Archive for fevereiro 2010

Black Dynamite

Os Bons Tempos Voltaram! Vamos dar porrada outra vez!
Blaxploitation é um termo originado da fusão entre exploitation e black, e rotula os filmes dos anos 70 voltados ao público negro americano, que não se via satisfatoriamente representado nos filmes mainstream de Hollywood, com seus heróis machos, brancos, algo-saxões e protestantes. Essa safra de filmes típica dos anos 70 colocava os manos como protagonistas e os brancos como vilões, representando “the man”, o sistema opressor que perseguia os negros e não os deixavam assumir seu lugar na sociedade.

Apesar de “Shaft” (o de 1971), que trouxe um detetive negro e durão como herói, ser um filme de grande estúdio, não deixa de ser uma referência do gênero. E um dos clichês é mostrar um protagonista fodão, que resolve as coisas na porrada e na bala, não tem pra ninguém e come todas as minas do pedaço, mermão! E logo diretores viram este nicho e criaram uma série de filmes à margem das produções hollywoodianas contendo o que a rapaize queria ver: porrada a três por quatro e um negão ditando as regras. E um som maneiro, claro. Aliás, a trilha sonora destes filme é o que havia de melhor na black music dos anos 70,  De Isaac Hayes a Quincy Jones, passando por James Brown e Marvin Gaye, eram verdadeiras pérolas negras. E, além de destacar protagonistas negros, havia espaço também para as mulheres, como a agente Cleópatra Jones ou a enfermeira vingativa Coffy.

Este gênero tão popular nos anos 70 foi relembrado e satirizado no filme “Black Dynamite“, lançado ano passado e ainda inédito por aqui, com exceção de sua exibição no festival do Rio no ano passado.

Na história, Black Dynamite, ex-agente da CIA, admirado e temido pela comunidade, volta a ação quando seu irmão é morto por traficantes brancos, distribuindo sopapos, golpes de kung-fu e tiros de revólver pra todos os lados, matando todos os que atravessarem seu caminho e traçando todas que olharem e se encantarem por seu penteado Black Power, enquanto tira a droga das ruas e desbarata um complô visando encolher o pinto da população negra americana. Uma verdadeira máquina de dar porrada e fazer sexo, não necessariamente nesta ordem. Jack Bauer, Steven Segal e Chuck Norris não dariam um caldo diante do bigode e da cabeleira do Black Dynamite. O negão é foda!

O grande trunfo de “Black Dynamite” em relação às recentes produções que parodiam estilos e filmes recentes de Hollywood é de não ser forçado e caricato. Bem, não mais forçado e caricato do que os próprios filmes do gênero. Mas infelizmente filmes como “Deu a Louca em Hollywood” ou “Os Espartalhões” apenas parodiam cenas os últimos sucessos do cinema e as costuram sem um maior cuidado, praticamente desenhando para o público “olha, estamos tentando sacanear com o filme X e Y, riam, por favor!”. Deve haver quem goste…

Você pode até não achar tanta graça em “Black Dynamite”, que não funcionaria como comédia propriamente dita, mas ele homenageia os trejeitos e clichês do Blaxploitation de tal forma que um desavisado ao assisti-lo dificilmente saberá que se trata de uma paródia, pois a fotografia, figurino e trilha sonora emulam direitinho os filmes do gênero. O diretor Scott Sanders e o ator Michael Jai White (que também escreveu o roteiro com Byron Minns) fizeram o trabalho direitinho. Daí o trunfo da produção do filme, que deliberadamente – ao menos creio eu – estrai interpretações exageradas e canastronas do elenco, provoca erros grosseiros de continuidade e insere efeitos toscos, com direito a microfone aparecendo em cena ou em uma sequência de voo no qual Black Dynamite pilota um helicóptero e que aparece, em cenas distintas, uns 4 modelos diferentes de helicóptero! Também faz tempo que não vejo um revolver disparar mais do que 6 tiros sem ser recarregado. Destaque para a cena de dedução estrambótica das pistas para desbaratar o complô e a luta final contra “The Man”, nada menos do que Richard Nixon, hábil no Kung Fu e no Nunchaku, um adversário à altura de Black Dynamite.

“Black Dynamite” é divertido como os filmes que ele homenageia, e sua paródia é algo que parece ter sido esquecido pelos produtores de Hollywood, que só produzem coisas do quilate de “Super-Heróis – A Liga da Injustiça”, os quais não pagam nem a banda gasta para o donwload.

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Espetáculo de Velhas Novidades

