Escrever é Obsoleto?

“Cacete! Como atualizo meu twitter nessa porra?”
Nesses tempos em que a sociedade pós-industrial promete livrar as pessoas de uma série de afazeres manuais e arcaicos, temo que isso venha a se estender a boa e velha prática da escrita. Ao menos é a impressão que temos ao percorrer a Internet. Dá a impressão que perder tempo lendo ou escrevendo é algo tão ultrapassado quanto sites em HTML puro, uma excrescência do início da Internet comercial, lá pelo já longínquo meio dos anos noventa. E escrever quilometricamente, como eu costumo fazer quando não me contenho, então deve ser considerada uma excentricidade das mais esquisitas.
Hoje o conteúdo típico de boa parte dos blogs é postar vídeos do Youtube ou linkar algo interessante perdido no mar de bits da velha rede mundial. E com o twitter, alguns nem se dão mais ao trabalho de postar em blogs. Nada contra, mas mesmo quem faz isso seria bom agregar algum comentário ao post, algo que nem sempre ocorre, ou quando ocorre, é bem provável que o blogueiro incorra em algum erro gramatical ou deliberadamente rasgue a gramática e escreva no famigerado miguxês.
Será que é elitismo querer escrever, e ainda por cima, tentar escrever corretamente? Para alguns linguistas, o uso da gramática normativa e a ignorância de variações dela seriam usados como instrumentos de dominação da elite, e até cunharam o termo “preconceito linguístico”. No Brasil, o autor que mais divulga essas ideias é Marcos Bagno, e um de seus livros mais conhecidos é “Preconceito Linguístico”. Na prática, o que ele propõe é que a linguagem falada é dinâmica e incorpora novos trejeitos de falar concomitante a colocar em desuso formas arcaicas da língua, enquanto que a gramática normativa é estanque e demora a incorporar esses aspectos novos, além de insistir no uso de regras arcaicas. E os grupos regionais ou socialmente inferiores sofreriam preconceito por não dominarem o correto português ou de usarem dialetos ou costumes regionais. Os linguistas praticamente abominam pessoas como o professor Pasquale, que disseminam o uso correto da língua portuguesa. E, por tabela, preconizam o abandono da gramática, e que o importante é que a mensagem seja compreendida por quem recebe.
Em parte até concordo, mas dá pra notar certo rancor marxista nesse discurso, e não creio ser viável simplesmente ignorar a gramática normativa, senão essa porra vira um cabaré. Extrapolando essa teoria, o miguxês tão difundido pelos jovens seria uma variação linguística aceitável, e que os “elitistas” da internet, seja lá o que isso signifique, estão apenas implicando com os pobres blogueiros, fotoblogueiros, orkuteiros e twitteiros. E em última análise, escrever não é tão importante assim…
Mas vamos e convenhamos, até entendo que um pobre que vive no fiofó do sertão está pouco se fodendo para o uso correto da próclise, até porque ele não teve a oportunidade de obter uma educação formal. Mas esse argumento justifica um jovem que, teoricamente, teve acesso à educação em seu ensino fundamental e médio escrever de uma forma tão tortuosa? A desculpa maior é ganhar tempo para passar torpedos via SMS ou escrever em programas de mensagens instantâneas. O que importa é passar a mensagem de forma inteligível, né? No cu, pardal!
Mas além do miguxês, é comum em blogs encontrarmos erros crassos de ortografia nos posts. A principal linha de defesa é que quem bloga o faz com urgência, pois se torna mister passar uma informação ou novidade no mais curto tempo possível, já que fatos e notícias se tornam velhos em questão de horas. E o pior, não dá nem pra embrulhar o peixe com eles. Mas isso não é nada que um corretor ortográfico não resolva, oras. E mesmo que os editores de ferramentas de blogs não possuam (ainda) essa facilidade, nada impede que o blogueiro digite o texto no Word (ou seu editor preferido) e depois copie e cole no blog. Até porque copiar e colar é uma prática comum em muitos blogueiros…
Admitamos que a língua portuguesa e suas regras seja um peteleco nos bagos, mas nós devemos ter um mínimo de boa vontade para tentarmos aprender suas nuances. Claro que, na prática, não dá pra querer usar as quatro regências do verbo “assistir”, e que realmente algumas regras acabam mesmo caindo em desuso, até mesmo na imprensa formal.
E por experiência própria, posso garantir que a maneira mais prática de se familiarizar com a ” última flor do Lácio, inculta e bela ” é lendo bastante. E escrevendo, também. E para mim acho que perderia mais tempo tentando verter meus pensamentos para algo tão esdrúxulo quanto essa linguagem cibernética.
Mas para facilitar a vida de fósseis como eu, caso o miguxês se torne obrigatório em um futuro próximo (pouco depois do homossexualismo compulsório), nos últimos dias foi divulgado um tradutor para miguxês , muito útil para quem ainda encontra dificuldades em ignorar a nossa gramática normativa nesse idioma que dói nos olhos e que se perpetua em blogs, fotologs fofuchos, páginas do orkut e perfis no twitter, categoria internética que se espalha mais rapidamente que aqueles bichos fofos de Jornada nas Estrela, os Pingos .
E antes que seja realmente acusado de elitista, ou pior, de alguém apontar algum erro de semântica, concordância, regência ou o caralho a quatro neste texto, não me jacto em ser perfeito ou correto. Certamente há algum erro crasso aqui ou em qualquer outro dessa humilde blodega. Infelizmente a patroa vetou minha proposta em contratar uma jovem estudante de letras fisicamente palatável para revisar meus textos.
P.S – Depois de ver o tradutor português-miguxês acima citado, creio que minha contribuição às letras virtuais será desenvolver um conversor Tourette para textos internéticos, capaz de transformar uma bula papal em um festival de impropérios de fazer corar a finada Dercy Golçalves.
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Eu também considero que é muito importante escrever e que essa história de que pessoas não gostam de ler na Internet é pretexto de gente preguiçosa pra escrever menos e pior.
Ah, este assunto dá muito pano pra manga. Particularmente ainda prefiro ler e escrever de acordo com a norma vigente. Miguxês em excesso pode causar curto no cérebro e ataques convulsivos, pior do que episódio de Pokemon
Abraços!