Planetary

É um mundo estranho, e eles fazem questão de mantê-lo assim.

Os anos 90 não foram muito bons para os quadrinhos de super-heróis americanos, pois se os desenhos se tornaram mais vistosos e dinâmicos, com cores vibrantes e poses ousadas, as histórias e os protagonistas dessa época não traziam nada de inovador, sendo em muitos casos apenas versões truculentas e anabolizadas de personagens antigos, com textos geralmente fracos e pouco originais. Parte da culpa dessa tendência foi a editora Image, criada por egressos das duas grandes editoras, Marvel e DC, e que na prática transformaram as revistas em portfólios de pin-ups, bonito aos olhos, mas em detrimento de uma boa história. Na pasmaceira criativa dos quadrinhos americanos na década de 90, o título “Planetary”, juntamente com “Authority”, trouxe ótimas histórias ao mercado americano. E o principal “culpado” disso é o escritor Warren Ellis, pois enquanto a série “Authority” foi resultado do trabalho de reestruturação que Ellis fez em um título obscuro da Image chamado “Stormwach”, “Planetary” foi algo inédito. Cronologicamente, os eventos de “Planetary” estão conectados ao universo do “Authority”, compartilhando alguns conceitos, como o de múltiplos universos interligados pela “sangra”.

O grupo Planetary se autodenomina “arqueólogos do impossível”, e é formado por três pessoas: Jakita Wagner, uma mulher dotada de força, resistência e velocidade sobre-humanas, além de um humor irascível; o Baterista, que tem o dom de interagir com qualquer sistema de informação, e Elijah Snow,  um senhor nascido em primeiro de janeiro de 1900, uma das “crianças do século”, que segundo a concepção de Warren Ellis, são pessoas superdotadas e não afetadas pelo envelhecimento, quase imortais, que seriam um “mecanismo de defesa” produzido pelo planeta Terra. Elijah pode diminuir a temperatura de objetos e elementos com o poder da mente, mas seu principal talento é o de coletar e registrar o conhecimento oculto do século XX. Todos os três trabalham para o “quarto homem”, que supostamente financia a Organização Planetary, organização essa que possui escritórios e empregados por toda a parte do mundo. Inclusive no Brasil, que aparece no número 24.

A Organização Planetary objetiva justamente descobrir os fatos e fenômenos ocultos da humanidade. Mas contra eles está o perigoso grupo conhecido como “os quatro”, composto por pessoas que adquiriram poderes após uma viagem espacial. Seu líder, Randall Dowling, é um brilhante e maquiavélico cientista, que se tornou capaz de esticar diversas partes de seu corpo. Sua companheira Kim Suskind adquiriu o poder de gerar campos de força e de se tornar invisível. Jacob Greene foi transmutado em uma criatura disforme e fisicamente forte, e Willian Leather consegue gerar e controlar chamas. Qualquer semelhança com o Quarteto Fantástico não é mera coincidência. Essa é só uma das inúmeras referências que Ellis deliberadamente insere em suas histórias. Esse quarteto maligno objetiva justamente o oposto que os heróis do Planetary: descobrir e ocultar de todas as formas todo e qualquer conhecimento ou tecnologia que ajude a raça humana a evoluir.

A primeira aparição dos “arqueólogos do impossível” se deu em setembro de 1998 no nº 23 da revista Gen13, e teriam título próprio meses depois, em abril de 1999, numa série bimestral. Cada número normalmente possui uma história fechada em si, mas que forma uma trama maior na série como um todo. Essa é outra virtude da série, que ao contrário de outras séries de quadrinhos e TV, não enrola o leitor com arcos quase intermináveis e jogando migalhas de informação de forma quase aleatória. Tanto que o autor originalmente concebera que a série não teria mais do que 24 números. Porém Ellis resolveu dar uma “esticada”, e a série passou a ser concebida com 27 números. Desde 1999 até outubro de 2009 foram lançados os 27 números, sem uma periodicidade muito regular, já que entre 2001 e 2003 a série não foi publicada. Mas todas sob a batuta de Ellis e com a pena de John Cassaday, que garantiu um ótimo nível a série. O número 26 praticamente conclui a história, e  o 27 é praticamente um epílogo, que resolve a única pendência que Elijah considera importante. A série saiu pelo selo Wildstorm, que atualmente faz parte do cast da DC Comics.

