Archive for outubro 2009

Soltando as Bruxas

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Dia 31 de Outubro se tem duas escolhas: ou os americanalhados vão sentar no cabo da vassoura ou os nacionalistas vão ficar na pica do Saci. Na dúvida, quem chegar aqui na blodega pedindo travessuras ou gostosuras, receberá o mesmo tratamento dado àqueles que solicitam fiado: ganharão um “não” totalmente grátis. Mas tem gostosura, também. Para não perder a viagem, mais uma pin-up do Gil Elvgren. E que as bruxas feias cuidem de ir dar rasantes supersônicos na puta que pariu em Brasília.

Pequenas Biografias da Blodega (II) – Irmãos Wright

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A dupla de comediantes era concorrente direta dos irmãos Marx no ramo da comédia. Mas seu diferencial era a inclusão de presepadas acrobáticas às suas piadas, chistes e sketches.Inicialmente trabalhavam nos circos de P.T.Barnum, patrono dos vendedores de carros usados e malandros em geral, famoso pela frase “a cada minuto nasce um otário”. Cansados de serem passados para trás e feitos de palhaço pelo P.T (não o partido dos trabalhadores, e sim o Barnum), a dupla de irmãos decidiu que deveriam alçar vôo solo, e em 1903 eles inauguram o Circo Voador, sua própria companhia de comédia. Seu número mais famoso era aquele no qual eles afirmavam que haviam inventado o avião, para gargalhada de todos. Também era o que exigia um maior aparato técnico, já que o seu avião falso precisava ser catapultado para singrar os céus do palco, para delírio do público, do qual arrancavam risadas histéricas.

Infelizmente eles deixaram de apresentar seu número em público, com medo de serem plagiados. Claro que muitos pensaram que isso também era uma piada. Anos depois, os irmãos levaram seu “circo voador” para uma turnê na Europa, já que nos Estados Unidos todo mundo estava começando a levar a acreditar na tal história do primeiro vôo e ninguém mais ria de suas gags visuais. Já na Europa, ninguém levava a sério esta história dos americanos inventarem o avião, e as apresentações públicas fizeram tremendo sucesso, principalmente entre brasileiros e franceses. O maior fã de seus números cômicos era o famoso brasileiro Santos Dumont, que residia em Paris e realmente havia inventado o avião.

9301_detail.jpgHoje os irmãos Wright são reverenciados na Europa como comediantes precursores de grupos de humor físico, como o Jackass. John Knoxville é um confesso discípulo do humor dos Wright. Também, após a morte da dupla, o circo voador continuou em funcionamento e anos depois daria origem ao grupo de humor Monty Python Ironicamente eles não são lembrados como comediantes em seu país de origem, os Estados Unidos, já que ainda hoje a maioria ainda pensa que seus shows acrobáticos e cômicos eram sérios. Os especialistas em humor concluem que a última grande piada dos irmãos Wright é os americanos realmente acreditarem que foram eles os inventores do avião. Pusta sacanagem.

Aviação: um filho com muitos pais

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Em 23 de outubro de 2006 foi comemorado o centenário do voo do 14-Bis, do brasileiro Santos-Dumont, considerado por quase todo mundo como o inventor do avião. Quase, porque os americanos ainda teimam que eles foram os pais da criança, e três anos antes. Mas quem está com a razão, afinal? Como bons especialistas de botequim e bodega, no Dia do Aviador discutimos o assunto com toda isenção e objetividade que for possível.

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A Versão ou Aversão do Diretor

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Entre a validade artística e o mero caça-níquel

Depois de tanto tempo finalmente assisti a Superman II – Richard Donner’s Cut . Quem acompanhou a série do Super-Homem no cinema, com Christopher Reeve, conhece os quatro filmes produzidos entre 1978 e 1987, inclusive pelas inúmeras reprises na TV. Mas nem todos sabem que, durante a produção dos dois primeiros filmes da série, a ideia seria produzi-los simultaneamente, mas após o primeiro filme ser lançado, o diretor Richard Donner foi demitido pelos produtores, que colocaram o diretor Richard Lester para concluir o projeto. O que ele fez foi ignorar boa parte do material produzido por Donner, mandar reescrever o roteiro e fazer o filme à sua maneira.

