O Fim da Terra e do Céu

Não é novidade pra ninguém a estreia há poucas semanas do filme “2012“, do diretor que quer sempre que o mundo se foda Rolland Emerich, alguém que o nobre frequentador da blodega deve conhecer do outros “crássicos” como “Independence Day”, “Godzilla” e “O Dia Depois de Amanhã”. E como de praxe, o filme vem recheado dos mais previsíveis clichês e inverossimilhanças, o que tem gerado críticas de todo tipo. E claro, o povo não quer nem saber e vai assistir assim mesmo aos montes. Além de fazer o produtor encher o rabo de grana, ainda serve de pauta para programas sem assunto, e mais uma vez o povo discute sobre um provável apocalipse, coisa da qual se pensava estarmos livres até o fim do século. E tudo por culpa do diacho do calendário maia, que acaba em dezembro de 2012. E para por mais lenha na fornalha, o tal filme “2012″ é lançado três anos antes da suposta data fatal. Será que é pra dar tempo dos produtores aproveitarem o lucro do filme?
Só para tranquilizar, isso não é mais uma crítica ou resenha do filme, pois ainda nem assisti a “O Dia Depois de Amanhã”, tampouco “2012″. Aliás, em termos de filmes apocalípticos recentes, preferi assistir a “Presságio” , que abordou bem o tema, equilibrando fenômenos científicos com referências interessantes à elementos bíblicos e um roteiro que prende a atenção do espectador.
A maioria das críticas é quase unânime em estraçalhar os clichês do filme. Mas a crítica mais interessante eu li há duas semanas na coluna do físico Marcelo Gleiser da “Folha de São Paulo”, que pode ser lida aqui . Sua principal crítica ao filme é quanto ao aspecto científico para se tentar explicar os fenômenos que transformam o planeta em paçoca. Onde diacho já se viu neutrinos “sofrerem mutação” e interagirem com o núcleo do planeta?
Mas Rolland Emerich não é o primeiro nem o único a querer encher a tampa de grana com o fim do calendário Maia. Já que este tema tem atraído tanta atenção do público em geral que até a NASA precisou vir a público pra esclarecer estas questões, já que o SAC deles deveria estar puto de tanto desocupado lhes perguntando sobre o fim do mundo em 2012. E para aqueles que acham que os cientistas da NASA não sabem de porra nenhuma, basta procurar pelo tema “2012″ no Buscapé, por exemplo para achar alguns livros oportunistas ansiosos para lhe preparar para o fim iminente. Será que eles aceitam cheque pré-datado para dezembro de 2012? Oras, desde que aqueles malucos dos Borboletas Azuis, lá em Campina Grande, afirmaram que o mundo iria pro saco em 13 de maio de 1980 que venho ouvindo profecias sobre o fim do mundo. E como ainda estamos aqui, podemos dizer que as notícias sobre a fim do mundo foram exageradas.
Mas em se tratando de falar do fim das eras, um livro que eu recomendaria enfaticamente foi escrito não agora, às vésperas de mais um apocalipse anunciado. Na verdade foi lançado em 2001, depois do mundo acabar umas cinco vezes entre 1999 e o início de 2001, ao menos nas visões dos profetas. Foi escrito pelo físico Marcelo Gleiser, atualmente lecionando Física Teórica em Hanover, que ficaria mais conhecido do público anos depois ao apresentar um quadro no “Fantástico”. O livro é “O Fim da Terra e do Céu”, da Companhia das Letras, e o tema abordado é “O Apocalipse na Ciência e na Religião”, como entrega seu subtítulo.
Gleiser se tornou um bom representante brasileiro daqueles acadêmicos que divulgam a ciência entre o público leigo, herança do finado cosmólogo americano Carl Sagan, usando de uma narrativa leve e acessível ao público não iniciado nas complexas teorias da física. Nesse livro é comum encontrarmos breves narrativas ficcionais para ilustrar exemplos e explicações de teorias complexas, bem como também sutis ironias e humor em algumas sentenças, de forma que a leitura flui agradavelmente e você termina o livro se sentindo o maior dos astrofísicos.
