Archive for março 2010

Super-Homem x Ku Klux Klan

O Homem de Aço combate o preconceito

Quem acompanha as aventuras de algum super-herói sabe que muito do que ocorre hoje na vida real seria impedido por ele. Em um mundo em que existisse o Super-Homem, dificilmente teríamos um 11 de setembro, um terremoto no Haiti ou um Tsunami na Ásia, entre outros flagelos. Mas às vezes os super-heróis conseguem intervir em nossa realidade, com resultados benéficos. O próprio Super-Homem já foi chamado para combater um inimigo tão insidioso quanto o Lex Luthor: o racismo.
Uma Brincadeira Chata

A cultura ocidental ajudou a divulgar em filmes a figura da Ku Klux Klan, a organização racista americana. A Ku Klux Khan teve um início até inocente, quando uns ex-soldados confederados se reuniram sem maiores pretensões no Tenessee, mas a organização cresceu e assumiu um caráter conservador e intolerante contra os negros que conseguiram a liberdade após a conclusão da guerra. Açoites públicos, linchamentos, estupros e castrações espalharam o horror entre os negros, que passaram a temer os homens de capuz branco e as cruzes em chamas. Desde então, a organização passou por altos e baixos, com períodos de intensa atividade intercalados por momentos em que o grupo ficava nas sombras. Em 1872, a organização foi reconhecida como um grupo terrorista e foi perseguida pelo governo. Décadas depois, em 1915, o filme “O Nascimento de uma Nação” contava os primeiros anos da nação americana e fazia apologia da atividade dos homens da Klan, contribuindo para o seu ressurgimento. Até o início da II Guerra Mundial, a KKK esteve em plena ativa. Mas a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, justamente contra nações que defendiam ideias semelhantes às da Ku Klux Klan, tirou qualquer viabilidade da organização se manter popular.

Mas uma enorme cruz em chamas foi vista pouco mais de dois meses após o final da guerra na encosta do Stone Montain, em Atlanta. Os homens de capuz branco estavam de volta à atividade, e escolheram a capital da Geórgia como sua nova sede.

O Herói do mundo real

Um jovem de trinta anos chamado Stetson Kennedy era natural de Atlanta, mas ao contrário de muitos de seus conterrâneos sulistas e seus antepassados, ele não concordava com o ideário racistas propagadas pela Klan, e se sentiu na obrigação de fazer algo para combater essa praga ao seu modo, escrevendo artigos para periódicos. Infelizmente, a KKK era apenas o braço armado e extremista de uma mentalidade arraigada na elite branca do Sul, e a retórica parecia ser insuficiente para combater a Klan.

Usando um nome falso e o fato de que um tio seu já havia sido um Klansman, Kennedy conseguiu entrar e se infiltrar no grupo local da Klan, logo se tornando parte dos Klavalheiros, que era a polícia secreta da organização. O que ele observou, de imediato, é que a maioria dos que faziam parte da Klan eram homens de pouca instrução e sem futuro profissional promissor. Logo ele se familiarizou com os rituais secretos e conheceu a identidade dos líderes locais. Na prática, a Klan agia apenas pelo fator intimidação, já que os linchamentos eram praticamente inexistentes, e os líderes usavam este poder para extorquir sindicatos locais, entre outras atividades criminosas envolvendo contrabando de armas e bebidas.

Com tais informações, Kennedy comunicou os delitos e as atividades da organização as autoridades, incluindo o procurador-geral e o governador, com detalhes que poderiam levar ao desbaratamento da organização e de suas atividades. Infelizmente nada surtiu maior efeito contra a KKK. Frustrado em seu intento, Kennedy resolveu pedir ajuda ao maior super-herói. Super-Homem iria usar seus músculos de aço contra a intolerância racial.

Chamem o Super-Homem

Mas antes que os leitores me acusem de ter bebido algo muito forte, vamos esclarecer. Kennedy percebeu que muito da força de uma organização secreta vem dos rituais e códigos cujo conhecimento era restrito aos iniciados. Muitos desses rituais observados por Kennedy eram até meio infantis.

Nessa época, o programa de rádio As Aventuras do Super-Homem era transmitido toda a noite, para deleite da garotada que acompanhava as aventuras do filho de Krypton. Kennedy resolveu usar este programa para levar a público os maiores segredos da KKK. Antes, Super-Homem já havia usado seus poderes contra Mussolini, Hitler e companhia. Os produtores do programa adoraram a ideia de Kennedy e, a partir das informações fornecidas, os roteiristas escreveram um mês inteiro de aventuras do Homem de Aço contra os homens de lençol branco. Veio à tona toda a estrutura e rituais dos Klans, e a crianças estavam brincando de Super-Homem contra KKK usando as mesmas palavras em código utilizadas pelos klansmem. Claro que os membros entraram em polvorosa quando viram seus rituais sagrados sendo usados como brincadeira de pirralhos. Senhas foram mudadas, e as novas foram imediatamente informadas aos roteiristas, que cuidaram de inseri-las nos programas seguintes. Ao final da aventura, é claro que Super-Homem prendeu e venceu seus inimigos.

E no mundo real os efeitos foram ainda mais devastadores. As reuniões seguintes tiveram presença próxima de zero, e ninguém mais se interessou em se vestir de capuz branco. Mesmo sem destruir a Klan em definitivo, a ação de Stetson Kennedy e a ajuda do Super-Homem foram o principal fator que impediram o ressurgimento da Klan no período pós-guerra.

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A Biblioteca Politicamente Incorreta

Dicas de livros para NÃO se ter na estante
Você é daqueles que começam uma cantada com algo do tipo “vamos ver minha coleção de livros lá em casa”? Se é, com certeza vai tentar impressionar a parceira com alguns livros bem cabeça para mostrar quão inteligente e sensível você é, desde que ela arrie as calcinhas o mais rapidamente possível. Mas se você não for exatamente fã de Fernando Pessoa ou de literatura clássica, o máximo que pode acontecer é ela achar graça na pilha de mangás do Naruto espalhadas pelo quarto. Mas se por acaso ela vir algum livro mais estranho, ela vai achar que você é algum psicopata, terrorista ou tem parte com o cão, e além dela lhe dispensar, entrará na primeira delegacia que encontrar para falar ao delegado sobre sua alma sensível. Eis aqui uma pequena lista dos livros que você NÃO deve ter em sua casa.