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Com toda esta conversa sobre a suposta revolução tecnológica promovida pelo filme “Avatar”, estava lembrando as outras “revoluções” técnicas anteriores que aconteceram em Hollywood, as quais foram criadas e implementadas mais como uma tentativa de atrair o público e tentar reverter a queda na arrecadação com bilheteria…Hã, eu acho que já falei isso antes, mas agora é (quase) sério, já que é óbvio para todos que essa nova tecnologia 3D está aí para combater o inimigo da vez que ameaça o cinema: a distribuição digital dos filmes e a pirataria. Se hoje o que faz os produtores arrancarem os cabelos são os DVD’s piratas vendidos pelos camelôs ou a distribuição de filmes pela Internet antes mesmo deles chegarem às salas de cinema, a indústria de filmes enfrentou coisas piores no passado, e nem por isso morreu, apenas se adaptando à nova realidade. Se olharmos em perspectiva a evolução do cinema americano, desde que os estúdios se mudaram de Nova Iorque e se estabeleceram na Califórnia que novas tecnologias foram tornando o cinema mais atrativo. Alguns desses avanços foram incorporados paulatinamente, outros foram vendidos como grandes inovações para aumentar a bilheteria frente a alguma ameaça ou concorrência ao cinema. Alguns  foram incorporados, outros demoraram a ter aceitação total e muitos não vingaram ou foram suplantados por técnicas mais modernas.
Por exemplo, lembremos do som. A era dos grandes estúdios foi consolidada em cima do cinema em preto e branco e mudo durante os anos 20, mas no fim desta década o som já começava a desempregar os músicos que tocavam durante a projeção, sendo o primeiro a usar uma trilha sonora gravada em discos para acompanhar o filme foi “Don Juan,” de 1926, uma aplicação da tecnologia Vitaphone, que permitia sincronizar o som com o filme. Já no ano seguinte a Warner lançou “O Cantor de Jazz“, considerado o primeiro filme falado, que empregava trilha sonora e alguns diálogos, aplicando o sistema desenvolvido pela Western Eletric, o qual teve rápida aceitação entre os estúdios. O advento do som no cinema provocou grandes mudanças e desempregos, desde os músicos necessários em cada sala de projeção quanto os letreiristas que “escreviam” os breves diálogos que eram exibidos entre as cenas, até atores e atrizes que, por conta de problemas de dicção ou sotaque se viram sem carreira do dia pra noite, como a húngara Vilma Banks ou o estridente John Gilbert. Mas criou uma demanda por roteiristas de talento que escrevessem diálogos e histórias que atraíssem o público, e na década seguinte o cinema amadureceu, com o nascimento dos musicais. Mas nem todos aderiram de pronto a novidade. Charles Chaplin relutou em adotar a nova tecnologia, e só o fez de forma plena em “O Grande Ditador“, de 1940, quando seu sucesso já era inegável.
Outra tecnologia bem sucedida foi o cinema em cores. Mesmo o crack de 1929 não afetou tanto a indústria de cinema, que se recuperou da crise econômica, mas a Grande Depressão fez diminuir a arrecadação com bilheterias, e fez surgir os filmes “B” para sessões duplas, como chamariz para mais público pagante. A grande novidade tecnológica da década era o cinema em cores através do Technicolor. A tecnologia começou a ser criada ainda nos anos 1910, mas só se mostrou promissora e adequadamente desenvolvida nos anos 1930. Mesmo quando a empresa Technicolor Motion Picture Corporation conseguiu aperfeiçoar a tecnologia, utilizando as três cores, os estúdios não aderiram em massa, principalmente devido aos custos de se filmar nesta técnica. Inicialmente adotado mais em animações, como as de Walt Disney, foi necessário esperar o fim da década para uma maior aceitação da técnica. O primeiro longa-metragem live-action a empregar a a técnica das trễs cores foi “Vaidade e Beleza”, de 1935. O ano de 1939, um dos mais prolíficos deste tempo e que legou clássicos às gerações seguintes, teve duas grandes produções que se tornaram ótimos veículos para as cores: “E O Vento Levou” e “O Mágico de Oz“, este último combinando imagens monocromáticas com as coloridas. Aos poucos as produções aderiram as cores, mas a fotografia em preto e branco nunca foi totalmente abandonada, voltando a ser utilizada esporadicamente.
Já outras tecnologias não tiveram tanta aceitação para garantir tanta longevidade quanto as cores e o som tiveram. Nos anos 40 não houve o surgimento notável de nenhuma tecnologia nova, apenas a consolidação das já desenvolvidas. No pós-guerra, os estúdios começaram a sentir um decréscimo na arrecadação de bilheteria, algo que piorou nos anos 50 com a televisão invadindo grande parte dos lares americanos, oferecendo entretenimento gratuito às famílias. O cinema sentiu o baque, pois parafraseando um produtor daqueles tempos, se as pessoas podiam ver lixo de graça, porque pagariam para vê-lo? A TV se tornou “o adversário”, já que ameaçava a galinha dos ovos de ouro dos estúdios, que por mais que esperneassem, tiveram que dar adeus a sua era de ouro dos anos passados. E nesse clima de desespero e concorrência que Hollywood voltou a investir em tecnologia para inovar seus filmes. E uma das novidades foi o emprego de técnicas 3D em suas produções, também conhecida como Natural Vision. O primeiro filme foi “A Sombra e a Escuridão“, de 1952, que prometia ao público um leão em seu colo. Mas a tecnologia, mesmo sendo empregada em diversas produções, não era madura o suficiente para produzir resultados satisfatórios ou regulares. Se comparado a atual tecnologia 3D digital, o 3D destes tempos produziam imagens com cores irregulares e causavam desconforto visual ao público, obrigado a usar aqueles óculos de papelão e plástico celofane. Vendido como uma novidade tecnológica e usado de maneira indiscriminada por Hollywood, a novidade teve um “boom” de público breve, sendo considerada a “era de ouro do 3D” o período entre 1952 e 1955, no qual se produziu cerca de 30 filmes por ano em 3D. Alguns destes filmes seriam relançados de forma “convencional” pouco depois quando o modismo esfriou. Antes das atuais tecnologias, o 3D voltaria de forma esporádica nos anos 60, 70 e 80.
Além do 3D, frente à concorrência com a televisão, outras tecnologias lançadas nos anos 1950 foram o Cinerama , que empregava telas curvas com quase 180 graus, som estéreo e 3 projetores para passarem a sensação espacial do filme, o Todd-AO, que usava películas de 70mm e seis canais de som estéreo e o VistaVision, no qual o filme em 35mm era rodado na vertical, conseguindo uma qualidade fotográfica superior sem distorção da imagem. Mas entre as inovações da década que efetivamente “pegaram” uma delas foi o Cinemascope, não obstante seu custo total. Basicamente a imagem era distorcida e alongada com o uso de lentes anamórficas, ocupando toda a tela do cinema e obtendo uma largura com quase o dobro obtido por filmes 35mm convencionais. Isso impulsionou produções épicas, grandes espetáculos visuais, como “O Manto Sagrado“, primeiro filme que empregou esta técnica, a qual foi licenciada pela Fox aos demais estúdios, com exceção da Paramount, que já usava o processo VistaVision, lançando em 1954 o filme “Natal Branco” neste formato. Apesar de relativa aceitação, tais formatos se tornariam obsoletos nos anos seguintes, sendo substituídos por técnicas mais avançadas, como o Panavision.
Mas nem toda a tecnologia e inovação salvou o regime vigente desde os anos 20, e o tempo dos grandes estúdios chegou ao fim no inicio dos anos 60. Reivindicações trabalhistas por parte de roteiristas e atores, além da concorrência dos filmes europeus só pioravam a situação, e os outrora grandiosos estúdios, que mantinham grandes cadeias de cinemas, foram adquiridos por multinacionais e se tornaram apenas meras empresas entre tantas em conglomerados financeiros. A face de Hollywood mudava para permanecer igual, ou quase. E até o fim dos anos 70 o que realmente se inovou foi na qualidade dos roteiros e na liberdade artística dada aos diretores, antes meros funcionários a serviço dos produtores. Mas entre as obras-primas desta época ainda havia espaço para experimentalismos técnicos, sendo alguns explorados pelo marketing do filme. Nos anos 70, auge do cinema-catástrofe, “Terremoto” prometia passar a sensação dos tremores através do sistema de som Sensurround, desenvolvido pelos estúdios Universal, o que seria o equivalente acústico em 1974 ao estardalhaço que “Avatar” está produzindo hoje. Mas poucos filmes subsequentes adotaram este sistema de som, que quase derruba alguns velhos cinemas com sua intensidade sonora, principalmente nos sons graves, além de interferir no som de salas adjacentes exibindo outros filmes. Na prática, o padrão de som que passou a ser ditado nas produções atendia pelo nome de Dolby, que aos poucos começou sua hegemonia técnica justamente nos anos 70, evoluindo até os sistemas de som digitais utilizados hoje.
E qual a moral da história? Aí você decide se a tecnologia 3D vingará e mudará a forma como vemos filmes, sendo a salvação da indústria ou se é apenas um modismo passageiro, e caso Hollywood queira realmente continuar vendendo filmes que passe a ser mais ousada e aposte em histórias criativas que não ofendam a inteligência do público.
Update: Até James Cameron está reclamando do modismo 3D (via Ambrosia)!
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Quando Mundos Colidem (Parte 2)

