Alguém Ainda Vigia os Vigilantes?

(publicado originalmente em 2007)

Entre setembro de 1986 e outubro de 1987, a DC lança a minissérie “Watchmen”, que acabou se tornando um clássico do gênero, e junto com outras obras como Cavalheiro das Trevas, redefiniu o gênero de super-heróis nos quadrinhos. Para se ter uma ideia de sua relevância e importância, ganhou diversos prêmios concedidos à indústria de quadrinhos, como o Kirby e o Eisner, além de ser a primeira obra em quadrinhos a receber o prêmio Hugo, destinado a obras de ficção científica, e estar incluído na lista dos 100 romances mais importantes do século XX elaborada pela revista Time.

Mas qual o segredo de uma história que, mesmo em um contexto tão diferente, consegue se manter ainda atual e com o mesmo impacto de quando lançado? Não há uma resposta fácil, e explorar todos os elementos dessa história não caberia nesse espaço. Mesmo assim, tentaremos explicar.

O Mundo dos Vigilantes

O título da série é extraído da frase “Who watches the watchmen?” (“Quem Vigia os Vigilantes?”), uma referência aos heróis e ao temor da população em relação aos seus atos.
A história de Watchmen se passa em um universo paralelo ao nosso e parte da premissa de como a realidade seria afetada se, de fato, pessoas resolvessem se fantasiar e combater o crime como heróis.

Apesar da história se passar em 1985, os eventos começam muitas décadas antes. No final dos anos trinta, começam a surgir os primeiros heróis mascarados, como o Hooded Justice, Silk Spectre (a dançarina Sally Júpiter), Capitão Metropolis (Tenente Nelson Gardner), Comediante (o jovem Edward Blake) e o Nigth Own (o policial Hollis Mason). Nenhum deles tem poderes especiais, apenas algumas habilidades físicas. Outros aparecem, e eles acabam se reunindo em um grupo chamado Minutemen. Essa geração de heróis vive sua era dourada nos anos quarenta, mas entram em declínio ao fim da década, com exceção do Comediante, que se torna um agente do governo a partir da II Guerra Mundial. A história desse universo é praticamente idêntica a nossa história até os anos cinquenta, com exceção de uma coisa: as histórias em quadrinhos de super-heróis não se tornam sucesso, já que existem heróis na vida real, e em seu lugar são publicadas histórias de piratas.

“Deus existe, e é americano”

A realidade começa a divergir quando, por um acidente, o físico Jonathan Osterman é desintegrado após uma experiência com campo intrínseco, porém sua consciência sobrevive, com a capacidade de manipular qualquer matéria e energia. Após voltar a vida, Osterman se torna o Dr.Manhattan, um ser de aparência azulada e fria. Seu poder muda desde as coisas cotidianas (capaz de sintetizar lítio para baterias, logo carros elétricos substituem os de motor à explosão) até o curso da história, já que os EUA o utilizam como arma estratégica, vencendo a guerra do Vietnã e se mantendo estrategicamente superior à União Soviética, pois com um simples gesto, o Dr.Manhattan poderia destruir todo o arsenal nuclear soviético. O presidente Richard Nixon muda a constituição e consegue impor seu mandato por anos seguidos, e ainda está governando em 1985.

Uma nova geração de heróis surge nos anos 60, como Ozymandias (Adrian Veich, um bem sucedido empresário admirador de Alexandre, o Grande), o novo Night Own (Daniel Dreiberg, um cientista que utiliza recursos tecnológicos para desenvolver equipamentos), a nova Silk Spectre (Laurel Jane Juspeczyk, filha da original) e Rorschach (Walter Joseph Kovacs, um vigilante mascarado).

Em 1977, os policiais se revoltam e entram em greve por conta da atuação dos heróis, e o governo é obrigado a baixar um ato (Decreto Keene) para registrar os heróis. Muitos preferem se aposentar. Sob a tutela do governo, ficam apenas o Dr.Manhattan e o veterano Comediante. O violento vigilante Rorschach continua atuando na clandestinidade.

“Carcaça de um cão morto no beco hoje de manhã”

A história começa em outubro de 1985, com uma investigação de assassinato de Edward Blake. Rorschach aparece na cena do crime e acaba descobrindo ser Blake o Comediante. Daí ele deduz que existe uma conspiração para assassinar heróis e passa a alertar seus colegas. Após uma acusação contra o Dr.Manhattan, este resolve se exilar fora da Terra, deixando os Estados Unidos sem seu maior trunfo estratégico e colocando o planeta perigosamente próximo a um conflito nuclear que poderia levar a humanidade ao extermínio. A ideia de que há um vilão oculto conspirando contra os heróis faz com que Rorschach aperte suas investigações e que outros heróis voltem à ativa, como o segundo Nigth Own e a segunda Silk Spectre. A trama flui até que se descobre, para surpresa de todos, quem realmente está por trás da conspiração e qual o seu objetivo, em uma conclusão surpreendente.

