Aviação: um filho com muitos pais

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Em 23 de outubro de 2006 foi comemorado o centenário do voo do 14-Bis, do brasileiro Santos-Dumont, considerado por quase todo mundo como o inventor do avião. Quase, porque os americanos ainda teimam que eles foram os pais da criança, e três anos antes. Mas quem está com a razão, afinal? Como bons especialistas de botequim e bodega, no Dia do Aviador discutimos o assunto com toda isenção e objetividade que for possível.

E quem é o pai, afinal?

Atribuir paternidade ao avião é ainda algo mais polêmico que aqueles testes de paternidade do programa do Ratinho, e nesse caso não há teste de DNA que dê uma resposta definitiva. E os pais mais conhecidos são os irmãos Wright e o brasileiro Santos-Dumont. Nessa briga de faca histórica, normalmente envolve paixões nacionalistas e patrióticas, ofuscando a objetividade de qualquer argumento. Se por um lado as enciclopédias americanas defendem o pioneirismo de seus patrícios, os engenheiros Orville e Wilbur Wright, os brasileiros e franceses tem motivos de sobra para atribuir a paternidade do mais pesado que o ar à Santos-Dumont, brasileiro de nascença, filho honorário de Paris na Belle Epoque e verdadeiro cidadão do mundo.

De toda forma, para tentarmos ser objetivos, temos que definir exatamente de qual paternidade estamos falando. Os americanos comemoraram em 2003 o “centenário do voo”, em referência ao suposto experimento dos Wright em KittyHawk. Mas voar o homem já voava há muito tempo com “os mais leves que o ar”. Se o caso é falar de voo do “mais pesado que o ar”, antes mesmo de Dumont e dos Wright já houve quem voasse com um veículo “mais pesado que o ar”.

Os tios-avôs do avião

99051-004-5578BCAA.jpgInventos e descobertas não são simples geração espontânea, e normalmente determinada época facilita a propensão a tais descobertas, não sendo raro na história que duas ou mais pessoas em cantos diversos do mundo estivessem envolvidas em experiências similares, e na maioria das vezes o sucesso de um inventor ou pesquisador é resultado do conhecimento acumulado com outros experimentos anteriores. Infelizmente, o conhecimento enciclopédico costuma atribuir o sucesso e a paternidade de invenções àquele que consegue finalizar um desafio ou invento, ignorando os precursores. Devemos lembrar a famosa frase de Isaac Newton, que afirmou que enxergou tão longe porque se debruçou sobre os ombros de gigantes, assim fazendo justiça aos que lhe antecederam.

O fim do século XIX e início do XX era uma época propensa a experimentos de voo. Um dos mais conhecidos pioneiros do voo é o alemão Otto Lilienthal, que fez experimentos bem sucedidos com planadores. Apesar da falta de propulsão, suas máquinas voadoras podem ser consideradas algumas das primeiras, senão as primeiras, máquinas mais pesadas que o ar a terem êxito, e isso em 1891. Infelizmente o alemão morreu em 1896 em um acidente com um de seus inventos. Após ele, outros cientistas e inventores se debruçaram sobre o problema do voo, e alguns desenvolveram máquinas na tentativa de dominar os céus, como Hiram Maxim, Augustus Herring, Gustav Whitehead e Carl Jatho. Os Wright seriam apenas mais um desses pioneiros, que teriam contribuído no desenvolvimento do avião, mas eles estavam bem longe de terem desenvolvido um projeto definitivo, com real capacidade de voo.

Os Padrastos do voo

O tal centenário do voo a que se referiram os americanos em 2003 foi devido ao presumível êxito dos Wright em 17 de dezembro de 1903. A dupla de irmãos tomara contato com as experiências do finado alemão Otto Lilienthal após estas serem levadas para a América por Chanute e Langley. Orville e Wilbur começaram suas experiências com planadores em Kitty Hawk, e depois continuaram com tais experiências em Dayton, Ohio. Ao contrário de Santos-Dumont, os Wright preferiam manter segredo sob suas descobertas, já que pretendiam capitalizá-la. Por isso, se alega, praticamente não há testemunhas que certifiquem a primazia do voo dos americanos, e os historiadores se baseiam apenas no diário dos irmãos, que registra o dia 17 de dezembro como o dia em que conseguiram voar o “Flyer”. Todavia, historiadores levantam sérias suspeitas de que realmente tal voo teria ocorrido nesta data, e que em 1903 o “Flyer” sequer estava em condições de voo. Eis alguns fatos que corroboram esta idéia:wright_flight.jpg

- O suposto primeiro voo foi testemunhado apenas por poucos jornalistas convidados, e uma das poucas pessoas que presenciaram o experimento, Octave Chanute, disse que não houve voo realmente. Tampouco nenhuma notícia relevante sobre o fato saiu nos jornais da época;