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Conclusão do artigo sobre os filmes que Hollywood comete sobre a obra do inglês barbudo Alan Moore. Caso ainda não tenha lido a primeira parte, fique à vontade para fazê-lo
A mais recente produção baseada na obra de “Alan Moore é “Watchmen“, que foi lançada no cinema há cerca de um ano. E quem prestar atenção nos créditos de abertura, verá que só é mencionado o nome de Dave Gibbons, o desenhista. Mais uma vez Alan Moore fez questão de não ver seu nome associado a uma produção, não obstante ter sido esta obra de 1986 que consolidou seu nome entre os grandes roteiristas do gênero. Mas também foi praticamente seu último trabalho para a DC antes dele puxar o carro da editora, que ficou com o direito dos personagens por ele criado para a maxi-série em 12 partes que revolucionou os quadrinhos de super-heróis no meio dos anos 80. Desde o fim daquela década que boatos referentes a uma possível produção baseada na série circulam. O ex Monty Python Terry Gillian chegou a ter o projeto em mãos, mas reza a lenda que o próprio Alan Moore o convenceu que boa parte dos conceitos apresentados na revista não funcionariam no cinema. Os fãs sempre esperavam o pior de uma possível adaptação, com ótimas ideias se convertendo em bobagens hollywoodianas. Muitos anos depois, finalmente a produção caiu nas mãos do diretor Jack Snider.

Jack Snider é um caso à parte, já que ganhou um certo respaldo e respeito dos fãs dos quadrinhos após transpor o álbum “300 de Esparta”, do Frank Miller, no filme “300“. O que impressionou a muitos foi justamente que algumas cenas seguiram fielmente várias páginas dos quadrinhos, como se estes fossem storyboards da produção. Robert Rodriguez já fizera isso em Sin City. Só que ao contrário de Rodriguez, que se manteve fiel ao roteiro e às imagens, o que se percebe é que Snyder optou por reproduzir fielmente o visual dos quadrinhos de Frank Miller, porém não foi tão fiel ao roteiro, introduzindo pequenas mudanças que , na verdade, modificavam substancialmente o texto como um todo, além de inserir uma história totalmente nova envolvendo a rainha de Esparta e uma trama política nos bastidores. Resumindo, num primeiro olhar podemos até achar que a adaptação de Snyder é fiel, mas se observarmos os detalhes, dá pra perceber que aspectos muito importantes do texto original foram pervertidos, muito provavelmente para adequar a produção à alguma “receita de bolo” dos produtores.

E foi isso que aconteceu com “Watchmen“. Já no trailer ficou claro que muitas das cenas reproduziriam na tela as cenas desenhadas por Dave Gibbons, o que alegrou os fãs temerosos por mais uma bomba hollywoodiana baseada em Alan Moore. E quanto a isso não há sombra de dúvida de que muitas sequências antológicas foram transpostas para o filme, o que por si só já é um senhor mérito, provocando um frisson voyerista em qualquer um que já tenha lido e relido ad infinitum a maxi-série.

Mas as boas notícias param por aí. O que vou falar a seguir pode até parecer aquele papo nerd xiita de se exigir fidelidade absoluta aos detalhes da obra, e talvez até seja. Mas quando falo em detalhes não estou me referindo ao tom certo de verde para o Hulk ou o tamanho dos chifres na máscara do Demolidor. Por isso não vou reclamar da mudança dos uniformes, pois isso é perfumaria. Até gostei de algumas mudanças, como os uniformes da Silk Spectre. A original é uma tremenda referência visual às pinups, e o uniforme de sua filha Laurie ficou mais interessante, por assim dizer, agradando a qualquer tarado por mulheres em latex.

Como Moore previa, não dava para levar tudo para a tela, mas até aí tudo bem, é aceitável. Mas aí dou ponto a Snider, que na abertura do filme faz um resumo dos anos 30 até 1985, quando se passa a história, usando referências visuais excelentes e citando fatos que são mencionados ao longo dos quadrinhos de forma indireta.

Um dos pontos fracos, na minha subjetiva e sincera opinião, é a caracterização dos personagens e a interpretação dos atores. O Comediante e o Rorcharsch até que foram OK, apesar de poderem ter sido ainda melhor explorados. Porém senti falta uma Sally Jupiter sexualmente liberal quando jovem e uma senhora amarga “esperando a morte” em um asilo. Tampouco vi a personalidade forte e zangada de sua filha, Laurie, frustrada por ter que realizar as fantasias da mãe. O o Ozymandias, então? Nos quadrinhos Adrian Veidt era um senhor loiro de meia idade, com uma expressão carismática, natural liderança e presença marcante, mas carregando uma amargura e o peso dos seus atos. No filme se tornou um personagem distante e apático, com maneirismos quase afetados. Uma bichona, como diria Paulo Silvino. Tudo bem que Rorscharch insinua uma possível homossexualidade do personagem no gibi, mas daí a levar isso a sério é sacanagem. Em suma, faltou dar uma personalidade aos personagens, estavam quase todos apáticos. Culpa do elenco, do diretor, do roteiro? Não sei dos outros atores, mas a Carla Gugino sabe ser bem safada quando quer…

watchmen1.jpgE falando em roteiro, este é o principal calcanhar de aquiles do filme. O forte da obra é justamente a história, que explorou praticamente todas as possibilidades narrativas da mídia quadrinhos, com flashbacks, metalinguagem e metáforas visuais e narrativas excelentes, incluindo as citações, referências e diálogos, em sua maioria com sutileza que exige uma segunda leitura pra ser percebido. Obviamente não seria viável transpor TUDO para um filme, mas bem que poderiam manter a essência da obra. Personagens secundários acabaram se fundindo entre si, os aspectos-chaves da trama foram simplificados, os diálogos se tornaram menos brilhantes, e o que é pior, a sutileza foi pro saco, com inclusão de cenas com violência gráfica, algo que não existia tão explicitamente nos original. Não sei se subestimaram por demais o público, mas não deixaram muito espaço para a imaginação do espectador. Tudo bem que os produtores de Hollywood não costumam perder dinheiro ao nivelar por baixo a inteligência de seu público, mas acho que exageraram. Como exemplo posso invocar a cena que eu mais aguardava, o relato de Rorscharch ao psicólogo da prisão sobre o seu passado, principalmente o caso de sequestro da garotinha, que perdeu todo o clima. Claro que nos quadrinhos houve tempo para desenvolver uma tensão entre os personagens, mas o pior é que no filme o diretor queria deixar tudo bem claro, no melhor estilo “estou desenhando para você entender direitinho”, e onde haviam dois cães brigando por um osso – que se revelaria uma tíbia humana após um olhar mais atento – ficou uma perna de criança destroçada e ainda com o sapatinho na boca de dois pastores alemães. E nem vou comentar a diferença do modo como ele mata o assassino nos quadrinhos e no filme.

