A Versão ou Aversão do Diretor

Entre a validade artística e o mero caça-níquel
Depois de tanto tempo finalmente assisti a Superman II – Richard Donner’s Cut . Quem acompanhou a série do Super-Homem no cinema, com Christopher Reeve, conhece os quatro filmes produzidos entre 1978 e 1987, inclusive pelas inúmeras reprises na TV. Mas nem todos sabem que, durante a produção dos dois primeiros filmes da série, a ideia seria produzi-los simultaneamente, mas após o primeiro filme ser lançado, o diretor Richard Donner foi demitido pelos produtores, que colocaram o diretor Richard Lester para concluir o projeto. O que ele fez foi ignorar boa parte do material produzido por Donner, mandar reescrever o roteiro e fazer o filme à sua maneira.
Fatos como esse não são novidades em Hollywood. Nem sempre diretores e produtores se entendem muito bem, e por vezes os donos da bufunfa impõem condições e interferem na visão do diretor por questões, na maioria das vezes, mercadológicas, temendo que o diretor não tenha maiores compromissos com a bilheteria ou simplesmente inviabilizem o filme comercialmente, seja pela duração excessiva ou por contar uma história com pouco potencial de sucesso. Um dos exemplos mais gritantes é o do diretor Orson Welles, que só conseguiu ter domínio total de um filme em sua estreia, “Cidadão Kane”. Após isso, praticamente todos os seus projetos lhe foram tomados das suas mãos na fase da montagem, e aí os produtores impunham a versão que melhor lhe apetecessem. Isso quando ele conseguia alguém que produzisse seus projetos…
Óbvio que os amantes da sétima arte tem ganas em ouvir falar nesse tipo de interferência. Mas os produtores até tinham motivos e exemplos de sobra para manterem os diretores muito criativos na linha. Marlon Brando ao começar a dirigir “A Face Oculta” em 1957 levou à loucura produtores e elenco, produzindo cerca de espantosas 35 horas de material filmado e editando pessoalmente uma versão com mais de 4 horas, a qual os produtores podaram para mais aceitáveis duas horas e vinte e ainda exigiram um final diferente, sendo necessário filma-lo um ano depois do fim das filmagens. No frigir dos ovos, por caprichos de Brando esse filme levou quase quatro anos pra ser concluído e custou 6 milhões de dólares (em grana de hoje umas dez vezes esse valor), dos quais o filme não conseguiu recuperar quase nada. E obviamente Brando nunca mais se sentou sua bunda gorda em uma cadeira de diretor. Pior exemplo é o de Michael Cimino, que quebrou a United Artists com o caríssimo e longo faroeste de 1980, “O Portal do Paraíso”. Depois disso, produtores costumam levar diretores em rédea curta. Os donos da grana tinham motivos de sobra para não deixar seus diretores à solta com seus dólares. E não foi diferente com Ilya Salkind e Pierre Splinger, que preferiram substituir o diretor de “Superman II” para evitar maiores custos, inclusive ter que pagar mais de dez por cento da bilheteria a Marlon Brando se sua imagem fosse usada no filme. Então o que o público viu, em 1980, foi a visão de Richard Lester, devidamente abençoada pelos produtores.
Mas o público costuma ter aquela curiosidade mórbida de como seria esse ou aquele filme se a visão do seu criador fosse respeitada? Não deixa de ser um interessante nicho mercadológico a ser explorado. E os produtores de filmes, que de bestas não têm nada, costumam reciclar muito do seu material, relançando versões diferentes das originais pra garantir mais alguns trocados de seu suado investimento. O próprio “O Portal do Paraíso” foi relançado três anos depois com a montagem original de Cimino, comprido igual a um dia de fome, num lance de desespero para tentar salvar a United Artists do buraco, mas sem sucesso, pois a UA foi adquirida pela MGM. O que não impediu que outros filmes fossem remontados, com adição de cenas antes podadas e uma recauchutada em alguns aspectos técnicos, como o som, imagem ou efeitos especiais. Uma variação dessa “moda” foi o costume péssimo que correu nos anos 80 de se colorir por computador clássicos originalmente produzidos em preto-e-branco. Além de ser uma heresia, as cores não eram exatamente um primor, e essa prática saiu da moda.
