Roberto Carlos Espacial

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Texto enviado por mim mesmo no futuro. As conexões devem ser ótimas em 2069

Um belo dia, na altura de meus trinta e poucos anos, naquele final de ano de 2009, perguntaram se eu tinha medo da morte. É claro que eu me cagava de medo da morte. Mas disse apenas que precisava de tempo para me acostumar com a ideia. Uns cento e quinze anos, pelo menos.
E até que não posso reclamar. Desde aquela data, já se passaram sessenta anos. E, graças ao avanço na medicina, ainda controlo as minhas funções mais básicas. O que significa qualidade de vida e uma senhora economia, já que não precisam lavar minhas calças cagadas. Talvez tanta longevidade se deva a um bom bocado de sorte e – cogitam – a administração regular de doses de gim com tônica.
Cazzo, mais um ano que se acaba. No meu caso, já foram mais de noventa e cinco anos. No decorrer do século 21, muita coisa mudou na raça humana e nos costumes. Mas tem coisas que simplesmente não mudam, e o pouco que mudam é para que tudo permaneça igual.
Por exemplo, desde que me entendo por gente, que o Natal é marcado por um especial de Roberto Carlos e o lançamento anual de seu disco. Claro que quando começou, os discos eram LP. Long Plays, onde chiados disputavam espaço entre os instrumentos e a voz do rei. Meus bisnetos acham estranho quando descrevo estas coisas, que são literalmente peças de museu, comparados aos dispositivos digitais de hoje. Por exemplo, enquanto escrevo, Roberto Carlos está apresentando seu show anual a bordo da estação espacial de luxo Lady Laura, uma nave luxuosa com todos os recursos inimagináveis, incluindo uma casa de shows com milhares de lugares. E podemos assistir a este show no conforto de minha sala através de imagens holográficas e som digital de alta definição. E ao invés de venda de discos, o pacote do show inclui uma cópia registrada do mesmo, gravada em mídia não volátil. É praticamente como se estivéssemos lá. Com exceção da baixa gravidade, obviamente.
Mas como diabos Roberto Carlos ainda está vivo e cantando em 2069? A biografia oficial explica que as mais novas e revolucionárias técnicas medicinais têm prolongado a sua vida, e ainda mantendo sua forma e sua voz (isso inclui uma perfeita perna biônica). Claro que aquele paletó cafona tem um sistema de suporte de vida, dizem as más línguas. Aliás, as más línguas dizem muita coisa. Como por exemplo, que a atual esposa dele, uma jovem setenta anos mais nova, seria um clone da Miriam Rios. Claro que poucos sabem ou se lembram dela, só uns poucos matusas iguais a mim. Há outras teorias malucas de que aquele é apenas um clone do verdadeiro Roberto Carlos, ou que o show inteiro não passa de um holograma produzido por computador. Aliás, dizem que a vida inteira é uma simulação de computador. Isso parece um filme que assisti há muito tempo, só não lembro o título…

Ah, mas tergiverso. O show é o mesmo nestas décadas todas. Algumas canções clássicas, como “Emoções”, abrem o espetáculo. Aí ele emenda um sucesso antigo atrás do outro, como “É Preciso Saber Viver”, “Imoral, Ilegal ou Engorda”, “Festa de Arromba”, “A Volta”, e eventualmente ocorre a participação de algum cantor mais jovem. A propósito, vale comentar que os “cantores mais novos” são quase todos netos e bisnetos de outros cantores famosos “do meu tempo” , como os netos da Sandy, que formam uma banda de heavy-funk-pagode progressivo, que acompanham Roberto em uma nova roupagem da música. Já “Debaixo dos Caracóis de Seus Cabelos” é cantada com a bisneta de Caetano Veloso, naquele tom de homenagem e reverência. Ou não.
Claro que não dá para viver só do passado, mesmo que este passado seja imenso. As músicas novas merecem um espaço no final do show. Este ano ele compôs uma música em parceria com o seu computador Erasmo Carlos (uma cópia cibernética do cérebro do antigo parceiro. Infelizmente não houve ciência que o salvasse de décadas de pé na jaca) que enaltecem a beleza e o caráter das mulheres que trabalham nas casas noturnas que orbitam Vênus. Obviamente Roberto Carlos explica sua nova composição em uma entrevista à Glória Maria. Sim, claro que ela ainda existe. A medicina faz milagres. Só não pergunte qual a idade dela. É o segredo mais bem guardado nestes últimos oitenta anos, talvez mais do que a fórmula da cerveja afrodisíaca romulana.
Mas, diante deste admirável mundo novo, os que me conhecem devem estar se perguntando: o que diabos Moziel faz assistindo a um show de Roberto Carlos, já que eu não era exatamente fã do “rei”? Poderia simplesmente dizer que gostos mudam em seis décadas, ou que o próprio estilo do Roberto teria mudado nestes anos. Na realidade ambos mudamos. Mas a principal causa é que, no mundo de 2065, Roberto Carlos é uma ilha de boa música. Podem acreditar. Ou vocês já tentaram escutar uma música de heavy-funk-pagode progressivo?


Moziel afirma que recebeu este texto de si mesmo por e-mail, já que no futuro este recurso estará disponível, o que acabaria com os problemas de prazo na entrega dos textos. Claro que ele respondeu o e-mail agradecendo e pedindo os números dos futuros sorteios da Mega-sena. Ele ainda aguarda resposta

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