O Fim da Infância

Relembrando Calvin e Haroldo
Nota do Blodegueiro: A convite de Hiroshi, vamos tentar mais uma vez ressuscitar o CQQ, com o tema crianças nos quadrinhos. Como destes dias estou meio ocupado, além de estar tentando instalar uma Internet que preste aqui na Blodega, não houve tempo para escrever nada decente. Mas aproveito para tirar o mofo de um texto que escrevi no fim de 2005 em homenagem aos dez anos sem publicação das tiras de Calvin e Haroldo, devidamente atualizado (espero)
Caro editor
Eu vou parar com Calvin e Haroldo no final do ano. Esta não foi uma decisão fácil ou tomada às pressas, e saio com tristeza. De qualquer modo, meus interesses mudaram e acredito ter feito o possível de acordo com as obrigações de fechamentos diários e quadros pequenos. Estou ansioso para trabalhar num ritmo mais atencioso, com menos compromissos artísticos. Ainda não decidi sobre futuros projetos, mas meu relacionamento com o Universal Press Syndicate continuará.
É uma honra que tantos jornais publiquem Calvin e Haroldo e me orgulho disso. Agradeço seu apoio e indulgência durante a década passada. Desenhar a tira foi um privilégio e um prazer e agradeço a você por ter me dado esta oportunidade.
Sinceramente
Bill Waterson
Com estas palavras, o criador de um dos mais populares personagens de tiras de jornais anunciava sua aposentadoria precoce há dez anos. A última história do pirralho hiper-ativo e de imaginação fértil foi publicada em 31 de dezembro de 1995. E não foi por falta de público, já que a tira era publicada, até esta data, em cerca de 2400 jornais mundo afora, ganhou no Brasil diversos prêmios HQ Mix e lá nos States seu autor recebeu o prêmio de cartunista do ano concedido pela Associação Nacional dos Cartunistas por duas vezes. Foram cerca de três mil tiras publicadas em pouco mais de dez anos em jornais diários e reunidas em diversos livros. Milhões de pessoas acompanhavam diariamente as aventuras deste garoto. Não obstante, todos eles deixaram de ver material novo desde o início de 1996. E este hiato completará catorze anos ao final de 2009.
Em homenagem a este personagem tão importante para os amantes da “arte seqüencial”, tentaremos mostrar o criador e a criatura, ao mesmo tempo em que tentamos entender o porquê de hoje não termos mais histórias inéditas do garoto sonhador.
Syndicates x Desenhistas – Parte I
Os Syndicates são empresas similares às agências de notícias, que vende seu material para jornais mundo afora, um esquema bem comum nos Estados Unidos, que trabalha dessa maneira há décadas. No caso dos Syndicates, o material envolvido são tirinhas de personagens em quadrinhos. Ao invés dos jornais empregarem artistas ou comprarem material direto deles, acabam comprando dos Syndicates. Este esquema começou nos anos trinta com a King Features Syndicate, fundada pelo Willian “Cidadão Kane” Hearst. Com cada Syndicate detendo os direitos de dezenas de personagens, se torna inviável um artista ou pequena empresa concorrer para vender seu material. E é aí reside um problema e fonte maior de críticas quanto a política dos Syndicates. Por deterem os direitos sobre os personagens e exigirem uma produção diária, muitas vezes o artista e o processo criativo são deixados em segundo plano.
Um exemplo de relação perniciosa entre artista e um Syndicate é o caso de Henfil e de sua criação, o Fradim. Nos anos 70, ele consegue vender seus frades escrotos para a Universal Press Syndicate, que os lança com o título Mad Monks. Todavia, a Universal rejeitou diversos materiais desenhados e modificou substancialmente o pouco que aceitou. Para o público tipicamente estadunidense, muito do material seria considerado antiamericano e ofensivo. E em plena ditadura militar, Henfil sequer ousaria levar tal material para o Pasquim, não por ser ousado, e sim por considerar este material leve demais. O resultado é que Fradim teve pouca aceitação entre os leitores dos jornais gringos. E o próprio Henfil detestou o resultado, já que as tiras publicadas sofreram modificações substanciais em relação ao material original. Claro que ele reclamou, mas obviamente não adiantou muito, o que levou Henfil a romper com a Universal Press.