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Distrito 9

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No trailer da animação “Monstros x Alienígenas”, um repórter comenta ironicamente sobre a predileção de aliens por pousar nos States após o pouso de mais um OVNI em território americano. O diretor neófito Neill Blomkamp deve ter visto isso e resolveu estacionar sua lotação interestelar nos céus da África do Sul, na cidade de Joanesburgo. Se você não andou pedindo asilo político em outro planeta nestes últimos meses é quase certo que já tenha ouvido falar no badalado filme “Distrito 9″, que finalmente acaba de chegar aos nossos cinemas, e é mais um exemplo daqueles filmes de orçamento baixo para os padrões atuais que saem comendo pelas beiradas e acaba atraindo a atenção e simpatia da mídia e do público sem apelar para os esquemas de divulgação pesados dos blockbusters. Ao contrário, a produção apelou para campanhas virais e o boca-a-boca na Internet, principalmente depois da convenção de quadrinhos em district9poster1.jpgSan Diego. Sendo um filme de produção relativamente baixa, conseguiu recuperar em poucos dias o investimento da produção, que teve a participação de Peter Jackson, que se responsabilizou também pelos efeitos especiais através de sua empresa, a Weta. Com tanto hype em cima desse troço, precisei largar o balcão da Blodega um pouco para conferir. E admito que não me decepcionei nem um pouco.

O filme mostra a integração nada pacífica e estável entre os humanos e uma raça extraterrestre após uma nave aparentemente danificada chegar à Terra e pairar sobre Joanesburgo, trazendo milhares de seres com aparência asquerosa que são apelidados pejorativamente de “camarões”, que sem ter para onde irem, famintos e feridos, são colocados provisoriamente em uma espécie de acampamento para refugiados, que se transforma numa imensa favela, o tal Distrito 9 do título, e o “provisoriamente” se estende por duas décadas, até as tensões sociais exigirem uma atitude das autoridades, que decidem remover os “camarões” para o distrito 10 (que deve ficar uns 15 km depois da casa do cacete). O protagonista é Wikus van der Merwe, um simples funcionário da MNU, uma organização que pretende extrair os indesejáveis camarões para um outro gueto longe dos olhos da população, que é promovido a organizar a retirada dos ET’s, mas se torna vítima de uma contaminação que produz mutações em seu corpo, o que o torna uma peça-chave para acessar a tecnologia alienígena, tão cobiçada pela MNU. Desesperado por se curar, Wikus se alia a um dos alienígenas e bate de frente com os interesses da inescrupulosa MNU e com a gangue de nigerianos que explora os alienígenas na favela e pratica rituais de canibalismo. Receita indigesta, já que não somos poupados de algumas nojeiras e cenas de violência, com mutilações, vômitos, mutações gosmentas, corpos explodindo, canibalismo inter-espécies e desmembramentos.

Os mais “experientes” devem lembrar daquela produção dos anos 80 com James Caan, “Missão Alien“, que parte de uma premissa igual: uma nave lotada de alienígenas humanoides desce na Terra (pra variar, nos EUA) e são acolhidos pela sociedade, havendo um óbvio paralelo entre eles e os imigrantes ilegais, normalmente de origem hispânica. Na verdade o tempero alienígena apenas requentou a velha receita de filme policial com parceiros inicialmente relutantes que se tornam bons amigos, só que ao invés do novato ser um negro/hispânico/oriental/mulher era um alienígena que bebia leite azedo como cerveja e se dissolvia em água salgada. Mas ainda rendeu uma série de TV no início dos anos 90.

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Mas as semelhanças entre ambos são mínimas. A abordagem de Blomkamp usa um artifício narrativo interessante ao apresentar a história intercalada a um “documentário” e a cenas de jornalismo ao vivo, aliado a uma edição ágil, dando um ritmo interessante ao filme. Uma das polêmicas da produção foi obter depoimentos reais de pessoas respondendo o que achavam dos “alienígenas” ilegais, mas cuja pergunta capciosamente remetia a imigrantes ilegais de verdade. É inevitável, quase um clichê, traçar comparações entre a situação dos aliens e a dos negros sul-africanos durante o regime deoApartheid. O governo nigeriano também não gostou dos personagens dessa nacionalidade mostrados no filme, protestando formalmente e proibindo o filme em seu país.