- Mesmo tentando manter segredo, não dá para se ignorar um aeroplano em voo, principalmente naqueles tempos. E nas proximidades do local de testes havia estradas bastante movimentadas, mas mesmo assim ninguém testemunhou nenhum voo;

- Em 1904, os irmãos Wright tentaram obter na Inglaterra o registro de patente de um planador sem motor. Não parece fazer muito sentido, já que no ano anterior eles supostamente já teriam sucesso com uma máquina motorizada;

- No ano de 1905, os irmãos propuseram ao ministério da guerra americano a construção de uma máquina de guerra voadora. Sem nenhuma especificação ou projeto acompanhando o requerimento, o ministério respondeu que só se interessaria por um eventual projeto após uma demonstração prática, exigindo que tal equipamento já estivesse em condições de voo. Os Wright desistiram após a posição do Ministério. Curioso, já que se alega que ambos já tinham, em 1903, voado com seu “Flyer”…

- No ano seguinte, os irmãos fizeram a mesma proposta ao governo francês, que teve a mesma posição do governo americano, exigindo uma demonstração prática de um protótipo já funcional. Em tese, eles já deveriam ter, se procedesse a afirmação de que, em 1903, o Flyer já decolara.

Pelo que consta, os irmãos faziam questão de manterem seus planos em segredo, com medo de serem copiados, já que o objetivo principal seria ganhar algum dinheiro com sua invenção. Mas após o sucesso der Santos-Dumont em Bagatelle no ano de 1906, diversos outros aeroplanos funcionais começaram a aparecer na Europa. Em 1907 eles embarcam para o velho mundo para tentar negociar seu invento, e apenas em 1908 é que eles finalmente realizam uma demonstração prática do “Flyer”, que se prova um fiasco quando comparado aos aparelhos já em funcionamento, já que o avião dos Wright não decolava por meios próprios, necessitando do auxílio de uma catapulta. Ou seja, mesmo que o Flyer tenha voado em 1903, fato sobre o qual pairam muitas dúvidas, seu voo estaria longe de ser considerado uma primazia, já que o aparelho não conseguia decolar sozinho, sendo lançado por uma catapulta. Desse jeito, até um tijolo voa…

Em suma, os irmãos Wright teriam o mérito de, entre outros inventores, terem ajudado no desenvolvimento do avião, fazendo parte da história da aviação. Mas daí a querer que suas experiências tenham sido o ápice da invenção do voo é exagero, facilmente explicado pela necessidade de uma nação que está construindo sua identidade cultural em criar ícones e vultos nacionais e patrióticos, como era o caso dos Estados Unidos do início do século XX. Isso é um traço inegável dos americanos, procurar atribuir à eles a primazia dos inventos e descobertas, mesmo que haja dúvidas.

OSantos Dumont.jpg Mineiro Voador

Agora vamos conhecer o outro lado da polêmica. O mineiro Alberto Santos-Dumont desde cedo demonstrou interesse por mecânica, e foi estudar e residir em Paris aos 19 anos. Lá, acabou se tornando mais uma atração da cidade, pois sua obsessão pelo voo o fez ascender em balões, e logo ele estaria construindo o próprio balão, batizado de “Brasil”, em 1898. Com a ebulição cultural e científica da cidade-luz, Dumont se tornou um expert no assunto, e se dedicou a construir balões dirigíveis, aplicando seu conhecimento em mecânica e motores. Seus inventos posteriores eram batizados com números. Aí foram surgindo os dirigíveis número um, dois, três e assim por diante, para admiração dos parisienses. Também se tornaram folclóricos seus acidentes com seus dirigíveis, dos quais o mineiro escapava ileso, como personagem de desenho animado. Com o número 5, tentou ganhar o prêmio Deutsch, que premiaria quem conseguisse voar do aeroclube de St.Cloud, contornasse a Torre Eifell e retornasse ao ponto de partida em 31 minutos. Mas durante a tentativa, Dumont sofreu mais um de seus famosos acidentes. Acabou retomando a empreitada com o número seis, e no dia 19 de outubro de 1901 fez o percurso exigido em 30 minutos e meio, se sagrando campeão. O prêmio em dinheiro, como outros prêmios que viria a ganhar, foi distribuído com seus mecânicos e com os pobres de Paris. Isso era uma demonstração dos ideais de Dumont, em contraponto aos planos dos irmãos Wright. Estes, como bons americanos, queriam de todo jeito faturar com seu invento, procurando ocultá-lo de prováveis espiões. Já Santos-Dumont era um idealista, e sempre quis compartilhar suas descobertas, fazendo demonstrações públicas. Aliás, ele usava seus dirigíveis para andar por Paris, como hoje usamos um automóvel. Na visão de Dumont, as descobertas aeronáuticas deveriam pertencer à humanidade para serem utilizadas em prol de todos.