Resumo da ópera: uma vez que algum Syndicate aceitasse o material de um desenhista e ambos fechassem contrato, o desenhista teria que trabalhar igual a um condenado para publicar tiras diárias, além de tiras coloridas aos domingos, sem direito a férias. Os editores do Syndicate tinham a prerrogativa total de fazer o que bem entendesse com os personagens sob sua alçada, o que inclui o licenciamento dos mesmos para outras mídias (desenhos animados para TV e cinema) ou para produtos estampando os mesmos, à revelia do autor Inclusive, se o criador chiasse muito, ele seria dispensado e outro desenhista poderia assumir seu lugar. Que beleza de negócio, hein?
Esta pequena introdução à política editoria dos Syndicates se torna necessária para tentarmos entender as motivações que levaram o criador de Calvin a cessar a produção.
Um Ilustre Desconhecido
Bill Waterson é uma espécie de Rubem Fonseca dos quadrinhos, já que não concede entrevistas e raramente sua imagem aparece na mídia. Mesmo após a badalação obtida com o sucesso repentino de sua criação o cartunista não se deixou levar pela fama, mantendo-se recluso. Por isso, são raras as declarações e entrevistas dessa figura. Imagens são mais raras ainda. Uma das poucas vezes em que ele se dispôs a falar a respeito de sua criação foi no livro The Calvin and Hobbes 10th Aniversary. E ele aproveitou para deixar bem claro o que pensava a respeito de sua criação e do que achava quanto à política dos Syndicates.
Mas vamos devagar. Antes de estar dez anos no mercado, Waterson era um cientista político aficionado por quadrinhos desde a juventude. Durante a faculdade ele fez diversas charges políticas, e depois de formado chegou a trabalhar em um jornal por alguns meses. Suas charges políticas não seduziram potenciais clientes, e finalmente ele partiu para tiras de humor e procurou os Syndicates para vender seu peixe. Mas ainda demorou a conseguir convencer alguém a adquirir suas criaturas, até que ele desistiu de compor personagens visando agradar o gosto dos novos clientes, e se convenceu a compor algo de que ELE gostava. Assim, um dos Syndicates viu um personagem secundário de uma das tiras criada por ele com potencial para ser desenvolvido, e sugeriu a Waterson produzir algo com tal material. Assim surgiu Calvin.
Só que o diacho do Syndicate que sugeriu a criação de Calvin rejeitou o material produzido, e Bill enfiou seus portfólios debaixo do sovaco e correu atrás do prejuízo, até que bateu na porta da Universal Press Syndicate (lembra? A mesma do Henfil e dos “Mad Monks”), que aceitou a tira. A primeira história publicada, aquela em que Calvin captura seu tigre de pelúcia usando sanduíche de atum como isca, é publicada em 11 de novembro de 1985. E se torna um sucesso inesperado, inclusive para o próprio criador.
Syndicates x Desenhistas – A Revanche
Pois o que poderia ser o início de uma carreira rumo ao estrelato se tornou uma tarefa estressante e uma luta diária do criador para manter as rédeas sobre sua criação. Pela concepção de Bill Waterson, seus personagens eram mais do que simples diversão descartável. Era necessário passar uma mensagem válida através daquele veículo. Certamente Calvin fala mais a respeito da visão de mundo de Waterson do que qualquer entrevista. Mas isso tem um preço, pois manter uma produção diária com este nível de exigência pessoal se torna difícil, já que era mais do que contar uma simples piada por dia. Além do mais, toda a arte era responsabilidade de Waterson, desde o argumento até a arte-final. Sua única ajuda era oriunda de sua esposa, que dava sugestões nos textos ou desenhos. Era uma tarefa estafante.