Relançar no cinema filmes e produções bem sucedidas, normalmente sob o pretexto de se comemorar a aniversário de lançamento, passou a ser uma prática relativamente corriqueira, com a vantagem de mostrar a novas gerações clássicos de décadas atrás, e com o plus de cenas antes podadas e com a devida restauração da fotografia e som. É o caso de ótimos filmes como “Lawrence da Arábia”, de David Lean, que voltou aos cinemas em fins dos anos 90 com 11 minutos de cenas adicionais e som digital, e o filme “O Exorcista”, de 1973, que voltou aos cinemas em 2000 com alguns minutos a mais e um leve upgrade nos efeitos.
Outros filmes da era do blockbuster foram relançados no cinema décadas depois de seu sucesso, com cenas antes cortadas e com um upgrade em diversos efeitos, graças a tecnologias que à época nem sonhavam estar disponíveis. “ET – O Extraterrestre” e a trilogia original de “Guerra nas Estrelas” tiveram relançamento mundial em salas de cinema em anos recentes. Mas estes sofreram algumas críticas dos fãs, não por ter alterado tanto a história original, mas por concessões ao “politicamente correto”. Em “ET…”, relançado em 2002, na cena inicial em que policiais perseguem o personagem-título, eles estão usando armas. Na versão mais nova as armas foram removidas digitalmente e substituídas por rádios transceptores. Em “Guerra nas Estrelas”, relançado como prenúncio na cena na taberna Mos Eisley na qual há uma troca de tiros entre Han Solo e o caçador de recompensas Greedo, na versão original Solo malandramente atira primeiro e à traição. Já na nova versão, a cena foi reeditada para mostrar Solo atirando depois em legítima defesa. 
Mas em todos os casos o que ocorreu foi simples: produtores reciclaram material antigo a uma fração do preço de uma nova produção e conseguiram lucrar horrores com estes relançamentos.
Com a mídia DVD substituindo o velho VHS nos anos 90, o novo meio permitia uma gama de facilidades para agregar valor ao material, e o mais comum foi incluir cenas deletadas como extras na maioria dos DVD’s., e tais extras estão ali como extras mesmo, sem alterar a edição do filme em si. Por vezes surgia algum “director’s cut” só em DVD, com o acréscimo das tais cenas perdidas dentro do filme e que não teriam sido aproveitadas nas versões do cinema, e se tornou prática corriqueira termos em DVD algumas cenas a mais. Em outros casos há inúmeras versões para o mesmo filme, como “O Barco – Inferno no Mar”, de Wolfgang Peterssen, que pode ser encontrado com seus já longos 150 minutos como também em versões de até mais de 300 minutos.
Convenhamos, muitas desses “Director’s Cut” não passam de meros caça-niqueis. E os pobres colecionadores sofrem com as diversas versões de um mesmo filme, só faltando venderem seus rins no mercado negro. Se o material não foi aproveitado, no filme, na maior parte das vezes é por um bom motivo, que geralmente é não tornar um filme excessiva e desnecessariamente longo. Ou como bem diria Alfred Hitchcock, a duração de um filme deve estar diretamente relacionada à tolerância da bexiga humana.
Mas há bexigas e bexigas, e parece que as brasileiras são menos tolerantes que as americanas e européias, ao menos na visão das distribuidoras locais, que privaram os fãs brazucas das versões estendidas de filmes como a trilogia “O Senhor dos Anéis” e, pelo que comentam, farão o mesmo com “Watchmen”.