Manual do Guerrilheiro Urbano
Escrito por Carlos Marighella, cabeça da ALN (Aliança Libertadora Nacional) basicamente era um manual de doutrinação, sem maiores conselhos práticos e com algumas dezenas de páginas. Tinha algumas recomendações, como o uso de armas leves e curtas, do tipo submetralhadoras, e a carinhosa premissa de não se fazer prisioneiros de qualquer representante das autoridades. Ou seja, viu policia, manda bala! Até onde eu saiba nunca foi publicado por nenhuma editora. Na época do regime militar suas cópias eram mimeografadas, como o próprio manual recomendava. Tornou-se mundialmente famoso por ter sido usado pelo grupo terrorista alemão Baader-Meinhof, o apelido carinhoso da Facção Exército Vermelho, que tocava o horror na Alemanha Ocidental nos anos 60. Hoje é facilmente visto pela Internet, apesar de que há versões em português que não são o texto original, e sim alguma tradução obtida a partir de outro idioma, devido a alguns erros grosseiros de tradução, como “barrel” ser “barril”, e não cano de arma de fogo. Mas não sei se o livro ajudou muito seu autor e seus mais famosos leitores, já que Mariguella morreu com mais balas que uma confeitaria e a dupla sertaneja terrorista alemã acabou também morta, supostamente por suicídio.

The Anarchist Cookbook
Escrito nos EUA no início dos anos 70 por William Powell como uma espécie de protesto contra o envolvimento do país na Guerra do Vietnã, este livros traz dicas imperdíveis de como aplicar golpes financeiros, interferir em equipamentos eletrônicos, produzir drogas caseiras, conseguir identidade falsa e, o mais interessante, fabricar diversos tipos de bombas e explosivos a partir de produtos facilmente obtidos. Apesar do título, o livro não faz referência à política do anarquismo propriamente dita, e estes fazem questão de não serem associados a esta publicação. E por mais explosivo – trocadilho infame – que seja seu conteúdo, desde os anos 70 que tal livro foi publicado e está disponível até hoje para venda, apesar dos protestos do autor, que se arrependeu de te-lo escrito, mas que atualmente não detém os direitos sobre o livro. Trechos e variações do conteúdo estão disponíveis na Internet, principalmente sob o título “The Terrorist Handbook”, uma série de receitas para bombas caseiras. A propósito, se você está lendo este artigo, sorria, pois a CIA e a NSA devem estar lhe observando agora.

Mein Kampf
Para aqueles que acham que as ideias do nacional-socialismo merecem uma segunda chance, nada como dar uma passada nas páginas escritas pelo próprio Adolf Hitler enquanto via o sol nascer quadrado e que contém o fundamento teórico no qual se baseou o partido nazista. Um verdadeiro best-seller em seu tempo, não é oficialmente ditado atualmente por motivos óbvios, o que não impede que cópias circulem pela Internet, fazendo a alegria de qualquer maluco que resolva usar a suástica.

A Bíblia Satânica
De todos os malucos acólitos de adoração ao cromunhão, o mais famoso nos meios é Anton Szandor LaVey, que fundou a Igreja de Satã em 1966 e escreveria anos depois a sua versão da Bíblia, onde pregava sua palavra, por assim dizer. Mas para quem espera rituais homicidas e sanguinolentos  em nome do Luciraldo vai se decepcionar, pois o satanismo proposto por Lavey seria, na verdade, uma mistura de materialismo e hedonismo que pregava valores opostos ao ascetismo e estoicismo das religiões cristãs. Ou seja, para Lavey a putaria tava liberada sem culpa, e se aparecesse alguma virgem em sua igreja, era mais fácil ela entrar na pica do que na faca. Satã era usado apenas como um simbolismo para estes valores, uma força da natureza, e não uma deidade.  Mas vá tentar explicar isso para sua mãe quando encontrar esse livro em sua estante…

O Livro Negro de São Cipriano
Supostamente escrito por um feiticeiro medieval, esse é o nosso “grimorium”. Se Paulo Coelho é do bem, São Cipriano oferece poderosas rezas, mandingas, elixires do amor, amuletos, bruxarias e coisas práticas, como orientar sobre pactos demoníacos ou produzir capetinhas a partir de gatos pretos. O irônico é que isso era anunciado em algumas revistas em quadrinhos que li quando criança, e ainda está disponível para quem quiser dar uma de John Constantine Tupiniquim, nas versões Capa Preta e Capa de Aço.

Se por acaso algum leitor se interessou por um desses livros, faremos vista grossa e imaginemos que seja apenas pura curiosidade acadêmica. E em caso de alguém explodir a casa por engano, for arrastado para o inferno ou ser indiciado por apologia ao terrorismo e nazismo, nós não temos nada com isso. Quem mandou ler estas porras ao invés de ler inofensivas revistas da Turma da Mônica?

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De Cabelos e Presidências

Obs: Esse texto é uma reedição parcial e atualizada de um que foi escrito às vésperas do segundo turno da eleição de 2006, quando já era dada como certa a vitória de Lula, e na época do velho Busílis levantamos a séria teoria de que o principal motivo para Geraldo Alckmin não ser eleito não era o fato dele ser do PSDB, de ter impedido 69 CPI´s em São Paulo ou por ter deixado um rombo de um bilhão de dólares nas contas do Estado. Isso qualquer um faz e nem por isso deixa de ser eleito. Ele deveria ter trocado o banho de ética pelo banho com tônico capilar. Ou seja, Alckmin deixou de ser eleito pelo simples fato de que é careca.

E às vésperas de outra eleição na qual o provável maior adversário da situação é José Serra, voltamos a defender essa teoria, e achamos que é mais fácil o povo eleger uma mulher do que um careca.