Esteticamente o filme agrada, mas como narrativa e caracterização dos personagens deixa a desejar, e muito, ao texto original. Talvez eu venha a mudar de opinião quando vir a assistir a versão integral do diretor, com cenas acrescentadas e os extras, como os “Contos do Cargueiro Negro”. Mas duvido muito.

A moda de adaptar histórias em quadrinhos para o cinema ainda está rendendo, e veremos muitos filmes deste gênero pelos próximos anos. Mesmo afastado da indústria de quadrinhos, ainda há algum material escrito por Moore que ainda não foi tocado pelos obtusos produtores do cinema, como “Tom Strong”, “Promethea” ou “Lost Girls”. Resta saber se algum dia teremos no cinema algo fiel à obra do mago inglês, ou se Hoolywood vai perceber que Moore lançou uma urucubaca das brabas pra qualquer filme baseado em sua obra dar com os burros n’água.

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Quando Mundos Colidem (Parte 1)

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A Relação Conflituosa entre Alan Moore e Hollywood
Quem já lê quadrinhos há muitos anos com certeza já teve em mãos alguma história escrita por Alan Moore, um dos mais respeitados e admirados escritores do gênero, o qual prescinde de maiores apresentações. Suas criações possuem fãs e seguidores, e já renderam milhões em verdinhas para as editoras que as publicam. Nada mais natural que tais histórias de sucesso fossem adaptados a outra mídia. Mas a Bruxa Velha de Northampton não é exatamente uma pessoa de personalidade fácil. Sua relação com as editoras pelas quais já passou nem sempre foi das mais agradáveis. E o assunto piora quando se trata de adaptar suas criações para as telas. Com filmes baseados em quadrinhos rendendo uma graninha boa, claro que os produtores do cinema viriam a querer levar algumas das ideias de Moore para uma grande produção. Mas o padrão blockbuster de qualidade, mais sintonizado com clichês e receitas de sucesso, dificilmente digeriria todas as propostas estéticas e narrativas das melhores histórias escritas por Moore. Daí que os filmes que se basearam em alguma das obras do inglês barbudo dificilmente fazem justiça ao original, na melhor hipótese, isso quando não resultam em uma bomba daquelas que nem Michael Bay conseguiria cometer. Por Moore, nenhuma de suas criações iria às telas para não perverter o conceito original. Infelizmente não depende dele, já que tais criações estão, em sua maioria, nas mãos das editoras para as quais ele trabalhou e escreveu. O máximo que ele pode fazer, nestes casos, é garantir que seu nome não estará associado a tais produções. E claro, falar mal o máximo possível, certamente fazendo algum vodu pesado quando algum desavisado resolve dirigir uma de suas histórias. Esta relação de (pouco) amor e (muito) ódio entre Hollywood e Alan Moore já rendeu produções sofríveis e alguns processos judiciais, além de úlceras nos fãs mais empedernidos, que certamente fazem coro às imprecações de Moore. É um estranho casamento, que apesar de não ter sexo, sempre alguém está se fodendo.
Eddie Campbell Alan Moore From Hell psychogeography.jpg do-inferno01.jpgRelembrando os lances desta relação tempestuosa, a primeira obra de Moore a ser levada ao cinema foi “Do Inferno”. Nesta série, Alan Moore reconta a história de Jack, o Estripador, se baseando nas teorias do historiador Stephen Knight, entre outras teorias, para dar sua versão do criminoso, cuja identidade é logo revelada no início da história. Mas Moore vai muito além de uma mera história policial nessa série em preto e branco desenhada por Eddie Campbell, explorando a psique de Jack sob várias óticas. O filme, produzido em 2001 e dirigido por Albert e Allen Hughes, em si, não é tão ruim. Se alguém que não leu a história original assistir a ele pode acabar gostando. Não chega a ser excelente, mas é um bom passatempo, e o personagem de Johnny Depp segura o filme, mas não passa de um suspense convencional com um romance mal resolvido no meio, e com uma certa dose de violência. Infelizmente a trama e os conceitos apresentados por Moore são solenemente ignorados no roteiro. E, obviamente, Moore não gostou nem um pouco. Mas ele nem imaginava em seus sonhos mais loucos o que o aguardava.
League-of-extraordinary-gen.jpg league-of-extraordinary-gentlemen.jpg“A Liga dos Cavaleiros Extraordinários” é uma das melhores coisas que surgiram nos quadrinhos dos anos 90. Alan Moore usou seu conhecimento da literatura fantástica e de aventura do século XIX e mesclou alguns dos personagens em uma espécie de “Liga da Justiça” vitoriana, que era liderada por Mina, a antiga amante de Drácula, e formada pelo Capitão Nemo, Allan Quaterman, Dr,Jeckill e o Homem Invisível. O resultado é uma história criativa, cheia de referências a personagens da literatura, bastante violenta, algo realçado pelo traço de Kevin O’Neil. Uma premissa muito interessante, uma história pronta para um filme inovador. E o que fizeram? A bomba “A Liga Extraordinária“, de 2003. Pra satisfazer o ego do Sean Connery, que fez Alan Quatermain, seu personagem passou a ser o protagonista e líder da equipe, além dos mais diversos pitacos que o velho 007 obrigou o diretor a engolir. Foram acrescentados outros personagens, como o imortal Dorian Gray e o aventureiro Tom Sawyer. O resultado é um filme com história fraca e roteiro ridículo, que fez algo que raramente ocorre: público e crítica concordarem. Concordarem que o filme é uma bosta. E para terminar de lascar, a produção foi processada pelo uso dos personagens Tom Sawyer e Dorian Gray, que não estavam em domínio público. E como o nome de Alan Moore estava nos créditos como escritor, ele acabou, mesmo que indiretamente, envolvido também. Daí em diante ele fez questão de não ver seu nome envolvido em mais produção alguma. Tanto que, nos filmes posteriores que se baseiam em obras de Alan Moore não levam seu nome como um dos escritores.
Vamos à próxima vítima. John Constantine foi uma criação do Moore quando este estava à frente do título “Monstro do Pântano”, no qual fez um excelente trabalho ao revitalizar um personagem do segundo time e a trazer de volta elementos de terror aos quadrinhos americanos. O personagem fez tanto sucesso que logo estaria em título próprio, “Hellblazer”, que é publicado até hoje pelo selo Vertigo, e já passou pelas mãos de outros bons escritores, como Garth Ennis e Warren Ellis. O cínico mago inglês, sempre de sobretudo e fumando cigarros Silk Cut, é um dos mais fascinantes anti-heróis dos quadrinhos. Em 2005 sai o filmconstantine.jpge com o personagem, sob o título “Constantine“. Os fãs se assustaram, mas pelos motivos errados. Aliás, a coisa já começou errada, hellblazer2.jpgpois Constantine, que é loiro e inglês , virou americano e moreno, e alguém achou uma ótima ideia usar o recém-saído do sucesso “Matrix” Keanu Reeves como protagonista. E, para variar, os produtores e roteiristas não aproveitaram muito mais do que o conceito do personagem. Mesmo usando elementos encontrados nos quadrinhos escritos por Jamie Delano e, principalmente, Garth Ennis, grande parte das melhores ideias, por sinal as mais ousadas e politicamente incorretas, foram simplificadas ou ignoradas. O resultado? Um filme de aventura com alguns elementos de terror, um “Sobrenatural” misturado à “Matrix”. Pode até agradar o público em geral, mas quem já conhecia o personagem deve ter tido ganas em explodir algum estúdio ao ver uma versão estagiário de macumbeiro do Chas, que de taxista brutalhão, praticamente um Hooligan, virou um rapaz franzino. Não deve ter agradado também Constantine se aventurando nos EUA, e não na sua versão sombria de Londres, e usando uma espingarda benzida para matar capetas. Mas o toque final foi o personagem deixar de fumar e passar a mascar chiclete. Tenha dó. Mesmo não se baseando nas histórias escritas por Moore, o personagem foi criado por ele, e este foi mais um bom motivo para o inglês querer distância ainda maior de Hollywood.
Mas Moore estava ocupado demais com outra produção para se preocupar com o que fizeram com Constantine, pois os irmãos Wachowski estavam produzindo “V de Vingança“, baseada na série que Moore escreveu ainda na Inglaterra, mostrando um futuro sombrio no qual o governo, após um av for vendetta mask.jpgto terrorista,vendetta.jpg assume o controle total do país, submetendo-o a uma ditadura de extrema direita, com clara inspiração em “1984“, de George Orwell. Antes mesmo do resultado ser exibido, a celeuma maior foi tentarem dar um “selo de aprovação Alan Moore” ao filme, o que seria uma façanha sem tamanho, pois os produtores afirmaram que o roteiro havia sido lido e aprovado por Alan Moore, que negou veementemente e ainda esculhambou com Deus e o mundo, exigindo que seu nome NÃO aparecesse nos créditos. No caso do roteiro, além de algumas omissões de personagens secundários, haviam pequenas e sutis mudanças na história, mas que acabaram tirando o verniz do texto original. Pois é, aquela mania de tentar suavizar personagens, de adaptar a história para o gosto do público em geral, sabem como é…Resultado? Um filme de ação bom, que aproveitou bem alguns elementos do original mas que estragou outros. Para quem assistiu e gostou, vale a pena ler a obra original para comparar. Mas o que poderia ser a suprema heresia ainda estava por vir.
(claro que este artigo continua...)

