas, sem precisar edulcorar a pílula, e sem esquecer os precursores dessa geração de pilotos e seus feitos, por vezes tão ou mais relevantes do que os que ocorriam no projeto da NASA, mas que eram completamente ignorados pela imprensa. Além de trazer à tona curiosidades e anedotas desse período. Quem imaginaria que o principal equipamento que garantiu a Yeager romper a barreira do som foi um cabo de vassoura serrado, ou que os engenheiros da NASA simplesmente não previram a simples necessidade do astronauta ter que mijar no primeiro voo espacial americano, problema resolvido por uma enfermeira para os voos seguintes com a adoção de uma camisinha, ou que o maior temor dos astronautas não era morrer de forma horrível em algum acidente, e sim de fazerem alguma merda?
E não só de sarcasmo vive a narrativa de Wolfe, que é enriquecida com analogias excelentes, como traçar um paralelo entre o Programa Espacial Soviético e a figura do projetista-chefe Sergei Korolev com o romance russo de ficção científica “Nós”, de Eugene Zamiatin, que descreve um sombrio futuro no qual uma nave chamada “Poderosa Integral” é lançada ao espaço por uma nação despótica para submeter civilizações de outros planetas, e Wolfe sempre se refere aos feitos soviéticos citando a “poderosa integral” e ao projetista-chefe, sem nunca mencionar seu nome. Outra excelente analogia é comparar os astronautas americanos a combatentes singulares, aqueles que entram em combate sozinhos em nome de seus respectivos exércitos, como Davis desafiando o Golias comunista.
Mesmo que você não seja amante do tema, o livro não deixa os não-iniciados alienados ao assunto, e é uma dica ótima de leitura. Só acredito que esteja fora de catálogo, já que a edição que li é da editora Rocco, de 1991, mas pode ser encontrado em sebos, inclusive os virtuais, com o Estante Virtual.
E aproveitando o mote, falemos também do filme “Os Eleitos”.
Em 1983 Phillkip Kaufman escreve o roteiro e dirige o filme baseado no livro, condensando a história em três horas e treze minutos, que no Brasil recebeu o título de “Os Eleitos – Onde o Futuro Começa“. No geral, o roteiro é correto e segue quase fielmente o livro e aos fatos, com a omissão ou inclusão de alguns detalhes, equilibrando as cenas com algum humor sem resvalar no pastelão e sem perder a seriedade. No livro de Wolfe é mostrado o conflito de papéis entre cientistas e engenheiros de um lado e os pilotos do outro, mas Kaufman preferiu sintetizar esse conflito em uma cena na qual os sete eleitos tentam impor seu ponto de vista à equipe de engenheiros, que insiste em manter os astronautas como tripulantes passivos sem maior atuação na navegação da cápsula Mercury. Eles conseguem simplesmente usando seu prestígio junto a imprensa, pois caso resolvessem dar com língua nos dentes, a opinião pública poderia se voltar contra o projeto e as verbas cessarem. Ou citando uma frase famosa no meio (mas que não aparece no livro):”no buck, no Buck Rogers”. Ou “sem grana, necas de Buck Rogers”. Outra cena curiosa é quando recrutadores da NASA resolvem ir a Edwards para tentar conseguir voluntários junto aos pilotos de testes no barzinho empoeirado por eles frequentado.Note a presença do jovem Jeff Goldblum como um dos recrutadores. Kaufman dosou bem a mão ao captar os elementos das personalidades dos astronautas como descritas por Wolfe no livro, destacando a egolatria de Cooper, o comportamento presbiteriano e correto de Glenn e a irreverência de Sheppard. E é um excelente filme para quem aprecia o tema aviação ou espaço, ou simplesmente se interessa pelos lances da Guerra Fria. Mesmo mostrando a corrida espacial, as melhores cenas são justamente com aviões e com o Chuck Yeager, quando este quebra a barreira do som no X-1 ou nas cenas finais ao testar o NF-104 e tentar quebrar o recorde de altitude.
Curiosamente o elenco reúne rostos que se tornariam conhecidos em algumas produções dos anos 80, como Sam Shepard (Chuck Yeager), Scott Glenn (Allan Shepard), Ed Harris (John Glenn), Dennis Quaid (Gordon Cooper), Fred Ward (Gus Grisson) e Lance Henriksen (Wally Schirra).
Eu assisti a este filme há muitos anos, na TV e em VHS, e estava seriamente precisando revê-lo, já que é um puta dum filme, infelizmente não muito indicado a todos os públicos, devido ao tema e a longa duração, que pode afastar aqueles mais habituados a narrativa videoclipe. Em DVD aqui no Brasil só vi a versão DVD-duplo, que não traz nada mais do que o filme, pobrinho, pobrinho.
Outro filme, este de ficção, que faz referência e uma homenagem a estes episódios é “Cowboys do Espaço“, do Clint Eastwood, na qual uma equipe de pilotos de teste é preterida de seu papel de pioneiros na corrida espacial do fictício “projeto Dedalus” nos anos 50 para dar lugar a macacos, e têm a chance de finalmente ir ao espaço décadas depois e já aposentados, em uma arriscada missão com o ônibus espacial. As primeiras cenas (em preto e branco) recriam o clima do filme “Os eleitos”, mostrando testes no deserto com aviões-foguetes tipo X-1. No restante do filme o conflito de gerações entre os astronautas da velha guarda e as equipes dos anos 90 são ótimas fontes de piadas. É um daqueles filmes leves e divertidos de Clint, que ultimamente tem pesado a mão em suas produções. Como é uma produção recente, é mais fácil encontrar em DVD, apesar de também não oferecer muitos extras.

Infelizmente não li o livro, mas assisti aos dois filmes que você indica. Faz bastante tempo que assisti aos eleitos. Creio que uns cinco anos. Lembro-me de ter gostado do filme. Como você diz, descreve bastantes acontecimentos. Sarcástico e cheio de “pilhérias”. Em Cowboys do Espaço, Clint não poupa as “pilhérias” também. Na guerra de gerações ele senta a mão. Muito hilário. – Quem não assistiu e não gosta de quem conta partes de filmes, pare de ler aqui – . Juro que quase ouvi um “tira a mão daí, moleque fela da Pvl@”, antes de explodir parte da nave. Bem, ao menos é o que eu me lembro…
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Que milagre seu Alan orbitando por aqui na Blodega…Seu nome tá na caixinha das almas e na caderneta de fiado. Estás me devendo…um texto
Pior que deve fazer mais ou menos esse tempo que assisti a “Os Eleitos” pela última vez. Tou quase comprando a versão DVD meia-boca, mesmo, já que vir alguma edição decente tá meio difícil. Ah,e em “Cowboys..” o Clint só falta dizer “tira esse traje espacial que tu não é astronauta, é moleque!” pra garotada arrogante.
Ah, ainda estou a seco desde aquele dia. Não consegui metabolizar ainda toda a cerveja. Abraços!