Para corroborar tão absurda teoria, é só fazermos um rápido retrospecto dos últimos presidentes para observarmos bastante cabelo acima da faixa presidencial, e candidatos capilarmente desprovidos serem preteridos do sufrágio popular ou, quando eleitos, não terem muita sorte. Basta darmos uma olhadinha na lista dos presidentes que já tivemos e perceberemos que poucos deles são carecas, e são exceções facilmente explicáveis. Por exemplo, o primeiro presidente careca que tivemos, Afonso Pena, acabou indo assumir suas funções públicas no além antes de terminar seu mandato de presidente. Parece que Hermes da Fonseca não era muito provido de cobertura capilar, mas ele, esperto que era, cobria o fato com algum chapéu ou quepe, o que lhe garantiu cumprir o mandato.

Getúlio Vargas pode parecer uma exceção, mas no início ele não era tão careca, e só ficou no poder tanto tempo à força, durante a ditadura do Estado Novo. Tudo bem que foi reeleito, mas acabou se matando. Saiu da vida para entrar na história, com careca e tudo.

Durante os anos de chumbo, praticamente todos os generais presidentes tinham cabelo, com exceção de Figueiredo, que pediu ao povo que o esquecesse. Mas temos que lembrar que era um regime de exceção, o que explica a careca do General terminar o mandato, e de quebra, acabar com o regime militar. Só que seu sucessor, eleito indiretamente e vencendo outro careca, o Turco Louco, foi Tancredo Neves, notório mineiro careca, que acabou morrendo sem assumir a presidência, deixando tudo de mão beijada para alguém com bastante cabelo na cabeça e embaixo do nariz. E nas primeiras eleições diretas, carecas famosas do cenário político, como Ulisses Guimarães, Leonel Brizola ou Afif Domingos foram passados para trás pelo cabeludo boa-pinta do Fernando Collor. Esse, apesar do cabelo, não conseguiu segurar seu mandato, deixando a cadeira presidencial para alguém mais cabeludo ainda. Itamar Franco tinha até topete. E achando pouco, costumava aparecer em público ao lado de figuras cabeludas. Depois dele veio Fernando Henrique Cardoso, que venceu duas vezes Luis Inácio Lula da Silva. Mas foi só o PSDB colocar o manequim de Nosferatu José Serra para concorrer com o Sapo Barbudo que não deu outra; o careca levou na cabeça e Lula, cabeludo até nos escândalos, levou a faixa. E para a eleição seguinte empurraram outro careca, o Alckmin. Outra derrota.

E o vice de Lula, José Alencar, que é careca, foi só assumir algumas vezes a Presidência substituindo o titular nas vezes em que estava viajando e quase é levado pelo bico do corvo.

Resumindo: Candidato à presidência careca tem pouquíssimas chances de ser eleito, e se por acaso conseguir emplacar o mandato, haverá grandes chances de não conclui-lo, terminando-o de forma trágica.  Presidente careca não tem vez no Bananão, como o PSDB já deveria ter aprendido com a não eleição de José Serra e Geraldo Alckmin. E se quiser ganhar dessa vez, que arrume uma cabeleira de respeito para José Serra ou escolha algum cabeludo para candidato.

E concluindo, com uma frase lapidar, vinda de nosso colega Bira, o Bruto: “Apesar de sermos uma nação buceta, o eleitor não parece querer um cabeça de pica governando esse rincão ginecológico”.

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Sukiyaki Western Django

Espaguete, sushi e sashimi

Uma das bandeiras do movimento modernista da literatura brasileira foi o antropofagismo, que preconizava a absorção de elementos alienígenas à nossa cultura para dar uma forma totalmente nova e nacional à eles. Podemos extrapolar isso para o cinema, cujos países produtores costumam saciar sua sede de ideias entre si. E o cinema japonês já ofereceu muito sashimi e sushi conceitual aos colegas ocidentais. E um dos mais apreciados é a obra de Akira Kurosawa, que teve inspiração ocidental em alguns de seus filmes, como “Ran”, diretamente baseado em “Rei Lear”, de Shakespeare. E dois de seus filmes acabaram tendo suas histórias transplantadas do universo dos samurais para as planícies desertas do Western. Quem é fã do gênero já assitiu à “Sete Homens e Um Destino”, cuja história é praticamente uma refilmagem de “Os Sete Samurais”, de Kurosawa, que é retomada quase como paródia no filme de ficção de Roger CormanMercenários das Galáxias”, e é homenageada também em “Vida de Inseto”, da Pixar.

Mas um dos filmes de Kurosawa que mais renderam homenagens e referências foi “Yojimbo – O Guarda-Costas”, na qual um samurai chega a uma cidade na qual dois clãs rivais lutam, e o samurai ora luta de um lado, ora de outro, procurando levar vantagem do antagonismo dos clãs e manipulando os eventos. O pai do Western Spagethi Sérgio Leone reproduziu a história no filme “Por um Punhado de Dólares”, com Clint Eastwood fazendo o papel de “estranho sem nome” ao qual voltaria várias vezes. Mas veremos esta história se repetir em outros filmes, como “O Último Matador”, com Bruce Willis, e “Inferno”, com Jean-Claude Van Damme. Pois é, os brutos também amam Kurosawa.

E toda essa mistura acaba tomando o trem-bala de volta à Ilha de Sipango nas mãos do diretor Takashi Miike, que importou os elementos do faroeste italiano e os misturou com os filmes de samurai, adicionando figurino absurdo e um panteão de personagens bizarros e cenas de ação exageradas, além da participação de Quentin Tarantino com espécie de narrador dessa história. O Fugu que é servido com esta receita é o filme “Sukiyaki Western Django”. A história tem como ponto de partida o filme do Leone, e um pistoleiro sem nome chega a um povoado onde dois clãs, os Minamotos (brancos) e os Heike (vermelhos), lutam e procuram por um tesouro enterrado. Mas, ao contrário da história original, o roteiro não se concentra no personagem central do “pistoleiro sem nome”, havendo vários personagens em histórias paralelas, incluindo drama e comédia. As duas gangues já são uma referência a um episódio da história do Japão Feudal, a Batalha de Danno-ura, em 1185, a qual é mencionada pelo personagem de Tarantino na introdução do filme. Mas se vê de tudo um pouco: chefes de gangue com ilusões de grandeza citando Shakespeare, xerifes com distúrbios de personalidade, viúvas em busca de vingança, uma lendária pistoleira escondida entre os cidadãos, ação e violência exageradas, situações bizarras e uma pá de referências ao faroeste, não só à “Por Um Punhado de Dólares”, mas também a “Django”, como entrega o título, com direito a duelo em cemitérios e metralhadores Gatling escondidas em caixões arrastados – mas com tanta bizarrice não estranharia se aparecesse no caixão um vampiro ao invés da metranca. E nos créditos finais, uma versão da música-tema do filme “Django”. E quando eu falo de exagero, não estou brincando, já que os absurdos deixam “Rápida e Mortal” do Sam Raimi no chinelo, com katanas detendo e cortando balas no ar ou flechas atravessando enormes buracos de tiro no meio dos peitos de algum infeliz.