Mas em nenhum desses casos citados houve maior interferência da produção para alterar substancialmente a história, e as novas versões não trazem grandes mudanças nessas, apenas a inclusão de uma ou outra cena, por vezes interessante e que podem explicar fatos que ficaram implícitos nas versões anteriores. O que não era o caso de “Superman II”, cuja versão conhecida do público seria substancialmente diferente do roteiro que Richard Donner pretendia seguir. Algo semelhante ocorreu com a produção de ficção científica “Blade Runner- O Caçador de Andróides”, de 1982. Os produtores alteraram sua edição à revelia do diretor Ridley Scott, impuseram uma narração em “off” do protagonista Deckard, interpretado por Harrison Ford e alteraram o final. Mais uma fez isso não impediu o fracasso comercial do filme a época de seu lançamento, mas se impôs como cult e obtendo um séquito de fãs. Dez anos depois foi reeditado e relançado no cinema da maneira originalmente concebida por Scott, e não se resumiu a acrescentar cenas. A grande diferença foi a ausência da narrativa, o que tirou um pouco do charme noir do original, a inclusão de uma cena na qual Deckard sonha, e o final, que associado a esta nova cena, dá um desfecho totalmente diferente da versão original. Até a trilha sonora foi relançada – a original, com composições de Vangelis, foi executada pela New American Orchestra. No relançamento do filme, o próprio Vangelis executou a nova trilha, com acréscimo de algumas faixas. E recentemente ainda saiu um “Final Cut”, lançado em DVD triplo aqui no Brasil, junto com as duas versões mais antigas. Haja grana pra tanta versão.
Daí que os fãs começaram a exigir que Donner retornasse e finalizasse a sua versão para o filme, reivindicação que aumentou de intensidade após o lançamento do filme “Superman II” em DVD em 2001, quando muito do material produzido foi recuperado. Com tanta insistência, Donner cedeu e voltou para finalizar sua versão daquele filme, aproveitando as cenas que ele filmara, excluindo sequências inteiras da versão de Richard Lester e mudando consideravelmente boa parte da história. O resultado veio a público em novembro de 2006, sendo visto em sessões reservadas de cinema e lançado em DVD. Para variar, tal DVD não foi trazido para cá, e caso alguém queira assisti-lo, terá que desembolsar uma grana preta em doletas ao importar o DVD ou apelar para o download da versão.
E depois de tanta enrolada, finalmente o que muda tanto na versão de Richard Donner? Sem apelar para spoilers, muita coisa de Lester foi removida, como já disse, até porque a principal diferença entre Lester e Donner é que este último sempre preferiu uma abordagem mais sóbria, enquanto Lester tinha uma quedinha para o humor, algo que resultou naquela palhaçada de filme, “Superman III”, totalmente dirigido por Lester e que deve ser o pesadelo de qualquer fã do Homem de Aço. Os pontos negativos é que muitas das cenas aproveitadas são apenas cenas-teste, a coerência entre as cenas fica um pouco prejudicada devido a falta de material ou impossibilidade de produzi-lo, e não senti maior empenho em atualizar alguns efeitos com a ajuda de CGI, ficando algumas cenas com efeito tão tosco quanto aqueles velhos episódios de “O Elo Perdido”.
Mas ao menos a história ficou melhor costurada, sem muitos absurdos à lá Richard Lester, como o super-celofane ou o poder de causar amnésia com um beijo que o Super-Homem adquire repentinamente. Há também a presença de Marlon Brando nas cenas da Fortaleza da Solidão, ao invés da sua mãe kriptoniana, além de uma continuidade direta entre os acontecimentos do primeiro filme e os do segundo. O final do filme se assemelha ao do primeiro filme, com o Super-Homem nos restituindo a glória, mudando como um deus o rumo da história por causa da mulher. Se era isso que Donner queria fazer à época ou ele apenas se virou com o que tinha a mão, reeditou o filme e mandou os fãs o deixarem em paz, aí só Deus sabe.
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