O filme não é nenhum divisor de águas no gênero, mas também está longe de ser uma bomba, sendo provavelmente o melhor filme de ficção científica lançado esse ano (ainda temos “Moon” a conferir). O protagonista está longe de ser uma máquina de matar ou um herói típico, au contraire, é um homem comum, quase pusilânime em uma situação limite, por vezes agindo de forma até covarde ou mesquinha. Ao menos foge a alguns clichês, como outro filme “abençoado” por Peter Jackson, “O Hospedeiro”, e aqui não temos um Michael Bay enchendo o filme com personagens estereotipados, situações previsíveis nem tentando fazer humor em certas cenas. O final também está longe de ser conclusivo ou feliz. Com tanta repercussão, não duvido que em breve tenhamos um “Distrito 10″. Esperemos que a fama e a grana extra que entrar não estraguem Neill Blomkamp.

Rapidinhas da Sexta: rolando um clima

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Aparição de tornado no Paraná, o Ártico não terá mais gelo, o Blog Action Day desse ano foi sobre mudanças climáticas…

Estou mais convencido de que a idéia das Olimpíadas de Inverno em Patos está cada vez menos absurda…

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Raras bebidas, ressacas comuns

juanito.jpgMeio ausente da blodega estes dias, passo rapidinho só pra limpar a poeira do balcão. E aproveito para mostrar um pouco desse estabelecimento. Como qualquer bodega, aqui no balcão e na prateleira há algumas garrafas de bebidas para acumular poeira enfeite. Entre as nossas garrafas, há algumas raridades. Conterei a história de três dessas preciosidades:

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Primeiro uma garrafa do legítimo uísque paraguaio “Juanito Andador”. Não, isso não é uma grosseira versão iodada do conhecido Johnnie Walker. Esse é um assunto digno de livros sobre teorias conspiratórias. Esse legítimo uísque paraguaio “Juanito Andador” é o verdadeiro pivô da Guerra do Paraguai. Explico: com o Paraguai se tornando um país desenvolvido, Francisco Solano Lopez quis desenvolver a indústria local, incluindo a de beberragens e afins. Daí que, apreciador de um bom uísque, determinou a criação de um excelente blended de fabricação nacional, surgindo então o “Juanito Andador”, certamente em homenagem a algum pinguço da cidade de Assunção. Mas a poderosa Inglaterra não viu com bons olhos essa invasão de sua hegemonia mundial e a criação de um concorrente aos uísques escoceses. Daí que o império onde o sol nunca se põe resolveu botar no lugar onde o sol nunca bate dos paraguaios, e armou uma intriga internacional que culminou com a Guerra do Paraguai, onde este se fodeu em verde e amarelo. Com o país arrasado, os escoceses se sentiram à vontade para encher o mundo com seu produto, e em um plágio descarado, lançou a versão do uísque, já com o novo nome de Johnnie Walker. E até hoje o pobre do Paraguai se limitou a produzir cópias dos uísques consagrados, espalhando a ira divina em garrafas. Pense numa vingança!
Sim, é tudo verdade, já que tal história me foi contada por um representante legítimo do clã escocês Mcleod, nativo das Highlands (ou seria do clã escocês Panchito, do lago Ipacaraí? Nunca lembro). Aliás, foi ele quem me passou essa garrafa do legítimo uísque paraguaio, a qual eu paguei com legítimas notas de três reais emitidas pela casa da moeda de Campina Grande .

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A próxima é uma garrafa antiga de Rom Montilla. Esse outro exemplar raro de bebida foi um presente de Tio Xiko, ainda do tempo do site Busilis. Essa garrafa de Rom Montilla é tão antiga que o pirata do rótulo ainda tem ambos os olhos sadios, e o papagaio ainda estava no ovo. Com o tempo, o pirata ganhou seu característico tapa-olho, e até o papagaio sumiu do rótulo, não se sabe se voou ou foi feito de tira-gosto durante uma crise financeira das brabas. Mas foi logo devolvido ao seu posto, muito provavelmente devido ao SAC da Seagram do Brasil encher o sac(o) de ouvir piadinhas infames como estas.