Admito que é uma mistura para poucos, e que talvez exija uma garrafa de saquê para melhorar a digestão. Mas ao menos consegui convencer um amigo a me acompanhar nessa empreitada no último fim-de-semana. Para quem quer ver algo diferente e divertido é uma boa dica. Mas caso esteja mais habituado a dieta de fastfoods americanos, esse prato japonês pode dar uma congestão em seu juízo. Leve o saquê, ou na falta desse, algumas cervejas podem ajudar.

Nenhuma bebida alcoolica foi consumida durante a elaboração deste texto ou exibição do filme. Infelizmente

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Cazzo, Mauricio!

Há alguns dias foi publicado no site do Observatório da Imprensa um texto analisando e criticando os quadrinhos da Turma da Mônica, com uma visão digna de Frederick Wertham e sua “Sedução do Inocente”, ou aquela bobagem esquerdóide de “Para Ler o Pato Donald”, evocando a visão deturpada de décadas atrás sobre os quadrinhos. Mas é um tema sobre o qual deveria ter falado, mas devo voltar em breve. E falando em “Para Ler o Pato Donald”, há alguns anos o ex-blogueiro Ruy Goiaba fez uma paródia do tal livro, envolvendo a turma da Mônica. Parece que o autor do texto no Observatório da Imprensa o leu e acabou levando a sério.

Ao menos essa celeuma teve um bom resultado, que além de trazer a discussão à tona – e reunir todos os fãs das Hq’s para esculhambar com o autor do texto – inspirou uma iniciativa por demais hilária, o blog “Porra Mauricio” no Tumblr. Para quem ainda não conhece, o Tumblr é uma rede social mezzo blog e mezzo twitter, na qual pode se postar texto, links, imagens, áudio e vídeos de forma fácil e descomplicada, onde inclusive temos um quiosque. E virou moda no Tumblr os blogs “Porra…”, na qual se esculhamba alguma celebridade, como Felipe Dylon ou o governador Kassab. E o “Porra, Maurício” é uma paródia muito bem sacada a esta interpretação deturpada dos quadrinhos, e o culpado autor da bagaça consegue enxergar todo tipo de perversão e sacanagem nos quadrinhos da turma da Mônica. Diversão garantida.

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Código de Conduta

Charles Bronson encontra o Dr.Phibes

Mais um filme que esperei sair em DVD para assisti-lo, mesmo com algumas críticas negativas da imprensa quando saiu no cinema. Mas quem liga para os críticos hoje em dia? O resumo de sempre: o dono de casa Clyde Sheldon (Gerard “isso é Esparta!” Butler) vê sua casa ser invadida por dois ladrões, e um deles estupra e mata sua esposa, matando a filhinha deles em seguida. O caso vai a julgamento e o promotor Nick Rice (Jamie Foxx), mais interessado eu seu índice de condenações do que na justiça em si, prefere fazer um acordo com o principal criminoso para garantir que ao menos um deles seja condenado, o que deixa Clyde irritado e frustrado com o sistema jurídico. Dez anos depois, um dos criminosos será executado enquanto o verdadeiro assassino está em liberdade. A execução, que deveria ser indolor e tranquila, se mostra bastante demorada e terrivelmente dolorosa. E o verdadeiro assassino também é morto, mas de uma maneira especialmente cruel e lenta. Claro que a polícia e a promotoria se lembram de Clyde Sheldon, e partem em seu encalço.

Mas que seria uma mera vingança contra os responsáveis pela morte brutal de sua família no melhor estilo “justiça pelas próprias mãos” se torna um complô bem elaborado para eliminar todos os que ele considera responsáveis pela libertação do principal culpado, e  a promotoria descobre que Clyde Sheldon é mais do que um simples dono de casa, sendo ele na verdade um ex-agente cuja tarefa era elaborar as maneiras mais improváveis para se atingir e matar os mais difíceis alvos. E o camarada levou uma década para elaborar seu plano de matar das formas mais criativas, dolorosas e inverossímeis a todos que considera culpado pelo sistema jurídico que libertou o algoz de sua esposa e filha. Logo todo o sistema jurídico da Filadélfia estará se sentindo impotente diante da capacidade de Sheldon atingir seus alvos, mesmo estando preso na solitária.

Em um primeiro momento o filme promete uma variação bem interessante sobre o tema “justiça pelas próprias mãos”, tão explorado nos anos 80 pelos filmes de ação que se inspiravam em um dos maiores ícones deste subgênero, o arquiteto Paul Kersey da série “Desejo de Matar”,  vivido por Charles Bronson. Ao invés de uma simples vingança contra os criminosos, o alvo abrange também o sistema que os colocava na rua. Infelizmente a história se perde lá pelo meio, e o que poderia ser um interessante suspense policial com críticas ao sistema jurídico se torna um filme com mortes criativas e impossíveis, estilo “Jogos Mortais”, para usarmos uma referência recente.

