Poesias de Boteco – A Missão

Há algumas semanas nosso compadre Washington Tio Xiko abriu o mote de poesias de boteco para declamar aqui no balcão da bodega, com a concordância deste, que já ouviu muita poesia lubrificada por água que passarinho não bebe e tubarão não nada. Publicou sob a promessa de coletar mais material em sua eterna odisséia pelos botecos da vida. Pela demora em ver a continuação desta série, e considerando seus hábitos, ele já deve ter colhido material equivalente ao Velho Testamento. Mas notícia que é bom, nada. Para não matar o assunto, reproduzo aqui a colaboração de dois colegas de ofício, oriundos diretamente da paróquia de Luiz Berto. Segue a colaboração de Ismael Gaião e Carlos Aires.

Ismael Gaião

Sou um vivo semimorto
no leito da desventura
Meu remédio é amargura
e a tristeza é meu conforto
Remando o barco pro porto
da esperança perdida
E a matéria convencida
desiludida da sorte
Só esperando que a morte
parta a corrente da vida

De viver tenho vontade,
me esforço, luto e pelejo
Mas olho atrás e não vejo
os dias da mocidade
Ja descambei da metade
estou chegando ao fim
Nada pra mim é ruim,
nem a saudade me afronta
E brevemente tira a conta
dos dias que faltam a mim

APOLOGIA A CACHAÇA!!! (Carlos Aires)

De primeiro só bebia
Caboclo negro e mulato
Hoje gente de recato
Bebe de noite e de dia
Até vossa senhoria
Eu já vi acontecer
Nas ruas tombar pender
Fazer seus passos errados
Se, bebem os ilustrados
Não é defeito eu beber

Eu já vi no bar bebendo
Engenheiro, deputado
Major, coronel, soldado
Até mesmo o reverendo!!
Pelo que estou percebendo
A bebida deve ser
Algo que só dar prazer
E não de imoralidades
Se, bebem as autoridades
Não é defeito eu beber

Bebe o padre bebe a freira
Bebe o espírita e o crente
Vejo que a aguardente
Aquela cana brejeira
Conquista de uma maneira
E como se pode ver
Se, bebe aquele que crê
Crente, espírita, freira e padre
Então veja meu compadre
Não é defeito beber

Se o time for vencedor
De uma competição
Haja comemoração
Tomando cana em louvor
Porém em outro setor
Vendo seu time perder
Bebendo pra esquecer
Na cachaça ele se vinga
Metendo a cara na pinga
Não é defeito beber

Bebe-se por quem nasceu
Quando ao mundo vem a luz
Ou se acaso deixa a cruz
No lugar em que morreu
Quem foi que já não bebeu
Alguém queira me dizer
Se apenas por lazer
Por alegria ou tristeza
Secando a taça na mesa
Não é defeito beber

Um bêbado inveterado
Que já está de cara inchada
Se acorda de madrugada
Toma um gole caprichado
Chega fica arrepiado
Sentindo a cana descer
Ele espera amanhecer
Levanta de perna fraca
Vai correndo pra barraca
Não é defeito beber

Chegam em casa com ressaca
As mulheres não aceitam
Tem delas que até o enfeitam
Com alguns biliros de vaca
Diz, não agüento a inhaca
Sendo assim não vou querer
Estragar o meu viver
Com um ser dessa qualidade
Ele diz com humildade
Não é defeito beber

O ébrio não é doente
É apenas viciado
Se acaso for bem tratado
Abandona a aguardente
Quando sóbrio e consciente
Logo irá compreender
Que depende do querer
Para mudar de repente
Bebendo socialmente
Não é defeito beber

O Sóbrio e o Ébrio
O sóbrio!!
Porque bebes assim meu grande amigo
Pois caminhas pra o fim a cada dose
Se não sabes, a bebida é um perigo!!
Poderá contrair uma cirrose
É que o álcool aos poucos lhe remete
Ao caminho que leva a diabetes
Alterando de vez sua glicose!!
O ébrio!!
A bebida me causa apoteose
Quando bebo esqueço meus conflitos
Tenho sonhos e delírios tão bonitos
Com o efeito feliz dessa hipnose
É por isso que bebo e em resumo
Sem controle eu faço esse consumo
Que me leva de vez a psicose!!
O sóbrio!!
Caro amigo a bebida lhe devora
E lhe causa a terrível depressão
Afetando-lhe a coordenação
E a perda do senso a toda hora
A família às vezes intervém
E o que fazem é apenas pro seu bem
Evitando que a morte o leve embora
O ébrio!!
Se meu time perder é um motivo
Vou beber pra evitar desolação
Se ganhar para a comemoração
A bebida me dar mais incentivo
E nos goles tomados me deleito
E assim eu revejo satisfeito
Cada gol e a vitória do “timão”
O sóbrio!!
Mas, amigo a bebida lhe destrói
Arrasa-lhe e até lhe desfigura
Demolindo a sua estrutura
Lentamente aos poucos lhe corrói
São por isso os apelos veementes
Da esposa dos filhos e parentes
Porque vê-lo arrasar-se isso lhes dói
O ébrio!!
Eu concordo com a sua insistência
Mas escute meu caro companheiro
Se não bebo, da fábrica ao barraqueiro
Um a um irão todos a falência
Pra o comércio não sentir esses abalos
Estou bebendo no intuito de ajudá-los
Agradeço-lhe, mas tenha paciência!!

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