 

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Alguém Ainda Vigia os Vigilantes?

(publicado originalmente em 2007)

Entre setembro de 1986 e outubro de 1987, a DC lança a minissérie “Watchmen”, que acabou se tornando um clássico do gênero, e junto com outras obras como Cavalheiro das Trevas, redefiniu o gênero de super-heróis nos quadrinhos. Para se ter uma ideia de sua relevância e importância, ganhou diversos prêmios concedidos à indústria de quadrinhos, como o Kirby e o Eisner, além de ser a primeira obra em quadrinhos a receber o prêmio Hugo, destinado a obras de ficção científica, e estar incluído na lista dos 100 romances mais importantes do século XX elaborada pela revista Time.

Mas qual o segredo de uma história que, mesmo em um contexto tão diferente, consegue se manter ainda atual e com o mesmo impacto de quando lançado? Não há uma resposta fácil, e explorar todos os elementos dessa história não caberia nesse espaço. Mesmo assim, tentaremos explicar.
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Aranha, o Rei sem Coroa do Crime

Na minissérie “Albion”, escrita pelo maluco do Alan Moore junto com sua filha Leah, os heróis e vilões dos quadrinhos ingleses são revistos em uma história pós-moderna. A maioria deles é quase que ilustremente desconhecida para a maioria dos fãs brazucas. Mas um personagem em especial, o Sr. Chinard, me trouxe algumas lembranças longínquas,e com um certo esforço me lembrei de ter lido suas aventuras na infância, quando ele atendia pelo nome de guerra “O Aranha”, e se auto intitulava “O Rei sem Coroa do Crime”.

Na verdade li apenas duas de suas histórias, em ótimas ilustrações em preto e branco, ambas as histórias publicadas em uma única revista em formato almanaque lançada pela editora Kultus nos anos 70, editora esta que entrou para a história dos quadrinhos nacionais por ser a primeira a publicar as histórias da Vampirella por aqui. Mas só estas duas histórias já mostravam um personagem por demais interessante, pois antes de ser um herói certinho, ele seria um vilão, ou um anti-herói, na melhor das hipóteses, que costumava passar a polícia para trás, planejar maquiavelicamente seus passos, detonar seus oponentes sem dó e tratar seus subalternos como escravos, com equipamentos avançados à sua disposição e um ego maior que o castelo no qual residia.

Infelizmente nunca mais vi nada publicado deste personagem por aqui, tampouco voltei a ver a cor desta revista de novo. Mas é óbvio que o santo padroeiro dos curiosos está aí para nos dar uma forcinha. E eis um breve apanhado a respeito desta fascinante e tão pouco conhecida figura.

O Inimigo da Vizinhança

Antes que se pense que é se trata de um plágio do Homem-Aranha, não se preocupe que nem de longe os personagens têm muito em comum, a não ser o nome e a cidade onde atuam. Esse anti-herói inglês era inicialmente um criminoso megalomaníaco que tinha como maior objetivo se tornar o “rei sem coroa do crime”. Sua base é um castelo medieval transplantado para as proximidades de Nova York, sua área de atuação. Ele não tem poderes sobre-humanos, e sim uma mente brilhante entre suas orelhas pontudas, mente esta que concebera equipamentos e armas ultra-sofisticados, além de uma capacidade ímpar de hipnose. Seu traje é uma roupa escura e justa à prova de balas, além de um exoesqueleto que lhe confere habilidade e força sobre-humana, um foguete portátil às costas e uma pistola lançadora de teias, gás e bolas de fogo. Seu transporte é o Helicar, uma versão compacta de helicóptero com retrofoguetes. Como principais auxiliares ele conta com o cientista Pelham e o hábil ladrão Roy Ordini, que sofrem o diabo nas mãos de seu chefe. Apenas seu ego superava sua genialidade.