O sucesso de seu produto logo encheu os olhos da Universal Press, que queria mais. Material inédito não poderia faltar. E se Calvin fazia tanto sucesso nos jornais, tal sucesso poderia render dividendos estampando lancheiras ou em cartoons animados. E, para os Syndicates, o que importava era a quantidade, e não a qualidade. Era como um monstro insaciável em busca de alimento.
Só que tudo ia de encontro a filosofia de trabalho de Bill Waterson, que preferia qualidade à quantidade. Para se ter uma ideia do pensamento dele, citamos uma passagem de uma de suas raras declarações:
“Eu não penso nos quadrinhos como apenas entretenimento. É um privilegio raro ser capaz de falar para milhões de pessoas num dado dia, então, fico ansioso por dizer algo significativo quando posso. Sempre há pressão para escrever alguma piadinha rápida que vai me ganhar mais 24 horas de folga com os prazos, mas nada me deprime tanto quanto pensar que eu me tornei uma fabrica de piadas para encher espaço de jornal. Sempre que possível, eu uso a tira para falar das coisas que são importantes para mim”
Infelizmente, Bill Watterson assinara um contrato que passava os direitos dos personagens ao Syndicate pelas próximas décadas, que poderia fazer o que lhe apetecesse. E o velho Bill se viu numa sinuca de bico, já que assinara tal contrato após a recusa contínua de seu material por outros jornais e Syndicates e legalmente nada poderia fazer para manter a integridade de seu personagem.
Mas a Universal agiu com tato e certa ética, já que posteriormente propôs um contrato de licenciamento controlado, com Bill tendo poder de vetar qualquer contrato que julgasse inadequado ou ofensivo (Calvin poderia ser um ótimo garoto-propaganda para métodos contraceptivos). Mesmo assim, Bill rejeitou mais esta proposta.
Com os cinco anos de Calvin e com toda esta pressão, o criador pensou seriamente em abandonar a tira. E caso isso ocorresse, a Universal tinha o direito de manter a publicação de Calvin pelas mãos de outro artista. E isso Bill não queria de jeito nenhum. E, sabe-se lá por quê, a Universal concordou em sentar com Waterson e renegociou o contrato. E por intervenção do Santo Padroeiro dos Quadrinhos, Bill Waterson conseguiu colocar no contrato suas exigências, garantindo assim que seu filho mais famoso não fosse licenciado e nem desenhado por outro que não ele. Uma senhora vitória.
Outras pelejas
Com tanto respaldo, Bill conseguiu algo quase que impensável para um desenhista de tiras: período de férias. Antes dele, só Garry Trudeau e Gary Larsen conseguiram tal façanha. Bill Waterson conseguiu férias a cada três anos. Foram duas licenças de nove meses cada, ao todo. Isso incentivou a Universal a conceder folgas periódicas a seus desenhistas. Estes escolhem o período e o Syndicate substitui as tiras por material antigo ou para artistas novatos. Essa os desenhistas devem a Bill e a Calvin.
Outra luta pessoal de Bill Waterson foi contra as tiras dominicais, que eram coloridas e possuíam um padrão rígido de seis painéis. Bill conseguiu produzir tiras dominicais fora deste esquema, compondo piadas em apenas um quadrinho ou até em dez quadrinhos. Muitos jornais acabaram rejeitando este tipo de material, já que nem sempre permitia edição por parte do jornal. Isso causou desgaste entre Bill e a direção dos jornais.
Ao revisar estas histórias, vemos que Bill Waterson defendeu a bandeira de sua tira junto ao Syndicate, algo que certamente foi desgastante, tanto para o criador quanto para a criação. No frigir dos ovos, a pressão da Universal era apenas um reflexo do público que, em última instância, é quem realmente dita o ritmo dos personagens, aprovando as piadas ou reprovando esta ou aquela tira. Uma ditadura deveras exigente, sem dúvida. Manter o ideal proposto por si mesmo em fazer o trabalho que quer e que gosta, mantendo um compromisso com a qualidade final, fica cada vez mais difícil. No final, ele acaba se tornando escravo de sua criação. E certamente era algo impensável. E simplesmente parar parece uma opção viável, se não a única alternativa.