O inventor brasileiro foi aperfeiçoando seus dirigíveis até o número 10, seu “L´Omnibus”, com capacidade para 12 passageiros. Após este, passou a se dedicar ao problema do “mais pesado que o ar”, e a partir de 1903, dedicou seus esforços na construção de um avião. Os projetos 11 e 12 já indicavam essa direção, sendo o primeiro um planador que poderia vir a ser motorizado, porém nunca foi concluído por falta de motores adequados. O 12 seria o protótipo de um aparelho similar ao helicóptero, mas nunca saiu do papel. Nesse meio tempo, Dumont retornou aos balões dirigíveis com o número 13, seu maior dirigível, que infortunadamente foi destruído após uma tempestade, já que seu tamanho impossibilitava seu armazenamento no hangar do aeroclube.

Dumont construiu outro dirigível, o 14, que seria utilizado nos testes com seu aparelho mais pesado que o ar. Em 1905, Gabriel Voisin testou um planador com configuração biplana e com o uso de células de Hargraves, que eram “caixas” devidamente acopladas, idéia desenvolvida pelo pesquisador australiano Lawrence Hargraves. Em cima desses conceitos, Santos largou as noitadas no Maxim´s para construir seu aparelho. A motorização foi outro problema, que ele resolveu ao utilizar motores de lanchas, que eram leves e adequadamente potentes. Em 1906, o novo objeto já tomava forma, e Dumont começou a testar sua dirigibilidade fazendo o aparelho deslizar pendurado por um cabo e rebocado por um burro, depois atando o aparelho ao dirigível 14 para mais testes, daí surgindo o nome do novo aparelho – 14 Bis. Depois de adequar os comandos aerodinâmicos, o centro de gravidade e incluir um motor mais potente, o aparelho estava pronto para ser demonstrado em setembro. A primeira vez que o aparelho decolou por meios próprios foi em 7 de setembro de 1906, um voo curtíssimo, seguido por outro voo de 13 metros, a altura de um metro.

Essa porra voa!

Mas o voo que entraria para a história se deu em 23 de outubro de 1906, no campo de Bagatelle, quando o aparelho levantou voo diante de uma multidão, incluindo membros do Aero Club da França, que certificavam aparelhos voadores. O 14-Bis percorreu um trajeto de 60 metros a 3 metros de altura. Aquele momento seria um divisor de águas na história da aviação mundial, e o 14-Bis se tornaria a primeira aeronave certificada a levantar voo por meios próprios, sem auxílios externos. Nos meses seguintes, Santos-Dumont ainda aperfeiçoaria as superfícies de controle do 14-Bis.14 Bis.gif

O sucesso do voo do brasileiro impulsionou o desenvolvimento de outras aeronaves pela Europa, desenvolvidas por colegas de Santos-Dumont, como Charles Voisin, Henri Farman e Louis Blériot. No ano seguinte, diversos aparelhos apareceram nos céus europeus e americanos. Inclusive, na terra dos Wright, Thomas Baldwin decolava a bordo do Red Wing, projeto de Thomas Slfride, e considerado por muitos historiadores como a primeira aeronave à realmente alçar voo em território americano. Os dez anos seguintes moldaram a aviação mundial, com o desenvolvimento cada vez mais rápido de aeronaves. Mas tal explosão se deu início naquela tarde em Bagatelle, com Santos-Dumont.

Santos-Dumont continuaria desenvolvendo outros projetos, e o seu mais conhecido é o elegante “Demoiselle”, um antepassado dos ultraleves, com o qual Alberto passeava por Paris e pousava onde bem entendesse para tomar uma xícara de chá, sendo bem mais funcional que o “14-Bis”. Como visionário que era, Dumont imaginava que um dia os aviões seriam veículos acessíveis a todos, substituindo o automóvel. Tanto é que liberou o projeto do Demoiselle para qualquer um que quisesse construir o seu. Infelizmente os rumos que a aviação tomou acabaram deixando Santos-Dumont descontente, pois as aeronaves passaram a se tornar cada vez mais complexas, caras e inacessíveis. E, além do mais, durante a I Guerra Mundial, o avião se tornou uma excelente máquina de combate, para desgosto do pai da aviação.

Resumindo…

Analisando além da superfície, fica claro que o avião teve inúmeros pais, e que os irmãos Wright apenas tiveram uma participação no processo de gestação. Mas foi Alberto Santos-Dumont que obteve o primeiro êxito público, documentado e certificado com um aparelho mais pesado que o ar. E, ao contrário dos americanos, Dumont era um visionário e idealista, que nunca quis enriquecer com seu invento, doando seu conhecimento em prol do desenvolvimento humano e abominando o uso militar de seu invento. Já os Wright só queriam saber era de encher o rabo de dinheiro, e nem se importavam se ela seria usada em guerra, já que tentaram vender seu invento para uso bélico. Em suma, como bons americanos, eram dois filhos da puta. Haja isenção histórica de nossa parte, hein?

