Eternas Ondas

Assistindo ao premiado filme “O Leitor“, uma das questões levantadas pelo personagem central é como a personagem de Kate Winslet, Hanna Schmitz, que fora sua amante no passado, poderia ter sido capaz de participar do genocídio dos judeus ao trabalhar para a SS e servir ao regime nazista. A priori, se imagina que apenas monstros e sociopatas seriam capazes de matar diariamente centenas de pessoas, e é uma ideia difícil de aceitar que gente “normal” seja capaz dessas barbaridades. Extrapolando este questionamento, como uma população inteira foi capaz de aceitar os desmandos de um ditador como Hitler, entre outros exemplos que não faltam na história? Um filme – aliás, dois – tentam responder a este questionamento de forma satisfatória.
Mas senta que lá vem história. Meu velho amigo Regivaldo, que tinha um invejável acervo de livros, fitas VHS, Lp’s e Cd’s, me apresentou muita coisa legal nas poucas visitas que fiz à sua casa. E uma delas foi me falar a respeito de um filme para a TV chamado “A Onda”. Na época, ele não encontrou a fita aonde gravara o filme, mas sua capacidade narrativa foi mais do que suficiente para eu me sentir praticamente como se assistisse ao filme, contando os pormenores da trama, descrevendo os acontecimentos e narrando o final surpreendente. E essa narrativa me marcou de tal maneira que logo me tornei um admirador da história e do filme, sem sequer tê-lo assistido.
Resumindo a história: em uma escola de ensino médio americana,o professor de história Ben Ross (o ator Bruce Davidson, mais conhecido como o Senador Kelly de X-Men), após exibir um filme sobre o nazismo e ser questionado por um aluno de como o povo alemão permitiu que o partido nazista montasse sua máquina de extermínio, tenta responder a esta pergunta fazendo um experimento social com a sua turma: em um programa de três fases, ele mostra a força através da disciplina, do senso de comunidade e da ação, juntando os alunos em um movimento coeso batizado de “A Onda”. Logo, os alunos que se tornam membros do movimento se tornam mais unidos e disciplinados, prontos a seguir o carismático líder/professor. O que iniciou como uma brincadeira, acaba tomando um vulto bem maior do que o planejado, e o próprio professor se deixa levar pela euforia do poder sobre o grupo. Há os que se opõem a ideia, e estes começam a ser hostilizados por todos do grupo. Pessoas antes socialmente desajustadas se entregam de corpo e alma ao grupo, que os aceita sem restrições. Por fim, quando o movimento parece crescer exponencialmente, sob a promessa de um líder nacional que arregimenta seguidores jovens com o intermédio de professores por toda nação, o professor reúne seus acólitos para mostrar a quem realmente estavam seguindo, e os jovens percebem o quão fácil uma população pode ser levada a seguir ideias fascistas e de cometer todo tipo de atrocidades em nome de uma ideologia e sob as ordens de algum chefe de características quase messiânicas. E o melhor, ou mais assustador, é que a história era baseada em um experimento real ocorrido nos Estados Unidos nos anos 60, mais exatamente no Cuberly High School, de Palo Alto, Califórnia, quando o professor Ron Jones levou seus alunos ao delírio coletivo de um regime fascista. O experimento deu origem a um livro, no qual o filme se baseara, e que infelizmente não tive oportunidade de lê-lo. Caso queira mais detalhes do episódio, eis aqui um ótimo artigo a respeito.
Muitos anos depois, com a ajuda da boa e velha Internet, consegui achar e assistir ao diacho do filme, que é uma produção média-metragem feita para a TV no início dos anos 80. Considerando todas as limitações técnicas e a duração curta, o filme consegue passar a mensagem, mesmo sem desenvolver adequadamente as situações-chave da trama em seus 46 minutos de duração. Não obstante, este filme costuma ser passado em cursos universitários e secundaristas para fins didáticos, na tentativa de mostrar como as massas podem ser manipuladas para a realização de atos indizíveis. Inclusive na Alemanha, pelo que dizem, na mesma Alemanha que pariu Hitler e o partido nacional-socialista, uma maneira de lembrar que tudo aquilo poderia vir a acontecer novamente. Mas cá entre nós, a narrativa do bom e velho Regivaldo foi mais eficiente em contar a história do que o telefilme.
Mas essa lacuna foi recentemente preenchida com uma produção melhor trabalhada, para o cinema e, por incrível que pareça, na Alemanha. A Onda (Die Welle) do jovem diretor Denis Gansel, é mais um exemplar da nova escola de cinema alemão, que tem rendido bons e modernos filmes. A história do livro e do primeiro filme é adaptada para a realidade alemã atual. A essência é mantida, e outros detalhes são acrescentados para enriquecer a história. Nessa versão, o professor Rainer Wenger, o típico mestre que mantém um relacionamento mais informal com os alunos e curte rock, é levado a ministrar uma turma extra com o tema autocracia à contragosto, já que almejava ensinar sobre um tema que melhor dominava, anarquia. E nessa turma, meio que de improviso, resolve levar à frente a experiência com seus alunos, para saber se um regime como o nazismo ainda encontraria acolhida na juventude alemã. Como no filme americano, a experiência é encarada como brincadeira, no início, mas começa a tomar contornos sérios, e o grupo cria regras, padroniza as vestimentas, batizam o movimento e concebem a marca, que se espalha como uma onda, realmente, afetando a todos os envolvidos, inclusive o professor, e se estender para além dos muros da escola. E da mesma forma, as poucas vozes contrárias são perseguidas e ameaçadas.
A vantagem dessa versão é, além de atualizar a história, explora melhor o perfil dos personagens e as diferenças sociais, e não se limita a narrar os fatos apenas no ambiente escolar, mostrando a onda se espalhando pela cidade, agregando adeptos e hostilizando os opositores. O diretor aproveitou para mostrar a juventude alemã e alguns de seus problemas. A conclusão do filme é parecida com a americana, porém tem um desfecho mais trágico, mais de acordo com estes tempos de cólera.
Mas independente de você ler o livro ou assistir a qualquer das versões do filme, a lição é a mesma: que todos estamos sujeitos a nos tornarmos massa de manobra seguindo a “onda” da maioria, algo que pode ser banal mas pode acabar assumindo contornos perigosos. Que o diga aquela estudante da Uniban…
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