Os “Cabra”!

Conheça “The Boys”, de Garth Ennis

O irlandês Garth Ennis é famoso por enfiar nas suas histórias bastante violência gráfica, diálogos inusitados, palavrões aos montes, abordagens politicamente incorretas e muito humor negro, algo como uma versão Ultimate de Quentin Tarantino para os quadrinhos. Quem leu “Hellblazer” ou “Justiceiro” na fase Garth Ennis sabe do que eu falo. Ele também foi responsável por pegar um personagem obscuro da DC para protagonizar um divertidíssimo título mensal: “Hitman”. Além de assumir personagens já criados, a figura já criou outros personagens em séries regulares ou minisséries, como Bloody Mary ou Preacher. Os fãs do escritor sempre aguardam ansiosos por algum lançamento com sua assinatura, seja uma minissérie ou um título regular. Por isso, o anúncio de uma nova série mensal escrita por Ennis para a Wildstorm em idos de 2006 pode causou taquicardia em muitos fãs.

Os Rapazes de Ennis

Ennis não é muito chegado a super-heróis tradicionais, e sempre que pode ele deixa isso bem claro, da forma mais retumbante possível, seja matando-os ou expondo-os ao ridículo. Quem leu a Graphic Novel “Justiceiro Massacra o Universo Marvel” sabe muito bem disso. Nessa história, Frank Castle teve sua família morta não por testemunhar uma execução da máfia no Central Park, e sim por estar no meio de um combate entre heróis e vilões, e sua sanha vingativa se volta contra todo e qualquer poderoso que usasse cueca por cima da calça. Também é hilária cena no primeiro número de Hitman na qual o assassino Monaghan detona um pomposo grupo de super seres mascarados em menos de três quadrinhos.

O irlandês voltou a esse tema na série mensal da Wildstorm e escrita por ele, “The Boys”. No universo de Ennis, grandes poderes não trazem grandes responsabilidades, e os super-heróis se comportam de maneira arrogante e irresponsável, sem se importar com os danos que possam causar a inocentes, se estabelecendo acima da lei. Nesse contexto, um grupo a serviço da inteligência americana é responsável por manter os super-heróis “na linha”, e caso seus atos fujam ao controle, os “rapazes” estarão lá para mostrar quem realmente manda. E a página de abertura do primeiro número é bem emblemática, já que mostra um herói mascarado (que lembra bastante o Capitão América) tendo o crânio esmagado por uma bota. Meio George Orwell, mas com estilo. Com desenhos a cargo de Darick Robertson, o Garth Ennis não esconde a pretensão de alcançar o mesmo sucesso em um título regular que atingira com o polêmico e aclamado Preacher, que teve 66 números. Ennis planeja escrever 70 números.

O grupo é liderado pelo escroto e inescrupuloso Billy Butcher, que volta a reunir seus colegas de ofício “The Frenchman”, “The Female (Of The Species)” e “Mother’s Milk”. Cada um teria motivos de sobra para querer ver a caveira dos super-heróis. Por exemplo, o novato conhecido como Wee Hughie é recrutado porque sua namorada foi morta na sua frente devido a ação de um super-herói, deixando-o apenas com as lembranças (e os braços decepados da amada). O próprio Butcher revela que sua esposa teria sido estuprada por um dos “grandes” super-heróis, e morrido ao abortar um feto metahumano.

Os eventos da série não ocorrem em nenhum universo de eventos já existentes na DC ou na Wildstorm, o que deve ser um alívio para os fãs de outros heróis. Mas nem por isso Ennis evita referências óbvias a personagens populares e conhecidos, como o grupo de heróis adolescentes Teenage Kix, bem inspirado nos Novos Titãs. Claro que você nunca veria uma orgia na Torre Titã. E há também “Os Sete”, claramente inspirado na Liga da Justiça, cujo trio de principais e veteranos heróis – Patriarca, Black Noir e Rainha Maeve – são versões no Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha. Apesar de publicamente terem a imagem de heróis honrados, eles são totalmente inescrupulosos e pervertidos. Uma cena antológica e hilária é quando uma nova e ingênua heroína é recepcionada pelo líder Patriarca e descobre a verdadeira natureza do grupo ao ser obrigada a fazer sexo oral com ele.

Talvez por estas e outras a DC simplesmente deixa de publicar a série em janeiro de 2007, após 6 números. Não se sabe exatamente o que motivou a decisão, já que as declarações públicas, tanto da editora quanto do escritor, são meio reticentes. O que se especula é que as referências nada respeitosas a personagens medalhões da editora podem não ter agradado a alguns, não obstante a editora já ter publicado algo tão polêmico quanto Preacher, onde literalmente Deus e o mundo eram execrados sem piedade. Como comentou Eudes, do Rapadura Açucarada, tirar sarro de Deus pode, mas não mexa com o Super-Homem.

Para sorte dos fãs, os direitos dos personagens não ficaram com a editora, e Garth levou a história para a editora Dynamite, que continuou a publicar a série a partir do que seria o número 7, e continua editando até o presente momento. À época, Ennis já declarou que os números que já foram lançados pela Wildstorm pareceriam um passeio na Vila Sésamo comparados ao que sairia em seguida. E a promessa foi devidamente cumprida, com direito à violência gratuita, perversões sexuais de vários sabores, teorias conspiratórias e mais elementos tradicionais dos quadrinhos sendo impiedosamente sacaneados. A minissérie “Herogasm” é um chute nos bagos nos grandes crossovers e sagas envolvendo diversos heróis enfrentando uma grande ameaça, e o grupo G-Men transforma os conhecidos mutantes da Marvel em desajustados, mercenários e traumatizados com abuso infantil.

Bem, nem preciso dizer que, até o presente, nenhuma editora brasileira anunciou que pretende trazer essa série para cá. Quem quiser ler esse material terá que apelar para as importadoras, ou se preferir, ler os scans. Inclusive já rola na rede uma versão traduzida para o português pelo pessoal do Vertigem HQ

Update: No início desse ano a Devir anunciou a intenção de trazer, entre outros títulos, a série de Garth Ennis para o Brasil. Preparem os bolsos!


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