Como um perfeito anti-herói, o Aranha tratava seus subordinados com mão de ferro, inclusive apelando para castigos físicos se eles não seguissem suas ordens.  Suas pretensões criminosas o colocaram contra outros bandidos, e mesmo mal intencionado, ele acabou se tornando um involuntário combatente do crime ao eliminar seus rivais no submundo, como o Gênio do Crime ou o Dr. Mysterioso. Acabou deixando o crime e se tornou um mocinho, aliando-se ao grupo inglês de heróis, a Sociedade dos Heróis. O clima das histórias era pura ficção científica dos anos 60.

As histórias do Aranha foram publicadas na revista semanal inglesa “Lion”, da editora Fleetway, entre 1965 e 1969, e o personagem foi criado por Ted Cowan como parte dos esforços da editora em produzir material atualizado para competir com os heróis americanos da era de prata.  Quem viria a assumiras histórias d’O Aranha seria um dos criadores do Super-Homem, Jerry Siegel. Além das aparições semanais, o personagem apareceu nas revistas “Fleetway’s Super Library” e nos especiais anuais da “Lion”. Nos anos 70, muitos dos heróis e vilões publicados nos anos anteriores foram retomados na revista “Vulcan”, que reeditou algumas das histórias do aracnídeo não muito amigo da vizinhança. Além da Inglaterra, tais histórias foram republicadas em outros países da Europa, como Itália, França, Alemanha, Portugal e Espanha.

Após passar os anos 80 praticamente esquecido, o Aranha foi retomado em algumas histórias inglesas. Em 1992, ele faz uma aparição na revista 2000 A.D pelas mãos de Mark Millar, porém essa versão é execrada pelos fãs, pois o mostra como um canibal psicopata, bem ao estilo violento e iconoclasta de Millar. Uma versão que melhor agrada aos fãs apareceu no título “Jack Staff” em 2003. Ele é mostrado como um velho inimigo do personagem-título, que estaria recluso na Inglaterra sob o nome de Alfred Chinard e volta à ativa após ter seus equipamentos roubados. Na já citada “Albion”, de 2006, O Aranha é um personagem-chave da trama, onde heróis e vilões ingleses são mantidos reclusos durante as últimas décadas. Em 2006 foi lançado na Inglaterra uma edição em capa-dura reunindo quatro histórias do Aranha com o título “King Of Crooks”.

Por aqui no Brasil, até onde sei, saiu apenas uma edição em preto e branco com duas histórias completas do personagem, a qual mencionei no início deste texto. Uma delas foi “The Professor of Power”, publicada originalmente em 1967 na “Fleetway Super Library – Fantastic Series” numero 2. A outra foi “Crime Unlimited”,  da “Fleet Library”número 4, totalizando umas 240 páginas. Ao menos naqueles tempos não vi mais nenhuma edição além dessa. Infelizmente esta editora fechou as portas há muitos anos e há pouca informação sobre seu acervo.

Mais sobre o Aranha nesse site

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Os Terremotos de Sábado à Noite


Cinema 4D de pobre

Com toda esta conversa sobre a suposta revolução tecnológica promovida pelo filme “Avatar”, estava lembrando as outras “revoluções” técnicas anteriores que aconteceram em Hollywood, as quais foram criadas e implementadas mais como uma tentativa de atrair o público e tentar reverter a queda na arrecadação com bilheteria. Inclusive na Coréia o filme está sendo exibido em “4D”. Antes que imaginem algo quântico, a “quarta dimensão” seria o uso de alguns efeitos na sala de cinema para estimular os outros sentidos. Inclusive até já vi um brinquedo desses de parque de Shopping Center chamado de “Cinema 5D”, que exibe filmes curtos em 3D e adiciona até esguichos de água entre os efeitos. Apesar de que chamar isso de 4D ou 5D me lembra a lógica bizarra de chamar aqueles aparelhos vagabundos que tocam música, passam vídeo, sintonizam TV e o cacete a quatro de MP5 para cima. Se é pra compartilhar as sensações com o público, fico ansioso para que implementem tal recurso em algum filme com muita bebedeira. Já imaginaram distribuírem bebidas no cinema só para você ficar tão melado quanto o personagem?

Mas tudo isso está realmente me lembrando é das peripécias de um ex-colega de trabalho que já incorporava tais recursos nos cinemas paraibanos nos anos 70. Nas horas de ócio, esse meu colega nos divertia com a narração de algumas de suas peripécias juvenis, parte delas justamente durante a projeção de algum filme em um dos cinemas do centro de João Pessoa, como o Plaza, o Municipal ou o Rex, para nossa diversão e deleite. Em um desses episódios, ele e sua turma assistiam a “Os Embalos de Sábado à Noite”, com John Travolta reclamando das meninas que queriam dançar com ele só porque lhe deram. E em plena era Disco, os destaques do filme eram as cenas de dança. E para dar um efeito 3D nestas cenas, ele e sua trupe subiam e ficavam dançando em frente à tela, acompanhando a trilha sonora dos Bee Gees e os passos de Travolta. Mas este avanço tecnológico não foi bem aceito pelo público e nem pelo gerente, que chamou a polícia para descer a borracha nos Tony Manero paraibanos. A correria foi tanta que eles poderiam participar do filme “Carruagens de Fogo”.

"Essa Porra tá desabando mesmo!"

Mas este foi fichinha comparado ao que viria, o precursor do “4D” devidamente testado no velho cinema “Plaza”, um cinemão antigo que deveria caber umas 700 pessoas, tinha uma espécie de “camarote”, com algumas dezenas de cadeiras. Nos anos mais decadentes, normalmente quem subia ao “camarote” era a pirralhada doida pra bagunçar e pra jogar alguma coisa nos pobres espectadores das cadeiras de baixo.

Ainda nos anos 70 foi lançado o filme “Terremoto”, mais um exemplar do subgênero “cinema-catástrofe”, cuja receita era reunir um elenco de estrelas decadentes, cujos personagens viviam seus pequenos dramas pessoais até alguma desgraça das grandes acometer a todos e o elenco ir morrendo ao longo do filme. A desgraça poderia ser um incêndio no arranha-céu, um Boeing em pane ou um transatlântico indo a pique, e em “Terremoto” não deve ser difícil imaginar a causa da catástrofe. Mas o filme trouxe uma inovação técnica em relação aos efeitos sonoros, já que empregava a tecnologia “sensuround”, que deve ter sido o avô do Dolby Surround, THX e coisas do gênero. O prometido é que os efeitos sonoros trariam realismo às cenas de terremoto. Se isso funcionou no velho Plaza e seu sistema de som capenga, vai saber. Mas meu colega ainda deu uma forcinha, pois foi assistir ao filme munido de saquinhos de areia, e sabidamente ficou no camarote do Plaza. E nas cenas onde o chão tremia e o estrondo vibrava a sala, ele derramava a areia lá de cima, e quem tava embaixo se entusiasmava tanto com a novidade tecnológica que imaginava até um tremor de verdade, já que alguns gritavam coisas do tipo “o cinema vai cair!” ou “essa porra tá desabando mesmo!”, pra deleite de meu colega. Nisso James Cameron não pensou.