A Riqueza Narrativa de Watchmen

A minissérie em 12 partes começou a ser publicada nos Estados Unidos em setembro de 1986, sendo posteriormente reunidos em um álbum. Inicialmente, a DC queria uma história aproveitando os personagens da extinta editora Charlton (Besouro Azul, Pacificador, Capitão Átomo, etc), cujos direitos até hoje estão com a DC. O inglês Allan Moore fizera um brilhante trabalho na série do Monstro do Pântano, redefinindo totalmente o personagem. Ele é chamado para conceber esta história com os personagens da Charlton. Todavia, os editores não liberaram os personagens para Alan Moore “brincar” com eles, pois o conceito apresentado pelo autor era ousado demais e inviabilizaria os personagens de serem inseridos na cronologia normal da editora. Por isso, Moore apenas se inspira nos originais e cria novos personagens. No decorrer da história, se percebe que não se trata apenas de mais uma história de super-heróis, e sua trama se encaixa mais em uma narrativa de ficção científica com abordagem adulta.

Mas o que torna Watchmen um divisor de águas está além do desenho ou da abordagem. Graficamente, Dave Gibbons é competente, dando um toque realista ao desenho. Cada história começa com o primeiro quadrinho reproduzindo a capa, e nos seguintes se distanciando e mostrando o cenário. E o título de cada capítulo faz referência a alguma citação, que fecha os capítulos. O escritor inglês enche os quadrinhos de referencias visuais e narrativas à cultura pop e a temas caros ao autor, como a Teoria do Caos, referências estas impossíveis de serem totalmente percebidas em uma única leitura. Alan Moore explora todo o potencial do meio, utilizando recursos caros à literatura, como narrativa não-linear (principalmente nas lembranças do Dr.Manhattan) e metalinguagem (a história em quadrinhos lida por um garoto está relacionada à situação de um dos personagens), além de descrever psicologicamente a motivação de seus heróis, alternando o foco narrativo entre os personagens e expressando seus pensamentos e observações.

Fugindo ao arquétipo comum dos quadrinhos, os heróis de Watchmen têm as mais diversas motivações, que vão além de um mero e infantil senso de justiça. Muitos possuem “desvios” sexuais, são paranoicos fascistas, vivem em função das frustrações paternas, se tornam heróis apenas para se promoverem ou simplesmente são sociopatas. O Dr.Manhattan, compativelmente com seu poder e sua formação científica, se torna frio e distante da raça humana, um deus caminhando entre os homens, agindo puramente pela razão. Já Rorschach nunca conheceu o pai, resolve usar uma máscara por vergonha da apatia das pessoas após um caso de assassinato no qual as testemunhas nada fizeram (Moore se refere a um caso real, o de Kitty Genovese) e se torna mais violento após descobrir o que um seqüestrador fez a sua vítima. Sua descrição do fato a um psicólogo é um dos momentos mais fortes e chocantes da história.

Os detalhes do universo de Watchmen não são apresentados de forma direta e simples, e sim nas entrelinhas da narrativa e através de “extras” em cada edição: correspondentes a publicações do universo de eventos dos personagens, como trechos da biografia de Hollis Mason, o primeiro Nigh Own, artigos científicos sobre o Dr Manhattan, matérias de um jornal de extrema direita, entrevistas de personagens ou releases publicitários.

Após a leitura de Watchmen, o pressuposto frágil de aceitarmos a existência de super-heróis da forma tradicional que a cultura pop concebe se torna uma ideia superada. Muitos criticam Alan por não ter “respeito” com os heróis por ter feito Watchmen, como John Byrne, por exemplo. A influência da obra se fez sentir, e mudou a abordagem dos clássicos super-heróis americanos, introduzindo um pouco mais de “realidade” ao mundo deles. Infelizmente nem todo mundo é Alan Moore, e muito lixo também foi produzido, mas nem por isso o inglês maluco é culpado.

O senhor do caos

Infelizmente, o próprio criador desta obra não está satisfeito e não tem muitos motivos para comemorar. Como na época o que ainda vigorava era a propriedade da editora, Moore se viu privado de suas criações, já que a DC detinha todo e qualquer direito pelos personagens, repassando um percentual pequeno de royalties para o autor. Isso, aliado a outros desentendimentos, fez Moore cortar as relações com a DC. Moore declarou que, após o novo álbum da Liga Extraordinária, não mais trabalharia para a indústria dos quadrinhos, preferindo projetos independentes, como a revista Dodgem Logic. Até hoje a DC reedita Watchmen. No Brasil, a minissérie foi lançada em seis partes em 1987 pela editora Abril, e depois relançada em 1999 em doze partes com todas as capas originais e tradução diferente. A Via Lettera dividiu a obra em quatro volumes, lançando-os em livrarias e lojas especializadas. Com o lançamento do novo filme ano passado, foi lançado pela Panini um encadernado com capa dura, reunindo toda a série, sob o título “edição definitiva”.

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