Por isso deixei de levar a sério a história e preferi encarar o filme como diversão mórbida, e imediatamente fiz a ponte com um filmaço dos antigos: a série de filmes com Vincent Price dos anos 70, iniciada com “O Abominável Dr. Phibes”  onde ele é o personagem-título, o vingativo e deformado viúvo que mata com requintes de sofisticação e criatividade a equipe médica que não conseguiu salvar a sua esposa,  inspirado nas pragas egípcias descritas na Bíblia. Tudo bem que Phibes era camp e cafona até os ossos, mas tinha seu charme inabalável, mesmo com sua máscara escondendo seu rosto deformado e aquele aparelho pelo qual ele falava. Mas era divertido pacas imaginar como seus inimigos morreriam.  E me peguei fazendo o mesmo neste filme. O trunfo da história é que você acaba se pegando torcendo para o que seria o vilão, concordando ou não com sua crítica ou métodos.

Só que, mesmo não levando a sério tudo isso, o final acaba decepcionando, pois se preferiu uma conclusão mais politicamente correta e convencional, desvendando os mistérios e quebrando um ritmo que poderia render um final mais ousado. O diretor e os roteiristas tiveram uma boa ideia, mas não souberam executa-la. Poderiam ter feito um filme mais realista e crítico ao sistema judiciário ou simplesmente apostarem na suspensão de descrença do público e investir em um suspense beirando o impossível até as últimas consequências, já que chutaram o pau da barraca da credibilidade lá pelo meio do filme mesmo. Mas no fim resultou em um daqueles filmes de segunda categoria que costumam ser reprisados nas madrugadas da TV, infelizmente. Mas pensando bem, a depender do final do filme, alguém poderia ter a brilhante ideia de querer inaugurar mais uma franquia caça-niqueis no melhor estilo “Jogos Mortais”. E disso não precisamos, com certeza.

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A Estante Voadora

Livros que você larga e não quer mais pegar

Dizem que tem livros que a gente pega e não consegue largar. Já Millôr Fernandes parafraseou a assertiva ao afirmar que tem livros que a gente larga e não quer mais pegar. Pior que isso acontece, mesmo. Há livros que por algum motivo a gente não quer nem mais ver, mesmo que fosse ilustrado com fotos da Flávia Alessandra. Às vezes pode ocorrer por não termos maturidade ou bagagem cultural o suficiente pra absorver as sutilezas do autor. Ou porque o livro é uma bosta, mesmo.  E comigo não é diferente. Como todo leitor inadimplente, tenho a estante cheia de livros que comprei, mas que ainda não li, e estão acumulando poeira há anos. Eis aqui a lista de alguns e o motivo pelo qual adiei sine die a leitura deles.

The Secret – O Segredo
Comecei a ler só pra saber por que cargas d’água falam tanto desse livro que tem mais filhote que “O Código DaVinci”. E precisei de pouco mais de dez páginas pra entender que a proposta do livro é falar sobre o pensamento positivo. Parece só uma versão reciclada e metida de “O Poder Infinito de Sua Mente”, que vendeu os tubos em seu tempo. Pus em prática seus ensinamentos e passei a rejeitar o livro em minha mente para que eu nunca mais eu o veja pela frente.

Biografia do Roberto Marinho
Li os primeiros capítulos e não consegui passar disso. Sei que foi ingenuidade imaginar isenção e objetividade de uma biografia do dono da Globo escrita por um jornalista da Globo, mas imaginei que Pedro “isso é coisa de viado” Bial tentaria disfarçar mais um pouco. Vamos babar, mas o ex-corno da Giuliana Gam quis estabelecer um recorde sul-americano em termos de bajulação ao balançar os ovos do chefe morto. Quem sabe daqui a uns cinqüenta anos surja uma biografia mais isenta, e nela se comprove minha teoria de que Roberto Marinho transferiu seu cérebro para o corpo do Vitor Fasano…

Ulisses
Com uma margem de sobra podemos dizer que esse é o livro mais comentado e menos lido. A obra-prima de James Joyce já gerou todo tipo de leitura e teoria e é considerado um marco da literatura moderna. E claro que comprei o calhamaço e comecei a ler justamente em um Bloomsday, e com toda pompa e circunstância: numa mesa de bar e bebendo cerveja escura. A leitura fluiu tão bem quanto a cerveja, mas depois tentei ler em casa já sóbrio e a leitura não engrenou. Pelo visto, vou lê-lo aos poucos, sozinho em mesas de bar. E como raramente eu vou sozinho a bares, nesse ritmo devo levar uns dez anos e dezenas de hectolitros de cerveja escura pra terminar esse livro. Mas como disse T.S.Eliot, todos nós somos devedores a este livro e nenhum de nós pode escapar. Saúde!

O Imbecil Coletivo
Tentei ler a obra-prima de Olavo de Carvalho, o pensador mais odiado pela nossa esquerda, logo em seu lançamento, e juro que achei a introdução chata. Mas admito que a culpa foi minha, que precisava de um mínimo de conhecimento e leitura que, a duras penas, tive que admitir que não tinha. Acho que já tá na hora de tentar de novo. Pelo menos tenho maturidade pra admitir mais rapidamente minha ignorância, se não conseguir de novo.

A Idade da Razão
Não que esse livro seja hermético ou difícil, mesmo sendo escrito por Jean-Paul Sartre, o mesmo de “O Ser e o Nada”. O problema é que até umas quarenta páginas não vi nada na narrativa, história ou personagem que me entusiasmasse. E já tentei ler duas vezes isso. Quem sabe quando eu chegar na tal idade da razão eu venha a me interessar pelo livro. Mas até o momento não tenho razão nenhuma para tentar lê-lo.

A Casa dos Budas Ditosos
Não, o livro não é ruim, pelo menos acho eu. A culpa por não conseguir lê-lo é do próprio autor. Antes desse livro, li do Ubaldo “Diário do Farol”, sobre um misantropo e sociopata e seu fadário de manipulação e vingança. Uma leitura atordoante se você se envolve com a narrativa. Saí tão tonto que não engrenei a leitura do outro livro do autor. Precisei ler um gibi do Tio Patinhas pra recuperar um pouco da sanidade e fé na raça humana.

