Intrigas de Estado: jornalismo às antigas
Filmes sobre jornalismo costumam dar resultados variáveis, a depender da abordagem adotada. Normalmente o protagonista central vai até as últimas consequências para revelar a verdade ao público, arriscando a vida ou a reputação, como em “Todos os Homens do Presidente“, de Alan J.Pakula, ou é um escroto de marca maior para o qual a verdade é um mero detalhe a se adequar às necessidades da linha editorial, me ocorrendo diversos exemplos de filmes que adotam essa linha, sendo o escroto Chuck Tatum do excelente “A Montanha dos Sete Abutres“, de Billy Wilder, o primeiro exemplo que me ocorre, e passando por outros filmes, como “Ausência de Malícia” ou “Quinze Minutos“. Há ainda aqueles que satirizam e expõe ao ridículo certos arquétipos do jornalismo ao mesmo tempo em que o homenageia, como “A Caçada“, com Richard Gere.
Ontem finalmente assisti em DVD ao filme “Intrigas de Estado“, do diretor Kevin MacDonald, de “O Último Rei da Escócia”, e ao realizar este filme (baseado em uma série da BBC), MacDonald preferiu seguir a primeiro exemplo que citei. Aliás, o filme inteiro parece fazer referência ao clássico de Pakula sobre o escândalo Watergate, com direito a participação especial do edifício Watergate como cenário de mais uma conspiração política.
A história começa com um assassinato de um viciado nas ruas de Washington, que começa a ser investigado pelo veterano repórter Cal McAffrey (Russel Crowe), um digno representante da velha guarda jornalística, sem maiores preocupações financeiras ou estéticas, mas com contatos e informantes em todos os lugares necessários para se obter a informação que precisar. Seu contraponto é a jovem repórter Della Frye (Rachel McAdams), que edita o blog do “Washington Globe” alimentando-o com notícias e matérias mais imediatistas e sensacionalistas, e está cobrindo o suposto suicídio de uma funcionária do Congresso, assistente do político em ascensão Stephen Collins (Ben Afleck), e o episódio revela um suposto romance extraconjugal entre ambos. Coincidentemente, o congressista é amigo de faculdade de McAffrey, e este já teve um caso com a esposa do colega. Não preciso falar que o assassinato investigado por MacAffrey está relacionado com a morte da amante de Collins, ambos ligados a uma conspiração envolvendo a privatização de serviços militares e de segurança investigados no congresso e envolvendo bilhões de dólares.
A editora do Washington Globe, Cameron Lynne (Herren Miller) oscila entre o jornalismo investigativo e bem trabalhado do veterano repórter e o imediatismo e superficialidade exigido pelos novos acionistas do jornal. O roteiro trabalha bem a conspiração, sem cair nos clichês inverossímeis do tema, e ainda abordando de forma sutil o dilema entre a “velha escola” de jornalismo e o modelo de jornalismo dos tempos de Internet e blogs. O personagem do Russel Crowe é mostrado como um jornalista à moda antiga, daqueles que ainda manda flores vão às ruas, chafurdam em locais pouco recomendáveis e pressionam suas fontes até o talo, não se furtando de omitir informações importantes à polícia. Inclusive há um recado implícito (ou bem explícito, sei lá) para os adeptos do “novíssimo jornalismo” praticado por blogueiros, bem ao modo como Gay Talese recentemente comentou quando esteve no Brasil: que é preciso sair da frente do notebook, mover o rabo e correr atrás da notícia. E a novata, antes relutante, acaba seguindo os conselhos da “puta velha” do jornalismo.
No final não é o tipo de filme no qual você exclama “puta que pariu!” ao final, seja por admiração ou por raiva. Mas é um bom filme, com a trama bem conduzida, atuações boas e personagens bem construídos, mas com uma pequena e desnecessária reviravolta ao fim da trama. Mas a mensagem final mesmo é que, se você quer jornalismo de verdade, procure os jornais, apesar de todas as suas limitações e defeitos.
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