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orloff.jpgO último, porém não menos importante, é esse exemplar de vodca Orloff, bebida esta derivada dos combustíveis dos primeiros foguetes russos. À primeira vista pode não se notar nada de estranho, mas atente para o “R” do rótulo, que deveria estar invertido, está certo. Segundo fontes fidedignas, originalmente a logomarca não teria nada demais, sendo escrita normalmente. Porém após um porre de vodca, os profissionais da gráfica inverteram o tipo da letra “R” e imprimiram centenas de rótulos com a tal letra “R” ao contrário. Para não perderem o trabalho, algum gênio do marketing associou o erro a uma possível alusão aos caracteres cirílicos, talvez na ilusão de enganar algum pinguço que se sentiria bebendo uma legítima vodca russa. Muito capaz de ser o mesmo gênio que criou aquela famosa frase “Eu sou você amanhã”, uma referência fictícia a um suposto bem-estar do coitado que encher a cara com essa coisa no dia anterior. Certamente ele nunca bebeu Orloff.
Mas na prática, o “R” invertido é até útil para salvaguardar o fígado do incauto que optar por ingerir isso. Basta olhar para o rótulo periodicamente. Se começar a ver o “R” na posição certa, é melhor parar de beber e tomar imediatamente um Engov.

O Fim da Infância

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Relembrando Calvin e Haroldo

Nota do Blodegueiro: A convite de Hiroshi, vamos tentar mais uma vez ressuscitar o CQQ, com o tema crianças nos quadrinhos. Como destes dias estou meio ocupado, além de estar tentando instalar uma Internet que preste aqui na Blodega, não houve tempo para escrever nada decente. Mas aproveito para tirar o mofo de um texto que escrevi no fim de 2005 em homenagem aos dez anos sem publicação das tiras de Calvin e Haroldo, devidamente atualizado (espero)

Caro editor
Eu vou parar com Calvin e Haroldo no final do ano. Esta não foi uma decisão fácil ou tomada às pressas, e saio com tristeza. De qualquer modo, meus interesses mudaram e acredito ter feito o possível de acordo com as obrigações de fechamentos diários e quadros pequenos. Estou ansioso para trabalhar num ritmo mais atencioso, com menos compromissos artísticos. Ainda não decidi sobre futuros projetos, mas meu relacionamento com o Universal Press Syndicate continuará.
É uma honra que tantos jornais publiquem Calvin e Haroldo e me orgulho disso. Agradeço seu apoio e indulgência durante a década passada. Desenhar a tira foi um privilégio e um prazer e agradeço a você por ter me dado esta oportunidade.

Sinceramente
Bill Waterson

Com estas palavras, o criador de um dos mais populares personagens de tiras de jornais anunciava sua aposentadoria precoce há dez anos. A última história do pirralho hiper-ativo e de imaginação fértil foi publicada em 31 de dezembro de 1995. E não foi por falta de público, já que a tira era publicada, até esta data, em cerca de 2400 jornais mundo afora, ganhou no Brasil diversos prêmios HQ Mix e lá nos States seu autor recebeu o prêmio de cartunista do ano concedido pela Associação Nacional dos Cartunistas por duas vezes. Foram cerca de três mil tiras publicadas em pouco mais de dez anos em jornais diários e reunidas em diversos livros. Milhões de pessoas acompanhavam diariamente as aventuras deste garoto. Não obstante, todos eles deixaram de ver material novo desde o início de 1996. E este hiato completará catorze anos ao final de 2009.
Em homenagem a este personagem tão importante para os amantes da “arte seqüencial”, tentaremos mostrar o criador e a criatura, ao mesmo tempo em que tentamos entender o porquê de hoje não termos mais histórias inéditas do garoto sonhador.

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O Destrutor de Intestino de Spider Jerusalém

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E a arte de causar incontinência nos poderosos

Nota do Blodegueiro: Esse texto foi escrito originalmente para participar do Blog Carnival organizado por Hiroshi, o Carnaval de Quadrinhos das Quartas , na sua terceira edição, honrosamente convidado pelo Quadrideko. Cada edição trazia um tema diferente do mundo dos quadrinhos, e cada blog participante postava algo a respeito. Para o primeiro que participei, o tema eram armas dos quadrinhos, coisas como o anel do Lanterna Verde, o Martelo de Thor ou o escudo do Capitão América. Escolhi algo não muito óbvio ou conhecido: uma pistola de raios que produz incontrolável caganeira. Sim, é sério. E achei pertinente trazer este texto de volta, já que andei falando de jornalismo em alguns textos recentes, já que o portador dessa “arma” é o jornalista Spider Jerusalem.