Mas isso tudo é passado e obsoleto frente aos recursos digitais dos filmes atuais. Esse meu colega já deve ter se aposentado, e a maioria dos cinemas citados nem mais existem, sendo ocupados por lojas de calçados ou agências bancárias. Com exceção do Municipal, que ainda passava filme, mas de um gênero njo qual o efeito “4D” que pode ser proporcionado é uma bela duma esporrada na cara, algo bem fácil de acontecer, dado o tipo de espectador dessas películas…

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Rapidinhas Carnavalescas de Sexta

E põe rapidinhas nisso. Apesar de não trabalhar no sambódromo de Sumpaulo, passarei o Carnaval inteiro trabalhando, e a noite. Não acreditam? Pois é, nem minha esposa. Por isso, para os que vão ficar em Sampa no feriadão, nossa singela sugestão de fantasias para curtir as festas de Momo. E se vai trabalhar durante todo o feriado, apenas pense que poderia ser pior. Você poderia passar o Carnaval preso, por exemplo…
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Meu Nome é Ninguém

meu nome é ninguém

O gênero faroeste é americano por excelência. Mas uma ramificação desse gênero são os filmes produzidos na Itália, que se tornaram conhecidos como Western Spaghetti, ou bangue-bangue à italiana. Ao contrário do tom épico e “bom-mocista” de boa parte dos filmes americanos, os filmes italianos normalmente apresentavam anti-heróis e elementos não tão bonzinhos como protagonistas. E um dos pais desse gênero é o italiano Sérgio Leone, que dirigiu ótimos exemplos do gênero, como a trilogia “Três Homens em Conflito”, “Por um Punhado de Dólares” e “Por Uns Dólares a Mais”, onde elevou a categoria de protagonista o então jovem ator Clint Eastwood.

Mas se Sérgio Leone é considerado o pai do Western Spaghetti, ele tinha muitos filhos da puta, como ele mesmo costumava afirmar, já que para cada clássico, surgiam uns três filmes não tão bons, pois muitos tentaram imitá-lo, sem muito sucesso nesse intento.

E um de seus “filhos legítimos” foi o filme “Meu Nome é Ninguém“, uma co-produção entre França, Alemanha e Itália datada de 1973. Por nessa época o diretor almejava dirigir filmes de gênero mais “sérios”, mas não queria largar o filão dos filmes de faroeste. Por isso nos créditos iniciais vemos que a Sérgio Leone é creditada a “idéia” do filme, que foi dirigido por Tonino Valerii, assistente de Sergio em outros trabalhos.

Um filme com nome de música do Agnaldo Timóteo presta? Ô se presta! Nessa película, o veterano pistoleiro Jack Beauregard (Henry Fonda), cansado de guerra e de impor a lei nos cafundós do oeste, está de mala e cuia pronta para se mandar para a Europa no final do século XIX, mas antes parece ter assuntos pendentes com os antigos sócios de seu irmão falecido. E em seu encalço aparece o hilário jovem que se auto-intitula “Ninguém” (Terence Hill), que admira e conhece toda a história de Jack Beauregard. Jack só quer resolver essa pendência da maneira mais limpa possível, mas “Ninguém” insiste que ele encerre sua carreira de forma gloriosa, encarando o “bando selvagem” com seus 150 pistoleiros. A relação entre “Ninguém” e Jack alterna entre rivalidade e amizade, simbolizada pela hilária anedota que “Ninguém” conta sobre o pássaro que cai do ninho e é salvo do frio pelo estrume de uma vaca, mas é tirado do estrume por um coiote que o limpa para comê-lo em seguida. E por mais que não queira, Jack acaba sendo conduzido a confrontar os poderosos locais e de encarar o destino armado por “Ninguém”.

A história mistura elementos cômicos e sérios. O lado mais leve é dado pelo ator Terence Hill, protagonista dos faroestes hilários da série “Trinity” ao lado de Bud Spencer. Já o contraponto sério fica por conta do ator Henry Fonda, que já fora dirigido por Sérgio Leone em “Era Uma Vez no Oeste”, outro clássico do gênero. Enquanto Terence Hill faria qualquer um cair na gargalhada com suas presepadas, Henry Fonda consegue se manter impassível diante de qualquer situação, mesmo quando tem que encarar 150 homens com apenas duas Winchesters e um revólver Colt. Pense num cabra arrochado!

O ponto negativo do filme é que a história é meio confusa, e dá a impressão que o roteiro seria uma desculpa para o diretor aglutinar boas sequências de ação e comédia, justamente os pontos fortes do filme. Terence rouba a cena, desarmando os meliantes com seus trejeitos. A cena no bar, onde ele esbofeteia um pistoleiro é de rolar de rir, como também a da sala de espelhos.

Mesmo não tendo Leone como diretor, sua marca está lá. O início do filme é a cara do diretor: uma longa sequência sem diálogos, com closes nos rostos dos pistoleiros, elevando a tensão até o máximo, quando finalmente o tiroteio irrompe. Leone faz referência e presta homenagem a um colega de ofício, o diretor americano Sam Peckimpah, cujos filmes ficaram conhecidos por sua violência explícita e coreografada. Uma delas é na cena onde “Ninguém” e Jack Beauregard se encontram em um cemitério índio, e entre as cruzes, “Ninguém” vê o nome “Sam Peckimpah” e comenta ser um nome estranho para um índio. E o nome “bando selvagem” dado aos 150 bandidos que “Ninguém” quer ver Jack confrontar é uma referência ao título original de um clássico de Peckimpah, “Meu Ódio Será Tua Herança“.

A trilha sonora é assinada por Ennio Morricone, que praticamente criou a marca registrada das trilhas dos faroestes à italiana, que normalmente incluía a presença de coral, flautas e guitarras aos temas. A música do personagem “Ninguém” é leve e alegre, e inclusive era muito usada em vinhetas televisivas até início dos anos 80. Mas épico mesmo é o tema usado nas cenas em que aparece o “Bando Selvagem”, com direito a coral feminino e referência à “Cavalgada das Valquírias”, de Richard Wagner.

Lembro-me desse filme dos velhos tempos em que a Globo exibia filmes de faroeste nas tardes de sábado. Mas não precisa esperar uma eventual reprise em algum canal perdido, já que este filme está disponível em DVD pela Paris Filmes, que mesmo sem extras, é uma excelente pedida para os apreciadores do gênero.