Kama Sutra
Antes que imaginem que virei celibatário, o único motivo pelo qual evito atualmente esse livro é uma séria hérnia de disco, que suspeito ter sido causada pelo dito livro. E não é porque ele é pesado, não. Se não entendeu, tente adotar a posição giratória ou a da rachadura do bambu, marcando hora com um fisioterapeuta antes (bem, se ela for mulher e bonita, pode testar as posições com ela).

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Campo de Batalha: Hollywood


O Cinema Americano Vai à Guerra

A cerimônia do Oscar 2010 consagrou o filme “Guerra ao Terror”, da diretora Kathryn Bigelow, contrariando as expectativas de que James Cameron – ex-marido de Bigelow – repetisse o feito de “Titanic” ao levar um balaio de prêmios. Ironicamente o filme foi lançado ano passado apenas em DVD, sem maiores divulgações, ao contrário de “Avatar”, que está há meses em cartaz, e recebeu um lançamento em cinema oportunista há poucas semanas, quando este se tornou candidato sério a ganhar algum Oscar. Obviamente a imprensa explora a vitória de Bigelow sobre seu ex com um clima de picuinha, mas cá entre nós, o próprio James Cameron deu a maior força para ex-esposa neste filme, e ele deve estar inconsolável por não ter ganho tantos prêmios enquanto nada na banheira com os milhões de dólares lucrados com “Avatar”…

“Guerra ao Terror” é mais um filme que aborda a campanha militar americana no Iraque, e nem é o mais recente, sendo este “O Mensageiro”, que foi lançado no Brasil há poucas semanas e chegou a concorrer ao Oscar na categoria ator coadjuvante com Woody Harrelson, cujos personagens principais são dois oficiais com a missão nada agradável de comunicar aos parentes de soldados mortos em combate as más notícias. Mas ambos são filmes de guerra, um gênero que Hollywood explora há décadas, mas com as mais variadas facetas. Os Estados Unidos já participaram de muitas guerras, conflitos e intervenções militares, tanto no passado como em décadas mais recentes,  o que rende bastante material para roteiristas. Mas de longe os conflitos que mais renderam – e rendem – filmes foram a II Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã.

No decorrer da II Guerra Mundial Hollywood aproveitou o veio patriótico para explora-lo, e praticamente todos os filmes desta época produzidos nos Estados Unidos mostravam seus atores preferidos ganhando o conflito em nome dos americanos. Se os filmes produzidos durante a guerra podem ser hoje considerados estereotipados e claramente pró-militarismo americano, no pós-guerra surgiram filmes mais propensos a explorar o drama das pessoas afetadas pelo conflito ou com fortes críticas ao militarismo e a guerra. Mas esse tema ainda é um ciclo em aberto, pois todo ano saem filmes que se passam durante o conflito, sendo os mais recentes “Bastardos Inglórios”, “Operação Valkíria” e “Um Ato de Liberdade”. E a lista de filmes sobre o tema, americanos ou não, é imensa, e caso queira saber mais a respeito, sugiro uma visitinha ao site de Oriza Martins.

Já no conflito do Sudeste Asiático Hollywood explorou o tema durante os anos 70 e 80, porém enquanto durou a guerra pouco se abordou diretamente o conflito em filmes, sendo o exemplar típico desta época o filme de John Wayne “Os Boinas Verdes”, de 1968, no qual ele fazia apologia à participação americana na Guerra do Vietnã, com toda pompa, heroísmo e patriotismo, pois John Wayne já ganhara a II Guerra várias vezes sozinho e certamente faria o mesmo chutando a bunda de Ho Chi Min. Há também M.A.S.H, de Robert Altman, uma sátira impagável à guerra, que se passava no conflito da Coréia, mas que era facilmente associado à vigente guerra do Vietnã. Mas no pós-guerra a abordagem dos filmes foi extremamente contrária e crítica à guerra, mostrando seus efeitos  indeléveis naqueles que sobreviveram aos seus anos, e filmes como “O Franco-Atirador”, “Amargo Regresso”, “Platoon” e “Nascido Para Matar” mostram as batalhas e suas consequências sem glamorizar a violência. Obviamente teve muita bomba, com perdão do trocadilho, se passando no Vietnã, principalmente nos anos 80, em plena era dos filmes de ação, sendo a série “Rambo” o exemplo mais clássico.

Porém o que se observa nestes filmes de guerra é que as produções que ousavam mostrar o lado mais sombrio dos combates foram produzidos após o fim das guerras, e nunca durante. E é essa a mais óbvia característica desse novo ciclo de filmes que abordam como tema a ocupação militar no Iraque e Afeganistão iniciada durante o governo Bush e em represália aos atentados de 11 de setembro de 2001. Mesmo no calor da batalha, diretores e roteiristas não evitam o campo minado dos temas polêmicos, apesar dos jovens americanos ainda estarem tombando em solo estrangeiro. Os soldados americanos ainda estão lá, e nos últimos anos diversas produções sobre a guerra foram lançadas, como “Leões e Cordeiros”,  “No Vale das Sombras” e “O Reino”.  E antes de Kathryn Bigelow se aventurar a dirigir um filme sobre a Guerra do Iraque, outra mulher o fez em “Stop Loss”, no qual a diretora Kimberly Peirce abordou o dilema dos soldados que são reconvocados após servir o período obrigatório por falta de contingente e daqueles que se recusam a voltar e se tornam desertores.

Em “Guerra ao Terror”, Bigelow mostra os últimos dias de uma equipe do exército especializada em desarmar explosivos, após o sargento Matt Thompson morrer durante uma missão e ser substituído pelo sargento William James, alguém que não se furta em expor e arriscar a sua vida e a de seus subordinados mais por necessidade de adrenalina do que por coragem. E ao contrário do que muitos desavisados que leem o título em português e imaginam mais um filme de ação pró-belicista, o foco do roteiro é nos desajustes sociais que os militares sofrem por meses em ação e sob pressão e a dificuldade em se adaptar à vida civil devido ao seu “vício” em adrenalina. Aliás, a abertura do filme já deixa isso claro ao apresentar uma citação de Chris Hedges, “O calor da batalha é frequentemente um potente e mortal vício, na guerra é uma droga” destacando o fragmento “guerra é uma droga”. Há algumas cenas de ação, porém o suspense é mais marcante nos tensos momentos que antecedem o desarme ou detonação de algum explosivo plantado por guerrilheiros iraquianos. A edição do filme usa da linguagem do documentário, dando um viés realista e cru à ação, e obrigando o espectador à permanecer ao lado dos soldados, prendendo a respiração (e o esfícter) enquando espera se conseguirá desarmar a bomba ou ser feito em pedaços. Não há pressa ou edição ágil estilo videoclipe.