“E quem cacete é o Spider Jerusalém, cazzo?” pode perguntar algum leitor mais desavisado. Se você não o conhece, não sabe o que está perdendo, mas vamos tentar dar uma ideia. Num visual e linguagem pra lá de cyberpunk, o insano Warren Ellis criou em 1997 a série “Transmetropolitan” cujo protagonista é o repórter Spider Jerusalém, uma mistura de H.L.Mencken e Hunter S.Thompson, um escroto, misantropo, porra-louca e ermitão que se vê obrigado a abandonar seu isolamento e voltar a trabalhar em um jornal na “Cidade”, uma Babel caótica e futurista onde religiões novas surgem constantemente para se unir as dezenas de milhares já existentes, as propagandas invadem os sonhos das pessoas, há milhares de canais de TV disponíveis, convivem diversas mutações genéticas e estéticas alienígenas, pessoas transferem suas consciências para nuvens de nano dispositivos e humanos conservados criogenicamente são despertos apenas para serem rejeitados pela sociedade. Nesse mundo a mentira é notícia e a verdade é obsoleta. A principal arma de Jerusalém é a verdade. Como ele mesmo afirma, aponte a verdade para o alvo e mande tudo pelos ares. E como repórter polêmico, a máxima de Spider é a busca pela verdade, mesmo que para alcançá-la e divulgá-la ele precise atropelar a própria mãe com um tanque M1 Abrams.

Menos metaforicamente, ele também usa como arma uma curiosa pistola chamada “destrutor de intestino”, a estrela dessa matéria. Não estamos falando de um Cubo Cósmico, escudo de adamantium ou Nulificador Universal. É simplesmente uma pistola que provoca diarréia no coitado que estiver do lado errado do dispositivo, e na intensidade que se desejar, desde um simples desarranjo até um prolapso retal. Dá até medo tentar imaginar o princípio de funcionamento de uma bagaça dessas e o que diabos ele supostamente faz no sistema nervoso de alguém pra provocar um repentino tsunami intestinal totalmente involuntário.

À primeira vista essa arma não parece tão glamourosa ou ter o mesmo apelo que uma manopla Witchblade, as garras do Wolverine ou o anel de energia de um Lanterna Verde. Aliás, nem a segunda ou terceira vista. O martelo de Thor pode invocar tempestades e rachar o chão, a cara de pau do Constantine engana o próprio capeta e as cápsulas de gás do Batman podem derrotar até o Galactus. Cadê o apelo de uma arma cujo poder é fazer alguém borrar as calças? Está mais para o ridículo.

Todavia, por mais absurdo que possa parecer, um repórter com uma arma capaz de causar caganeira nos outros é mais uma ótima sacada do Ellis. Realmente um jornalista é capaz de causar incontinência em muita gente dado o poder que tem em mãos. Basta lembrar os grandes magnatas da imprensa. Assis Chateaubriant se queria comprar um colar de diamantes para presentear a Rainha da Inglaterra simplesmente reunia o maior numero de empresários e levantava a grana. E ai daquele que não entrasse na vaquinha. Todos tinham medo de ter seu nome difamado nos Diários Associados, independente se era verdade ou não. E o paraibano Chatô nem se importava em exagerar ou inventar fatos quando queria lascar um. E isso deveria dar uma disenteria em muito cabra. Isso sem citar outros poderosos, como Roberto Marinho ou Willian “Cidadão Kane” Randolph Hearst. Em menor escala, repórteres podem derrubar presidentes ou acabar guerras. Basta lembrar a dupla de repórteres do Washington Post que denunciou o esquema Watergate e levou o presidente Richard Nixon a renunciar. Bem parecido com Spider disparando sua arma contra o próprio Presidente dos Estados Unidos, que deve ter transformado o piso do banheiro em algo parecido com um quadro do Pollock.

Obviamente que no mundo real quem detém o poder de fazer políticos, empresários e poderosos cagarem de medo não necessariamente usa tal poder para nobres causas ou tenham um maior compromisso com a verdade. Aliás, a grande maioria que usa dessa prerrogativa é tão ou mais escrota quanto nosso anti-herói Spider Jerusalém, por estarem comprometidos com causas menos louváveis e cagarem para a verdade.

Posto isso, nada mais adequado que um profissional da imprensa usar uma arma que provoque diarreia em políticos e poderosos em geral que se enquadrem em sua alça de mira.