Além da série regular, o trio de arqueólogos apareceu em edições isoladas: um crossover com o Authority, outro com o Batman, onde Elijah e companhia confrontam diversas versões do Cavaleiro das Trevas, e um com a Liga da Justiça, onde o Planetary se torna o vilão da história à imagem e semelhança dos “quatro”, e versões do Batman, Super-Homem e Mulher-Maravilha é que precisam enfrentá-los. Essa última não tem qualquer relação com a cronologia oficial do grupo.

Um Poço de Referências

O grande trunfo da série é ser recheada de diversas referências a personagens do cinema, da literatura pulp, de ficção científica, dos quadrinhos e da vida real, algo tão magistral quanto o trabalho de Alan Moore na série “A Liga dos Cavalheiros Extraordinários”. A já citada versão maligna do Quarteto Fantástico é apenas uma das mais óbvias. Logo na primeira história, os três arrancam de um velho general a história de um brilhante cientista que, durante uma experiência, acidentalmente é transformado em um monstro. Isso deve lembrar aos leitores de quadrinhos um certo gigante esmeralda.

Já o primeiro número apresenta a versão de Ellis para diversos personagens da literatura Pulp americana, como Doc Savage, Fu Manchu, Spider e Tarzan. No número 2 faz menção aos monstros do cinema japonês da produtora Toho, como Godzilla, Gidorah e Mothra. O terceiro número é uma aventura em Hong Kong em busca de um espectro vingativo de um policial traído, que lembra os filmes de ação daquele país, principalmente os do diretor John Woo com o ator Chow Yun-Fat. No quarto surge o personagem Jim Wilder, que é transformado em um poderoso ser que lembra o Capitão Marvel da Fawcett Comics. Já os “Quatro” surgem no número 6. O número 7 é protagonizado por um mago claramente inspirado em John Constantine, e mostra praticamente todos os elementos das histórias da chamada “invasão britânica” que ocorreu nos quadrinhos americanos na segunda metade dos anos 80, como o Monstro do Pântano e Sandman, por exemplo. O número 8 lembra os filmes de ficção científica dos anos 50, protagonizado por uma jovem inspirada no visual de Marilyn Monroe. O 10 mostra três seres similares ao Super-Homem, Mulher-Maravilha e Lanterna Verde. Na edição 11 somos apresentados ao espião John Stone, uma mistura de James Bond com Nick Fury…

E por aí vai. Outros personagens aparecem como eles mesmos, como, por exemplo, o detetive Sherlock Holmes, que parece fazer parte de uma espécie de “Liga Extraordinária” ao lado do Drácula e outros personagens da literatura fantástica do século XIX, e se torna o mentor do jovem Elijah Snow. O autor de contos de terror H.P.Lovecraft também dá as caras em um crossover do Authority e Planetary. Mas não vamos entregar tudo de bandeja, para não privá-lo da diversão. Mas além das referências à cultura pop, Ellis é ótimo para compor diálogos e personagens. O que sai da boca deles é carregado de ironia e humor. E os conceitos apresentados nas histórias são criativos e ousados, misturando teorias científicas, misticismo e esoterismo.

Planetary no Brasil

No Brasil, os primeiros números de “Planetary” saíram junto com os primeiros números de “Authority” pela editora Pandora Books, que publicou cinco revistas em idos de 2002. A Devir lançou dois encadernados – “Mundo Estranho” e “O Quarto Homem” – reunindo os doze primeiros números da série. A editora Pixel publicou algumas histórias do “Planetary” na revista mensal Pixel Magazine, partindo do número 13. Mas para quem não tem nenhuma paciência para a instabilidade editorial do mercado brasileiro, é só dar um pulinho no fórum do FARRA e seus problemas estarão devidamente sanados.

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