A primeira parte do livro Gleiser aborda o temor humano pela morte e finitude, e a necessidade de compreender os fenômenos da natureza e o anseio pelo eterno, culminando com o surgimento de seitas, religiões e superstições ao longo do desenvolvimento do intelecto humano, e a ideia de um “fim de tudo” parece ser comum a varias culturas, mas Gleiser se concentra nas religiões cristãs e nas descrições bíblicas para o Juízo Final, tanto no livro de Daniel no Velho Testamento quanto o Apocalipse de João, no Novo Testamento, que pincelam de forma alegórica os últimos dias, e que ocuparam as mentes de profetas e pensadores, como Santo Agostinho, e atormentaram os cristãos durante boa parte da Idade Média, que vivia em “um estado de expectativa apocalíptica praticamente constante”, principalmente com a chegada do segundo milênio. As guerras, pestes negras e desgraças bem comuns aquela época, associados a aparições celestes de estrelas e cometas sempre eram vistas como um sinal da proximidade do fim dos tempos, e isso se refletiu em obras artísticas, tanto na literatura quanto na pintura.
Ou seja, não é de hoje que aparece profeta vendo sinais do fim das eras em qualquer fato mais aterrador do cotidiano, e narrativas medievais prenunciando o pior são citadas e lembradas, e muitos tentaram decifrar as profecias bíblicas no sentido de obter uma data para o início do fim. Também não é de hoje que algum espertinho tenta levar vantagem com o fim do mundo. Até mesmo Issac Newton, o pai da ciência moderna, acreditava que os cometas seriam instrumentos divinos para a destruição da Terra.
Só depois de Newton a ciência começou a se divorciar da religião, e a sequencia de fatos da Bíblia deixou de ser levada a sério como marco cronológico da Terra e do universo. E como a humanidade, aos poucos Gleiser vai deixando a análise histórica e religiosa e sua narrativa se volta para a ciência, e na segunda parte do livro, o autor explica diversos fenômenos astrofísicos e as possibilidades reais de um evento que venha a eliminar a vida da Terra, como o choque de algum corpo celeste de dimensões razoáveis, um asteroide ou cometa, algo que já aconteceu antes e que possivelmente exterminou os dinossauros e outras formas de vida milhões de anos antes. Sua reconstituição narrativa desse evento consegue ser melhor do que um filme cheio de efeitos, com uma riqueza de detalhes impressionante. Ele lembra que há uma possibilidade razoável de que isso pode voltar a ocorrer, como aconteceu em menor escala em Tunguska, em 1908, quando um pequeno objeto causou devastação em uma área deserta na Sibéria, e de como a cultura popular contemporânea explora essa ideia, principalmente no cinema, citando filmes como “Impacto Profundo” e “Armagedon”. Claro que aprendemos que objetos são estes, como se formam e o que define suas órbitas.
Outra possibilidade para que o mundo vá para o saco está na morte do Sol, e Gleiser nos brinda com uma aula de como as estrelas surgem, como é seu mecanismo de fusão nuclear e quais destinos que aguardam as estrelas, quer seja se tornarem anãs brancas, supernovas ou buracos negros. Qualquer que seja o fim, o consolo é que isso ainda levará bilhões de anos, o que lhe dará tempo mais do que suficiente para tentar entender estes fenômenos. Ou de namorar a Megan Fox, por exemplo, o que for mais fácil.
E pra que nos limitarmos ao fim da Terra, quando o universo inteiro pode desaparecer um dia num futuro beeem distante? Esse fim de REALMENTE tudo é mote para, nas últimas páginas do livro, Gleiser expor as teorias que explicam a gênese do universo, os diversos modelos que surgiram no meio científico nas últimas décadas e o que, teoricamente, pode vir a ocorrer nos incontáveis séculos que o Universo ainda tem pela frente. Talvez essa parte do livro seja a que mais exija atenção do leitor, já que teorias sobre a criação do universo são complexas, e mesmo em uma linguagem voltada para leigos, o assunto se torna meio pesado, mas nada que atrapalhe a leitura.
No final, o livro não nos entrega nenhuma revelação aterradora ou prenúncio imediato de apocalipse, e sim esclarece bem sobre a ideia de juízo final e fim dos tempos, com uma boa dose de ciência e conhecimento, o melhor remédio contra a desinformação e o pânico infundado. Ou resumindo tudo, e citando o compadre Tio Xiko, o fim do mês preocupa mais do que o fim do mundo, e é mais fácil nosso nome descer para o Serasa do que o céu cair em nossas cabeças, como temia o líder dos gauleses Abracurcix, nas histórias do Asterix.