Djavan x Djavú

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Seguindo o post de confrontação entre o manual do Escoteiro-Mirim e o Guia do Mochileiro das Galáxias, mais um confronto de monstros sagrados (ou nem tanto). Agora quem se enfrenta aqui no balcão da Blodega são o Djavan e o Djavú.

Djavan já é velho conhecido dos apreciadores de músicas estilo MPB por seus arranjos bonitos e por letras um tanto quanto enigmáticas. Muito provavelmente todo cantor de barzinho, estilo voz, violão e banquinho, tem alguma música do Djavan em seu repertório. O alagoano já tem décadas de serviço prestado à música brasileira e dispensa apresentações. E além de belos arranjos, sua marca registrada são as letras de suas músicas, com versos misteriosos e de sentido pouco óbvio. Há quem veja muita profundidade e interpretações mil em versos como “não ter e ter que ter pra dar”, “aprender japonês em braille”, “o amor é azulzinho”, “amar é um deserto e seus temores”, “Tudo que Deus criou pensando em você, Fez a Via-láctea, fez os dinossauros”, “Açaí, guardiã, zum de besouro, um imã, branca é a tez da manhã”. Já há quem diga que no fundo não querem dizer porra nenhuma, mesmo, que servem apenas de suporte à melodia. Mas essa dialética toda já rendeu até tese de mestrado e um dos mais criativos textos que já circularam pela Internet: “O Homem que Sabia Djavanês“, uma paródia ao conto de Lima Barreto “O Homem que Sabia Javanês” devidamente cometida por Ruy Goiaba nos tempos que não traíra o movimento blogueiro.

Bem, no frigir dos ovos, tais letras devem ter algo de hipnótico, quase neurolinguístico, já que o mulherio adora Djavan. E o próprio Djavan já deve ter usado seus poderes para o mal, já que há alguns anos rolou um boato de que a Glória Pires teria dado um pé na bunda de Fábio Jr pra se agarrar com o alagoano. Ela deve ter preferido ouvir um “Tanto engorda quanto mata, feito desgosto de filha” do que “senta aqui, não tenha tanta presa, senta aqui”.

Já a banda que se intitula “Djavú” conseguiu comigo uma proeza sensacional: após ouvir cinco segundos de DVD, imediatamente senti falta e saudades de tudo que é tipo de DVD de bandas de forró daquelas que Sivuca costumava se referir como de “forró de plástico”. Sério. Quando me escondia lá pras bandas da Paraíba, simplesmente em qualquer boteco tinha algum DVD desses rolando, normalmente de Aviões do Forró, Calcinha Preta, Ferro na Boneca, Forró do Muído, Forró Moral, Desejo de Menina e o escambau. Pois aqueles que não apreciam tal estilo, acreditem: estas bandas que citei dão um show de musicalidade e estão mil anos-luz à frente dessa manifestação inominável em qualidade musical. Sim, estou falando sério. Até Calipso parece Pink Floyd se comparado a isso.

Só o início do tal DVD já soltou, em meio aqueles efeitos sonoros dignos de videogame de 8 bits, um sampler da trilha sonora de “Psicose”. Isso foi um prenúncio mais do que adequado para o homicídio melódico que se segue. Caso queira ser poupado de danos cerebrais irreversíveis, tente imaginar uma mistura de tecno melody paraense com arrocha baiano.  Se eles ganharam dinheiro o bastante para transformar a vocalista de feia para ex-feia (bem, este é o nome artístico da jovem), bem que poderiam trocar aquele maldito teclado de brinquedo por um Yamaha ou um Rolland, que putaquipariu pra irritar qualquer cristão decente. Mas para alguém que se apresenta vestido de Napoleão, não dá para esperar muito bom-senso. E pra estas bandas de “Sumpaulo”, isso tá tocando pra cacete. E há quem diga que a banda faz jus ao nome, já que tiveram a impressão de já ter ouvido aquele som em outro lugar…Mais exatamente no Pará, mas sem os devidos créditos. Irra! Não é só na Internet que rolam estas paradas de plágio…

Por isso o dono da blodega adverte: Não confunda Djavan com Djavú. Isso pode causar males irreversíveis! Mas se ainda assim quiser saber do que falo, fique à vontade:

P.S: E antes que os fãs do Djavú queiram por meu nome na boca do sapo, direcionem sua fúria para os Crussificados , que em se tratando de esculhambação, eles são profissionais. Joguem pedra na cruz!

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