Acendendo Vela Para o Santo Errado

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Adoro ouvir histórias, anedotas e “causos”, normalmente entre copos de cerveja em algum pé-sujo de minha preferência. Fatos inusitados, insólitos, por vezes surreais, se tornam mais interessantes que a ficção, principalmente se o narrador tiver o talento natural de enriquecer sua narrativa. E o que não falta em meu círculo de amizade são talentos orais com muita história pra contar. Diversão garantida por horas, ou o dinheiro (da cerveja) de volta.

Esse “causo” do qual me lembrei agora quem me contou foi minha grande amiga Mirtes, a respeito de uma outra amiga sua, chamada Rita  de Cássia. A princípio iria apenas reproduzir o que me lembrava, mas sua amiga relatou o fato em seu blog. Como ela ainda não o abriu para visitação pública, reproduzo aqui parte do texto no qual ela relembra este episódio pitoresco:

“Bem, este acontecido envolve uma devota e sertaneja senhora e uma escultura comprada na feira semanal da cidade de Coremas, Estado da Paraíba, país Brasil. E, para não pecar pela imprecisão, detalho que este verídico acontecimento teve como cenário o Sítio Barra – Riacho da Catinga, localizado na zona rural da cidade antes mencionada.
Tudo foi descoberto quando eu, em uma de minhas afamadas visitas aos meus pais, inventei de dar uma passada na casa de uma tia minha que, na qualidade de mulher desposada, é a herdeira das mobílias e objetos pessoais de minha avó Maria.
Antes mesmo de emburacar casa adentro, eu avistei na estante a escultura de Charles Chaplin, ou melhor, de Carlitos, o Vagabundo. Eu fiquei bestinha quando vi, porque sendo eu conhecedora das paixões de vovó, tinha convicção de que não era do seu gosto, aliás, não era do seu conhecimento a existência deste personagem do cinema mudo.

Quando foi no outro dia, minha tia chegou na casa de meus pais com esta escultura entre as mãos e disse: Rita, eu prestei atenção que você gostou muito deste santo e eu lhe trouxe de presente.

Santo? Foi a primeira pergunta que me veio a cabeça, como assim, santo? Foi aí que eu entendi tudinho. O fato é que vovó, lá pelos idos dos anos setenta ou oitenta comprou Carlitos na feira livre de Coremas achando que era Padre Cícero.”

Rita de Cássia Gregório de Andrade

Pois é, a pobre da velhinha sertaneja tava rezando pro santo errado. Aliás, nem santo seria, a priori. E nem a culpo, já que eu, míope que sou, tranquilamente poderia confundir até uma Coca-Cola de um litro com uma estátua de Padre Cícero. Claro que sem óculos e umas cinco doses acima. E talvez nem tenha sido culpa exclusiva das limitações óticas da senhora. Imagino-a procurando uma imagem do “Padim” Padre Cícero pelas bancas da feira e, por acaso, encontrou algum vendedor esperto que lhe empurrou essa estátua à senhora míope, numa situação parecida com aquele famoso “causo” no qual um turista em passeio por Juazeiro do Norte procura um São Jorge para atender ao pedido de um amigo, e o santeiro, na falta do santo matador de dragões, empurra um São Pedro mesmo, para não perder o cliente, que estranha e questiona se São Jorge não teria cavalo, e o santeiro, rápido no gatilho, justifica dizendo que São Jorge o trocara por um jipe, o que explicaria estar segurando uma chave. Não duvido nem um pouco que algum vendedor malandro tenha empurrado o Charles Chaplin como Padre Cícero.

Não obstante, independente da causa, o fato é que a pobre senhora passou anos rezando para o Carlitos na crença de estar pagando libação pro Padre Cícero. E em se considerando que ela tenha alcançado suas graças, há de se cogitar uma possível beatificação do vagabundo de chapéu-coco. Se não obrou milagres, ao menos encaminhou os recados erroneamente a si endereçados para o destinatário certo, o que já seria uma proeza.

Update: finalmente a autora desse “causo” resolveu abrir seu blog para visitação pública. O nome da jovem é Rita de Cássia Gregório de Andrade, e seu blog está aqui. Boa sorte no blog. E um aviso: isso vicia!

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5 Responses to “Acendendo Vela Para o Santo Errado”

  • Quando eu parar de rir eu posto um comentário decente!

  • Rita de Cássia Gregório de Andrade:

    Bem, eu sou a autora desta história e a neta de Dona Maria de Pedro Henrique, a Senhora que comprou o “Santo”.

    Seu texto está bastante pertinente.

    Peço-lhe somente uma coisa: abaixo da minha história, a qual você redigiu em itálico, por favor, coloque meu nome completo, constando minha autoria:
    Rita de Cássia Gregório de Andrade.

    Eu tenho um blog que está em construçao, mas dificilmente me dedico a ele… Depois lhe envio o endereço.

    Abraços.

    Rita

  • Mirtes, tava lendo o blog da Rita de Cássia. Tou vendo que ela tem muita história pra contar. Deverias tê-la apresentado antes :) Adorei a história do primo dela guiando-a em Sumpaulo. Abraços!

  • Rita de C. G. de Andrade:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Oi Moziel:

    Dando meu vôo raso por aqui vi o seu comentario a respeito de minha pessoa.
    Já que nao pudemos nos conhecer antes, apresentemo-nos virtualmente, o que mais nos toca… Vendo tao estimulantes comentários sobre minhas humildes narrativas, quem sabe eu nao sigo registrando mais historias? eu sou uma narradora as ocultas, minha timidez nunca me permitiu expandir minhas historias mais que aos amigos ìntimos que romperam a casca da minha beiradeiriçe (pergunte a Mirtes o que è um Beradeiro, caso vc nunca tenha ouvido falar). Mas, a contar por meus amigos (se suas opnioes sao realmente imparciais), eu levo jeito pra contar historias.

    E vc è uma amigo que está alcançando algumas historias escritas.

    Um abraço,
    Rita.

  • Simone Morais:

    Olá Moziel

    Eu sou amiga de Rita e conheci seu blog através dela. Esse é um dos “Causos” que mais gosto e achei bastante interessante seu texto. Tornarei-me freguês de sua “blodega”.

    Simone Morais

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