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Bom texto, apesar de que cheguei pensando que ia encontrar algo mais especificamente sobre 2012, via análise cientifica, e não uma critica do filme 2012 e uma resenha do tal livro de gleiser, de qualquer forma não quero dar credibilidade aos maias, mas acho que há várias interpretações erradas sobre este povo, em nenhum momento eles afirmaram que o mundo iria acabar em 2012, apenas que era o fim de seu ciclo mais extenso e a partir desse começaria outro… pode ser um ano de muitas transformações levando em conta a cultura maia, que sem dúvida nenhuma deve ser admirada, mesmo que não aconteça absolutmente nada em 2012, foram eles pioneiros em admirar o espaço e basear sesu calendários no movimente de rotação/translação terrestre e de outros planetas o que de certa forma se contradiz com a tecnologia da época, povo no mínimo que dever ser respeitado tal qual uma sociedade cultural desenvolvida.
Via análise cientifica o filme é uma boxxxta, mas os efeitos são dez.
Cientificamente, a destruição da terra, no filme, se da devido a uma mutação em uma partícula fundamental chamada neutrino, criada no interior do sol através da fusão do hidrogênio em helio.
Essas partículas são lançadas contra a terra incessantemente em maior ou menor número dependendo do ciclo solar.
Ciclo solar são períodos de aproximadamente 11 anos onde o sol apresenta maior ou menor atividade, lançando maior ou menor quantidade de neutrinos contra a terra. O último máximo registrado do ciclo solar foi em 2001. Estamos agora no ciclo de baixa atividade do sol. Os cientistas calculam que o próximo máximo seja aproximadamente, adivinha quando (2001 + 11), a conta que os cientistas fazem não é tão fácil, em 2012 e é ai que o filme cria sua “base cientifica” para a catástrofe, pois nesse tempo a atividade solar vai ser intensa e a quantidade de neutrinos produzida no sol será enorme, fazendo com que o interior do núcleo da terra se aqueça como se estivesse em um micro-ondas. O resto do filme é só efeito especial. Porem o problema é o seguinte: Essas partículas, os neutrinos, não interagem com o núcleo da terra, não serviriam como micro-ondas, elas são muito pequenas e não possuem carga elétrica. Muitas vezes são conhecidas como partículas fantasmas porque podem atravessar o planeta terra sem ao menos um átomo do planeta perceber.
No filme, de alguma forma os neutrinos sofreram mutação e se transformaram em partículas que passaram a interagir com o núcleo da terra, tornando-o mais quente. Impossível um neutrino sofrer mutação.
Algumas partículas aos olhos de leigos podem sofrer “mutação”, mas não é isso que ocorre. Por exemplo, você pode fazer com que uma partícula bem conhecida como o nêutron decaia, essa é palavra correta, “transformando-se” em um próton, um elétron e um antineutrino, mas isso é outra história e servirá como base para o próximo roteiro do filme 2023.
Espero ter contribuído Moziel, abraços.
Junior: De fato, apenas aproveitei o mote movido por mais um “fim-do-mundo” pra recomendar essa leitura, justamente no meio de tanta desinformação sobre o tema fim-do-mundo, que por acaso agora envolve um aspecto mal-explorado da cultura maia, que como você disse, é vasta e interessante
Michelangelo: Se contribuiu? Porra, tua explicação foi melhor que o artigo do Gleiser que citei no texto. Quanto ao próximo filme, do jeito que os roteiros de Hollywood tão “evoluindo”, alguém vai ter a ideia de que as partículas sofrerão uma mutação que interagirão conosco, afetando nossos testículos e nos deixando inférteis e brochas, o que faria com que os machos da espécie humana deixassem de gostar de mulher, futebol e cerveja. O título do filme seria “MARIX 2024″. E não, não estou tomando café com vodca pela manhã, não…
Nossa, seu texto é interessantíssimo!
Você escreve super bem, sem falar que o texto é bem irônico e engraçado.
Parabééns!!
Parei aqui procurando justamente uma resenha sobre o livro do GLeiser, O fim da terra e do céu, pq eu estou com mta vontade de comprar mas fiquei com medo que o livro fosse ruim. Seu texto me convenceu que não.
E gostei mais ainda quando vi a crítica ao filme “2012″, que eu também achei uma balela. Só os efeitos especiais que salvam.
Vou ler mais textos seus!
Obrigado, Alessandra! E pode comprar o livro sem medo. Se você gosta de divulgação científica e afins, este livro é muito bom. Estou devendo uma leitura de outros livros do Gleiser, mas minha fila de leitura tá meio grande. E apareça sempre que quiser. A blodega anda meio empoeirada, mas na próxima semana vou tentar por umas novidades. Abraços!
[...] o mote para finalmente comenta-lo. Afinal, o Gleiser já é cliente VIP aqui da Blodega, pois já comentei sobre outro livro do físico brazuca há alguns [...]