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Motivos Para Esquecer os Anos 90

Em continuação ao texto anterior, nossa modesta colaboração para a amnésia coletiva, desta vez apontando nossa memória seletiva para a última década do século XX.

Vanilla Ice e Milly Vanilly
O Rap e o Hip-hop começaram a sair dos guetos e vender muitos discos. E é claro que os executivos de gravadoras tentam reproduzir a coisa em laboratório, e o que conseguem é coisa como o Vanilla Ice. Ou pior, os fajutos Milli Vanilli, cujas vozes verdadeiras eram terceirizadas. Com sorte, o prazo de validade destas bostas era bem curto.

Macareña

O que começou como uma rima improvisada numa festa Venezuelana acabou como uma das mais irritantes e insistentes músicas da década, que nos legou uma coreografia ridícula e um passado de vergonha a muitos que foram na onda. Um dos grandes mistérios da humanidade é saber como essa música e dança sem-futuro viraram mania na Gringolândia. Ou é a prova que um marqueteiro esperto pode vender qualquer coisa ou que o povo americano é capaz que engolir qualquer bosta. O que não é prerrogativa exclusiva deles, como veremos a seguir…

Música sertaneja, Axé, Pagode
Com o esgotamento e a decadência do pop/rock nacional dos anos 80, as gravadoras apelaram para empurrar lixo da pior qualidade no público. E tome lambada, dupla sertaneja, banda de axé e pagode mela-cueca. Pra cada música ou artista que desse pra salvar, haveria dezenas de porcarias destes gêneros tocando nas rádios e TV´s. Mas a música baiana merece menção especial, já que se espalhou como gafanhoto pelas micaretas Brasil afora. E junto com a axé music a Bahia exportou tudo que é tipo de dança ridícula: dança da manivela, dança da galinha, boquinha da garrafa, tcham, tchaco… Ou seja, só a produção cultural da Bahia já seria motivo suficiente para se esquecer os anos 90. Mas a trupe “É o Tchan”, comandada por Compadre Washington era concorrente sério a ser o elemento mais bizarro desses anos. Quando não estava dando chance a morenas e loiras gostosas se darem bem na vida, mesmo que debaixo de chutes e pontapés, parecia mais parque temático do que banda de axé. E tome É o Tchan na selva, no Egito, na baixa da égua, na passeata do MST, na Bósnia ou na puta que pariu.

Jordy
Os franceses ainda falam que nós não temos um país sério. Como é que os bastiões do mau-humor e do politicamente incorreto impõem ao mundo uma música cantada por uma criança de quatro anos e que se torna sucesso, sendo tocada em tudo que é FM e TV adeptas do jabá? Que falta fez um Siro Darlan naquelas bandas. Ao menos os franceses se redimiram com o mundo pop ao nos presentear com a lolita Alizée

José Sarney
Pois é, ele de novo. Após terminar o mandato de presidente em 1990 e deixar o país mais quebrado do que arroz de terceira, o bigodudo larga o Maranhão e se muda para o Amapá, onde a piada corrente é que lá teria uma fazenda de burros, e desde então vem sido eleito sucessivamente como Senador, se agarrando como carrapato à qualquer governo que chegue à Brasília e empregando toda a sua família em cargos públicos.  Pra falar a verdade, Sarney apareceria em qualquer lista de motivos para esquecer a década desde os anos 50, já que sempre perseguiu uma boquinha junto à situação. E se acham pouco, esperem até fazermos os motivos para esquecermos os anos 00…

Fernando Collor
É, elle de novo! Já não bastou ter sido eleito no fim da “década perdida”, suas trapalhadas chegaram aos anos 90, e foi solenemente pénabundado de seu cargo executivo nos primeiros anos da década. E se acha pouco ele aparecer nesta lista e na dos anos 80, espere até a próxima. E falando em próximo, lembremos o que ele nos deixou…

itamar franco e lilian ramos no carnaval

O topete do presidente

Itamar Franco
Nosso Forrest Gump teve a sorte de estar no lugar certo e na hora certa, já que nunca deve ter planejado se tornar presidente nem tampouco tirar o país do buraco da hiperinflação. Na realidade saímos do buraco não por causa dele, mas apesar dele. Pois não dá pra levar a sério um estadista que ressuscita o Fusca  e é flagrado ao lado de uma buceta em pleno Carnaval. Nada contra a buceta, obviamente, mas isso tudo dava uma ideia do quão sério  era nosso presidente. E a ele devemos oito anos de FHC no poder. Vade retro

Copa de 1990
O escrete de Sebastião Lazaroni não lembrava nem de longe o esquadrão reunido nas duas últimas copas, as quais não ganharam. E o fiasco em 1990 só seria comparável ao fiasco de 2006, mas esse deixemos pra quando formos escrever sobre os motivos para esquecer os anos 00…

Lair Ribeiro
Toda década tem o guru espertinho que merece. No meio da praga oportunista dos livros de auto-ajuda, o “papa” daqueles tempos foi Lair Ribeiro, que prometia mundos e fundos para quem seguisse seus ensinamentos . E como todo livro de auto-ajuda, quem realmente encheu o cu de dinheiro foi o autor.

Quadrinhos Image e similares
Mesmo com muita coisa boa surgindo nos quadrinhos nessa década, o que predominou foi a mediocridade de ideias e histórias e uma temporária supremacia do visual. E tome colorização por computador e imagens de página inteira. História decente e ideia original que é bom, tava difícil de aparecer. E ainda serviu pra garantir emprego a artista que não sabe desenhar, como o caso de Rob Liefeld, Michael Turner e Jim Lee…

Tamagotchi
Cultura nipônica é um troço estranho da porra, e uma dessas manias nos anos 90 era a de criar bichos virtuais, os tais tamagoshis, que não passavam de chaveirinhos eletrônicos nos quais os desocupados donos dos bichos virtuais os alimentavam, davam atenção, botavam pra dormir e outras coisas. Não era mais fácil criar um vira-lata com restos de tira-gosto? Parece coisa de menino criado por vó em condomínio fechado, empinando pipa em ventilador, jogando bola de gude em carpete e criando tamagotchis. Bem, dos males o menos. Os japoneses tem manias muito mais feias que podiam ter se espalhado

Bug do Milênio
A última grande picaretagem da década, a versão digital do apocalipse bíblico prometia remeter a todos de volta a idade média tecnológica. E pra variar alguém ganhou muita grana com esse terrorismo cibernético decorrente da suposta incompetência de projetistas e programadores. Incompetência sim, já que até os maias, há uns bons séculos, já tinham calendário que ia até 2012, e a porra dos engenheiros e programadores achavam que 1999 já seria bem otimista. No frigir dos ovos foi muito barulho por nada, como quase tudo dessa década.

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