O Big Brother ainda zela por ti!

Nesses tempos de Reality Show, o mais famoso deles é o intitulado Big Brother, importado da Holanda pela Rede Globo. Isso você já sabe. Mas nem todos os expectadores deste programa sabem qual a referência que inspirou o título. Aprenda aqui conosco e pague uma de intelectual quando algum chato lhe perguntar quem foi para o paredão esta semana.
Antes de qualquer coisa, uma breve lição de inglês. Big Brother é o Grande Irmão, personagem do livro 1984, escrito em 1948 pelo inglês George Orwell. Mas o livro nada tem a ver com Reality Shows. Aliás, até tem, mas se você quiser ler o “livro do Big Brother” esperando alguma similaridade com aquele programa apresentado por Pedro Bial, é melhor rever os seus conceitos.
As Bruxas de Blair
Eric Arthur Blair, que acabou se tornando conhecido como George Orwell, era filho de colonizadores ingleses na Índia. Após servir o governo inglês na Birmânia, se desiludiu com a política colonial do império. Passou um período na Europa como jornalista e vendedor de livros, mas graças ao seu engajamento político, acabou ingressando nas Brigadas Internacionais durante a Guerra Civil Espanhola, algo que lhe valeu um ferimento que afetou sua fala. Apesar de se declarar socialista e ser claramente um intelectual de esquerda, ele nunca chegou a seguir doutrinas partidárias ou se envolver diretamente com política, já que, segundo o próprio, “A aceitação de qualquer disciplina política parece ser incompatível com a integridade literária”. Muitos viam em George Orwell um paranoico, já que ele apresentava uma visão pessimista quanto ao futuro, temendo que os governos autoritários dominassem as nações do mundo e que o indivíduo seria esmagado pelo sistema. Mas sua paranoia estava longe de ser insana e infundada, e ela serviu para que ele direcionasse sua produção intelectual para denunciar os perigos e males dos regimes totalitários.
Seu primeiro sucesso de público foi o livro “A Revolução dos Bichos”, uma fábula onde os animais tomam o comando de uma fazenda, numa clara alusão à Revolução Russa de 1917 e uma pesada crítica ao stalinismo, um regime visto com simpatia pelos intelectuais de esquerda, sendo Orwell uma das poucas vozes deste segmento de pensadores que bradavam contra a barbárie cometida na União Soviética.
O Diário de Winston
E ele voltaria a metralhar o totalitarismo soviético naquele que é seu livro mais conhecido: “1984”. Escrito em 1948, a história se passa em um futuro onde o governo controla cada passo do cidadão através das Teletelas, instrumentos similares a TV´s que passam propaganda do governo, mas além de receber imagens, elas transmitem todos os atos dos expectadores. Dessa forma, cada cidadão é observado pelo governo em seus mínimos atos. A delação é incentivada, e até os filhos denunciam seus pais por qualquer ato considerado criminoso. A história é reescrita de acordo com a conveniência do governo. Para limitar a atividade intelectual das massas, a língua oficial é sistematicamente simplificada pela novilíngua, um dialeto novo formado pela aglutinação e simplificação de termos existentes, além do duplipensar, que é a capacidade de se aceitar ideias antagônicas.
E a figura do Grande Irmão é onipresente. Ele é o governante deste futuro, e sua descrição física é uma alusão óbvia a Stalin. Como personagem, ele não aparece em momento algum, a não ser nas imagens de propaganda e nos discursos transmitidos pelas Teletelas. “O Grande Irmão olha por ti” é o lema vigente, como se ele pudesse vigiar a todos os cidadãos sob seu domínio. E ele pode.
Nesse mundo vive Winston, um funcionário do Ministério da Verdade, responsável por manipular os fatos presentes e passados para que se encaixem nos interesses do governo. Não é nenhum herói que vai derrubar o governo, apenas um cidadão pusilânime e apático, que passa o tempo jogando xadrez, escrevendo seus pensamentos em um diário e tomando gim Vitória. Seus pensamentos começam a trair as leis do governo. Ele acaba se apaixonando e se envolvendo secretamente com uma colega de trabalho, e isso acaba tendo consequências trágicas. O livro é competente em transmitir um clima opressor e pessimista, e o final é de deixar qualquer aprendiz de Polyana em depressão. Como diz Winston: ”Eu vi o futuro, e ele é a imagem de uma bota esmagando um crânio humano”.
Será só Ficção Científica?
Por sorte, Orwell estava errado em sua visão de futuro. O renomado escritor de ficção científica Issac Asimov escreveu uma resenha praticamente desconstruindo o livro como obra de ficção científica, apontando incongruências, como a inviabilidade técnica de se vigiar todos os cidadãos ao mesmo tempo. E quem vigiaria os funcionários que vigiam os cidadãos? Como sci-fi, Asimov desqualificou por completo o livro. E, por sorte nossa, o futuro sombrio prognosticado por Orwell não se realizou. Aliás, foi nos anos 80 que os regimes totalitários do leste europeu começaram a se desmontar, culminando com o colapso da União Soviética ao fim da década.
Mas a história deve ser encarada não como ficção científica, e sim como uma alegoria política, e o verdadeiro mérito do livro é descrever os perigos de um governo autoritário ao manipular e oprimir seus cidadãos. Isso é merecedor de ser relembrado em tempos de paranoia contra o terrorismo, onde os governos democráticos começam a suprimir direitos individuais em nome da segurança nacional.
Claro que os teóricos conspiracionistas de plantão veem o “Sistema” como algo que esmaga qualquer indivíduo que ousar revelar “a verdade”, e que todos nós estamos sendo manipulados por uma elite intangível. Como vemos, o Grande Irmão ainda está por aí, e não é apenas um mero Reality Show. E, neste ponto de vista, a visão de George Orwell teria se concretizado, só que de forma mais sutil.
O Grande Irmão Ainda Zela Por Ti
O reflexo do livro se refletiu e influenciou outras obras, inclusive no cinema. Muitos filmes se inspiraram no clima orwelliano, como “THX-1138”, de George Lucas, ou “Brazil – O Filme”, de Terry Gillian, e até o famoso comercial de lançamento do Macintosh em 1984, dirigido por Ridley Scott. Além, é claro, do filme “1984”, que adapta o livro, produzido na Inglaterra em 1984, ou seja, nada mais adequado. Dirigido por Michael Redford, consegue reproduzir o clima do livro soberbamente. Mais recentemente temos “V de Vingança”, baseado na ótima história em quadrinhos de Allan Moore, que por sua vez é claramente inspirada em “1984”, como também o quase-cult “Equilibrium”. O outro romance de Orwell, “A Revolução dos Bichos”, também foi adaptado como desenho animado em 3 ocasiões diferentes, e inspirou o álbum “Animals”, do Pink Floyd
Além de “1984″ e “A Revolução dos Bichos”, George Orwell trabalhou para a BBC durante e II Guerra Mundial e também escreveu dezenas de ensaios e artigos. Ambos os livros podem ser encontrados facilmente, e em português há bastante títulos disponíveis do autor, como a coletânea de ensaios “Dentro da Baleia e Outros Ensaios”, que reúne vários de seus textos.
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