E isso ocorre ao fim de 1995. No dia 31 de dezembro, Calvin e Haroldo saem da vida (dos quadrinhos) para entrarem no panteão dos grandes personagens, como Peanuts ou Mafalda, que além de nos divertir, nos fazem pensar. Desde esta data, Bill Watterson se isolou da fama em Chagrin Falls, Ohio, junto com a sua esposa. Não dá entrevistas, não recebe correspondências de fãs e não mais desenha o personagem que o consagrou. Todavia, por mais que isso possa trazer ressentimento e uma enorme interrogação aos milhares de fãs do Calvin, tal atitude merece todo o respeito por parte destes, pois poucos criadores tiveram a coragem de abdicar de suas criações para seguirem suas vidas.
Como mensagem final, a última tira de Calvin e Haroldo mostra a dupla diante de um quadro branco e limpo, a paisagem coberta de neve. A última frase do menino é “Isso é um mundo mágico, Haroldo. Vamos todos explorá-los”. Triste, porém otimista. Um belo legado deixado por Bill Waterson.
Esqueceram de mim? Claro que não!
Se você não sabe de quem estamos falando, realmente não sabe o que está perdendo. Calvin é um típico garoto de seis anos que não gosta de banho, leva seus pais à loucura e tem uma imaginação poderosíssima, imaginação essa que dá vida a um tigre de pelúcia chamado Haroldo (Hobbes, no original, em homenagem ao filósofo Thomas Hobbes), coadjuvante do garoto durante batalhas na neve ou ladeira abaixo em um carrinho de rolimã ou em um trenó, ou ainda em suas aventuras imaginárias contra extraterrestres ou os temidos monstros embaixo da cama. E também é no mundo platônico que Calvin assume diversas identidades, como a do astronauta Spiff ou do Homem Estupendo, entre outras várias.
É óbvio que toda esta imaginação e traquinagem leva à loucura seus pais, a sua professora Wormwood e a coleguinha da escola Susie Derkins (por quem é secretamente apaixonado, apesar de não admitir). Só quem controla o moleque é a babá Roselyn.
Se você ficou curioso e quer ver histórias do loirinho de cabelo espetado, foram publicados diversos livros reunindo o material publicado nos jornais, incluindo as tiras dominicais coloridas. Abaixo, a relação completa dos livros lançados, a maioria já lançada em português pela Best News. Recentemente a Conrad vem publicando material inédito em português e reeditando algumas edições.
- Calvin & Hobbes (Calvin e Haroldo)
- Something Under the Bed Is Drowling (Algo Babando Embaixo da Cama)
- Yokon Ho! (Yokon Hei!)
- Weirds from Another Planet (Estranhos Seres de Outro Planeta)
- The Revenge of the Baby-Sat (A Vingança dos Oprimidos, recentemente lançado pela Conrad como “A Hora da Vingança”)
- Scientific Progress Góes “Boink” (O progresso Científico de “Tilt”)
- Attack of the Deranged Mutant Killer Monster Snow Goons (O Ataque dos Transtornados Monstros de Neve Mutantes Assassinos)
- The Day Are Just Packed (Os Dias Estão Simplesmente Lotados)
- Homicidal Psycho Jungle Cat (Homicida Psicopata Felino Selvagem)
- There´s Treasure Everywhere (inédito no Brasil)
- It´s a Magical World (inédito no Brasil)
- The Essencial Calvin and Hobbes
- The Calvin and Hobbes Lazy Sunday Book (Para Ler aos Domingos – tiras coloridas dominicais)
- The Autorative Calvin and Hobbes (republicação do terceiro e quarto livros)
- The Indispencible Calvin and Hobbes Hobbes (republicação do quinto e sexto livro)
- The Calvin and Hobbes 10th Aniversary (Os Dez Anos de Calvin e Haroldo – coletânea com comentários do autor)
- The Complete Calvin and Hobbes
Além dos livros, há muitos sites na Internet que dispõem de material e tiras digitalizadas. Certamente uma boa dica em português é o Depósito do Calvin
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