Infelizmente, Santos-Dumont acabou entrando em um processo depressivo, e já no Brasil, morando em Guarujá (SP) durante a revolução Constitucionalista de 1932, teria visto aviões indo bombardear forças rebeldes. Acabou se suicidando aos 59 anos

Por isso, o Brasil e a França comemoraram o verdadeiro centenário do voo em 23 de outubro de 2006, com direito a réplica do 14-Bis, construída pelo comandante Fuchs alçando voo e reproduzindo o feito de Santos-Dumont. Apesar de Bill Clinton ter, em 1997, declarado publicamente reconhecer o pioneirismo de Santos-Dumont em relação aos Wright, isso não significa que as enciclopédias americanas vão ensinar que um brasileiro tem mais mérito que os americanos na invenção do voo. Tanto que, em 2003, os americanos comemoraram o “centenário do voo”, em referência ao suposto voo pioneiro dos Wright, construindo uma réplica funcional do Flyer. Funcional entre aspas, pois corroborando a teoria dos que defendem que a máquina dos Wright realmente não tinha capacidade de alçar voo por meios próprios, a réplica dele simplesmente não conseguiu levantar durante a cerimônia. Será que o fantasma de Santos-Dumont teve algo a ver com isso, ou simplesmente ele ficou olhando em um canto e gargalhando, satisfeito?

Sobre Santos-Dumont

Santos Dumont já foi tema de inúmeros livros, e listá-los aqui fugiria ao espaço e exigiria um hercúleo trabalho de pesquisa. Aqui algumas dicas de leitura
- Entre pesquisadores brasileiros, temos o livro “Santos-Dumont, a Conquista do Ar”, de Aluízio Napoleão. O trabalho de pesquisa inclui a reprodução de textos originais da época sobre Santos-Dumont, inclusive abordando a polêmica com os Wright.
- O próprio Dumont escreveu um livro intitulado “O Que eu Vi, O que Nós Veremos”, onde relata suas invenções e descobertas. Foi reeditado em 2000 pela Editora Hedra.
- O cartunista Spacca transformou Santos Dumont em personagem de tiras, que eram publicadas na antiga revista “Níquel Náusea” sob o título de “Santô”. Em 2006 ele lançou o livro em quadrinhos “Santô e os Pais da Aviação”, belamente ilustrado e contando a história dos pioneiros da aviação, com uma surpreendente isenção histórica.
- Um recente livro é “Asas da Loucura -a Extraordinária Vida de Santos-Dumont” escrito pelo jornalista americano Paul Hoffman e lançado em 2004. Este tem a vantagem de não se render a paixões nacionalistas, algo que, às vezes, compromete livros escritos por brasileiros. Tampouco Paul Hoffman puxa a sardinha para os seus compatriotas. E antes de Paul Hoffman, a inglesa Nancy Winters lançou a biografia “O Homem Voa! A Vida de Santos-Dumont, o Conquistador do Ar”.
- Já no cinema, projetos de filmes sobre o notável brasileiro nunca saíram da fase de projeto. Há vinte anos Tizuka Yamazaki ameaça produzir este filme, mas desde então só tem feito filmes da Xuxa. Em 2006 foi lançado o curta-metragem “14-Bis“, do diretor André Ristum, com Daniel Oliveira como Alberto Santos-Dumont. O próprio Ristum dirigiu, em 2001, o curta “O Homem Voa?”

Para dar uma bisoiada

Santos-Dumont na Wikipedia

Irmãos Wright na Wikipedia

Página oficial da Força Aérea Brasileira

facebook comments:

2 Pediram Fiado para “Aviação: um filho com muitos pais”

  • Mauro Gonçalves de Souza:

    Sou muito patriota e detesto americanos, mas na verdade o modelo de asas usado hoje em dia nos aviões que cruzam continentes é o dos irmão Wright , a máquina que Santos Dummont fez, decolou mas nunca seria útil na prática.

    • De fato, o 14-Bis usou a teoria das células de Hargraves, que na prática não se mostrou a melhor solução. O dos irmãos Wright se aproximou mais do conceito das aeronaves modernas, apesar do Flyer original ter os profundores à frente, ao contrário da grande maioria dos aviões, que tem os profundores na cauda, junto com o leme e os estabilizadores, algo que já era visto no “Demoiselle” de Santos Dumont, este sim um modelo de aeronave que adotou soluções mais práticas. Em suma, foi uma invenção onde muitos contribuíram para sua evolução, e nem todos levaram a fama devida. Abraços e apareça quando quiser na blodega!

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