Pessoalmente achei o filme bom, com cenas bem filmadas e ritmo adequado, que tem o mérito de se apoiar em uma boa história e boas atuações menos do que em caros efeitos especiais. Mas tenho minhas reservas de que se imponha como um clássico do gênero ao longo dos anos vindouros, como os já citados “Platoon” ou “Nascido Para Matar”. Mas talvez acabe se tornando, já que desta safra de filmes sobre a guerra do Iraque este é que acabou ganhando mais destaque. Também é matéria de especulação imaginar que a Academia tenha preterido “Avatar” como um recado à indústria de que  o futuro do cinema não se resume a orçamentos astronômicos e efeitos 3D. Isso o tempo e o público decidirão, uma escolha bem mais simples do que saber qual fio cortar para se desarmar uma bomba em poucos segundos.

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O Segredo dos Argentinos

Sabem aquela piadinha infame e bairrista anti-portenha que lhe pergunta sobre o que os argentinos tem mais que os brasileiros, cuja resposta normal é “eles tem mais que se lascar!”? Ora pois, os ufanistas que me perdoem, mas os argentinos tem mais do que isso em relação à nós, brazucas. E uma dessas “coisas” que os argentinos “têm mais” é o cinema, como um dia o colega de blog Lucas Colombo estava comentando comigo por e-mail, citando bons exemplos da cinemateca portenha.

E ontem, enquanto os cinéfilos do mundo estavam assistindo ao Oscar, preferi conferir o mais recente e elogiado trabalho cinematográfico dos hermanos: “O Segredo dos Seus Olhos”. E concluí definitivamente que o cinema nacional, salvo ocasionais exceções, ainda está levando de goleada dos conterrâneos de Maradona. Claro que nosso cinema melhorou nos últimos anos, e há exemplos excelentes de bom uso dos recursos e linguagem que o meio oferece, como “Cidade de Deus”. Mas no geral o que temos por aqui são, muitas vezes, de um amadorismo de cair o queixo se comparados à produção internacional.

Mas deixemos a tarefa de salvar o cinema nacional para a dupla Tizuka Yamazaki e Xuxa e voltemos para o filme em questão. O protagonista de história é o oficial de justiça aposentado Benjamín Espósito (o ator Ricardo Darín, do qual me lembro de outras produções argentinas, incluindo o excelente “Nove Rainhas”), que tenta resolver as pendências de seu passado escrevendo uma versão romanceada de uma investigação sobre o estupro e morte de uma jovem ocorrido há cerca de 3 décadas, quando ele trabalhava com a jovem advogada Irene Menéndez, tendo como colega e “escudeiro” o alcoólatra Pablo Sandoval.  Aparentemente um caso de rápida resolução, com a polícia logo incriminando dois suspeitos, Espósito se envolve e descobre uma pista que muda os rumos da investigação. Porém ele precisa ir contra a burocracia e aparente incompetência do sistema jurídico no qual trabalha, pouco interessado em prender o principal suspeito.

O diretor Juan José Campanella fez bem o dever de casa, e sua experiência dirigindo episódios em séries como “Lei e Ordem – SVU” ou “Dr.House” lhe deram um senhor know-how. Mesmo se tratando de um roteiro que se relaciona com a história recente da Argentina, a maneira como foi escrito e conduzido torna a história universal, permitindo a qualquer público acompanhar e se envolver com ela. Não obstante a brutalidade do crime – mostrado em poucos segundos no início do filme – a história flui leve, de início, com uma leve pitada de humor nas situações e diálogos, bem como um clima de romance entre a jovem Irene e o mais maduro Espósito, nunca plenamente desenvolvido ou resolvido. Porém conforme a história avança, o filme se torna mais pesado e sombrio, e a trama sofre uma reviravolta quando há interferência do poder executivo no caso em plena era da ditadura argentina, sutilmente fazendo referência àqueles anos de chumbo. No final das contas, Espósito se vê, anos depois, impelido à dar um desfecho em todos estes fatos para que seu romance possa também ser concluído. Admito que a conclusão me surpreendeu, sem apelar para clichês comuns nestas histórias, e com reviravoltas que fluíram no roteiro sem parecerem forçadas.

E falando em conclusões, hoje acordei com a boa notícia de que ele ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não assisti ainda aos seus concorrentes, mas de antemão posso dizer que houve justiça aqui.  Melhor ainda se os cineastas brasileiros descobrirem com os hermanos o segredo de um bom filme.

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Ágora

O Fim de uma Era e o Início da Idade das Trevas

Vi pela primeira vez sobre a fascinante e trágica história da destruição da biblioteca de Alexandria e a morte de sua última guardiã no livro “Cosmos”, de Carl Sagan, mais especificamente no capítulo “Quem Responde Pela Terra?”, onde o cientista apresenta a cidade de Alexandria como o centro cultural do mundo antigo, cuja biblioteca continha o repositório de todo conhecimento humano acumulado desde a sua fundação, três séculos antes de Cristo,nas cinzas do império de Alexandre, o Grande, cujo general Ptolomeu assumiu a parte do Egito e originou uma dinastia que se findaria com a célebre rainha Cleópatra. A biblioteca, além de conter cópias de preciosos documentos científicos e artísticos, encorajava a busca pelo conhecimento, incentivando o pensamento lógico. A título de exemplo, não deixa de ser assombroso sabermos que, centenas de anos antes de Cristo, um sábio chamado Erastótenes conseguiria, usando apenas o raciocínio lógico, sombras e um desocupado que contasse a distância entre Siena e Alexandria em passos, conseguiria medir a circunferência da Terra com espantosa precisão. Mesmo quando o Império Romano estendeu seu braço para o Egito, a biblioteca manteve seu trabalho, coletando informação e formando pensadores. Infelizmente, nos anos em que o Império Romano se desfazia e o cristianismo ascendia para formar a poderosa igreja de Roma, séculos de saber acumulado foram carbonizados. Perdeu-se muito em ciência e cultura. Das pouco mais de cem tragédias de Sófocles, apenas sete chegaram aos nossos dias, e o conhecimento em astronomia foi retomando apenas durante o Renascimento.

