Os Felas da Puta sem Glória de Tarantino

inglorius basterd brad pitt
“E aí, seu nazista, prefere uma suástica gravada  na testa ou “I Love Brad Pitt” na bunda?”

Na cena final de “Bastardos Inglórios”, o tenente Aldo Laine, personagem interpretado por Brad Pitt, solta o último dialogo, “…acho que isso pode ser muito bem minha obra-prima”,  se referindo a suástica que marcaria com sua Bowie na fronte de um vilão nazista. Seria Quentin Tarantino falando através de seu personagem? E seria “Bastardos Inglórios” sua obra-prima, uma suástica gravada à ponta de faca na testa dos críticos de seu trabalho?

Nestes últimos dias resolvi pagar a fatura devida a filmografia de Quentin Tarantino. Ou quase. Há algumas semanas assisti ao ainda inédito por aqui “Death Proof”, e ontem finalmente encarei os bastardos inglórios do tio Quentin. E escapei sem uma tatuagem de suástica na testa.

Mas Quentin é foda, dificilmente se fica indiferente à sua obra. Ou é idolatrado como um novo gênio, herdeiro da geração de diretores dos anos 70, ou é execrado, seja pela crítica mais purista ou pelo público mais habituado a produções convencionais, os ditos blockbusters. Pessoalmente tenho o velho Quentin em boa conta desde “Pulp Fiction”, que foi hype de descolados nos anos 90 e apontado como o “novo Scorcese” por alguns críticos, mas sobreviveu ao provável estrelismo que tal condição poderia trazer, sem levar tão a sério tais títulos.

Mas deixa esta porra pra lá. O negócio é “Bastardos Inglórios”, o qual infelizmente perdi de ver no cinema e agora vejo em DVD, finalmente. Confesso que criei uma expectativa sobre este filme totalmente diversa do que eu acabei vendo. Dado o título e a premissa, imaginei um filme de guerra típico, no estilo “calhordas com uma missão”, no melhor estilo “Os Doze Condenados”, até porque o título remete a uma produção “genérica” italiana deste subgênero dos filmes de guerra, “Assalto ao Trem Blindado”, cujo título original é “Quel Maledetto Treno Blindato”, mas cujo título americano é justamente “Inglorious Bastard”. Por isso imaginei um filme de guerra típico, apenas com o tempero de Tarantino adicionado – violência gráfica extrema e diálogos inusitados – , mas mantendo os clichês intactos, com ação e explosões para dar e vender, com direito a mortes heroicas e redentoras e um final com a missão bem sucedida, mas sem maiores consequências históricas, já que falamos de II Guerra Mundial e sabemos muito bem como ela acabou.

Obviamente que nada disso aconteceu. Um mérito de Tarantino é fugir de certos clichês óbvios, apesar de sua obra sempre fazer referência a algum elemento da cultura pop, mas sempre sob a sua ótica. Isso pode acabar afugentando o público habituado a dieta de fórmulas prontas dos grandes blockbusters aos quais estamos habituados. O “timing” dos filmes de Tarantino normalmente “desrespeitam” o padrão estabelecido, no qual cada reviravolta ou mudança no roteiro é milimetricamente prevista pelo “manual”, por assim dizer. Também não veremos a construção de um vilão digno de ser justiçado no final, nem a retratação dos nazista como a escória da raça humana, até porque já sabemos o que eles fizeram, seja pelos livros de história ou pelos filmes de Hollywood. Quentin privilegia longos diálogos, referências mil à elementos da cultura pop – A trilha sonora remete aos temas de Ennio Morricone para filmes bangue-bangue à italiana – e uma trama deliberadamente confusa, envolvendo histórias paralelas e diversos personagens. Acaba que muitos acham seus filmes verborrágicos e com um ritmo bem mais lento do qual se está habituado a ver nas telas. Por exemplo, a cena inicial, na qual a família judia é encontrada e morta, em um filme típico não passaria dos 3 minutos. Mas com Tarantino somos brindados com longos diálogo, uma estrutura narrativa  atípica e um desenrolar dos fatos inusitados, e não importa se o pano de fundo são fatos históricos. A própria história pode ser subvertida! Tarantino está pouco se fodendo pra isso, da mesma maneira que não parece ligar tanto para os mandamentos do roteirista hollywoodiano .

Mas vamos ao ponto, não estou aqui pra analisar a obra de Tarantino, tampouco escrever um tratado sobre cinema. Como falei, criei uma expectativa diferente da realidade para este filme. E Tarantino trabalhou o roteiro sobre uma história de vingança de uma judia cuja família foi morta pelo eficiente e metódico Coronel Hans Landa, mas que se expande para inúmeros núcleos e protagonistas, incluindo personagens reais como Adolph Hitler e Joseph Goebbels. Nesse cenário, os “Bastardos Inglórios” – uma equipe de soldados judeus-americanos estabelecida na França com o objetivo de espalhar o terror entre as tropas nazistas de ocupação – são apenas mais um “personagem” nessa trama quase épica. E as cenas nas quais eles agem são relativamente poucas, menos do que se poderia esperar em um típico filme de guerra tendo eles como personagens-título. Mas nas poucas cenas nas quais os métodos dos “Bastardos” é mostrado, a mão de Tarantino pesa como de habitual, sem poupar o espectador de cenas violentas, com espancamentos, mutilações e escalpelamento.   Aliás, é até interessante ver mais uma vez Brad Pitt usar uma enorme faca Bowie  de caça para escalpelar militares alemães, já que ele fez isso lá no início da carreira em “Lendas da Paixão”.

Mas como falei, os “Bastardos” são apenas mais um elemento nesta trama propositadamente complexa, na qual a sobrevivente judia do massacre de sua família planeja se vingar dos nazistas quando o acaso faz com que a première de um filme-propaganda de Goebbels é transferida para seu cinema, concomitante a um plano do governo inglês de aproveitar o episódio para cometer um atentado contra a cúpula do Terceiro Reich com a ajuda de uma atriz alemã e dos “Bastardos”.

Com tantos personagens em pouco mais de duas horas e meia, fica aquele retrogosto de última lata de cerveja e muita sede ainda sobrando, já que bastante coisa poderia ser desenvolvida em cima de tantos personagens interessantes. Da forma como foi apresentado, o filme parece o resumo de uma minissérie de, no mínimo, umas 10 horas de duração, tal o grau o potencial de desenvolvimento dos personagens apresentados, como o “Urso Judeu” (vivido pelo direto Eli Roth, diretor de “O Albergue”) ou o  sargento alemão rebelde e psicopata Hugo Stiglitz (Til Schweiger).

Mas pra resumir – e respondendo a questão levantada no início deste texto -, não sei  ainda se é a obra-prima de Tarantino. Ele se mantem em forma, exercitando o ofício de citar elementos do pop, criando diálogos interessantes e extensos, Ainda prefiro “Pulp Fiction” e os dois “Kill Bill”, por mais que tenha gostado deste filme. Espero que nesses tempos de “Avatar” Tarantino ainda tenha chance de fazer filmes e de pôr sua visão de mundo neles, a despeito do que os produtores queiram.

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