O último guardião do saber da biblioteca de Alexandria foi uma mulher de nome Hipácia (ou Hipátia). Como se não fosse suficiente ser uma pensadora livre e independente em uma época na qual as mulheres estavam à sombra de seus homens, Hipátia era astrônoma, física, matemática e professora de filosofia. E ao que consta, ainda cometia a ofensa de ser bela. Nascida 370 anos depois de Cristo, esta extraordinária mulher esteve no meio de uma turbulenta transição, com os cristãos tendo sua religião aceita como oficial após séculos de martírio nas mãos de judeus e romanos. Por sua amizade e influência  junto ao governador romano em Alexandria, além de representar com sua ciência e filosofia os valores vinculados ao paganismo outrora vigente, Hipátia despertou a ira do bispo Cirilo, que incitou uma turba de cristãos furiosos que a arrastaram pelas ruas, rasgando suas roupas e a esfolando viva com conchas afiadas. Seu trabalho acabou sendo destruído e grande parte de suas descobertas morreu com ela, naquele sombrio ano de 415 d.C. E Cirilo se tornou santo da igreja Católica. 

Tão trágico episódio da história ganha uma versão cinematográfica nas mãos do talentoso diretor espanhol Alejandro Almedábar no recente filme “Ágora”, lançado ano passado na Espanha, trazendo a premiada atriz Rachel Weisz no papel da filosofa Hipátia. O filme mostra, na primeira parte, Hipátia ensinado filosofia e discutindo teorias sobre a movimentação dos astros, despertando a atenção e afeição dos homens, mas ignorando as investidas para dedicar sua vida à busca do conhecimento. Mas não é exatamente uma época boa para se mostrar erudição, principalmente se você for mulher, em pleno  crescimento do movimento cristão afrontando as crenças milenares dos egípcios em Alexandria, numa crescente tensão que culmina em uma insurreição sangrenta e na destruição do acervo da biblioteca. Mesmo com os líderes da cidade aderindo à nova religião, Hipátia ainda consegue manter seus estudos, mas as tensões aumentam, com as facções cristãs mais extremadas gaugando o poder e perseguindo seus antagonistas, iniciando com os sacerdotes  até um clímax inevitável.

O roteiro, escrito pelo próprio diretor, parece fazer pequenas concessões para tornar a história mais palatável ao público em geral, sendo o mais visível o destino de Hipátia, que é “amaciado” no filme, poupando o espectador de testemunhar a morte horrível descrita pelos registros históricos. Há uma tensão romântica por parte de alguns personagens, como o governador romano Orestes e o escravo Davus, ambos apaixonados e encantados pela personalidade forte de Hipátia, que renuncia à eventuais romances e casamentos em prol de sua ciência e filosofia. Mas isso não chega a atrapalhar o filme. O diretor usa um recurso narrativo interessante para intercalar algumas partes do filme, afastando a câmera até o espaço, onde vemos o planeta flutuando no infinito e a cidade de Alexandria como um pequeno ponto no globo, mostrando simultaneamente aquilo que Hipátia buscava e a insinificância da cidade perante o universo. Rachel Weiz está ótima como Hipátia, e nós nos pegamos torcendo para ela desvendar os mistérios sobre as órbitas celestes tanto quento torceríamos para qualquer mocinho desvendar um segredo que nós já sabemos de antemão, tendo ela pouquíssimas ferramentas à disposição, além do seu próprio raciocínio lógico. Na história, Almédabar especula sobre uma possível descoberta de teorias heliocêntricas e órbitas elípticas, algo que se revelaria verdadeiro, mas que só viria a ser provado e aceito quando Johannes Kepler criou suas três leis no século XVII.

Os cristãos mais ortodoxos podem se ofender e achar que o filme é uma propaganda anticristã, mas é tão anticristão quanto qualquer filme que fale sobre a inquisição ou caça às bruxas. O filme critica mais a intolerância e a ignorância humanas do que uma religião específica. Mas claro que qualquer religioso fundamentalista não se sentirá à vontade ao ver a palavra de Deus sendo usada para queimar conhecimento e lançar a humanidade na obscuridade. O filme conseguiu me comover mais do que algum melodrama apelativo e açucarado, e garanto que qualquer um que admire e aprecie o conhecimento e pensamento humanos irá lamentar os atos cometidos no passado e relembrados por Almédabar.

E voltando à “Cosmos”, a mais chocante observação de Sagan a respeito desse episódio é que, apesar de hoje virmos quão trágico e relevante ele foi, a época praticamente não houve ninguém entre a população que pranteasse a queima do acervo e a inexorável trajetória da história humana rumo à era das trevas. Sagan atribui isso ao fato de que o conhecimento acumulado e desenvolvido ali pouco ou nada tinha com o povo, que não usufruiu de nenhum benefício ou conhecimento advindo da biblioteca e de seus sábios, o que os deixou totalmente indiferentes ao fatídico destino. Hoje, em uma perspectiva histórica, podemos dimensionar a extensão do episódio, cuja consequência maior foi uma estagnação de praticamente mil anos, já que o conhecimento humano só retomou os trilhos fixados naqueles tempos muitos séculos depois, quando nomes como Copérnico, Giordano Bruno, Galileu Galilei e Kepler arriscaram o próprio rabo para fazer avançar a ciência. Podemos apenas especular como estaria o desenvolvimento do saber humano hoje se tal conhecimento não tivesse sido destruído,   E se Newton humildemente afirmou que enxergou tão longe porque se debruçou sobre o ombro de gigantes, nada mais justo do que colocar Hipátia entre tais gigantes.

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